



      Dentro da pera de Paris viveu um fantasma - pobre de quem duvidou disso. O fantasma da pera habitava o imenso subterrneo do teatro mais famoso de Paris,
e de l s saa para acalentar suas duas paixes, a msica e a jovem cantora Christine Daa.
      Prisioneiro de sua prpria feira, o fantasma perambula pelo teatro, ora aterrorizando quem zombou de sua existncia, ora fazendo da voz de Christine a mais
cristalina que Paris j escutou. Ningum o v, mas cedo ou tarde todos sentem - e temem - sua presena.
      Nos corredores, salas e alapes escuros da pera a figura misteriosa do fantasma pouco a pouco vai se revelando; a imagem de esprito maldito vai se desfazendo,
e o protagonista se humaniza. Narrado quase como uma reportagem, o livro nos deixa o tempo todo em dvida, a ponto de no ser possvel condenar o comportamento do
fantasma atroz. Isso porque, como ele mesmo explicar, para ser bom s lhe faltou ser amado.








O fantasma da pera
Gaston Leroux

Traduo: MRIO LARANJEIRA
Ilustraes: ALEXANDRE COELHO
Ttulo original: Le Fantme de l'Opra
Editor: Fernando Paixo
Editor assistente Otaclio Nunes
Preparao dos originais Isabel Cristina Melo Rodrigues
Editor de arte Marcello Araujo
Ilustraes Capa e internas Alexandre Coelho
Editorao eletrnica EXATA editorao eletrnica
ISBN 85 08 06886 7
3 edio 10 impresso
2006






Sumrio

      PREFCIO
      I  o fantasma?
      II A nova Margarida
      III Em que, pela primeira vez, os Srs. Debienne e Poligny do, em segredo, aos novos diretores da pera, Srs. Armand Moncharmin e Firmin Richard, a verdadeira
e misteriosa razo de sua sada da Academia Nacional de Msica
      IV O camarote n. 5
      V Seqncia do camarote n. 5
      VI O violino encantado
      VII Uma visita ao camarote n. 5
      VIII Em que os Srs. Firmin Richard e Armand Moncharmin tm a audcia de fazer representar Fausto numa sala maldita, e o pavoroso acontecimento que disso resultou
      IX O misterioso cup
      X No baile de mscaras
      XI  preciso esquecer o nome da "voz de homem"
      XII Acima dos alapes
      XIII A lira de Apoio
      XIV Um golpe de mestre do amador de alapes
      XV Singular atitude de um alfinete de presso
      XVI Christine! Christine!
      XVII Revelaes espantosas da Sra. Giry, relativas s suas relaes pessoais com o fantasma da pera
      XVIII Continuao da curiosa atitude de um alfinete de presso
      XIX O delegado de polcia, o visconde e o Persa
      XX O visconde e o Persa
      XXI Nos subterrneos da pera
      XXII Interessantes e instrutivas tribulaes de um persa nos subterrneos da pera
      XXIII No quarto dos suplcios
      XXIV Comeam os suplcios
      XXV "Tonis! Tonis! Tm tonis para vender?"
      XXVI  preciso girar o escorpio?  preciso girar o gafanhoto? . .
      XXVII Fim dos amores do fantasma
      EPLOGO
      GASTON LEROUX

















Prefcio


EM QUE O AUTOR DESTA OBRA SINGULAR CONTA AO LEITOR COMO FOI LEVADO A ADQUIRIR A CERTEZA DE QUE O FANTASMA DA PERA REALMENTE EXISTIU

      O fantasma da pera existiu. No foi, como muito tempo se acreditou, uma inspirao de artistas, uma superstio de diretores, a criao aloucada de crebros
excitados de donzelas do corpo de baile, das mes delas, das "lanterninhas", dos funcionrios do vestirio e da portaria.
      Ele existiu, sim, em carne e osso, ainda que assumisse a aparncia de um verdadeiro fantasma, isto , de uma sombra.
      Chamara-me a ateno, desde o incio, quando comecei a compulsar os arquivos da Academia Nacional de Msica, pela coincidncia surpreendente entre os fenmenos
atribudos ao fantasma e ao mais misterioso, ao mais fantstico dos dramas e logo eu deveria ser levado  idia de que talvez se pudesse racionalmente explicar este
por aquele. Os acontecimentos datam de apenas uns trinta anos atrs e no seria difcil encontrar ainda hoje, na prpria academia de bal, ancios muito respeitveis,
cuja palavra no se pode colocar em dvida, que se lembram, como se o fato datasse de ontem, das condies misteriosas e trgicas que acompanharam o rapto de Christine
Daa, o desaparecimento do visconde de Chagny e a morte do seu irmo mais velho, o conde
      Philippe, cujo corpo foi encontrado  beira do lago que se estende nos baixos da pera de Paris, do lado da rua Scribe. Mas nenhuma dessas testemunhas acreditara
at esse dia que devesse associar a essa pavorosa aventura a personagem lendria do fantasma da pera.
      A verdade foi lenta em penetrar o meu esprito perturbado por uma busca que se chocava a cada instante com acontecimentos que,  primeira vista, podiam julgar-se
extraterrestres, e, mais de uma vez, estive prestes a abandonar uma tarefa era que me extenuava a perseguir - sem nunca agarr-la - uma v imagem. Finalmente, tive
a prova de que os meus pressentimentos no me haviam enganado e fui recompensado de todos os meus esforos no dia em que adquiri a certeza de que o fantasma da pera
tinha sido mais do que uma sombra.
      Nesse dia, eu passara longas horas em companhia das "Memrias de um diretor", obra ligeira do cptico Moncharmin, que nada entendeu, durante a sua passagem
pela pera, da conduta tenebrosa do fantasma, e que pilheriou a respeito tanto quanto pde, no momento mesmo em que ele era a primeira vtima da curiosa operao
financeira que se dava no interior da "verba mgica".
      Desesperado, eu acabava de sair da biblioteca quando encontrei o simptico administrador de nossa Academia Nacional, que proseava num patamar com um velhinho
esperto e frajola, a quem me apresentou alegremente. O administrador estava a par das minhas pesquisas e sabia com que impacincia eu tinha em vo tentado descobrir
o paradeiro do juiz que instrura o famoso processo Chagny, M. Faure. No se sabia o que acontecera com ele, morto ou vivo; e eis que, recm-chegado do Canad, onde
passara quinze anos, a primeira coisa que fizera em Paris fora vir procurar um lugar de cortesia na secretaria da pera. Aquele velhinho era o prprio M. Faure.
      Passamos uma boa parte da tarde juntos e ele contou-me o caso Chagny tal como o havia entendido na poca. Tinha sido obrigado a concluir, por falta de provas,
pela loucura do visconde e pela morte acidental do irmo mais velho, mas continuava persuadido de que um drama terrvel se passara entre os dois irmos a respeito
de Christine Daa. No soube me dizer o que fora feito desde ento de Christine, nem do visconde. Evidente, quando lhe falei do fantasma, ele apenas sorriu. Tambm
ele tinha sido posto a par das singulares manifestaes que pareciam ento atestar a existncia de um ser excepcional que elegera domiclio num dos recantos mais
misteriosos da pera e tomara conhecimento da histria da "verba", mas no tinha visto em tudo isso nada que pudesse chamar a ateno do magistrado encarregado de
instruir o processo Chagny, e mal ouviu por instantes o depoimento de uma testemunha que se apresentara espontaneamente para afirmar que tinha tido a oportunidade
de encontrar o fantasma. Essa personagem - a testemunha - outra no era seno aquela a quem o Tout-Paris chamava "o Persa" e que era bem conhecido por todos os assinantes
da pera. O juiz tomara-o por um iluminado.

      Vocs no imaginam como fiquei prodigiosamente interessado por essa histria do Persa. Quis encontrar, caso ainda fosse tempo, essa preciosa e original testemunha.
Graas  minha boa fortuna que tomou a dianteira, consegui descobri-lo em seu pequeno apartamento da rua de Rivoli, que no havia abandonado desde aquela poca e
onde viria a morrer cinco meses depois da minha visita.
      De incio, fiquei desconfiado; mas depois que o Persa me contou, com uma candura de criana, tudo que sabia pessoalmente do fantasma e me entregou com toda
propriedade as provas de sua existncia e em particular a estranha correspondncia de Christine Daa, correspondncia que aclarava com uma luz to ofuscante o seu
pavoroso destino, no mais me foi possvel duvidar! No! No! O fantasma no era um mito!
      Sei muito bem que me responderam que toda essa correspondncia talvez no fosse autntica e que podia ter sido fabricada por um homem cuja imaginao tivesse
sido alimentada pelos contos mais sedutores, mas me foi possvel, felizmente, descobrir a letra de Christine fora do famoso pacote de cartas e, por conseguinte,
entregar-me a um estudo comparativo que eliminou qualquer dvida.
      Documentei-me igualmente a respeito do Persa e assim apreciei nele um homem de bem incapaz de inventar uma maquinao que pudesse perturbar as pistas da Justia.
       alis a opinio das mais eminentes personalidades que em maior ou menor grau estiveram ligadas ao caso Chagny, que foram amigas da famlia, s quais expus
todos os documentos e diante das quais relatei todas as minhas dedues. Recebi dessa parte os mais nobres incentivos e me permitirei reproduzir aqui algumas linhas
que me foram endereadas pelo General D...

      Prezado senhor,
      No poderia eu deixar de incit-lo a publicar os resultados de sua pesquisa. Lembro-me perfeitamente de que, algumas semanas antes do desaparecimento da grande
cantora lrica Christine Daa e do drama que enlutou todo o Faubourg Saint-Germain, falava-se muito, na academia de dana, do fantasma, e creio mesmo que s se deixou
de falar a respeito em seguida ao processo que ocupava todas as mentes; mas, se for possvel, como acredito depois de t-lo ouvido, explicar o drama pelo fantasma,
rogo-lhe, meu senhor, volte a falar-nos do fantasma. Por mais misterioso que este possa de incio parecer, ser sempre mais explicvel que essa sombria histria
em que pessoas mal-intencionadas quiseram ver dilacerar-se at a morte dois irmos que se adoraram a vida toda...
      Queira aceitar, etc.

      Finalmente, com o dossi em mos, eu havia de novo percorrido todo o vasto domnio do fantasma, o formidvel monumento de que fizera o seu imprio, e tudo
aquilo que os meus olhos tinham visto, tudo aquilo que a minha mente tinha descoberto, corroborava admiravelmente os documentos do Persa, quando um achado maravilhoso
veio coroar de maneira definitiva os meus trabalhos.

      Todos se lembram de que, recentemente, ao se fazerem escavaes no subsolo da pera para a enterrar as vozes fonografadas dos artistas, a picareta dos operrios
ps a descoberto um cadver; ora, tive imediatamente a prova de que tal cadver era o do fantasma da pera! Fiz at com que o prprio administrador tocasse com a
prpria mo essa prova e, agora,  para mim indiferente que os jornais contem que foi encontrada uma vtima da Comuna.
      Os infelizes que foram massacrados, quando da Comuna, nos pores da pera, no esto enterrados desse lado; posso dizer onde encontrar os seus esqueletos,
bem longe dessa cripta imensa onde haviam acumulado, durante o cerco de Paris, toda espcie de mantimentos. Dei com esses vestgios justamente quando procurava os
restos do fantasma da pera, que eu no teria encontrado no fosse o inaudito acaso do sepultamento das vozes dos vivos!

      Voltaremos a falar desse cadver e do que convm fazer com ele; agora importa-me terminar este muito necessrio prefcio agradecendo os modestssimos comparsas
que, como o delegado de polcia Mifroid (a tempo chamado para as primeiras verificaes quando do desaparecimento de Christine Daa), como ainda o antigo secretrio
Rmy, o antigo administrador Mercier, o antigo chefe de canto Gabriel e, mais particularmente, a baronesa de Castelot-Barbezac, que foi outrora a "pequena Meg" (e
que disso no se envergonha), a mais encantadora estrela de nosso admirvel corpo de bal, filha primognita da honorvel Sra. Giry - antiga e falecida lanterninha
do camarote do fantasma -, prestaram-me a mais til ajuda e graas aos quais vou poder, com o leitor, reviver, nos menores detalhes, aquelas horas de puro amor e
espanto.1





      AO MEU VELHO IRMO JO
      Que, nada sabendo de fantasma, nem por isso deixa de ser, como Erik, um Anjo da msica.
      Com toda a afeio, Gaston Leroux.











1

 O FANTASMA?

      Naquela tarde, a mesma em que os Srs. Debienne e Poligny, diretores demissionrios da pera, davam a sua ltima noite de gala, por ocasio de sua retirada,
o camarim de Sorelli, uma das primeiras bailarinas da pera, era subitamente invadido por uma meia dzia daquelas moas do corpo de baile que retornavam do palco
aps terem "danado" Polyeucte. Precipitaram-se ali em grande confuso, algumas dando risos excessivos e outras, gritos de terror.
      A bailarina Sorelli, que desejava ficar sozinha um instante para "repassar" o elogio que ela deveria pronunciar logo mais na academia, diante dos Srs. Debienne
e Poligny, viu com mau humor toda essa turba estouvada atirar-se atrs dela. Voltou-se para as colegas e ficou tomada tambm de uma emoo tumultuosa. Foi a pequena
Jammes - narizinho caro  Grevin, olhos de miostis, faces de rosas, colo de lrio - que deu motivo a isso em trs palavras, com voz trmula, sufocada pela angstia:
      -  o fantasma!
      E fechou a porta a chave. O camarim de Sorelli era de uma elegncia oficial e banal. Um psich, um div, um toucador e alguns armrios constituam a moblia
necessria. Algumas gravuras na parede, lembranas da me, que conhecera os belos dias da antiga pera da Rua Le Peletier. Retratos de Vestris, de Gardel, de Dupont,
de Bigottini. Esse camarim parecia um palcio para as meninas do corpo de baile, alojadas em quartos comuns, onde passavam o tempo cantando, discutindo, batendo
nos cabeleireiros e nas figurinistas e tomando copinhos de cassis ou de cerveja, ou mesmo de rum, at o aviso dado pela badalada do sino.
      Sorelli era muito supersticiosa. Ao ouvir a pequena Jammes falar do fantasma, arrepiou-se toda e disse:
      - Bestinha!
      E, como ela era a primeira a acreditar nos fantasmas em geral e no da pera em particular, quis imediatamente colher informaes.
      - Voc o viu? - perguntou.
      - Como estou vendo voc! - replicou gemendo a pequena Jammes, que, j no se agentando mais de p sobre as pernas, deixou-se cair numa cadeira.
      E logo a pequena Giry, olhos de jabuticaba, cabelos de nanquim, tez de bistre, com sua pobre pelezinha sobre os seus pobres ossinhos, acrescentou:
      - Se for ele, ele  bem feio!
      - Oh! sim - fez o coro das bailarinas.
      E falaram todas juntas. O fantasma tinha aparecido como um senhor de trajes negros que se erguera de repente na frente delas, no corredor, sem que se pudesse
saber de onde viera. A apario fora to repentina que se podia acreditar que sara da muralha.
      - Bah! - fez uma delas que havia mantido mais ou menos o sangue-frio -, vocs vem o fantasma por toda parte.
      E  verdade que, havia alguns meses, s se falava na pera desse fantasma de trajes negros que passeava como uma sombra de alto a baixo do edifcio, que no
dirigia a palavra a ningum, a quem ningum ousava falar e que se esvanecia, alis, logo que algum o via, sem que se pudesse saber por onde nem como. No fazia
barulho ao caminhar, como convm a um fantasma de verdade. As pessoas comearam por rir disso e por zombar dessa alma penada vestida como um mundano ou como um papa-defunto,
mas a lenda do fantasma tomou logo propores colossais no corpo de baile. Todas alegavam ter encontrado mais ou menos esse ser extranatural e ter sido vtimas de
seus malefcios. Quando no se deixava ver, marcava a sua presena ou passagem com fatos esquisitos ou funestos pelos quais a superstio generalizada o tornava
responsvel. Havia um acidente a deplorar, alguma colega pregava uma pea a uma das moas do corpo de baile, sumia um arminho de p-de-arroz? Tudo era culpa do fantasma,
do fantasma da pera!
      Na verdade, quem o tinha visto? Podem encontrar-se muitos trajes negros na pera que no so de fantasmas. Mas esses tinham uma caracterstica que nenhum outro
traje negro tem. Eles vestiam um esqueleto.
      Pelo menos  o que diziam aquelas moas.
      E ele tinha, naturalmente, uma caveira.
      Tudo isso era srio? A verdade  que a imagem do esqueleto tinha nascido da descrio do fantasma feita por Joseph Buquet, maquinista-chefe, que, este sim,
o vira realmente. Ele tinha trombado - no se poderia dizer nariz com nariz, j que o fantasma no o tinha - com a misteriosa personagem na escadinha que, depois
da rampa, desce diretamente aos baixos. Teve tempo de visualiz-lo por um segundo - pois o fantasma fugiu - e conservara uma lembrana indelvel dessa viso.
      E eis o que disse Joseph Buquet do fantasma a quem quisesse ouvir:
      "Ele  de uma magreza prodigiosa e a sua roupa preta flutua sobre uma estrutura esqueltica. Tem os olhos to profundos que no se distinguem as pupilas imveis.
Apenas se vem, em suma, dois grandes buracos negros como nos crnios dos mortos. Sua pele, que fica esticada por sobre a ossatura como um couro de tambor, no 
branca, mas feiamente amarela; o nariz  to pouca coisa que no se v de perfil, e a ausncia desse nariz  horrvel de se ver. Trs ou quatro longas mechas pardas
sobre a testa e atrs das orelhas fazem as vezes de cabeleira".
      Em vo Joseph Buquet perseguira essa estranha apario. Ela desaparecera como por encanto e ele no pde encontrar-lhe o rastro.
      Esse maquinista-chefe era um homem srio, acomodado, de imaginao lenta, e estava sbrio. Sua fala foi ouvida com estupor e interesse, e logo apareceram pessoas
para dizer que tambm elas haviam cruzado com uns "trajes negros em uma caveira".
      As pessoas sensatas que tiveram notcia dessa histria afirmaram primeiro que Joseph Buquet tinha sido vtima de uma brincadeira armada por algum de seus subordinados.
E a seguir aconteceram, um aps outro, incidentes to curiosos que os mais espertos comearam a se atormentar.
      Um tenente do corpo de bombeiros, isso  gente corajosa! Gente que no tem medo de nada, no tem medo principalmente de fogo!
      Pois bem, o tenente do corpo de bombeiros em questo2, que tinha ido fazer uma ronda nos baixos e se tinha aventurado, ao que parece, um pouco mais longe do
que de costume, reapareceu de repente sobre o tablado, plido, assustado, trmulo, com os olhos fora das rbitas, e quase desmaiou nos braos da nobre me da pequena
Jammes. E por qu? Porque tinha visto avanar para ele,  altura da cabea, mas sem corpo, uma cabea de fogo! E eu repito, um tenente do corpo de bombeiros  gente
que no tem medo de fogo.
      Esse tenente do corpo de bombeiros chamava-se Papin.
      O corpo de baile ficou consternado. Primeiro essa cabea de fogo no correspondia absolutamente  descrio que Joseph Buquet dera do fantasma. Fizeram-se
muitas perguntas ao bombeiro, interrogou-se de novo o maquinista-chefe, depois do que as moas ficaram persuadidas de que o fantasma tinha vrias cabeas que trocava
conforme queria. Naturalmente, elas imaginaram que corriam os maiores riscos. Do momento em que um tenente do corpo de bombeiros no hesitava em desmaiar, corifias
e coristas bisonhas - "ratinhos" na gria da pera - podiam invocar bastantes desculpas para o terror que as fazia fugir com toda a fora de suas patinhas quando
passavam diante de algum buraco escuro de um corredor mal-iluminado.
      Tanto assim que, para proteger, na medida do possvel, o monumento entregue a to horrveis malefcios, a prpria Sorelli, cercada de todas as bailarinas e
seguida at pela meninada das classes iniciais em roupa de malha, havia colocado - no dia seguinte ao da histria do bombeiro -, sobre a mesa que se encontra no
Vestbulo do porteiro, do lado do ptio da administrao, uma ferradura que qualquer pessoa que penetrasse na pera, a qualquer ttulo que no fosse o de espectador,
devia tocar com a mo antes de colocar o p no primeiro degrau da escada. E isso sob pena de se tornar a vtima do poder oculto que se tinha apossado do edifcio,
dos pores ao sto!
      Essa ferradura, como alis toda esta histria, no a inventei, infelizmente, e ainda hoje se pode v-la em cima da mesa do vestbulo, na portaria, quando se
entra na pera pelo ptio da administrao.
      A esto alguns elementos que do rapidamente uma idia do estado de alma daquelas moas, no dia em que penetramos com elas no camarim de Sorelli.
      - E o fantasma! - gritara pois a pequena Jammes.
      E a inquietao das bailarinas s havia crescido. Agora um silncio angustiante reinava no camarim. S se ouvia o rudo das respiraes ofegantes. Enfim, tendo
Jammes se lanado, com as marcas de um sincero pavor, at o canto mais recuado da muralha, murmurou esta nica palavra:
      - Escutem!
      Parecia a todos, de fato, que um roar se fazia ouvir atrs da porta. Nenhum rudo de passos. Dir-se-ia de uma seda ligeira que escorregasse sobre um painel.
Depois, mais nada. Sorelli tentou mostrar-se menos pusilnime do que as suas companheiras. Avanou rumo  porta e perguntou com voz trmula:
      - Quem est a?
      Mas ningum respondeu.
      Ento, sentindo sobre si os olhares que vigiavam os seus menores gestos, ela se esforou para ser corajosa e disse bem forte:
      - H algum atrs da porta?
      - Oh! sim! sim! certamente h algum atrs da porta! - repetiu aquela ameixinha seca da Meg Giry, que segurou heroicamente Sorelli pela saia de fil... - Por
favor, no abra! Meu Deus, no abra!
      Mas Sorelli, armada com um estilete que estava sempre com ela, ousou virar a chave na fechadura e abrir a porta, enquanto as bailarinas recuavam at a toalete
e Meg Giry suspirava:
      - Mame! Mame!
      Sorelli olhou corajosamente no corredor. Estava deserto; uma borboleta de fogo, na sua priso de vidro, lanava um claro vermelho e turvo no meio das trevas
ambientes, sem chegar a dissip-las. E a bailarina fechou bruscamente a porta com um grande suspiro:
      - No - disse ela -, no h ningum!
      - No entanto, bem que ns o vimos! - afirmou ainda Jammes retomando com passos tmidos o seu lugar junto de Sorelli. - Ele deve estar em algum lugar por a,
rondando. Eu no volto para me vestir. Deveramos descer  academia juntas, imediatamente, para o "elogio", e subiramos de volta juntas.
      Nesse momento, a menina tocou piedosamente a figuinha de coral que se destinava a livr-la do azar. E Sorelli desenhou, s escondidas, com a ponta da unha
rsea do polegar direito, uma cruz de Santo Andr sobre o anel de madeira que lhe envolvia o anular da mo esquerda.
      "Sorelli", escreveu um cronista clebre, " uma bailarina alta, bela, de rosto grave e voluptuoso, com uma cintura to flexvel quanto um ramo de salgueiro;
diz-se comumente dela que  'uma bela criatura'. Os seus cabelos loiros e puros coroam uma fronte opaca abaixo da qual se incrustam dois olhos de esmeralda. Sua
cabea balana suavemente sobre o pescoo longo, elegante e altivo, como uma gara. Quando dana, tem um movimento de quadris indescritvel, que d a todo o seu
corpo um estremecer de inefvel langor. Quando ergue os braos e se inclina para comear uma pirueta, acusando assim todo o desenho do busto, e a inclinao do corpo
faz ressaltar a anca dessa deliciosa mulher, parece que  um quadro capaz de levar qualquer um a dar um tiro na cabea".
      Em matria de crebro, parece fato verificado que ela no teve muito. Ningum a recriminava por isso.
      Ela disse ainda s pequenas bailarinas:
      - Meninas,  preciso se "recomporem"!... O fantasma, talvez nunca ningum o tenha visto!...
      - Sim! sim! Ns o vimos!... ns o vimos agora mesmo! - replicaram as meninas. - Ele tinha uma caveira em lugar do rosto e a sua roupa era negra, como na noite
em que apareceu a Joseph Buquet!
      - E Gabriel tambm o viu!... - acrescentou Jammes - nada menos que ontem! ontem  tarde... em pleno dia...
      - Gabriel, o mestre de canto?
      -  sim... Como! Vocs no esto sabendo?
      - E estava com os seus trajes, em pleno dia?
      - Quem? Gabriel?
      - No! O fantasma!
      - Lgico que ele estava com os seus trajes! - afirmou Jammes. - Foi o Gabriel mesmo quem me disse... Por causa das roupas que ele o reconheceu. E vejam como
aconteceu. O Gabriel estava no escritrio do gerente. De repente, a porta se abriu. Era o Persa que estava entrando. Vocs sabem quanto o Persa tem "olho mau".
      - Oh! sim! - responderam em coro as pequenas bailarinas, que, logo que evocaram a imagem do Persa, fizeram cornos com o dedo indicador e o mnimo em riste
para esconjurar o Destino, enquanto o dedo mdio e o anular ficavam dobrados sobre a palma da mo e seguros pelo polegar.
      - ... E quanto o Gabriel  supersticioso! - continuou Jammes. - Mas ele  sempre educado e quando v o Persa contenta-se em enfiar tranqilamente a mo no
bolso e tocar as suas chaves... Pois bem, logo que a porta se abriu diante do Persa, o Gabriel deu um salto da poltrona onde estava sentado at a fechadura do armrio,
para tocar em ferro! Nesse movimento ele rasgou num prego toda uma aba de seu palet. Com pressa de sair, ele foi bater a cabea num cabide e fez um galo enorme;
depois, recuando bruscamente, esfolou o brao no biombo, perto do piano; quis apoiar-se no piano, mas to desajeitadamente que a tampa lhe caiu sobre as mos e lhe
esmagou os dedos; saltou como um louco para fora do escritrio e finalmente calculou to mal o tempo ao descer as escadas que despencou sobre os quadris por todos
os degraus do primeiro andar. Eu ia passando nesse momento com a Sra.. Precipitamo-nos para levant-lo. Ele estava todo machucado e com o rosto cheio de sangue,
que at dava medo. Mas logo ele se ps a sorrir e a exclamar: "Obrigado, meu Deus! por ter-me livrado disso por to pouco!" Ento ns o interrogamos e ele nos contou
todo o seu medo. Esse medo lhe tinha vindo do fato de ele ter visto, atrs do Persa, o fantasma! O fantasma com a caveira, como o descreveu Joseph Buquet.
      Um murmrio assustado saudou o fim dessa histria, a cujo trmino Jammes chegou toda esbaforida, de to depressa que a tinha narrado, como se estivesse sendo
perseguida pelo fantasma.
      Em seguida, houve ainda um pequeno silncio que interrompeu, a meia voz, a pequena Giry, enquanto, muito comovida, Sorelli polia as unhas.
      - Joseph Buquet faria melhor se se calasse - enunciou Meg.
      - Por que ento ele ia se calar? - perguntaram-lhe.
      -  a opinio da mame... - replicou Meg, em voz bem baixa desta vez, e olhando em torno de si, como se tivesse medo de ser ouvida por outros ouvidos que no
os daquelas que estavam ali.
      - E por que sua me tem essa opinio?
      - Psiu! Mame diz que o fantasma no gosta que o aborream!
      - E por que  que ela diz isso, a sua me?
      - Porque... porque... nada... - disse Meg.
      Essas sbias reticncias tiveram o condo de exasperar a curiosidade daquelas mocinhas, que se acotovelaram em torno da pequena Meg Giry e lhe suplicaram que
se explicasse. Estavam ali, ombro a ombro, debruadas num mesmo movimento de pedido e de espanto. Comunicavam seu medo umas s outras, sentindo nisso um prazer penetrante
que as gelava.
      - Jurei no dizer nada! - replicou ainda Meg num sopro. Mas elas no lhe deram sossego e prometeram guardar to bem silncio que Meg, que ardia de desejo de
contar o que sabia, comeou, com os olhos fixos na porta:
      - Est bom...  por causa do camarote...
      - Que camarote?
      - O camarote do fantasma!
      - O fantasma tem um camarote?
      Diante dessa idia de que o fantasma tinha o seu camarote, as bailarinas no puderam conter a sua estupefao. Entre pequenos suspiros, elas disseram:
      - Oh! meu Deus! conte... conte...
      - Mais baixo! - ordenou Meg.  o primeiro camarote, o de nmero 5, vocs sabem, o primeiro camarote de boca, da esquerda.
      - No  possvel!
      -  como eu lhes estou dizendo...  a mame a lanterninha que cuida dele... Mas vocs juram mesmo que no vo contar nada?
      - Lgico que sim, mas continue!...
      - Pois ,  o camarote do fantasma... Ningum entra ali h mais de um ms, exceto o fantasma, evidente, e foi dada ordem  administrao para nunca mais o
alugar...
      - E  verdade que o fantasma vai l?
      -  sim...
      - Mais algum vai l?
      - No!... Apenas o fantasma vai at l, mais ningum.
      As bailarinazinhas se entreolharam. Se o fantasma ia ao camarote, elas deviam v-lo, j que ele trajava uma roupa preta e tinha uma caveira em lugar do rosto.
Foi o que disseram a Meg, mas esta lhes replicou:
      - Justamente! A gente no v o fantasma! E ele no tem nem roupa nem caveira!... Tudo isso que contaram a respeito da caveira e da cabea de fogo dele so
balelas! Ele no tem nada disso... A gente apenas o ouve quando ele est no camarote. Mame nunca o viu, mas ouviu. Mame bem sabe, pois  ela quem lhe d o programa!
      Sorelli achou que devia intervir:
      - Giryzinha, voc est zombando de ns. Ento a pequena Giry se ps a chorar.
      - Eu teria feito melhor se ficasse calada... Se um dia mame souber disso!... Mas  certo que Joseph Buquet faz mal de se ocupar com coisas que no so da
conta dele... isso vai lhe dar azar... mame estava dizendo isso ainda ontem  noite...
      Nesse momento, ouviram-se passos possantes e apressados no corredor e uma voz esbaforida que gritava:
      - Ccile! Ccile! Voc est a?
      - E a voz da mame! - disse Jammes. - O que ser que aconteceu?
      E ela abriu a porta. Uma honorvel senhora, talhada como um granadeiro pomernio, enfiou-se pelo camarim e deixou-se cair a gemer numa poltrona. Os olhos lhe
rolavam, enlouquecidos, alumiando lugubremente a sua face de tijolo cozido.
      - Que infelicidade! - exclamou. - Que infelicidade!
      - O qu? O qu?
      - Joseph Buquet...
      - Joseph Buquet o qu?
      - Joseph Buquet morreu!
      O camarim se encheu de exclamaes, de protestos, de assustados pedidos de explicaes...
      - Sim... acabaram de encontr-lo enforcado no terceiro patamar abaixo do palco!... Mas o mais terrvel - continuou, ofegante, a pobre e honorvel senhora -,
o mais terrvel  que os maquinistas que encontraram o corpo afirmam que se ouvia em torno do cadver algo como o canto dos mortos!
      - Foi o fantasma! - deixou escapar, como sem querer, a pequena Giry, mas caiu em si imediatamente: - No!... no!... eu no disse nada!... no disse nada!...
      Ao redor dela, todas as suas companheiras, aterrorizadas, repetiam em voz baixa:
      - Com certeza! Foi o fantasma!... Sorelli estava plida...
      - Nunca vou poder dizer o meu elogio - disse.
      A me de Jammes deu a sua opinio esvaziando um clice de licor que andava ali pela mesa: devia ter algum fantasma l embaixo...
      A verdade  que nunca se ficou sabendo direito como morreu Joseph Buquet. A percia, sumria, no deu nenhum resultado, a no ser suicdio natural. Nas Memrias
de um diretor, Moncharmin, que era um dos dois diretores, sucedendo aos Srs. Debienne e Poligny, relata assim o incidente do enforcado:
      "Um fatdico incidente veio perturbar a festinha que os Srs. Debienne e Poligny estavam oferecendo a si mesmos para celebrar a sua sada. Estava no escritrio
da direo quando vi entrar de repente Mercier - o administrador. - Ele estava transtornado ao me informar que tinham acabado de descobrir, enforcado no terceiro
patamar abaixo do palco, entre o suporte e um cenrio do Rei de Labore, o corpo de um maquinista. Eu exclamei: 'Vamos desamarr-lo!' O tempo que eu levei para descer
pela escadaria e para tirar a escada do suporte, o enforcado j estava sem a sua corda!"
      A est uma ocorrncia que o Sr. Moncharmin acha natural. Um homem est enforcado na ponta de uma corda, algum vai desamarr-lo e a corda desaparece. Oh!
O Sr. Moncharmin encontrou uma explicao bem simples. Ouam-no: "Estava na hora da dana, e corifias e constas tinham tomado as suas precaues contra o mau-olhado".
Ponto final. Vocs esto vendo daqui o corpo de baile tirando a escadinha do seu suporte e distribuindo entre si a corda de enforcado em menos tempo do que se leva
para escrever. No  srio. Quando penso, pelo contrrio, no lugar exato onde o corpo foi encontrado - no terceiro patamar debaixo do palco -, imagino que podia
haver em algum lugar algum interesse no desaparecimento dessa corda depois que ela tivesse feito o seu servio e veremos adiante se no tenho razo para ter essa
imaginao.
      A sinistra notcia espalhou-se depressa de alto a baixo da pera, onde Joseph Buquet era muito estimado. Os camarins se esvaziaram, e as pequenas bailarinas,
agrupadas em torno de Sorelli, como carneiros medrosos em torno do pastor, tomaram o caminho da academia, atravs dos corredores e das escadarias mal-iluminadas,
trotando com toda a pressa com as suas patinhas cor-de-rosa.



2

A NOVA MARGARIDA

      No primeiro patamar, Sorelli chocou-se com o conde de Chagny que ia subindo. O conde, geralmente to calmo, demonstrava grande exaltao.
      - Eu estava indo ao seu camarim - disse o conde saudando a jovem de maneira muito galante. - Ah! Sorelli, que bela noite! E Christine Daa: que triunfo!
      - No  possvel! - protestou Meg Giry. - H seis meses ela cantava como um prego! Mas deixe-nos passar, meu caro conde - disse a garota com uma reverncia
estouvada -, estamos em busca de notcias de um pobre homem que encontraram enforcado.
      Nesse momento passava, atarefado, o administrador, que parou bruscamente ao ouvir a conversa.
      - Como! Vocs j sabem, mocinhas? - perguntou em tom bastante rude... - Pois bem, no falem sobre isso... e sobretudo que os Srs. Debienne e Poligny no sejam
informados! Isso seria demasiado penoso para eles no ltimo dia.
      Todos foram para o pavilho da dana, que j estava invadido.
      O conde de Chagny tinha razo; nunca uma noite de gala fora comparvel quela; os privilegiados que assistiram falam dela comovidos aos seus filhos e netos.
Imaginem pois que Gounod, Reyer, Saint-Sans, Massenet, Guiraud, Delibes subiram cada um por sua vez no tablado do maestro e dirigiram pessoalmente a execuo de
suas obras. Tiveram, entre outros intrpretes, Faure e Krauss, e foi nessa noite que se revelou ao Tout-Paris estupefato e brio essa Christine Daa cujo destino
misterioso quero dar a conhecer neste livro.
      Gounod tinha feito executar A marcha fnebre de uma marionete; Reyer, a sua bela abertura de Sigurd; Saint-Sans, A dana macabra e uma Rverie orientale;
Massanet, uma Marcha hngara indita; Guiraud, o seu Carnaval; Delibes, A valsa lenta de Sylvia e os pizzicati de Coppelia. As cantoras Krauss e Denise Bloch interpretaram,
a primeira, o bolero das Vsperas sicilianas; a segunda, o brindisi de Lucrcia Brgia.
      Mas todo o triunfo pertenceu a Christine Daa, que primeiro se fizera ouvir em alguns trechos de Romeu e Julieta. Era a primeira vez que a jovem artista cantava
essa obra de Gounod, que, alis, ainda no tinha sido trazida para a pera de Paris e que a Opra Comique acabava de retomar muito tempo depois de ter sido montada
no antigo Thtre-Lyrique pela Sra. Carvalho. Ah! H que se lamentar aqueles que no puderam ouvir Christine Daa nesse papel de Julieta, que no conheceram a graa
singela, que no vibraram com os acentos de sua voz serfica, que no sentiram voar por sobre os tmulos dos amantes de Verona: "Senhor! Senhor! perdoai-nos!"
      Pois bem, tudo isso ainda no era nada diante dos acentos sobre-humanos que ela fez ouvir no ato da priso e o trio final de
      Fausto, em que ela substituiu a cantora Carlotta, que estava indisposta. Nunca se tinha visto isso!
      Isso era a "nova Margarida" que Christine Daa estava revelando, uma Margarida de um esplendor, de um brilhantismo ainda insuspeitos.
      A sala toda saudara com os mil clamores de sua inenarrvel emoo Christine, que soluava e desfalecia nos braos de suas companheiras. Foi preciso carreg-la
para o camarim. Ela parecia ter entregue a alma. O grande crtico P. de St.-V. fixou a lembrana inesquecvel desse minuto maravilhoso numa crnica a que deu justamente
o ttulo de A nova Margarida. Como grande artista que era, descobria simplesmente que essa bela e doce menina tinha trazido naquela noite, para o tablado da pera,
um pouco mais do que a sua arte, ou seja, o seu corao. Nenhum dos amigos da pera ignorava que o corao de Christine tinha permanecido puro como aos quinze anos,
e P. de St.-V. declarou "que, para compreender o que acabava de acontecer com Christine Daa, estava na necessidade de imaginar que ela tinha acabado de amar pela
primeira vez! Talvez eu seja indiscreto", acrescentou, "mas s o amor  capaz de realizar tamanho milagre, to fulminante transformao. Ouvimos, h dois anos, a
Christine Daa em seu concurso para o Conservatrio, e ela nos dera ento uma esperana encantadora. De onde vem o sublime de hoje? Se ele no desce do cu nas asas
do amor, ser preciso pensar que ele sobe do inferno e que Christine, como o mestre de canto Ofierdingen, firmou um pacto com o Diabo! Quem no ouviu a Christine
cantar o trio final de Fausto no conhece Fausto: a exaltao da voz e a embriaguez sagrada de uma alma pura no poderiam ir alm".
      Entretanto, alguns assinantes protestavam. Como puderam ter-lhes escondido durante tanto tempo semelhante tesouro? Christine Daa fora at ento um Siebel
conveniente junto dessa Margarida algo esplendidamente material que era Carlotta. E foi necessria a ausncia incompreensvel e inexplicvel de Carlotta, nessa noite
de gala, para que, sem qualquer preparao, a pequena Christine Daa pudesse dar toda a medida do seu valor numa parte do programa reservada  diva espanhola! Finalmente,
como, privados de Carlotta, os Srs. Debienne e Poligny tinham-se dirigido a Christine Daa? Eles conheciam ento o seu gnio escondido? E se eles o conheciam, por
que o esconderam? Coisa estranha, no se conhecia o seu professor atual. Ela tinha declarado vrias vezes que, doravante, trabalharia sozinha. Tudo isso era bem
inexplicvel.
      O conde de Chagny tinha assistido, de p em seu camarote, a esse delrio e a ele se juntara com os seus "bravos" retumbantes.
      O conde de Chagny (Philippe-Georges-Marie) tinha ento exatamente 41 anos. Era um grande senhor e um belo homem. Com altura acima da mdia, rosto agradvel,
apesar da fronte severa e dos olhos um pouco frios, ele era extremamente corts e fino com as mulheres e um pouco altivo com os homens, que nem sempre lhe perdoavam
os seus sucessos mundanos. Tinha excelente corao e conscincia honesta. Pela morte do velho conde Philibert, ele se tornara o chefe de uma das mais ilustres e
antigas famlias da Frana, cujo lado nobre remontava at Louis le Hutin. A fortuna dos Chagny era considervel, e quando o velho conde, que era vivo, morreu, no
foi tarefa fcil para Philippe aceitar gerir to pesado patrimnio. As suas duas irms e o irmo Raoul no quiseram ouvir falar de partilha e deixaram tudo entregue
a Philippe, como se o direito de primogenitura no tivesse deixado de existir. Ao se casarem as duas irms - no mesmo dia -, retomaram as suas partes das mos do
irmo, no como algo que lhes pertencesse, mas como um dote pelo qual expressaram a maior gratido.
      A Condessa de Chagny - nascida de Moerogis de La Martynire - tinha morrido ao dar  luz Raoul, nascido vinte anos depois do seu irmo primognito. Quando
morreu o velho conde, Raoul tinha 12 anos. Philippe cuidou ativamente da educao do menino. Nessa tarefa, foi admiravelmente secundado pelas irms, primeiro, e
depois por uma velha tia, viva de um marinheiro, que morava em Brest e que passou ao jovem Raoul o gosto pelas coisas do mar. O rapaz inscreveu-se na escola naval
do Borda, foi classificado entre os primeiros e realizou tranqilamente a sua volta ao mundo. Graas a poderosos apoios, acabara de ser designado para tomar parte
da expedio oficial do Requin, que tinha por misso procurar nas geleiras do plo os sobreviventes da expedio do d'Artois, dos quais no se tinha notcias fazia
trs anos. Enquanto esperava, gozava de longas frias que no deviam terminar antes de seis meses, e as velhas senhoras da sociedade, moradoras no bairro nobre de
Saint-Germain, ao verem esse menino bonito, que parecia to frgil, j tinham d dele pelos rudes trabalhos que o esperavam.
      A timidez desse marujo, eu estaria at tentado de dizer, sua inocncia, era notvel. Parecia ter sado na vspera da mo das mulheres. De fato, mimado pelas
duas irms e pela velha tia, ele havia conservado dessa educao puramente feminina maneiras quase cndidas, marcadas por um encanto que nada, at ento, pudera
empanar. Nessa poca, tinha pouco mais de 21 anos e parecia ter 18. Possua um bigodinho loiro, belos olhos azuis e ctis de moa.
      Philippe mimava muito Raoul. Primeiro, tinha muito orgulho dele e previa com alegria uma carreira gloriosa para o seu caula nessa Marinha em que um de seus
antepassados, o famoso Chagny de La Roche, tivera o posto de almirante. Aproveitava a licena do jovem para lhe mostrar Paris, desconhecida por este no que pode
oferecer de alegria luxuosa e de prazer artstico.
      O conde estimava que, na idade de Raoul, no se  totalmente ajuizado. Era um carter equilibrado, o de Philippe, ponderado tanto em seus trabalhos como em
seus prazeres, sempre de uma postura perfeita, incapaz de dar ao irmo um mau exemplo. Levou-o consigo por toda parte. F-lo at conhecer o pavilho da dana. Bem
sei que andavam dizendo que o conde "se dava extremamente bem" com Sorelli. Mas o qu! Algum pode querer fazer um crime do fato de esse gentil-homem, que escolheu
ficar solteiro e, por conseguinte, tinha bastantes lazeres diante de si, principalmente depois que as irms tinham-se casado, vir passar uma hora ou duas, depois
do jantar, na companhia de uma bailarina que, evidentemente, no  l muito espiritual, mas tinha os mais lindos olhos do mundo? E, alm disso, h lugares onde um
verdadeiro parisiense, quando ocupa a posio do conde de Chagny, deve aparecer e, nessa poca, o pavilho da dana da pera era um desse lugares.
      Finalmente, talvez Philippe no tivesse conduzido o irmo aos bastidores da Academia Nacional de Msica se ele no tivesse sido o primeiro, por repetidas vezes,
a pedir-lhe que o fizesse, com uma gentil obstinao de que o conde se lembraria mais tarde.
      Philippe, depois de ter aplaudido a Christine Daa naquela noite, voltara-se para o lado de Raoul e o vira to plido que ficou assustado.
      - Voc no est vendo - disse Raoul - que essa mulher est se sentindo mal?
      De fato, no palco tiveram de segurar Christine Daa.
      -  voc que vai desmaiar... - disse o conde inclinando-se para Raoul. - O que  que voc tem?
      Mas Raoul j estava de p.
      - Vamos - disse ele com voz trmula.
      - Aonde voc quer ir, Raoul? - interrogou o conde, admirado com a emoo em que se encontrava o caula.
      - Ora, vamos ver!  a primeira vez que ela canta assim!
      O conde olhou curiosa e fixamente para o irmo e um leve sorriso brincalho delineou-se no canto de seus lbios.
      - Bah!... - exclamou, para logo acrescentar: - Vamos! Vamos!
      Ele parecia encantado.
      Logo chegaram  entrada dos assinantes, j toda congestionada. Enquanto esperavam para poder entrar no palco, Raoul rasgava as suas luvas, num gesto inconsciente.
Philippe, que era bom, no zombou da sua impacincia. Mas ele j estava sabendo. Agora sabia por que Raoul permanecia distrado quando falava com ele e tambm por
que parecia sentir to grande prazer em levar todos os assuntos das conversas para a pera.
      Penetraram ambos sobre o tablado.
      Uma multido de roupas pretas comprimia-se na direo do pavilho da dana ou se dirigia aos camarins das artistas. Aos gritos dos maquinistas se misturavam
as alocues veementes dos chefes de servio. Os figurantes do ltimo quadro que se vo, que se chocam com voc, uma armao de cenrio que passa, uma tela de fundo
que desce do suporte, um suporte que  subjugado a grandes marteladas, o eterno "dem lugar para o teatro" que repica em seus ouvidos como a ameaa de alguma nova
catstrofe para a sua cartola ou de uma contuso sria em suas costas, tal  o acontecimento habitual dos intervalos que nunca deixam de perturbar um novio como
o jovem de bigodinho loiro, de olhos azuis e ctis de moa que atravessava, to depressa quanto o congestionamento lhe permitia, esse palco sobre o qual Christine
Daa tinha acabado de triunfar e sob o qual Joseph Buquet tinha acabado de morrer.
      Naquela noite, nunca a confuso havia sido mais completa, mas Raoul nunca estivera menos tmido. Afastava com os ombros firmes tudo aquilo que lhe opunha obstculo,
no ligando para o que se dizia em torno dele, no tentando entender as falas apavoradas dos maquinistas. Estava preocupado apenas com o desejo de ver aquela cuja
voz mgica lhe havia arrancado o corao. Sim, ele sentia que o seu corao to novo j no lhe pertencia. Bem que tentara se defender desde o dia em que Christine,
a quem conhecera ainda pequena, tinha reaparecido em sua frente. Sentira diante dela uma emoo dulcssima que ele havia tentado rechaar, pela reflexo, pois tinha
jurado que, tamanho era o respeito por si mesmo e sua f, que s amaria aquela que viria a ser a sua mulher, e no podia pensar, nem por um segundo, em desposar
uma cantora; mas eis que  dulcssima emoo sucedera uma sensao atroz. Sensao? Sentimento? Havia dentro daquilo algo de fsico e algo de moral. Sentia dor no
peito, como se este houvesse sido aberto para tomar-lhe o corao. Sentia ali um buraco horrvel, um vazio real que no poderia nunca mais ser preenchido seno pelo
corao de outra pessoa! Esses so acontecimentos de uma fisiologia toda particular que, ao que parece, no podem ser compreendidos seno por aqueles que foram atingidos
pelo amor, com esse golpe estranho a que chamam, em francs corrente, coup de foudre, literalmente: "golpe de raio".
      O conde Philippe tinha dificuldade para segui-lo. Continuava sorrindo.
      No fundo do palco, passada a porta dupla que d para os degraus que conduzem ao pavilho e para os que levam aos camarins  esquerda do pavimento trreo, Raoul
teve de parar diante do pequeno grupo de jovens bailarinas que, tendo descido havia pouco do sto, impediam-lhe a passagem. No faltaram gracejos a ele dirigidos
pelas meninas de lbios pintados, s quais ele no respondeu; finalmente pde passar e mergulhou nas sombras do corredor barulhento de exclamaes de entusiastas
admiradores. Um nome cobria todos os rumores: "Christine Daa! Christine!" O conde, seguindo Raoul, se dizia: "O malandro conhece o caminho!", e perguntava a si
mesmo como o havia aprendido. Ele prprio nunca havia levado Raoul ao camarim de Christine. E de crer que este tinha ido sozinho enquanto o conde ficava conversando
no camarim com Sorelli, que muitas vezes lhe pedia que ficasse junto dela at o momento de entrar em cena, e que por vezes tinha essa mania tirnica de lhe pedir
que tomasse conta das pequenas perneiras com que descia do seu camarim, as quais usava para proteger o brilho de suas sapatilhas de cetim e a limpeza do seu collant
da cor da pele. Sorelli tinha uma desculpa: perdera a me.
      O conde, retardando de alguns minutos a visita que devia fazer a Sorelli, seguia, pois, a galeria que conduz ao camarim de Christine e se dava conta de que
esse corredor nunca tinha sido to freqentado como nessa noite, quando todo o teatro estava em polvorosa devido ao sucesso da artista, e tambm do seu desmaio.
Porque a bela menina ainda no havia voltado a si, e tinham ido buscar o mdico do teatro, que nesse momento chegou, empurrando os grupos e seguido de perto por
Raoul, que lhe andava nos calcanhares.
      Assim, o mdico e o enamorado se viram no mesmo instante ao lado de Christine, que recebeu os primeiros socorros de um e abriu os olhos nos braos do outro.
O conde tinha ficado, com muitos outros, na soleira da porta diante da qual se sufocava.
      - O senhor no acha, doutor, que esses senhores deveriam "desentulhar" um pouco o camarim? - perguntou Raoul com incrvel audcia. - No se pode mais nem respirar
aqui.
      - Ora, o senhor tem toda a razo - aquiesceu o mdico e ps todo mundo para fora da porta, com exceo de Raoul e da camareira.
      Esta olhava para Raoul com olhos arregalados pela mais sincera estupefao. Nunca o tinha visto antes.
      No ousou, no entanto, question-lo.
      E o mdico imaginou que, se o jovem agia assim, era evidentemente porque tinha esse direito. Tanto que o visconde permaneceu no camarim a contemplar Christine
que renascia para a vida, enquanto os dois diretores, os prprios Srs. Debienne e Poligny, que tinham vindo exprimir a admirao pela sua jovem pensionista, foram
rechaados para o corredor. O conde de Chagny, rechaado como os outros, ria s gargalhadas.
      - Ah! esse malandrinho! Ah! esse malandrinho! E acrescentava in petto: - Vo confiar nesses mancebos que tomam ares de donzelas! - Estava radiante. Em seguida
concluiu: -  um Chagny! - e se dirigiu ao camarim de Sorelli; mas esta descia para o pavilho com o seu pequeno rebanho tremendo de medo, e o conde encontrou-a
a caminho, como foi dito.
      No camarim, Christine Daa deu um suspiro profundo ao qual respondeu um gemido. Ela virou a cabea, viu Raoul e estremeceu. Olhou para o doutor e lhe sorriu,
depois para a camareira, depois de novo para Raoul.
      - Meu senhor! - perguntou ela a este ltimo, com uma voz que ainda no passava de um sopro - ... quem  o senhor?
      - Senhorita - respondeu o jovem que colocou um joelho no cho e deu um ardente beijo na mo da diva -, senhorita, eu sou aquele menino que foi recolher a sua
echarpe no mar.
      Christine olhou de novo para o mdico e para a camareira e os trs puseram-se a rir. Raoul ergueu-se todo vermelho.
      -- Senhorita, j que lhe apraz no me reconhecer, eu queria lhe dizer algo em particular, algo muito importante.
      - Quando eu estiver melhor, meu senhor, importa-se? - e a voz dela tremia. - O senhor  muito gentil...
      -  preciso que o senhor saia... - acrescentou o mdico com o mais amvel de seus sorrisos. - Deixe-me cuidar da senhorita.
      - Eu no estou doente - replicou de repente Christine com uma energia to estranha quanto inesperada. E levantou-se, passando a mo sobre as plpebras num
gesto rpido. - Agradeo-lhe, doutor!... Preciso ficar sozinha... Saiam todos! Eu lhes rogo, deixem-me... Estou muito nervosa esta noite...
      O mdico quis externar alguns protestos, mas diante da agitao da jovem estimou que o melhor remdio para semelhante estado consistia em no contrari-la.
E saiu com Raoul, que se viu no corredor, desarvorado. O mdico lhe disse:
      - No a estou reconhecendo esta noite... Geralmente ela  to meiga...
      E o deixou.



      Raoul ficou s. Toda essa parte do teatro estava deserta agora. Devia-se proceder  cerimnia de adeus, no pavilho da dana. Raoul pensou que talvez Christine
fosse at l e ficou esperando na solido e no silncio. Chegou at a dissimular-se na sombra propcia de um canto de porta. Continuava com essa horrvel dor no
lugar do corao. E era disso que ele queria falar com Christine, sem tardar. De repente a porta se abriu e ele viu a camareira saindo sozinha, carregando alguns
pacotes. Ele a fez parar e pediu notcias de sua patroa. Respondeu rindo que ela ia muito bem, mas no se devia perturb-la pois desejava ficar s. E foi-se embora.
Uma idia atravessou o crebro abrasado de Raoul: evidentemente Christine queria ficar sozinha para ele!... No lhe havia ele dito que queria falar com ela em particular
e no foi esta a razo por que esvaziara o espao em torno de si? Mal conseguindo respirar, aproximou-se do camarim e, de ouvido inclinado para a porta a fim de
ouvir o que lhe seria respondido, disps-se a bater. Mas a sua mo caiu de volta. Acabara de perceber, no camarim, uma voz de homem, que dizia num tom singularmente
autoritrio:
      - Christine, voc precisa me amar!
      E a voz de Christine, dolorosamente, que se adivinhava vir acompanhada de lgrimas, voz trmula, respondia:
      - Como pode me dizer isso? Eu que s canto para voc! Raoul apoiou-se na porta, de tanto que sofria. O seu corao, que ele acreditara ter ido embora para
sempre, tinha voltado para o seu peito e lhe dava batidas retumbantes. Elas ressoavam por todo o corredor e os ouvidos de Raoul estavam ficando ensurdecidos. Certamente,
se o corao dele continuasse fazendo tanto estardalhao, iriam ouvi-lo, iriam abrir a porta e seria vergonhosamente expulso. Que situao para um Chagny! Ficar
escutando atrs da porta! Pegou o corao com as duas mos para faz-lo calar-se. Mas um corao no  a goela de um co, e mesmo quando se segura a goela de um
co com as duas mos - um co que late insuportavelmente -, continua-se a ouvi-lo rosnar.
      A voz de homem fez-se ouvir novamente:
      - Voc deve estar cansada.
      - Oh! esta noite eu lhe dei a minha alma e estou morta.
      - A sua alma  muito bela, minha menina - replicou a voz grave de homem -, e eu lhe agradeo. No h imperador que tenha recebido presente igual! Os anjos
choraram esta noite.
      Depois destas palavras: os anjos choraram esta noite, o visconde no ouviu mais nada. Entretanto, no se retirou, mas, como temesse ser surpreendido, lanou-se
de novo no seu canto escuro, decidido a esperar ali que o homem sasse do camarim. Na mesma hora, ele acabava de conhecer o amor e o dio. Sabia que estava amando.
Queria conhecer a quem odiava. Para sua grande estupefao, a porta se abriu e Christine Daa, envolta em peles e com o rosto escondido sob uma renda, saiu sozinha.
Encostou a porta, mas Raoul observou que ela no a fechara com chave. Ela passou. Ele no a seguiu nem sequer com os olhos, pois os seus olhos estavam fixos na porta
que no se reabria. Ento o corredor ficou novamente deserto e ele o atravessou. Abriu a porta do camarim e voltou a fech-la atrs de si. Encontrava-se na mais
completa escurido. Tinham apagado o gs.
      - H algum aqui? - disse Raoul com voz vibrante. - Por que est se escondendo?
      Ao dizer isso, mantinha-se encostado na porta fechada.
      A noite e o silncio. Raoul s ouvia o rudo da sua prpria respirao. Por certo no se dava conta de que a sua conduta era de uma indiscrio que ultrapassava
tudo que pudesse imaginar.
      - Voc s sair daqui quando eu permitir! - bradou o rapaz. - Se no me responder, voc  um covarde! Eu vou saber desmascar-lo!
      E riscou um fsforo. A chama iluminou o camarim. No havia ningum ali! Raoul, depois de ter tido o cuidado de fechar a porta a chave, acendeu os globos, os
candeeiros. Penetrou no banheiro, abriu os armrios, procurou, apalpou as paredes com suas mos suadas. Nada!
      - Ah! essa no - disse bem alto -, ser que eu estou ficando louco?
      Permaneceu assim dez minutos, a escutar o assobio do gs na paz do camarim abandonado; enamorado, nem sequer pensou em furtar alguma fitinha que lhe trouxesse
o perfume daquela a quem amava. Saiu, sem saber mais o que fazer nem aonde ir. Em dado momento de sua incoerente deambulao, um ar gelado veio bater-lhe no rosto.
Estava ao p de uma escada estreita que descia; atrs dele, um cortejo de operrios debruados sobre uma espcie de maca coberta por um pano branco.
      - A sada, por favor - indagou a um desses homens.
      - O senhor est vendo ali!  sua frente - foi-lhe respondido. - A porta est aberta. Mas deixe-nos passar.
      - O que que  isso a? - perguntou maquinalmente mostrando a maca.
      O operrio respondeu:
      - Isto  Joseph Buquet que encontramos enforcado no terceiro patamar inferior, entre um suporte e um cenrio do Rei de Labore.
      Ele se afastou para o cortejo passar, fez uma saudao e saiu.



3

EM QUE, PELA PRIMEIRA VEZ, OS SRS. DEBIENNE E POLIGNY DO, EM SEGREDO, AOS NOVOS DIRETORES DA PERA, SRS. ARMAND MONCHARMIN E FIRMIN RICHARD, A VERDADEIRA E MISTERIOSA
RAZO DE SUA SADA DA ACADEMIA NACIONAL DE MSICA

      Durante esse tempo, dava-se a cerimnia de despedidas.
      Eu disse que essa magnfica festa fora oferecida, por ocasio de sua sada da pera, pelos Srs. Debienne e Poligny que tinham querido, como se diz hoje em
dia, morrer "numa boa".
      Na realizao desse programa ideal e fnebre, haviam sido secundados por tudo aquilo de que Paris podia dispor de melhor na sociedade e nas artes.
      Toda essa gente tinha marcado encontro no pavilho da dana, onde Sorelli esperava, com uma taa de champanha na mo e um pequeno discurso na ponta da lngua,
os diretores demissionrios. Atrs dela, comprimiam-se as suas jovens e velhas companheiras do corpo de baile, umas conversando em voz baixa sobre os acontecimentos
do dia, outras dirigindo discretamente sinais aos seus amigos, cuja tagarela multido j rodeava o buf, que tinha sido arrumado em cima do assoalho em declive,
entre a dana guerreira e a dana campestre do Sr. Boulenger.
      Algumas bailarinas j haviam vestido suas roupas esporte; a maioria ainda estava com a saia de fil; mas todas acharam que deviam assumir semblantes de circunstncia.
S a pequena Jammes, cujas 15 primaveras j pareciam ter esquecido em sua despreocupao - idade feliz - o fantasma e a morte de Joseph Buquet, no parava de cacarejar,
tagarelar, pilheriar, tanto assim que, quando os Srs. Debienne e Poligny surgiram nos degraus do pavilho da dana, ela foi chamada severamente  ordem por Sorelli,
impaciente.
      Todo mundo percebeu que os diretores demissionrios pareciam alegres, o que, na provncia, no teria parecido natural a ningum, mas, em Paris, foi visto como
de muito bom gosto. Nunca ser parisiense quem no tiver aprendido a colocar a mscara da alegria por cima de suas dores e o disfarce da tristeza, do tdio ou da
indiferena por sobre a sua alegria ntima. Voc vem a saber que um amigo seu est infeliz, no tente consol-lo; ele dir que j est bem; mas, se lhe aconteceu
algo feliz, nem pense em felicit-lo; ele acha a boa fortuna to natural que ficaria admirado se algum lhe falasse sobre isso. Em Paris, sempre se est num baile
de mscaras e no  no pavilho da dana que pessoas to "avisadas" como os Srs. Debienne e Poligny iriam cometer o erro de mostrar a sua tristeza que era real.
E eles j sorriam muito para Sorelli, que comeava a desfiar o seu cumprimento, quando uma reclamao da louquinha da Jammes veio quebrar o sorriso dos diretores
de maneira to brutal que a imagem da desolao e do espanto, que estava por baixo, apareceu aos olhos de todos:
      - O fantasma da pera!
      Jammes lanara essa frase num tom de indizvel pavor e o seu dedo apontava no meio da multido das roupas pretas um rosto to plido, to lgubre e to feio,
com os buracos negros das arcadas superciliares to profundos, que essa caveira assim designada obteve de imediato um sucesso louco:
      - O fantasma da pera! O fantasma da pera!
      E o pessoal ria, e se empurrava, e queria dar de beber ao fantasma da pera; mas ele j tinha sumido! Tinha deslizado no meio da multido e buscaram-no em
vo, enquanto dois senhores idosos tentavam acalmar a pequena Jammes e a pequena Giry soltava gritos apavorados.
      Sorelli estava furiosa; no pudera terminar o seu discurso; os Srs. Debienne e Poligny abraaram-na, agradeceram e escapuliram to depressa quanto o prprio
fantasma. Ningum se admirou, pois sabia-se que eles iam ter de agentar a mesma cerimnia no andar superior, no pavilho do canto, e que por fim os amigos ntimos
seriam recebidos por eles, pela ltima vez, no grande Vestbulo do gabinete da diretoria, onde um jantar de verdade os esperava.
      Foi l que os reencontramos com os novos diretores Armand Moncharmin e Firmin Richard. Os primeiros mal conheciam os segundos, mas derramaram-se em grandes
protestos de amizade e estes lhes responderam com mil elogios; de tal sorte que aqueles dentre os convidados que estavam temerosos por preverem uma noitada um pouco
insossa mostraram imediatamente semblantes satisfeitos. O jantar foi quase alegre e, como houve oportunidade para vrios brindes, o senhor comissrio do governo
mostrou-se particularmente to hbil mesclando a glria do passado aos sucessos do futuro que a maior cordialidade logo reinou entre os convivas. A transmisso dos
poderes diretoriais tinha sido feita na vspera, com a maior simplicidade possvel, e as questes que restavam para acertar entre a antiga e a nova direo tinham
ento sido resolvidas, sob a presidncia do comissrio do governo, com um desejo to grande de entendimento de parte a parte que, na verdade, no era de admirar
encontrarem-se, naquela noite memorvel, quatro semblantes de diretores to sorridentes.
      Os Srs. Debienne e Poligny j tinham entregue aos Srs. Armand Moncharmin e Firmin Richard as duas chaves minsculas, as gazuas que abriam todas as portas da
Academia Nacional de Msica - vrios milhares. E celeremente essas chavinhas, objeto da curiosidade geral, passavam de mo em mo quando a ateno de alguns foi
desviada para a descoberta que acabavam de fazer, na extremidade da mesa, daquela estranha, plida e fantstica figura de olhos cavos que j aparecera no pavilho
da dana e que fora saudada pela pequena Jammes com esta apstrofe: "O fantasma da pera!"
      Ele estava ali, como o mais natural dos convivas, exceto que no comia nem bebia.
      Os que tinham comeado a olhar para ele a sorrir acabaram por desviar a cabea, tanto essa viso conduzia a mente para os mais fnebres pensamentos. Ningum
recomeou a brincadeira do pavilho, ningum gritou: "Olhem o fantasma da pera!"
      Ele no tinha pronunciado uma nica palavra e mesmo os seus vizinhos no saberiam dizer em que momento preciso ele viera sentar-se ali, mas nenhum pensou que,
se os mortos viessem um dia sentar-se  mesa dos vivos, no conseguiriam mostrar cara mais macabra do que aquela. Os amigos dos Srs. Firmin Richard e Armand Moncharmin
pensaram que esse conviva descarnado fosse algum ntimo dos Srs. Debienne e Poligny, enquanto os amigos dos Srs. Debienne e Poligny pensaram que esse cadver pertencesse
 clientela dos Srs. Richard e Moncharmin. De tal maneira que nenhum pedido de explicao, nenhuma reflexo desagradvel, nenhuma faccia de mau gosto ameaou importunar
esse hspede de alm-tmulo. Alguns convivas que estavam a par da lenda do fantasma e que conheciam a descrio que dele tinha feito o chefe dos maquinistas - ignoravam
a morte de Joseph Buquet - achavam in petto que o homem na ponta da mesa poderia muito bem passar pela realizao viva da personagem criada, segundo eles, pela irremovvel
superstio do pessoal da pera; e, no entanto, segundo a lenda, o fantasma no tinha nariz e essa personagem tinha, mas o Sr. Moncharmin afirma em suas "memrias"
que o nariz do conviva era transparente. "O nariz dele", diz, "era longo, fino e transparente" - e eu acrescento que podia ser um nariz falso. O Sr. Moncharmin pode
tomar como transparncia o que era apenas luzidio. Toda gente sabe que a cincia faz narizes falsos admirveis para as pessoas que deles foram privadas pela natureza
ou por alguma operao. Na realidade, o fantasma teria vindo sentar-se, aquela noite, no banquete dos diretores sem ser convidado? E podemos estar seguros de que
aquele rosto era do prprio fantasma da pera? Quem ousaria diz-lo? Se falo aqui desse incidente, no  porque queira acreditar ou fazer o leitor acreditar que
o fantasma tenha sido capaz de to soberba audcia, mas porque, em suma, isso  possvel.
      E aqui est, parece, uma razo suficiente. O Sr. Armando Moncharmin, ainda em suas memrias, diz textualmente no Captulo XI: "Quando penso nessa primeira
noite, no posso separar a confidncia que nos foi feita, em seu gabinete, pelos Srs. Debienne e Poligny, da presena, em nosso jantar, dessa fantasmagrica personagem
que ningum de ns conhecia".
      Eis exatamente o que se passou:
      Os Srs. Debienne e Poligny, colocados no meio da mesa, no tinham ainda notado o homem com cabea de caveira, quando este se ps, de repente, a falar.
      - As bailarinazinhas tm razo - disse ele. - A morte do pobre Buquet pode no ser to natural como se cr.
      Debienne e Poligny tiveram um sobressalto.
      - Buquet morreu? - exclamaram.
      - Morreu - replicou tranqilamente o homem ou a sombra de homem. - Encontraram-no enforcado, hoje  tarde, no terceiro patamar inferior, entre um suporte e
um cenrio do Rei de Labore.
      Os diretores, ou melhor, ex-diretores, levantaram-se imediatamente, fixando estranhamente o interlocutor. Eles estavam mais agitados do que o razovel, isto
, mais do que  razovel ficar agitado pelo anncio do enforcamento de um chefe maquinista. Ambos se olharam. Tinham ficado mais plidos do que a toalha. Finalmente,
Debienne fez um sinal aos Srs. Richard e Moncharmin: Poligny dirigiu aos convivas algumas palavras de desculpas, e os quatro passaram ao escritrio da diretoria.
Passo a palavra a Moncharmin.
      "Os Srs. Debienne e Poligny pareciam cada vez mais agitados", conta ele em suas memrias, "e pareceram ter alguma coisa para nos dizer que os embaraava muito.
Primeiro, perguntaram-nos se conhecamos o indivduo sentado  cabeceira da mesa, que lhes havia dado a notcia da morte de Joseph Buquet, e, como respondssemos
negativamente, mostraram-se ainda mais perturbados. Tomaram as gazuas de nossas mos, observaram-nas por um instante, balanaram a cabea, depois aconselharam-nos
que fizssemos outras fechaduras, no maior segredo, para os apartamentos, gabinetes e objetos que desejssemos fechar hermeticamente. Eles pareciam to estranhos
ao dizer isso que nos pusemos a rir, perguntando-lhes se havia ladres na pera. Responderam que havia algo pior que era o fantasma. Comeamos a rir de novo, convencidos
de que estavam fazendo alguma pilhria que seria como que o coroamento daquela festinha ntima. E depois, a pedido deles, voltamos a ficar 'srios', decididos a
entrar naquela espcie de jogo, para lhes agradar. Disseram-nos que jamais nos teriam falado do fantasma se no tivessem recebido ordem formal do prprio fantasma
para nos empenhar em sermos amveis com ele e em conceder-lhe tudo que nos pedisse. Todavia, felizes demais por deixar um espao em que reinava soberana essa sombra
tirnica e por ficarem, pelo fato mesmo, livres dela, tinham hesitado at o ltimo instante em comunicar to curiosa aventura para a qual certamente os nossos espritos
cpticos no estavam preparados, quando o anncio da morte de Joseph Buquet lhes havia brutalmente lembrado que, cada vez que no obedeciam aos desejos do fantasma,
algum acontecimento fantstico e funesto vinha rapidamente traz-los de volta ao sentimento de sua dependncia.
      "Durante esses pronunciamentos inesperados, feitos em tom da mais secreta e importante confidncia, eu ficava olhando para Richard. Richard, no tempo em que
era estudante, tivera a reputao de ser um farsante, isto , no ignorava nenhuma das mil e uma maneiras que se tem de zombar uns dos outros, e as zeladoras dos
prdios do Boulevard Saint-Michel tiveram o seu quinho nessa histria. Assim, ele parecia estar gostando muito do prato que lhe serviam agora. No perdia um bocado,
embora o condimento fosse um pouco forte devido  morte de Buquet. Ele meneava a cabea com tristeza, e suas feies,  medida que os outros falavam, iam ficando
lamentveis, como as de um homem que se arrependesse amargamente ter-se metido nesse negcio da pera, agora que tomava conhecimento de que havia um fantasma l
dentro. O melhor que eu podia fazer era copiar servilmente essa atitude desesperada. Entretanto, apesar de todos os nossos esforos, no pudemos, ao final, nos impedir
de deixar escapar uma "exploso" de riso nas barbas dos Srs. Debienne e Poligny que, vendo-nos passar sem transio do mais sombrio estado de esprito  mais insolente
alegria, procederam como se acreditassem que tnhamos ficado loucos.
      "Como a farsa se prolongasse um pouco demais, Richard perguntou, entre srio e brincalho: - Afinal, o que quer esse seu fantasma?
      "Poligny dirigiu-se ao seu gabinete e voltou com uma cpia do caderno de encargos.
      "O caderno de encargos comea por estas palavras: 'A direo da pera tem por obrigao dar s representaes da Academia Nacional de Msica o esplendor que
convm ao primeiro dos palcos lricos franceses', e termina pelo artigo 98 que tem o seguinte teor: 'O presente privilgio poder ser retirado se o diretor no respeitar
as disposies exaradas no caderno de encargos.'
      "Seguem estas disposies.
      "Esta cpia", disse Moncharmin, "est escrita com tinta preta e inteiramente conforme quela que ns possumos.
      "No entanto, vimos que o caderno de encargos que Poligny nos estava mostrando comportava in fine um pargrafo, escrito com tinta vermelha - com letra esquisita
e atormentada, como se tivesse sido traada com palitos de fsforos, letra de criana que ainda estivesse fazendo bastezinhos e no soubesse ainda ligar as letras.
E esse pargrafo, que alongava to estranhamente o artigo 98, dizia textualmente:
      "5 Se o diretor atrasar mais de quinze dias a mensalidade devida ao fantasma da pera, mensalidade fixada at nova ordem em 20 mil francos, 240 mil francos
por ano.
      "Poligny mostrava-nos, com dedo hesitante, essa clusula suprema, pela qual no espervamos.
      "-  s isso? Ele no quer mais nada? - perguntou Richard com o maior sangue-frio.
      "- Sim, replicou Poligny.
      "E, depois de folhear de novo o caderno de encargos, leu:
      'ART. 63. - O grande camarote de boca  direita dos primeiros camarotes n 1 ficar reservada para o Chefe do Estado. A frisa n 20, s segundas-feiras, e
o primeiro camarote n 30 s quartas e sextas sero postos  disposio do ministro. O segundo camarote n 27 ser reservado a cada dia para o uso do Governador
do Departamento do Sena e do Chefe de Polcia.'
      "E ainda, no final desse artigo, Poligny nos mostrou uma linha escrita com tinta vermelha que tinha sido acrescentada.
      "O primeiro camarote n. 5 ser colocado, em todas as representaes,  disposio do fantasma da pera.
      "Depois disso, no pudemos fazer outra coisa seno apertar calorosamente as mos dos nossos predecessores felicitando-os por terem imaginado essa encantadora
brincadeira, que provava que a velha jovialidade francesa nunca perderia os seus direitos. Richard achou at dever acrescentar que agora entendia por que os Srs.
      Debienne e Poligny abandonavam a direo da Academia Nacional de Msica. Os negcios se tornavam impossveis com um fantasma to exigente.
      "- Evidentemente", replicou sem pestanejar Poligny, "240 mil no se acham debaixo da ferradura de um cavalo. E os senhores se deram conta do que pode nos custar
a no locao do primeiro camarote n 5 reservado para o fantasma em todas as representaes? Sem mencionar que tivemos de reembolsar o assinante,  assustador!
Realmente, ns no trabalhamos para sustentar fantasmas!... Preferimos ir-nos embora!
      "- Sim - repetiu Debienne -, preferimos ir-nos embora! Vamos embora!
      "E levantou-se.
      "Richard disse:
      "- Mas afinal, a mim parece que os senhores so bem bonzinhos com esse fantasma. Se eu tivesse um fantasma que incomodasse tanto assim, eu no hesitaria em
mand-lo prender...
      "- Sim, mas onde? Mas como? - clamaram em coro os ex-diretores - Ns nunca o vimos!
      "- E quando ele vem ao seu camarote?
      "- Ns nunca o vimos em seu camarote.
      "- Ento aluguem-no.
      "- Alugar o camarote do fantasma da pera! Pois bem, experimentem!
      "Depois disso, samos os quatro do gabinete da direo. Richard e eu nunca tnhamos rido tanto."





4

O CAMAROTE N 5

      Armand Moncharmin escreveu relatrios to volumosos que, no que concerne particularmente ao perodo de sua co-direo, tem-se o direito de perguntar se algum
dia encontrou tempo para cuidar da pera de outro jeito que no fosse contando o que l acontecia. Moncharmin no conhecia uma nota de msica, mas, com a maior intimidade,
tratava de "voc" o ministro da Instruo Pblica e das Belas-Artes, havia feito um pouco de jornalismo sobre espetculos e gozava de uma fortuna assaz importante.
Enfim, era um rapaz encantador a quem no faltava inteligncia; tomada a deciso de comanditar a pera, tinha sabido escolher aquele que dela seria o diretor til
e tinha ido diretamente a Firmin Richard.
      Firmin Richard era um msico de projeo e um homem galante. Eis o retrato que dele traa, no dia de sua tomada de posse, a Revue des Thtres:

      O Sr. Firmin Richard tem seus 50 anos,  alto, de compleio robusta, sem excesso de peso. Tem prestncia e distino, uma bela cor, cabelos plantados rijos,
um pouco baixos e cortados em escova, barba combinando com os cabelos, o aspecto da fisionomia tem algo de um pouco triste a que tempera logo um olhar franco e reto
unido a um sorriso encantador. O Sr. Firmin Richard  um msico muito distinto. Hbil harmonista, contrapontista competente, a grandeza  a principal caracterstica
de sua composio. Publicou msica de cmara muito apreciada pelos aficionados, msica para piano, sonatas ou fugas cheias de originalidade, uma coletnea de melodias.
Enfim La mort d'Hercule (A morte de Hrcules), executada nos concertos do Conservatrio, respira um ar pico que faz pensar em Gluck, um dos mestres venerados do
Sr. Firmin Richard. Todavia, se adora Gluck, no tem menos amor por Piccini; o Sr. Richard toma o prazer onde o encontra. Cheio de admirao por Piccini, inclina-se
diante de Meyerbeer, deleita-se com Cimarosa e ningum aprecia melhor do que ele o inimitvel gnio de Weber. Enfim, no que diz respeito a Wagner, o Sr. Richard
no est longe de pretender que  ele, Richard, o primeiro na Frana e talvez o nico a t-lo compreendido.

      Paro aqui a minha citao, da qual parece-me resultar bastante claramente que, se Firmin Richard amava praticamente toda a msica e todos os msicos, era dever
de todos os msicos gostar tambm dele. Digamos, para terminar este rpido retrato, que o Sr. Richard era o que se convencionou chamar autoritrio, isto , tinha
um pssimo temperamento.
      Os primeiros dias que os dois associados passaram na pera foram s de alegria por se sentirem senhores de to vasta e bela empresa e tinham certamente esquecido
essa curiosa e estranha histria do fantasma quando aconteceu um incidente que lhes provou que - se havia farsa - a farsa no tinha terminado.
      Firmin Richard chegou naquela manh s 11 horas ao seu gabinete. O seu secretrio, Sr. Rmy, mostrou-lhe meia dzia de cartas que ele no tinha aberto por
trazerem a meno "pessoal". Uma dessas cartas chamou de imediato a ateno de Richard no apenas porque a subscrio do envelope estava em vermelho, mas tambm
porque pareceu-lhe j ter visto aquela letra em algum lugar. No precisou procurar muito: era a letra vermelha com que tinha sido completado to estranhamente o
caderno de encargos. Reconheceu-lhe o desenho irregular e infantil. Abriu-a e leu:

      Caro diretor, peo-lhe que me perdoe por vir perturbar estes momentos to preciosos em que o senhor decide a sorte dos melhores artistas da pera, em que renova
importantes contratos e em que inclui novos; e isso com uma segurana de vistas, um entendimento do teatro, uma cincia do pblico e dos seus gostos, uma autoridade
que esteve bem perto de deixar estupefata a minha velha experincia. Estou a par do que o senhor acaba de fazer para Carlotta, Sorelli e a pequena Jammes, e por
alguns outros de quem adivinhou as admirveis qualidades, o talento e o gnio. - (O senhor sabe muito bem de quem estou falando quando escrevo estas palavras; no
 evidentemente pela Carlotta, que canta como uma seringa e que nunca deveria ter abandonado os Embaixadores e o caf Jacquin; nem pela Sorelli, que tem sucesso
principalmente na carroceria; nem pela pequena Jammes, que dana como um bezerro no pasto. No  tampouco pela Christine Daa, cujo gnio  indiscutvel, mas a quem
o senhor deixa, com um zelo ciumento, afastada de qualquer criao importante.) - Afinal, o senhor  livre para administrar o seu pequeno negcio como melhor lhe
convier, no ? Mesmo assim, desejaria aproveitar o fato de o senhor ainda no ter posto a Christine Daa pela porta afora para ouvi-la esta noite no papel de Siebel,
j que o de Margarida, desde o seu triunfo de outro dia, lhe est proibido, e peo-lhe para no dispor do meu camarote hoje nem nos dias subseqentes; pois no terminarei
esta carta sem confessar-lhe quanto estive desagradavelmente surpreso, nestes ltimos tempos, ao chegar a pera, de ficar sabendo que o meu camarote havia sido alugado
- no escritrio de locao - atendendo a ordens suas.
      No protestei, primeiro porque sou inimigo de escndalos, depois porque imaginei que os seus predecessores, Srs. Debienne e Poligny, que sempre foram muito
corretos comigo, tinham negligenciado, antes de deixarem o cargo, de falar com o senhor a respeito das minhas pequenas manias. Ora, acabo de receber dos Srs. Debienne
e Poligny a resposta ao meu pedido de explicaes, resposta essa que me prova que o senhor est a par do meu caderno de encargos e, por conseguinte, o senhor est
zombando de mim de forma ultrajante. Se o senhor quiser que vivamos em paz, no deve comear por retirar-me o meu camarote! Sob o favor dessas pequenas observaes,
queira considerar-me, caro senhor diretor, seu mais humilde e obediente servo.
      Assinado: F. da pera.

      A carta vinha acompanhada de um extrato da pequena correspondncia da Revue thtral, em que se lia o seguinte: "F. da .: R. e M. so indesculpveis. Ns
os avisamos e lhes passamos s mos o seu caderno de encargos. Saudaes!".
      Mal Firmin Richard havia terminado essa leitura, a porta de seu gabinete se abriu e Armand Moncharmin veio  sua presena, com uma carta na mo, absolutamente
semelhante  que seu colega recebera. Olharam um para o outro e caram na gargalhada.
      - A pilhria continua - disse Richard -, mas no tem graa!
      - O que significa isso? - perguntou Moncharmin. - Eles esto pensando que porque foram diretores da pera ns lhes vamos conceder um camarote vitalcio?
      Porque, tanto para o primeiro como para o segundo, no havia dvida de que a carta dupla fosse o resultado da colaborao faceciosa dos seus predecessores.
      - No tenho pacincia para me deixar tapear por muito tempo! - declarou Firmin Richard.
      -  inofensivo! - observou Armand Moncharmin.
      - Afinal de contas, o que  que eles querem? Um camarote para esta noite?



      Firmin Richard deu ordem ao secretrio para enviar o primeiro camarote n 5 aos Srs. Debienne e Poligny, se no estivesse alugado.
      No estava. Foi imediatamente expedido a eles. Debienne e Poligny moravam, o primeiro, na esquina da rua Scribe com o Boulevard des Capucines; o outro, na
rua Auber. As duas cartas do fantasma da pera tinham sido postadas na agncia dos correios do Boulevard des Capucines. Moncharmin notou isso ao examinar os envelopes.
      - Voc est vendo! - disse Richard.
      Deram de ombros e lamentaram que pessoas nessa idade ainda se divertissem com brincadeiras to inocentes.
      - Mesmo assim, eles poderiam ter sido mais educados! - observou Moncharmin. - Voc viu como nos tratam a respeito de Carlotta, de Sorelli e da pequena Jammes?
      - Ora, meu caro, essas pessoas esto doentes de cimes!... Quando penso que chegaram a ponto de pagar por uma pequena correspondncia na Revue thtral!...
Eles no tm mais nada para fazer?
      - A propsito! - continuou Moncharmin -, eles parecem interessar-se muito pela pequena Christine Daa...
      - Voc sabe to bem quanto eu que ela tem a reputao de ser muito ajuizada! - respondeu Richard.
      - A gente rouba tantas vezes a reputao que tem - replicou Moncharmin. - Eu, por exemplo, no tenho a reputao de entender de msica? E eu ignoro a diferena
entre a clave de sol e a clave de f.
      - Voc nunca teve essa reputao - declarou Richard -, fique tranqilo.
      Nesse momento, Firmin Richard deu ordem ao contnuo para mandar entrar os artistas que, havia duas horas, passeavam pelo grande corredor da administrao 
espera de que a porta da diretoria se abrisse, essa porta atrs da qual os esperavam a glria e o dinheiro... ou a despedida.
      Todo esse dia se passou em discusses, confabulaes, assinaturas ou rupturas de contratos; tambm lhes peo que creiam que, naquela noite - a noite de 25
de janeiro -, os nossos dois diretores, cansados de uma rdua fornada de cleras, intrigas, recomendaes, ameaas, protestos de amor ou de dio, foram dormir cedo,
sem sequer ter a curiosidade de dar uma olhadela no camarote n 5, para saber se Debienne e Poligny estavam achando o espetculo a seu gosto. A pera no tinha interrompido
as atividades desde a partida da antiga diretoria, e o Sr. Richard tinha mandado proceder s reformas necessrias sem interromper o curso das apresentaes.
      No dia seguinte, pela manh, Richard e Moncharmin encontraram na sua correspondncia, por um lado, uma carta de agradecimento do fantasma, assim concebida:

      Caro Diretor,
      Obrigado. Noite encantadora. Daa, um requinte. Cuide dos coros. A Carlotta, magnfico e banal instrumento. Logo lhes escreverei sobre os 240 mil francos -
exatamente 233.424 fr 70. Os Srs. Debienne e Poligny mandaram-me 6.575 fr 30, o que representa os dez primeiros dias da minha penso deste ano - visto que os privilgios
deles terminaram no dia 10 a noite.
      Servo.
      F. da .

      Por outro lado, uma carta de Debienne e de Poligny:

      Senhores,
      Agradecemo-lhes a amvel ateno, mas os senhores compreendero facilmente que a perspectiva de ouvir de novo Fausto, por mais amena que possa ser para antigos
diretores da pera, no pode fazer-nos esquecer de que no temos nenhum direito de ocupar o primeiro camarote n. 5, que pertence exclusivamente quele de quem tivemos
a oportunidade de lhes falar, ao relermos, com os senhores, pela ltima vez, o caderno de encargos - ltimo pargrafo do artigo 63. Queiram aceitar, senhores, etc.

      - Ah! mas eles esto comeando a me irritar, esses fulanos! - declarou com violncia Firmin Richard, amassando a carta de Debienne e Poligny.
      Naquela noite, o primeiro camarote n 5 foi alugado.
      No dia seguinte, ao chegar a seu gabinete, Richard e Moncharmin encontraram um relatrio do inspetor relativo aos acontecimentos que se desenrolaram na vspera,
 noite, no primeiro camarote n 5:
      - Fui obrigado, escreveu o inspetor, a requisitar, esta noite - o inspetor escrevera o seu relatrio na vspera  noite - um guarda municipal para evacuar,
por duas vezes, no incio e no meio do segundo ato, o primeiro camarote n 5. Os ocupantes - tinham chegado no comeo do segundo ato - causavam um verdadeiro escndalo
com as suas risadas e os seus comentrios impertinentes. De toda parte em torno deles ouviam-se psiu!' e toda a sala comeava a protestar quando a lanterninha veio
me procurar; entrei no camarote e externei as observaes necessrias. Aquelas pessoas no pareciam gozar de bom senso e me disseram coisas sem nexo. Adverti-os
de que, se semelhante escndalo se repetisse, eu me veria forado a mandar evacuar o camarote. Mal eu tinha me retirado, ouvi de novo as suas risadas e os protestos
da sala. Voltei com um guarda municipal que os fez sair. Reclamaram, rindo sempre, declarando que no iriam embora se no lhes devolvessem o dinheiro. Finalmente,
se acalmaram, e eu os deixei voltar para o camarote; logo recomearam as risadas e, desta vez, eu mandei expuls-los definitivamente.
      - Mandem vir aqui o inspetor - gritou Richard ao seu secretrio, que tinha sido o primeiro a ler o relatrio e j o tinha anotado com lpis azul.
      O secretrio, Sr. Rmy - 24 anos, bigode fino, elegante, distinto, traje a rigor - naquele tempo, fraque obrigatrio durante o dia, inteligente e tmido diante
do diretor, 2 400 francos de proventos anuais, pagos pelo diretor, compulsa os jornais, responde s cartas, distribui camarotes e entradas de cortesia, arranja os
encontros, conversa com aqueles que ficam na antecmara, corre  casa dos artistas doentes, procura substitutos, corresponde com os chefes de servio, mas antes
de tudo faz as vezes de tranca no gabinete da diretoria, pode ser despedido sem qualquer compensao, pois no  reconhecido pela administrao -, o secretrio,
que j tinha mandado procurar o inspetor, deu ordem para o fazerem entrar.
      O inspetor entrou e parecia um pouco preocupado.
      - Conte-nos o que se passou - disse bruscamente Richard. O inspetor imediatamente comeou a gaguejar e fez aluso ao relatrio.
      - Afinal! aquela gente, por que estava rindo? - perguntou Moncharmin.
      - Senhor diretor, eles deviam ter jantado muito bem e pareciam mais dispostos a fazer algazarra do que a ouvir boa msica. J ao chegarem, mal tinham entrado
no camarote, saram e chamaram a lanterninha que lhes perguntou o que  que eles queriam. Disseram  lanterninha: "Olhe dentro do camarote, no tem ningum, no
?" "No", respondeu a lanterninha. "Pois bem", afirmaram, "quando entramos, ouvimos uma voz que dizia que havia algum".
      Moncharmin no pde olhar para Richard sem sorrir, mas ele, Richard, no sorria. Tinha "trabalhado" muito no gnero para no reconhecer na narrativa que lhe
fazia, com a maior ingenuidade do mundo, o inspetor todas as marcas de uma dessas maldosas pilhrias que de incio divertem os que delas so vtimas, mas acabam
por faz-los ficar enraivecidos.
      O inspetor, para agradar ao Sr. Moncharmin que estava sorrindo, achou que devia tambm sorrir. Sorriso infeliz! O olhar do Sr. Richard fulminou o empregado,
que de imediato fez por mostrar um semblante horrivelmente consternado.
      - Enfim, quando essa gente chegou - perguntou vociferando o terrvel Richard -, no havia ningum no camarote?
      - Ningum, senhor diretor! ningum! nem no camarote da direita, nem no camarote da esquerda, ningum, eu lhe juro! ponho a minha mo no fogo! e  isso o que
prova que tudo no passa de uma brincadeira.
      - E a lanterninha, o que foi que ela disse?
      - Oh! para a lanterninha,  muito simples, ela disse que foi o fantasma da pera.
      E o inspetor deu um sorriso amarelo. Ainda assim compreendeu que fazia mal de sorrir, pois nem bem tinha pronunciado "Ela disse que foi o fantasma da pera!"
e a fisionomia do Sr. Richard, de sombria que estava, passou a brava.
      - Mandem me buscar a lanterninha! - ordenou ele... - Imediatamente! E que ela me seja trazida aqui! E que se ponha toda essa gente a para fora!
      O inspetor quis protestar, mas Richard lhe fechou a boca com um temvel "Cale-se!" Depois, quando os lbios do infeliz subordinado pareceram fechados para
sempre, o diretor ordenou que se abrissem de novo.
      - O que  que  o "fantasma da pera"? - decidiu perguntar com um grunhido.
      Mas o inspetor agora era incapaz de dizer palavra. Deu a entender por uma mmica desesperada que no sabia de nada, ou melhor, que no queria saber de nada.
      - Voc viu, voc, o fantasma da pera?
      Com um gesto enrgico de cabea, o inspetor negou t-lo visto.
      - Azar! - declarou friamente Richard.
      O inspetor arregalou enormemente os olhos, olhos que lhe saam das rbitas, para perguntar por que o diretor havia pronunciado aquele sinistro : "Azar!"
      - Porque eu vou mandar fazer as contas de todos aqueles que no o viram! - explicou o diretor. - J que ele est por toda parte, no  admissvel que no o
vejam em lugar nenhum. Gosto que as pessoas faam o seu servio!



5

SEQNCIA DO CAMAROTE N 5

      Tendo dito aquelas palavras, o Sr. Richard no mais deu ateno ao inspetor e tratou de diversos expedientes com o seu administrador que acabava de entrar.
O inspetor pensou que podia ir-se embora e bem devagarinho, devagarinho, oh! meu Deus! to devagarinho!... caminhando para trs, tinha se aproximado da porta, quando
Richard, percebendo a manobra, pregou o homem no lugar com um tonitruante "No se mexa!"
      Por iniciativa do Sr. Rmy, tinham ido buscar a lanterninha, que trabalhava de zeladora na rua de Provence, a dez passos da pera. Logo ela apareceu.
      "Como  que a senhora se chama?
      - Sra. Giry. O senhor me conhece bem, senhor diretor; sou eu a me da pequena Giry, da pequena Meg, enfim!
      Isso foi dito em tom rude e solene que impressionou por um instante o Sr. Richard. Ele olhou para a Sra. Giry (xale desbotado, sapatos gastos, vestido velho
de tafet, chapu cor de fuligem). Era evidente, pela atitude do diretor, que este no conhecia ou no se lembrava de ter conhecido a Sra. Giry, nem tampouco a pequena
Giry, "nem sequer a pequena Meg"! Mas o orgulho da Sra. Giry era tamanho que essa clebre lanterninha (creio mesmo que foi a partir do nome dela que se fez o nome
bem conhecido na gria dos bastidores: "giries". Exemplo: uma artista recrimina uma colega por suas fofocas, seus papos-furados; ela lhe dir: "Tudo isso so 'giries'
"), que essa lanterninha, dizamos, se achava conhecida por todo mundo.
      - No a conheo no! - acabou por proclamar o diretor - Mas, Sra. Giry, isso no impede que eu queira saber o que lhe aconteceu ontem  noite, para que a senhora
tenha sido forada, a senhora e o inspetor, a recorrer a um guarda municipal...
      - Eu tava justamente querendo lhe ver, seu diretor, s pra no acontecer com o senhor os mesmos desagrados que com os
      Srs. Debienne e Poligny... Eles tambm, no comeo, no queriam me escutar...
      - No estou lhe perguntando tudo isso. Estou perguntando o que lhe aconteceu ontem  noite!
      A Sra. Giry ficou vermelha de indignao. Nunca lhe tinham falado num tom assim. Ela se levantou como para ir-se embora, j pegando as pregas da saia e agitando
com dignidade as plumas do chapu cor de fuligem; mas, mudando de idia, voltou a sentar-se e disse com voz arrogante:
      - Aconteceu que mais uma vez importunaram o fantasma!
      A essa altura, como Richard ia explodir, Moncharmin interveio e dirigiu o interrogatrio, de onde resultou que a Sra. Giry achava totalmente natural que uma
voz se fizesse ouvir para proclamar que havia algum num camarote onde no havia ningum. No podia explicar a si mesma esse fenmeno, que para ela no era novo,
seno pela interveno do fantasma. Esse fantasma, ningum o via no camarote, mas todo mundo podia ouvi-lo. Ela mesma o tinha ouvido muitas vezes, e podiam acreditar
nela, pois no mentia nunca. Podiam perguntar aos Srs. Debienne e Poligny e a todos aqueles que a conheciam, e tambm ao Sr. Isidore Saack, a quem o fantasma tinha
quebrado uma perna!
      - Mesmo? - interrompeu Moncharmin. - O fantasma quebrou a perna desse pobre Isidore Saack?
      A Sra. Giry arregalou os olhos onde se retratava o espanto que se apoderava dela diante de tanta ignorncia. Finalmente, consentiu em instruir aqueles dois
infelizes inocentes. O fato se deu no tempo de Debienne e Poligny, sempre no camarote n 5 e tambm durante a representao de Fausto.
      A Sra. Giry tosse, afirma a voz... comea... dir-se-ia que ela se prepara para cantar toda a partitura de Gounoud.
      - Pois , meu senhor. Estavam, naquela noite, na primeira fileira, o Sr. Maniera e sua senhora, os lapidrios da rua Mogador, e, atrs da Sra. Maniera, o amigo
deles, Sr. Isidore Saack. Mefistfeles cantava (a Sra. Giry canta): "Voc que se faz de adormecida", e ento o Sr. Maniera ouve no ouvido direito (sua mulher estava
 esquerda) uma voz que lhe diz: "Ah! ah! no  Julie que faz o papel de adormecida!" (A mulher dele se chama justamente Julie). O Sr. Maniera vira-se para a direita
para ver quem lhe falava assim. Ningum! Esfrega a orelha e diz a si mesmo: "Ser que estou sonhando?" Enquanto isso, Mefistfeles continuava a sua cano... Mas
talvez eu esteja aborrecendo os senhores diretores?
      - No! No! - continue...
      - Os senhores diretores so bons demais! (uma careta da Sra. Giry). Ento, Mefistfeles continuava a sua cano (A Sra. Giry canta): "Catarina que eu adoro
- por que recusar - ao amante que lhe implora - um beijo to doce?" e logo em seguida o Sr. Maniera ouve, sempre do lado direito: "Ah! ah! no  Julie que recusaria
um beijo a Isidore?" Nisso, ele se volta, mas, desta vez, para o lado da sua senhora e de Isidore, e o que v? Isidore que tinha pegado por trs a mo da sua senhora
e que a cobria de beijos no buraquinho da luva... deste jeito, meus bons senhores. (A Sra. Giry cobre de beijos o pedacinho de carne deixado descoberto pela sua
luva de filosela.) Ento os senhores calculam que tudo isso no se passou "numa boa!" Clic! Clac! O Sr. Maniera, que era alto e forte como o senhor, Sr. Richard,
distribuiu um par de bofetes ao Sr. Isidore Saack, que era magro e fraco como o Sr. Moncharmin, salvo o respeito que eu lhe devo. Foi um escndalo. Na sala, gritavam:
"Chega! Chega!... Ele vai mat-lo!..." Finalmente, o Sr. Isidore Saack conseguiu escapar...
      - Ento o fantasma no lhe tinha quebrado a perna? - perguntou Moncharmin um pouco vexado por seu fsico ter causado to fraca impresso sobre a Sra. Giry.
      - Ele quebrou ela sim, senhor - replicou a Sra. Giry com altivez (pois tinha entendido a inteno maldosa). - Quebrou ela bem ali, na escadona, que ele ia
descendo depressa demais! E tanto assim, palavra, que o pobre no vai subir ela de volta to cedo!...
      - Foi o fantasma que lhe contou as palavras que sussurrou na orelha direita do Sr. Maniera? - questionou sempre com uma seriedade, que ele acredita ser muito
cmica, o juiz de instruo Moncharmin.
      - No, senhor, foi o prprio Sr. Maniera. Assim...
      - Mas a senhora j falou com o fantasma, minha boa senhora?
      - Como estou falando com o senhor, meu bom senhor.
      - E quando ele fala com a senhora, o fantasma, o que  que ele lhe diz?
      - Ele me diz para trazer um banquinho para ele!
      A essas palavras, pronunciadas com solenidade, o rosto da Sra. Giry ficou como de mrmore, de mrmore amarelo, rajado de veias vermelhas, como o das colunas
que sustentam a grande escadaria e a que chamam mrmore sarrancolino.
      Desta vez Richard tinha voltado a rir em companhia de Moncharmin e do secretrio Rmy; mas, instrudo pela experincia, o inspetor no ria mais. Encostado
na parede, perguntava-se, remexendo febrilmente as suas chaves no bolso, como ia terminar aquela histria. E quanto mais a Sra. Giry empregava um tom "arrogante",
mais ele temia a volta da clera do diretor! E, agora, eis que diante da hilaridade dos diretores a Sra. Giry ousava tornar-se ameaadora! Ameaadora de verdade!
      - Em vez de rir do fantasma - bradou indignada -, fariam melhor se fizessem como o Sr. Poligny, que por se convencer por si mesmo...
      - Convencer-se de qu? - interrogou Moncharmin, que nunca se divertira tanto.
      - Do fantasma!... Pois eu estou dizendo para os senhores... Olhem!... (Ela se acalma subitamente, pois julga que a hora  grave.) Olhem!... Eu me lembro como
se fosse ontem. Dessa vez estavam representando A judia. O Sr. Poligny quisera assistir sozinho, no camarote do fantasma,  representao. A Sra. Krauss tinha tido
um sucesso louco. Ela tinha acabado de cantar, os senhores sabem, a mquina do segundo ato (a Sra. Giry canta a meia voz):
      Junto daquele a quem amo Quero viver e expirar, E nem a prpria morte Vai poder nos separar.
      - Bem! Bem! j entendi... - observou com um sorriso desanimador o Sr. Moncharmin.
      Mas a Sra. Giry continuou a meia voz, balanando a pluma do seu chapu cor de fuligem:
      Partamos! partamos! Neste mundo, ou no Alm, Sorte igual cabe a mim e a ti tambm.
      - Sim! Sim! j entendemos! - repetiu Richard, de novo impaciente... - e da?
      - E da,  nesse momento que Leopoldo exclama: "Fujamos!" no ? e que Eleazar os prende, enquanto lhes pergunta: "Para onde correis?" Pois bem, nesse momento,
o Sr. Poligny, que eu estava observando do fundo de um camarote ao lado, que tinha ficado vazio, o Sr. Poligny levantou-se reto e saiu duro como uma esttua, e s
tive tempo de perguntar a ele, como Eleazar: "Aonde o senhor vai?" Mas ele no me respondeu e estava mais plido do que um defunto! Olhei ele descer a escadaria,
mas ele no quebrou a perna... Entretanto, caminhava como num sonho e no conseguia achar o caminho... ele que era pago para conhecer bem a pera!
      Assim se exprimiu a Sra. Giry e depois se calou para julgar o efeito que havia produzido. A histria de Poligny tinha feito Moncharmin balanar a cabea.
      - Nada disso me diz em que circunstncias, nem como o fantasma da pera lhe pediu um banquinho? - insistiu ele, olhando fixamente para a Sra. Giry, como se
diz, olho no olho.
      - Ento, foi desde aquela noite... porque, a partir daquela noite, deixaram ele em paz, nosso fantasma... no brigaram mais com ele por causa do camarote.
Os Srs. Debienne e Poligny deram ordens para deixarem o camarote para ele em todas as representaes. Ento, quando ele chegava, me pedia o seu banquinho...
      - H! h! um fantasma que pede um banquinho? Ento  uma mulher, o seu fantasma? - interrogou Moncharmin.
      - No, o fantasma  homem.
      - Como  que a senhora sabe?
      - Ele tem voz de homem, oh! uma voz suave de homem! Vejam como  que isso acontece: quando ele vem  pera, chega em geral l pelo meio do primeiro ato, d
trs pancadinhas secas na porta do camarote n 5. Na primeira vez que eu ouvi essas trs pancadas, quando sabia muito bem que no havia ainda ningum no camarote,
os senhores imaginam se eu no fiquei intrigada! Abro a porta, escuto, olho: ningum! Depois no  que eu escuto uma voz me dizendo: "Sra. Jules ( o nome do meu
falecido marido), um banquinho, por favor?" Salvo o respeito que eu lhe devo, Sr. diretor, fiquei que nem um tomate... Mas a voz continuou: "No se assuste, Sra.
Jules, sou eu, o fantasma da pera!!!" Olhei para o lado de onde vinha a voz, que era, alis, to boa, to "acolhedora" que quase j no me dava mais medo. A voz,
Sr. diretor, estava sentada na primeira poltrona da primeira fileira  direita. S que eu no via ningum na poltrona, podia-se jurar que tinha algum em cima, que
falava, e algum muito educado, palavra.
      - O camarote  direita do de n 5 - perguntou Moncharmin, estava ocupado?
      - No; tanto o camarote n 7 como o camarote n 3  esquerda no estavam ainda ocupados. O espetculo ainda estava no comecinho.
      - E o que foi que a senhora fez?
      - Pois bem, eu trouxe o banquinho. Evidente, no era para ele que ele pedia o banquinho, era para a senhora dele! Mas ela, eu nunca vi nem ouvi...
      O fantasma agora tinha uma mulher! Da Sra. Giry o duplo olhar de Moncharmin e Richard subiu at o inspetor que, atrs da lanterninha, agitava os braos para
atrair sobre si a ateno de seus chefes. Ele bateu na testa com o indicador desolado para dar a entender aos diretores que a Sra. Jules estava por certo completamente
maluca, pantomima que levou definitivamente o Sr. Richard a decidir livrar-se de um inspetor que mantinha em seu servio uma louca. A boa mulher continuava, toda
envolvida com o seu fantasma, a elogiar a sua generosidade.
      - No fim do espetculo, ele sempre me d uma moeda de dois, quatro, s vezes at de dez francos, quando passou vrios dias sem vir. S que, desde que voltaram
a aborrec-lo, ele no me d mais nada de nada...
      - Desculpe, minha boa senhora... {Nova revolta da pluma do chapu cor de fuligem diante de to persistente familiaridade) desculpe!... Mas como  que o fantasma
faz para lhe entregar o dinheiro? - interrogou Moncharmin, curioso de nascena
      - Ele deixa em cima da mesinha do camarote, ora! Eu o encontro ali com o programa que sempre levo para ele; algumas noites, encontro at flores na minha saleta,
uma rosa que ter cado do busto de sua dama... pois, certamente, ele deve vir, s vezes, com uma dama, para que possa ter esquecido, um dia, um leque.
      - Ah! ah! o fantasma esqueceu um leque? E o que  que a senhora fez desse leque?
      - Ora, eu devolvi para ele na vez seguinte. Aqui, ouviu-se a voz do inspetor:
      - A senhora no observou o regulamento, Sra. Giry, tenho de puni-la por isso.
      - Cale a boca, imbecil! (Voz de baixo de Firmin Richard.) Com que ento a senhora devolveu o leque! E a?
      - E a eles o levaram embora, Sr. diretor; no o encontrei mais no fim do espetculo, prova  que eles deixaram no lugar uma caixa de bombons ingleses de que
eu gosto tanto, Sr. diretor. E uma das gentilezas do fantasma...
      - Est bem, Sra. Giry... A senhora pode se retirar. Quando a Sra. Giry, depois de cumprimentar respeitosamente, no sem certa dignidade que nunca a abandonava,
os seus dois diretores, estes declararam ao inspetor que estavam decididos a se privar dos servios daquela velha louca. E dispensaram o inspetor.
      Quando o inspetor se retirou, depois de ter protestado a sua dedicao  casa, os diretores pediram ao administrador que fizesse as contas do inspetor. Quando
ficaram ss, os diretores se comunicaram um mesmo pensamento, que lhes viera a ambos ao mesmo tempo, o de ir dar uma voltinha para os lados do camarote n 5.
      Logo os acompanharemos at l.





6

O VIOLINO ENCANTADO

      Christine Daa, vtima de intrigas de que voltaremos a falar adiante, no conseguiu repetir de imediato na pera o triunfo da famosa noite de gala. Desde ento,
entretanto, ela teve oportunidade de mostrar sua voz na cidade, na casa da duquesa de Zurique, onde cantou os mais belos trechos de seu repertrio; e eis como o
grande crtico X..Y. A., que se encontrava entre os convidados importantes, se exprimiu a respeito:

      Quando a gente a ouve em Hamlet, se pergunta se Shakespeare veio dos Campos Elsios ensaiar com ela Oflia... E verdade que, quando ela cinge o diadema de
estrelas da rainha da noite, Mozart, de seu lado, deve deixar as moradas eternas para vir ouvi-la. Mas no, ele no precisa se incomodar, pois a voz aguda e vibrante
da intrprete mgica de sua Flauta encantada vai encontrar-se com ele no Cu, que ela escala com facilidade, exatamente como soube, sem esforo, passar da cabana
da aldeia de Skotelof ao palcio de ouro e de mrmore construdo por Garnier.

      Mas depois do sarau da duquesa de Zurique, Christine no cantou mais para a alta sociedade. O fato  que, nessa poca, recusou qualquer convite, qualquer cach.
Sem. dar pretexto plausvel, renunciou aparecer numa festa de caridade, para a qual havia anteriormente prometido contribuir com sua presena. Agiu como se no fosse
mais dona do seu destino, como se tivesse medo de um novo triunfo.
      Ela soube que o conde de Chagny, para agradar o irmo, tinha feito intervenes a seu favor junto ao Sr. Richard; ela lhe escrevera para agradecer e tambm
para lhe pedir que no falasse mais dela aos diretores. Quais poderiam ser as razes de semelhante atitude? Alguns achavam que havia nisso um orgulho incomensurvel;
outros proclamavam tratar-se de uma divina modstia. No se  to modesto assim quando se est no teatro; na verdade, no sei se no deveria escrever simplesmente
esta palavra: pavor. Sim, acredito que Christine Daa estava com medo do que acabara de lhe acontecer e to estupefata quanto todas as pessoas ao seu redor. Estupefata?
Vamos! Tenho uma carta de Christine (coleo do Persa) que se refere aos acontecimentos dessa poca. Pois bem, depois de t-la relido, no escreverei que Christine
estava estupefata nem mesmo assustada com o seu triunfo, mas sim apavorada. Sim, sim... apavorada! "No me reconheo mais quando canto", dizia ela.
      Pobre, pura, doce menina!
      No ia a lugar nenhum, e o visconde de Chagny tentou em vo colocar-se em seu caminho. Ele lhe escrevera, pedindo permisso de se apresentar em sua casa, e
j estava perdendo a esperana de ter uma resposta quando, numa manh, ela fez chegar a ele o seguinte bilhete:

      Meu senhor, no esqueci o menininho que foi buscar a minha echarpe no mar. No posso impedir-me de lhe escrever isto, hoje, quando estou partindo para Perros,
levada por um dever sagrado. Amanh  o aniversrio da morte do meu pobre pai, que o senhor conheceu, e que o amava tanto. Ele est enterrado l, com o seu violino,
no cemitrio que rodeia a igrejinha, ao p do morro onde, ainda pequeninos, brincamos tanto;  beira dessa estrada onde, j um pouco mais crescidos, ns nos dissemos
adeus pela ltima vez.

      Quando recebeu esse bilhete de Christine, Raoul precipitou-se sobre um guia de trens, vestiu-se s pressas, escreveu algumas linhas que o camareiro devia remeter
ao seu irmo e lanou-se num carro que alis o deixou tarde demais na plataforma da estao de Montparnasse para lhe permitir tomar o trem da manh com que contava.
      Raoul passou o dia tristonho e s retomou o gosto pela vida quando se instalou em seu vago. Ao longo de toda a viagem, releu o bilhete de Christine e aspirou
o seu perfume; ressuscitou a doce imagem de seus tenros anos. Passou essa admirvel noite de estrada de ferro num sonho febril que tinha por incio e fim Christine
Daa. O dia despontava quando desembarcou em Lannion. Correu para a diligncia de Perros-Guirec. Ele era o nico passageiro. Interrogou o cocheiro. Soube que na
vspera,  noite, uma jovem que parecia ser uma parisiense fora conduzida a Perros e descera na Hospedaria do Sol-Poente. S podia ser Christine. Viera sozinha.
Raoul deixou escapar um suspiro profundo. Ia poder, em completa paz, falar com Christine naquela solido. Estava sufocando de amor. Aquele rapago, que dera a volta
ao mundo, era puro como uma virgem que nunca abandonou a casa da me.
      Na medida em que se aproximava dela, lembrava devotamente a histria da cantorazinha sueca. Numerosos detalhes ainda so ignorados pela multido.
      Houve uma vez, num pequeno burgo, nas redondezas de Upsala, um campons que ali vivia, com a famlia, cultivando a terra durante a semana e cantando no coro
aos domingos. Esse campons tinha uma filhinha a quem, muito antes que ela soubesse ler, ensinou decifrar o alfabeto musical. O Sr. Daa era, sem que ele prprio
se desse conta disso talvez, um grande msico. Tocava violino e era considerado o melhor menestrel de toda a Escandinvia. A sua reputao aumentava e todos se dirigiam
a ele para os bailes de npcias e os festins. A Sra. Daa, entrevada, morreu quando Christine estava com 10 anos. Logo a seguir, o pai, que s amava a sua filha
e a msica, vendeu o seu pedao de terra e foi para Upsala em busca da glria. L s encontrou a misria.
      Ento, voltou para o campo, indo de feira em feira, arranhando as suas melodias escandinavas, enquanto a sua menina, que nunca o abandonava, escutava-o com
xtase ou o acompanhava cantando. Um dia, na feira de Limby, o professor Valrius ouviu-os a ambos e os levou para Gotemburgo. Achava que o pai era o primeiro violinista
do mundo e a filha tinha o necessrio para vir a ser uma grande artista. Proveu-se  educao e  instruo da menina. Por toda parte maravilhava as pessoas por
sua beleza, sua graa e sua sede de aprender. Seus progressos eram rpidos. O professor Valrius e sua mulher, nessa ocasio, tiveram de ir morar na Frana. Levaram
consigo Daa e a Christine. A mulher de Valrius tratava Christine como filha. Quanto ao bom velho, comeava a definhar, tomado pela saudade da terra. Em Paris,
nunca saa. Vivia numa espcie de sonho que ele alimentava com o seu violino. Horas a fio, fechava-se em seu quarto com a filha, e ouvia-se tocar violino e cantar
baixinho. Por vezes, a Sra. Valrius ia escut-los atrs da porta, soltava um grande suspiro, enxugava uma lgrima e ia embora na ponta dos ps. Tambm ela tinha
nostalgia do seu cu escandinavo.
      O velho Daa parecia s recobrar as foras no vero, quando toda a famlia ia passear em Perros-Guirec, num canto da Bretanha ento quase desconhecido dos
parisienses. Ele gostava muito do mar dessa regio, achando-o, dizia, da mesma cor do de sua terra natal e muitas vezes, na praia, tocava para ele as suas mais dolentes
rias; Daa pretendia que o mar se calava para ouvi-lo. E, depois, ele tinha suplicado tanto  Sra. Valrius que esta consentira a mais um capricho do antigo menestrel.
      Na poca dos "perdes", das festas de aldeias, das danas e das "folias", l se ia ele, como outrora, com o seu violino, e tinha o direito de levar consigo
a filha durante oito dias. Ningum se cansava de ouvi-los. Eles derramavam harmonia para o ano todo nos menores vilarejos e dormiam  noite nos paiis, recusando
o leito da hospedaria, apertando-se um contra o outro em cima da palha, como nos tempos em que eram to pobres na Sucia.
      Ora, eles andavam bem-vestidos e recusavam as moedas que lhes ofereciam, no faziam coleta, e as pessoas, ao seu redor, no compreendiam o comportamento desse
tocador de violino que percorria os caminhos com aquela bela menina que cantava to bem que dava a impresso de se estar ouvindo um anjo do paraso. Eram seguidos
de aldeia em aldeia.
      Um dia, um rapazinho da cidade, que estava com a governanta, fez com que esta percorresse um longo caminho, pois no se decidia a se afastar da menina cuja
voz to suave e to pura parecia t-lo encantado. Chegaram assim  beira de uma angra a que chamam ainda hoje Trestraou. Naquele tempo, s havia nesse lugar o cu
e o mar e a praia dourada. E, alm de tudo, havia um forte vento que carregou a echarpe de Christine para dentro do mar. Christine deu um grito e estendeu os braos,
mas a echarpe j estava longe por sobre as ondas. Christine ouviu uma voz que lhe dizia:
      - No se perturbe, mocinha, eu vou buscar a sua echarpe no mar.
      E ela viu um garotinho que corria, corria apesar dos gritos e dos protestos indignados de uma senhora toda de preto. O garotinho entrou no mar de roupa e lhe
trouxe de volta a echarpe. O garoto e a echarpe estavam num estado deplorvel! A senhora de preto no conseguia se acalmar, mas Christine ria de corao pleno, e
deu um beijo no menino. Era o visconde Raoul de Chagny. Ele morava com a tia, nessa poca, em Lannion. Durante a estao eles voltaram a se ver quase todos os dias
e brincaram juntos. A pedido da tia e com a intermediao do professor Valrius, o velho Daa consentiu em dar lies de violino ao jovem visconde. Assim, Raoul
aprendeu a gostar das mesmas rias que tinham encantado a infncia de Christine.
      Eles tinham mais ou menos a mesma almazinha sonhadora e calma. S gostavam das histrias, dos velhos contos bretes, e sua principal brincadeira era ir busc-los
na soleira das portas, como mendigos. "Minha senhora ou meu bom senhor, teriam uma historinha para nos contar, por favor?" Era raro que no lhes "dessem" o que pediam.
Qual  a velha av bret que no viu, pelo menos uma vez na vida, danarem os "korrigans"3, sobre a charneca, em noite de luar?
      Mas a grande festa para eles era quando, no crepsculo, na grande paz da noite, depois que o sol j se deitara no mar, o Sr. Daa vinha sentar-se ao lado deles
 beira da estrada e lhes contava em voz baixa, como se temesse espantar os fantasmas que evocava, as belas, ternas ou terrveis lendas do pas do Norte. Ora eram
bonitas como os contos de Andersen, ora tristes como os cantos do grande poeta Runeberg. Quando se calava, as duas crianas diziam: "Conta outra!"


      Havia uma histria que comeava assim:

      Um rei tinha-se sentado num barquinho, sobre uma dessas guas tranqilas e profundas que se abrem como um olho brilhante no meio dos montes da Noruega...

      E outra:

      A pequena Lotte pensava em tudo e no pensava em nada. Passarinho de vero, ela planava nos raios de ouro do sol, levando sobre os cachos louros a sua coroa
primaveril. Tinha a alma to clara, to azul quanto o seu olhar. Tratava a me com extremo carinho, era fiel  sua boneca, tinha muito cuidado com a roupa, com os
sapatinhos vermelhos e com o seu violino, mas gostava, acima de tudo, de ouvir, para adormecer, o Anjo da msica.

      Enquanto o bom senhor dizia essas coisas, Raoul ficava olhando para os olhos azuis e para o cabelo dourado de Christine. E Christine pensava que a pequena
Lotte era bem feliz de poder ouvir, para adormecer, o Anjo da msica. Quase no havia histria do velho Daa em que no interviesse o Anjo da msica, e as crianas
lhe pediam explicaes a respeito desse Anjo, infindavelmente. O Sr. Daa era de opinio que todos os grandes msicos, todos os grandes artistas recebem pelo menos
uma vez na vida a visita do Anjo da msica. Esse Anjo se debruou alguma vez sobre o bero deles, como aconteceu com a pequena Lotte, e  assim que existem pequenos
prodgios que tocam violino aos 10 anos melhor do que homens de 50, o que, vocs ho de reconhecer,  absolutamente extraordinrio. s vezes, o Anjo vem muito mais
tarde, porque as crianas no so bastante boazinhas e no querem aprender o mtodo ou descuidam do estudo das escalas musicais. s vezes, o Anjo no vem nunca,
porque no se tem o corao puro nem a conscincia tranqila. Nunca se v o Anjo, mas ele se faz ouvir pelas almas predestinadas. Isso muitas vezes acontece no momento
em que menos esperam, quando esto tristes ou desanimadas. Ento, o ouvido percebe, de repente, harmonias celestes, uma voz divina, e se lembrar disso pelo resto
da vida. As pessoas visitadas pelo Anjo ficam como que inflamadas. Vibram com um frmito desconhecido para o resto dos mortais. E tm esse privilgio de no mais
poder tocar um instrumento ou abrir a boca para cantar sem produzir sons que do vergonha por sua beleza a todos os outros sons humanos. Aqueles que no sabem que
o Anjo visitou essas pessoas dizem que elas tm gnio.
      A pequena Christine perguntava ao pai se ele tinha ouvido o Anjo. Mas ele balanava a cabea com tristeza, depois o seu olhar brilhava e, olhando para a filha,
dizia:
      - Voc, minha filha, vai ouvi-lo um dia! Quando eu estiver no cu, vou envi-lo a voc, eu prometo!
      O Sr. Daa comeara a tossir nessa poca.
      O outono veio e separou Raoul e Christine.
      Voltaram a se ver trs anos mais tarde; j eram mocinhos. Isso aconteceu em Perros ainda e Raoul conservou do fato impresso to grande que iria acompanh-lo
por toda a vida. O professor Valrius tinha morrido, mas a Sra. Valrius tinha ficado na Frana, cuidando de seus interesses, com o velho Daa e a filha, que continuavam
cantando e tocando violino, arrastando em seu sonho harmonioso a sua querida protetora, que parecia no mais viver seno de msica. O jovem tinha vindo, por via
das dvidas, a Perros e, da mesma forma, penetrou na casa outrora habitada pela sua amiguinha. Viu primeiro o ancio Daa, que se levantou de sua poltrona com lgrimas
nos olhos e o beijou, dizendo-lhe que tinham guardado dele a mais fiel lembrana. De fato, quase no se passava dia sem que Christine falasse de Raoul. O ancio
falava ainda quando a porta se abriu e, encantadora, apressada, a moa entrou, trazendo numa bandeja o ch fumegante. Reconheceu Raoul e livrou-se do seu fardo.
Uma leve chama espalhou-se sobre o seu rosto encantador. Ela permanecia hesitante, calada. O Sr. Daa olhou para os dois. Raoul se aproximou da jovem e deu-lhe um
beijo que ela no evitou. Ela lhe fez algumas perguntas, desempenhou belamente o seu papel de anfitri, retomou a bandeja e saiu do quarto. Depois foi refugiar-se
no seu banco na solido do jardim. Experimentava sentimentos que se agitavam pela primeira vez em seu corao adolescente. Raoul veio ter com ela e conversaram at
a tarde, bastante embaraados. Tinham mudado completamente, no reconheciam as suas personagens, que pareciam ter adquirido uma importncia considervel. Estavam
prudentes como diplomatas e se contavam coisas que nada tinham a ver com os seus sentimentos nascentes. Quando se deixaram,  beira da estrada, Raoul disse a Christine,
pousando um beijo correto em sua mo trmula: "Senhorita, eu no a esquecerei jamais!". E foi-se embora, j arrependido de ter dito aquelas palavras ousadas, pois
sabia bem que Christine Daa no podia ser a mulher do visconde de Chagny.
      Quanto a Christine, foi ter com o pai e lhe disse: "O senhor no acha que o Raoul no  mais to gentil como antigamente? Eu no gosto mais dele!" E tentou
no pensar mais nele. Tinha bastante dificuldade para conseguir isso e se lanou  sua arte que lhe tomou todos os instantes. Os seus progressos passaram a ser maravilhosos.
As pessoas que a ouviam diziam que ela seria a primeira artista do mundo. Mas nessa poca o seu pai faleceu e, com o golpe, ela pareceu perder, juntamente com ele,
a voz, a alma e o gnio. Disso tudo ainda lhe restou um pouco, o estritamente suficiente para entrar no Conservatrio. Ela no se distinguiu de nenhum modo, seguiu
as aulas sem entusiasmo e ganhou um prmio para agradar  Sra. Valrius, com a qual continuou vivendo. A primeira vez que Raoul reviu Christine na pera, ficara
encantado com a beleza da moa e com a evocao das ternas imagens de outrora, mas at admirara com o lado negativo de sua arte. Ela parecia estar fora de tudo.
Ele voltou a ouvi-la. Seguia-a nos bastidores. Ouviu-a por detrs de um suporte de cenrio. Tentou chamar-lhe a ateno. Mais de uma vez, seguiu-a at a entrada
de seu camarim, mas ela no o via. Parecia, alis, no ver ningum. Era a imagem da indiferena. Raoul sofreu com tudo isso, pois ela era bela; ele era tmido e
no ousava confessar a si mesmo que a amava. E depois foi a paixo fulminante daquela noite de gala: os cus rasgados, uma voz de anjo a se fazer ouvir na Terra
para o arrebatamento dos homens e a consumao do seu corao...
      E depois aquela voz de homem atrs da porta: "E preciso me amar!", e ningum no camarim...
      Por que ela tinha sorrido quando ele lhe disse, no momento em que reabria os olhos: "Eu sou aquele menino que foi recolher a sua echarpe no mar"? Por que ela
no o havia reconhecido? E por que ela lhe havia escrito?
      Oh! como  longa esta descida... longa... Ali est o cruzeiro dos trs caminhos... Ali a landa deserta, a charneca gelada, a paisagem imvel sob o cu branco.
As vidraas tilintam, quebram-lhe nos ouvidos os seus vidros... Quanto barulho faz esta diligncia que avana to pouco! Ele reconhece as choupanas... os cercados,
os barrancos, as rvores  beira do caminho... Ali est a ltima curva da estrada, depois vai-se vale abaixo e ser o mar... a grande baa de Perros...
      Desce ento para a Hospedaria do Sol-Poente. Nossa! No h outra. Mas fica-se muito bem ali. Ele se lembra de que, nos velhos tempos, contavam-se ali belas
histrias! Como est batendo o seu corao! O que  que ela vai dizer quando o vir?
      A primeira pessoa que avista quando entra na velha sala enfumaada da hospedaria  a Sra. Tricard. Ela o reconhece. Faz-lhe cumprimentos. Pergunta-lhe o que
o traz ali. Ele cora. Diz que, tendo vindo a Lannion a negcio, fez questo de "dar uma espichada at ali para lhe dizer um bom-dia". Ela quer servir-lhe um jantar,
mas ele diz: "Logo mais". Parece estar esperando alguma coisa ou algum. A porta se abre. Ele est de p. No se enganou:  ela! Ele quer falar, no consegue. Ela
fica ali  sua frente, sorridente, sem demonstrar espanto ou surpresa. Suas faces esto frescas e rosadas como um morango nascido na sombra. Por certo a jovem est
excitada por uma caminhada rpida. O seu seio, que encerra um corao sincero, arfa suavemente. Os olhos, claros espelhos de um azul plido, da cor dos lagos que
sonham imveis, bem l no alto rumo ao norte do mundo, os olhos lhe trazem tranqilamente o reflexo da alma cndida. O casaco de pele est entreaberto sobre um porte
flexvel, sobre a linha harmoniosa de seu jovem corpo cheio de graa. Raoul e Christine olham longamente um para o outro. A Sra. Tricard sorri e, discreta, se esquiva.
Finalmente Christine fala:
      - Voc veio, e isso no me admira. Eu tinha o pressentimento de que iria encontr-lo aqui, nesta hospedaria, ao voltar da missa. Algum me disse, l. Sim,
algum me anunciou a sua chegada.
      - Quem foi? - pergunta Raoul, tomando nas suas as mozinhas de Christine que no as retira.
      - Ora, o meu pobre falecido papai. Houve um silncio entre os dois jovens. Depois, Raoul retoma a conversa:
      - O seu pai lhe disse tambm que eu a amo, Christine, e que eu no posso viver sem voc?
      Christine cora at os cabelos e desvia a cabea. E diz com voz trmula:
      - A mim? Voc est louco, meu amigo.
      E ela se pe a rir para, como se diz, no ficar sem jeito.
      - No ria, Christine,  muito srio." E ela replica, grave:
      - Eu no fiz voc vir at aqui para me dizer coisas assim.
      - Voc me fez vir, Christine; voc adivinhou que a sua carta no me deixaria indiferente e que eu viria correndo para Perros. Como voc pde pensar assim,
se voc no sabia que eu a amava?
      - Pensei que voc se lembraria das brincadeiras da nossa infncia s quais o meu pai se juntava com freqncia... Talvez tenha feito mal em lhe escrever...
O seu aparecimento to sbito, na outra noite, no meu camarim, havia me levado para longe, bem longe no passado, e eu lhe escrevi como uma menina que eu era ento,
que ficaria feliz de rever e de ter ao lado, num momento de tristeza e de solido, o seu companheirinho
      Por um instante, guardaram silncio. H na atitude de Christine alguma coisa que Raoul no acha natural, embora no consiga precisar o que seja. Entretanto,
ele no a sente hostil; longe disso... a ternura desolada de seus olhos o diz suficientemente. Mas por que essa ternura est desolada?... A est, talvez, o que
 preciso saber e o que j irrita o rapaz...
      - Quando voc me viu em seu camarim, era a primeira vez que voc estava me vendo, Christine?
      Esta no sabia mentir. Ela disse:
      - No! Eu j tinha visto voc vrias vezes no camarote do seu irmo. E tambm depois no tablado.
      - E o que eu achava! - exclama Raoul apertando os lbios. - Mas por que ento, quando voc me viu no seu camarim e lembrando a voc que eu tinha ido buscar
a sua echarpe no mar, por que voc respondeu como se no me conhecesse e at riu?
      O tom dessas perguntas  to ridculo que Christine olha para Raoul, espantada, e no lhe responde. O prprio rapaz fica estupefato diante dessa briga sbita,
que ele provocara no momento em que s queria fazer com que Christine ouvisse dele palavras de doura, de amor e de submisso. Um marido, um amante que tem todos
os direitos no falaria diferentemente  sua mulher ou companheira que o tivesse ofendido. Mas ele se irrita com os erros que comete e, achando-se estpido, no
encontra outra sada para aquela ridcula situao a no ser na deciso intempestiva que toma de se mostrar odioso.
      - Voc no me responde! - diz ele, enraivecido e infeliz. - Pois bem, vou responder para voc!  porque havia algum naquele camarim que a perturbava, Christine!
Algum a quem voc no queria mostrar que voc podia estar se interessando por outra pessoa que no fosse ele!...
      - Se algum me perturbava, meu amigo... - interrompe Christine num tom gelado - ... se algum me perturbava, naquela noite, devia ser voc, porque foi voc
que eu pus para fora da porta!...
      - Sim!... para ficar com o outro!...
      - O que  que est dizendo, meu senhor? - pergunta a moa ofegante - ... e de que outro se trata agora?
      - Daquele a quem voc disse: "Eu s canto para voc! Eu lhe dei a minha alma esta noite, e estou morta!"
      Christine agarra o brao de Raoul: apertou-o com uma fora que no se suporia ser possvel em um ser to frgil.
      - Voc estava escutando atrs da porta?
      - Estava! porque eu amo voc... E ouvi tudo...
      - Voc ouviu o qu? - E a moa, retomando uma calma estranha, larga o brao de Raoul.
      - Ele lhe disse: " preciso me amar!"
      A estas palavras, uma palidez cadavrica se espalha pelo rosto de Christine, os seus olhos se turvam... Ela cambaleia, vai cair, Raoul se precipita, estende
o brao, mas j Christine superou esse desfalecimento passageiro e, em voz baixa, quase expirante:
      - Diga! diga de novo! diga tudo o que voc ouviu!
      Raoul olha para ela, hesita, no entende nada do que est se passando.
      - Mas diga! diga sim! No v que voc est me matando!...
      - Eu ouvi ainda que ele lhe respondeu, quando voc lhe disse que lhe havia dado a alma: "A sua alma  muito bela, minha menina, e eu lhe agradeo. No h imperador
que tenha recebido presente igual! Os anjos choraram esta noite!"
      Christine coloca a mo sobre o corao. Fita Raoul com uma emoo indescritvel. O seu olhar est to agudo, to fixo, que parece o de uma pessoa insensata.
Raoul est apavorado. Mas eis que os olhos de Christine se umedecem e sobre as suas faces de marfim deslizam duas prolas, duas pesadas lgrimas...
      - Christine!...
      - Raoul!...
      O rapaz quer segur-la, mas ela lhe escorrega das mos e escapa muito confusa.
      Enquanto Christine permanecia fechada em seu quarto, Raoul fazia a si mesmo mil recriminaes por sua brutalidade; mas, por outro lado, o cime retomava o
seu galope nas suas veias em fogo. Para que a jovem tivesse demonstrado tamanha emoo ao saber que tinha sido surpreendida em seu segredo, era preciso que este
fosse muito importante! Sem dvida, Raoul, a despeito do que tinha ouvido, no duvidava da pureza de Christine. Sabia que ela tinha grande reputao de seriedade
e ele no era to novio que no entendesse a necessidade em que se v por vezes uma artista, acuada, de ouvir propostas amorosas.  verdade que ela respondera que
lhe dera a sua alma, mas, com toda evidncia, tratava-se, em tudo isso, de canto e de msica. Com toda evidncia? Ento por que toda essa emoo de h pouco? Meu
Deus, como Raoul estava infeliz! E, se ele tivesse pegado o homem, a voz de homem, ter-lhe-ia pedido explicaes precisas.
      Por que Christine fugiu? Por que no descia?
      Estava pesarosssimo e sentia enorme dor por ver escoarem-se longe da jovem sueca aquelas horas que esperara to doces. Por que ela no vinha percorrer com
ele a regio em que tantas lembranas lhes eram comuns? E por que, como ela parecia nada mais ter para fazer em Perros e que de fato ela nada fazia ali, no retomava
logo o caminho de Paris? Ele soubera que, pela manh, tinha mandado rezar uma missa pelo descanso da alma do pai e que havia passado longas horas em orao na igrejinha
e junto ao tmulo do menestrel.
      Triste, desanimado, Raoul partiu em direo ao cemitrio que rodeava a igreja. Empurrou o porto. Vagou solitrio entre os tmulos, decifrando as inscries,
mas quando estava chegando atrs da abside, foi logo informado pela nota brilhante das flores que suspiravam sobre o granito sepulcral e transbordavam at por sobre
a terra branca. Elas perfumavam todo aquele canto gelado do inverno breto. Eram miraculosas rosas vermelhas que pareciam ter desabrochado pela manh, na neve. Eram
um pouco de vida entre os mortos, pois a morte, ali, estava por toda parte. Tambm ela transbordava da terra que tinha rejeitado o seu excesso de cadveres. Esqueletos,
crnios s centenas estavam amontoados contra a parede da igreja, presos apenas por uma ligeira tela de arame que deixava descoberto todo o macabro edifcio. As
caveiras, empilhadas, alinhadas como tijolos, consolidadas nos intervalos por ossos limpamente brancos, pareciam formar o primeiro alicerce sobre o qual se tinham
construdo as paredes da sacristia. A porta da sacristia abria-se no meio desse ossurio, tal como se vem muitos ao longo das velhas igrejas bretas.
      Raoul rezou por Daa, depois, lamentavelmente impressionado por esses sorrisos eternos que tm as bocas das caveiras, saiu do cemitrio, subiu o outeiro e
sentou-se  beira da landa que domina o mar. O vento corria bravo pelas praias, latindo atrs da pobre e tmida claridade do dia. Esta cedeu, fugiu, e ficou apenas
uma fmbria lvida no horizonte. Ento, calou-se o vento. Era noite. Raoul estava envolto em sombras geladas, mas no sentia frio. O seu pensamento vagava pela landa
deserta e desolada. Fora ali, naquele lugar, que estivera tantas vezes, ao cair da noite, com a pequena Christine, para ver danar os "korrigans", bem no momento
em que a lua se levanta. No que lhe diz respeito, nunca os tinha visto, embora tivesse vista excelente. Christine, pelo contrrio, que era um pouco mope, assegurava
ter visto muitos deles. Essa idia f-lo sorrir e, a seguir, de repente, ele estremeceu. Uma forma, uma forma precisa, mas que tinha chegado ali sem que se soubesse
como, sem que o menor rudo tivesse avisado, uma forma de p ao seu lado, estava dizendo:
      - Voc acredita que os "korrigans" viro esta noite?
      Era Christine. Ele quis falar. Ela lhe tapou a boca com a mo enluvada.
      - Escute-me, Raoul, estou resolvida a lhe dizer algo de grave, muito grave!
      A voz dela tremia. Ele esperou. Ela recomeou a falar, oprimida.
      - Voc est lembrado, Raoul, da lenda do Anjo da msica?
      - Se me lembro! - disse ele. - Creio que foi aqui que o seu pai nos contou essa lenda pela primeira vez.
      - Foi aqui tambm que ele me disse: "Quando eu estiver no cu, minha menina, vou envi-lo a voc". Pois bem, Raoul, meu pai est no cu e eu recebi a visita
do Anjo da msica.
      - No duvido - replicou o rapaz com seriedade, pois achava que, num pensamento piedoso, a amiga misturava a lembrana do pai com o brilho do seu ltimo triunfo.
      Christine pareceu ligeiramente admirada com o sangue-frio com que o visconde de Chagny tomava conhecimento de que ela recebera a visita do Anjo da msica.
      - Como voc entende isso, Raoul? - inquiriu ela, inclinando suas faces plidas to perto do rosto do rapaz que este pensou que Christine ia lhe dar um beijo,
mas ela s queria ler, apesar das trevas, dentro dos seus olhos.



      - Entendo - replicou ele - que uma criatura humana no canta como voc cantou na outra noite sem que intervenha um milagre, sem que o Cu tenha a ver com isso.
No existe professor na face da terra que possa ensinar semelhantes inflexes. Voc ouviu o Anjo da msica, Christine.
      - Sim, no meu camarim.  l que ele vem me dar lies dirias. O tom com que disse isso era to penetrante e to singular que
      Raoul olhou para ela preocupado, como se olha uma pessoa que diz uma enormidade ou afirma alguma viso enlouquecida em que acredita com todas as foras do
seu pobre crebro doente. Mas ela havia recuado e j no era mais, imvel, do que uma sombra na noite.
      - No seu camarim? - repetiu ele como um eco imbecil.
      - Sim, foi l que eu o ouvi, e no fui a nica a ouvi-lo...
      - Quem mais o ouviu, Christine?
      - Voc, meu amigo.
      - Eu? Eu ouvi o Anjo da msica?
      - Sim, naquela noite, era ele quem estava falando enquanto voc escutava atrs da porta do meu camarim. Foi ele quem me disse: "E preciso me amar". Mas eu
achava que era a nica que podia perceber a voz dele. Assim, imagine o meu espanto quando soube, hoje de manh, que voc tambm podia ouvi-lo...
      Raoul deu uma gargalhada. E imediatamente dissipou-se a noite sobre a landa deserta e os primeiros raios da lua vieram envolver os dois jovens. Christine tinha-se
voltado, hostil, para Raoul. Os seus olhos, geralmente to meigos, lanavam raios.
      - Por que voc est rindo? Voc acha, talvez, que ouviu uma voz de homem?
      - Nossa Senhora! - respondeu o rapaz, cujas idias comeavam a se atrapalhar diante da atitude de combate de Christine.
      - E voc, Raoul! voc quem me diz isso! Um antigo companheirinho meu! um amigo do meu pai! No estou reconhecendo voc. Mas o que  que voc est pensando?
Eu sou uma moa honesta, senhor visconde de Chagny, e no me tranco com vozes de homem no meu camarim. Se voc tivesse aberto a porta, teria visto que no tinha
ningum l!
      -  verdade! Quando voc saiu, eu abri a porta e no encontrei ningum no camarim...
      - Voc est vendo... ento?
      O visconde fez apelo  sua coragem.
      - Ento, Christine, eu acho que esto zombando de voc! Ela deu um grito e fugiu. Ele correu atrs, mas ela, numa irritao feroz, lhe lanou as seguintes
palavras:
      - Me deixe! me deixe!
      E desapareceu. Raoul voltou  hospedaria muito cansado, desanimado e triste.
      Soube que Christine acabara de subir para o seu quarto e avisara que no desceria para jantar. O rapaz perguntou se ela no estava doente. A boa hospedeira
respondeu-lhe de maneira ambgua que, se estava sofrendo, devia ser de um mal no muito grave e, como ela achava que os dois enamorados estavam zangados, afastou-se
erguendo os ombros e exprimindo sorrateiramente o d que tinha de jovens que desperdiam em vs disputas as horas que Deus lhes permitiu passar sobre a terra. Raoul
jantou sozinho, no canto perto da lareira, e, como vocs podem imaginar, de maneira bastante aborrecida. J no quarto, tentou ler, depois, na cama, tentou dormir.
No se ouvia rudo algum no apartamento ao lado. Que estaria fazendo Christine? Estaria dormindo? E, se no, em que estaria pensando? E ele estava pensando em qu?
Teria sido capaz de dizer? A conversa estranha que tivera com Christine o tinha perturbado completamente!... Pensava menos em Christine do que em torno de Christine,
e esse "em torno" era to difuso, to nebuloso, to impalpvel que lhe causava um mal-estar curiosssimo e muito angustiante.
      Assim, as horas passavam muito lentas; podiam ser onze e meia da noite quando ouviu distintamente algum andar no quarto vizinho. Era um passo ligeiro, furtivo.
Christine no se tinha deitado ento? Sem arrazoar o seu gesto, o rapaz se vestiu s pressas, cuidando para no fazer nenhum barulho. E, pronto para tudo, ficou
esperando. Pronto para qu? Ser que ele sabia? O seu corao deu um salto quando ouviu a porta de Christine girar lentamente sobre os gonzos. Aonde iria ela quela
hora em que tudo descansava em Perros? Entreabriu levemente a sua porta e pde ver, num raio de luar, a forma branca de Christine que deslizava com precauo pelo
corredor. Atingiu a escada, desceu, e ele, acima dela, debruou-se sobre a rampa. Sbito, ouviu duas vozes que conversavam rapidamente. Uma frase lhe chegou: "No
perca a chave". Era a voz da hospedeira. Embaixo, abriram a porta que dava para a enseada. Fecharam-na. A forma branca de Christine erguia-se sobre o cais deserto.
      Aquele primeiro andar da Hospedaria do Sol-Poente no era alto e uma rvore que esparramava os galhos at os braos impacientes de Raoul permitiu que este
sasse sem que a hospedeira desconfiasse de sua ausncia. Assim, qual no foi a estupefao da boa senhora, na manh do dia seguinte, quando lhe trouxeram o rapaz
quase congelado, mais morto do que vivo, e lhe contaram que o tinham encontrado estendido nos degraus do altar-mor da igrejinha de Perros. Correu para dar imediatamente
a notcia a Christine, que desceu s pressas e prodigalizou, ajudada pela hospedeira, os seus cuidados preocupados ao rapaz, que no tardou em abrir os olhos e voltou
completamente  vida ao perceber, acima de si, o rosto encantador da amiga.
      O que havia acontecido? O delegado Mifroid teve a oportunidade, algumas semanas mais tarde, quando o drama da pera provocou a interveno do ministrio pblico,
de interrogar o visconde de Chagny sobre os acontecimentos da noite de Perros, e eis de que modo estes foram transcritos nas folhas do relatrio de inqurito. (Cota
150).
      Pergunta: - A Srta. Daa no tinha visto o senhor descer do seu quarto pelo singular caminho que escolheu?
      Resposta: - No, senhor, no, no. Entretanto, cheguei por trs dela sem cuidar de abafar o rudo dos meus passos. Naquele momento eu s queria uma coisa:
que ela se virasse e me visse, e que me reconhecesse. Acabava de dizer a mim mesmo, de fato, que a minha perseguio era totalmente incorreta e que o tipo de espionagem
a que me entregava no era digno de mim. Mas ela no pareceu me ouvir e, realmente, agiu como se eu no estivesse ali. Deixou tranqilamente o cais e ento, de repente,
subiu depressa o caminho. O relgio da igreja acabara de bater um quarto para meia-noite, e pareceu-me que o som da hora determinou a pressa da sua corrida, pois
ela comeou quase a correr. Assim, ela chegou  porta do cemitrio.
      P: - A porta do cemitrio estava aberta?
      R: - Estava, sim, senhor, e isso me surpreendeu, mas parece no ter causado espanto  Srta. Daa.
      P: - No havia ningum no cemitrio?
      R: - Eu no vi ningum. Se houvesse algum, eu teria visto. O luar estava ofuscante e a neve que cobria a terra, devolvendo-nos os seus raios, tornava a noite
mais clara ainda.
      P: - No podia algum se esconder atrs dos tmulos?
      R.: - No, senhor. Eram pobres lpides que desapareciam debaixo da camada de neve e que alinhavam as suas cruzes rente com o cho. As nicas sombras eram as
das cruzes e as nossas duas. A igreja era banhada pela claridade. Eu nunca vi tamanha luz noturna. Era um espetculo belssimo, muito transparente e muito frio.
Nunca tinha ido em cemitrios  noite e ignorava que se pudesse encontrar ali tamanha luz, "uma luz que no pesa nada".
      P: - O senhor  supersticioso?
      R.: - No, senhor, eu tenho minha f.
      P.: - Em que estado de esprito o senhor estava?
      R: - Muito so e tranqilo, palavra.  certo que a sada inslita da Srta. Daa tinha-me perturbado muito de incio; mas logo que vi a moa penetrar no cemitrio,
disse a mim mesmo que ela estava indo cumprir algum voto no tmulo do pai e achei a coisa to natural que recobrei a calma. Estava apenas admirado de que ela ainda
no me tivesse ouvido andar atrs dela, porque a neve estalava sob os meus ps. Mas certamente ela estava por demais absorvida em seu pensamento piedoso. Resolvi,
alis, no perturb-la e, quando ela chegou ao tmulo do pai, fiquei a alguns passos para trs. Ela se ajoelhou na neve, fez o sinal-da-cruz e comeou a rezar. Nesse
momento deu meia-noite. A dcima segunda badalada ressoava ainda no meu ouvido quando, de repente, vi a moa levantar a cabea; o seu olhar fixou-se na abbada celeste,
os braos se estenderam para o astro das noites; ela pareceu-me em xtase e eu me perguntava ainda qual tinha sido a razo sbita e determinante desse xtase quando
eu prprio levantei a cabea, lancei em torno de mim um olhar desvairado e todo o meu ser tendeu para o Invisvel, o invisvel que tocava msica para ns. E que
msica! J a conhecamos! Christine e eu j a tnhamos ouvido em nossa juventude. Mas nunca no violino do Sr. Daa ela se tinha expressado com uma arte to divina.
O melhor que pude fazer, nesse instante, foi lembrar-me de tudo que Christine acabara de dizer do Anjo da msica, e no soube bem o que pensar desses sons inesquecveis
que, se no desciam do cu, deixavam ignorar a sua origem na terra. No havia instrumento nem mo para conduzir o arco. Oh! lembrei-me da admirvel melodia. Era
a Ressurreio de Lzaro, que o Sr. Daa nos tocava nas suas horas de tristeza e de f. Tivesse existido o Anjo de Christine, no teria tocado melhor naquela noite
o violino do falecido menestrel. A invocao de Jesus nos arrebatava da terra, e, palavra, eu esperei quase ver a pedra do tmulo do pai de Christine se levantar.
Veio-me tambm a idia de que Daa havia sido enterrado com o seu violino e, na verdade, eu no sabia at onde, nesse minuto fnebre e radiante, no fundo desse pequeno
cemitrio escondido de provncia, ao lado dessas caveiras que riam para ns com todas aquelas mandbulas imveis, no, eu no sei at onde se foi a minha imaginao,
nem onde ela parou. Mas a msica se calou e recobrei os meus sentidos. Pareceu-me ouvir barulho do lado das caveiras do ossurio.
      R: - Ah! o senhor ouviu barulho do lado do ossurio?
      R: - Ouvi; pareceu-me que as cabeas dos mortos davam risadinhas agora e no pude impedir-me de me arrepiar.
      R: - O senhor no pensou logo que atrs do ossurio podia estar escondido justamente o msico celeste que tanto o encantava?
      R.: - Tanto pensei nisso que s fiquei pensando nisso, senhor delegado, e me esqueci de seguir a Srta. Daa que acabava de se levantar e tranqilamente alcanava
a porta do cemitrio. Quanto a ela, estava to absorvida que no  de espantar que no me tenha visto. No arredei p, de olhos fixos no ossurio, decidido a ir
at o fim dessa incrvel aventura e conhecer-lhe o verdadeiro sentido.
      R: - O que foi que aconteceu ento para acharem o senhor na manh seguinte, estendido e meio morto nos degraus do altar-mor?
      R.: - Oh! Foi rpido... Uma caveira rolou a meus ps... depois outra... mais outra... Parecia que eu era a meta desse fnebre jogo de bolas. E tive o pensamento
de que algo devia ter destrudo a harmonia do andaime atrs do qual se escondia o nosso msico. Esta hiptese me pareceu ainda mais razovel porque uma sombra deslizou
de repente pelo muro brilhante da sacristia. Eu me precipitei. A sombra j tinha, empurrando a porta, penetrado na igreja. Eu tinha asas, a sombra tinha um manto.
Fui bastante rpido para agarrar uma ponta do manto da sombra. Nesse momento, estvamos, a sombra e eu, bem diante do altar-mor e os raios da lua, atravs do grande
vitral da abside, caam diretamente  nossa frente. Como no larguei o manto, a sombra se voltou e, abrindo-se o manto com que estava envolta, eu vi, senhor juiz,
como estou vendo o senhor, uma medonha caveira que dardejava sobre mim um olhar em que ardiam os fogos do inferno. Acreditei estar tratando com o prprio Satans
e, diante dessa apario de alm-tmulo, o meu corao, apesar de toda a sua coragem, desfaleceu, e eu no me lembro de mais nada at o momento em que acordei no
quartinho da Hospedaria do Sol-Poente.










7

UMA VISITA AO CAMAROTE N 5

      Deixamos os Srs. Firmin Richard e Armand Moncharmin no momento em que decidiam ir fazer uma visitinha ao primeiro camarote n 5.
      Deixaram atrs de si a larga escadaria que conduz do Vestbulo da administrao ao palco e a suas dependncias; atravessaram o palco (o tablado), entraram
no teatro pela entrada dos assinantes, depois, na sala, pelo primeiro corredor  esquerda. Resvalaram ento entre as poltronas da platia e olharam para o primeiro
camarote n 5. Enxergaram-no mal porque estava mergulhado em uma semi-escurido e porque imensas capas tinham sido jogadas por sobre o veludo vermelho dos apoios
de brao.
      Nesse momento, estavam quase ss na imensa nave tenebrosa e um grande silncio os cercava. Era a hora tranqila em que os maquinistas vo beber.
      A equipe tinha momentaneamente esvaziado o palco, deixando um cenrio meio plantado; algumas rstias de luz (uma luz opaca, sinistra, que parecia roubada de
um astro moribundo) tinham-se insinuado, por no se sabe que abertura, at uma velha torre que levantava as suas ameias de papelo sobre o palco; as coisas, nessa
noite factcia, ou melhor, nesse dia enganoso, tomavam estranhas formas. Sobre as poltronas da platia, o pano que as cobria parecia um mar em fria, cujas vagas
glaucas tinham sido instantaneamente imobilizadas pela ordem secreta do gigante das tempestades, que, como todos sabem, se chama Adamastor. Moncharmin e Richard
eram os nufragos dessa reviravolta imvel de um mar de pano pintado. Avanavam em direo dos camarotes da esquerda, com grandes braadas, como marujos que abandonaram
o bote e procuram alcanar a praia. As oito grandes colunas de mrmore polido erguiam-se na sombra como outros tantos prodigiosos pilotis destinados a sustentar
a falsia ameaadora, barriguda e prestes a desmoronar, cujas fundaes eram representadas pelas linhas circulares, paralelas e arcadas dos parapeitos dos primeiros,
segundos e terceiros camarotes. Do alto, bem no alto da falsia, dependuradas no cu de cobre de Lenepveu, figuras faziam caretas, riam, zombavam da inquietao
dos Srs. Moncharmin e Richard. Elas se chamavam sis, Anfitrite, Hebia, Flora, Pandora, Psique, Ttis, Pomona, Dafne, Cltia, Galatia, Aretusa. Sim, a prpria
Aretusa e Pandora, que todos conhecem por causa de sua caixa, olhavam para os novos diretores da pera que acabavam de se agarrar em algum destroo e, de l, contemplavam
em silncio o primeiro camarote n 5. Disse que estavam inquietos. Pelo menos, presumo. Moncharmin, em todo caso, confessava-se impressionado. Disse textualmente:

      Aquele balano (que estilo!) do fantasma da pera, sobre o qual nos fizeram to gentilmente subir, desde que assumimos a sucesso dos
      Srs. Poligny e Debienne, acabou, sem dvida, por perturbar as minhas faculdades imaginativas e, afinal de contas, visuais, pois (seria o cenrio excepcional
em que nos movamos, no centro de um incrvel silncio que nos impressionou a esse ponto?... Teramos sido joguete de uma espcie de alucinao possibilitada pela
quase escurido da sala e a penumbra que envolvia o camarote n. 5?) eu vi e Richard tambm viu, no mesmo instante, uma forma no camarote n. 5. Richard no disse
nada, nem eu, alis. Mas seguramos a mo um do outro num mesmo gesto. Depois, esperamos assim alguns minutos, sem nos mexer, com os olhos sempre fixos no mesmo ponto:
mas a forma tinha sumido. Ento, samos e, no corredor, trocamos as nossas impresses e falamos da forma. O problema  que a minha forma, a que eu vi, no era absolutamente
a forma de Richard. Eu tinha visto como uma espcie de caveira que estava colocada no rebordo do camarote, ao passo que Richard tinha vislumbrado uma forma de mulher
velha que era parecida com a Sra. Giry. Tanto assim que ns vimos e corremos sem demora, rindo como loucos, para o primeiro camarote n. 5, no qual entramos e no
achamos ningum.

      E agora aqui estamos no camarote n 5.
       um camarote como todos os outros primeiros camarotes. Na verdade, nada o distingue dos outros.
      Moncharmin e Richard, divertindo-se ostensivamente e rindo um do outro, remexiam os mveis do camarote, levantavam as capas e as poltronas e examinavam particularmente
aquele em que a voz tinha o costume de sentar-se. Mas constataram que era uma poltrona honesta, que nada tinha de mgica. Em suma, o camarote era o mais normal dos
camarotes, com a sua tapearia vermelha, poltronas, carpete, e seu apoio de brao em veludo vermelho. Aps ter apalpado o mais seriamente possvel o carpete e no
ter achado, deste lado como dos outros, nada de especial, desceram para a frisa n 5, que fica bem no canto da primeira sada  esquerda das poltronas da platia,
e no encontraram nada tampouco que merecesse ser mencionado.
      - Toda essa gente est zombando de ns - acabou por exclamar Firmin Richard. - Sbado leva-se Fausto; ns dois vamos assistir  representao no primeiro camarote
n 5!








8

EM QUE OS SRS. FIRMIN RICHARD E ARMAND MONCHARMIN TM A AUDCIA DE FAZER REPRESENTAR FAUSTO NUMA SALA MALDITA, E O PAVOROSO ACONTECIMENTO QUE DISSO RESULTOU

      Mas no sbado de manh, ao chegarem ao seu gabinete, os diretores encontraram uma carta dupla do fantasma da pera com o seguinte teor:

      Meus caros diretores,
      Ento  a guerra?
      Se os senhores ainda fazem questo da paz, aqui vai o meu ultimtum.
      Ele est nas quatro condies seguintes:
      1 Devolver-me o meu camarote - e quero que esteja ao meu inteiro dispor a partir de agora;
      2 O papel de Margarida ser cantado esta noite por Christine Daa. No se preocupem com a Carlotta, que estar doente;
      3 Fao absoluta questo de continuar com os bons e leais servios da Sra. Giry, minha lanterninha, a quem os senhores reintegraro imediatamente em suas funes;
      4 Dem-me conhecimento, mediante uma carta entregue a Sra. Giry, que a passar s minhas mos, de que os senhores aceitam, como os seus predecessores, as
condies do meu caderno de encargos relativas aos meus honorrios mensais. Comunicarei ulteriormente aos senhores de que forma devero fazer o pagamento.
      Seno, os senhores levaro Fausto, esta noite, em uma sala maldita.
      A bom entendedor, saudaes!
      F. da .
      - Ora bolas, para mim, ele j est enchendo as minhas medidas!... Est enchendo!... - urrou Richard, levantando os punhos vingadores e deixando-os cair ruidosamente
sobre a mesa do seu gabinete.
      Entrementes, Mercier, o administrador, entrou.
      - Lachenal gostaria de falar com um dos senhores - disse. - Parece um caso urgente, e o homem me parece completamente alterado.
      - Quem  esse Lachenal? - perguntou Richard.
      -  o seu escudeiro-chefe.
      - Como! meu escudeiro-chefe?
      - Sim, senhor - explicou Mercier. - Existem na pera vrios escudeiros, e o Sr. Lachenal  o chefe deles.
      - E o que  que faz esse escudeiro?
      -  responsvel pela alta direo da estrebaria.
      - Que estrebaria?
      - A sua, meu senhor. A estrebaria da pera.
      - Existe uma estrebaria na pera? Palavra que eu no sabia! E onde  que ela fica?
      - Na parte de baixo, do lado da Rotunda. E um servio muito importante, ns temos doze cavalos.
      - Doze cavalos! E para fazer o qu, Deus do cu?
      - Ora, para os desfiles de A judia, do Profeta etc, so necessrios cavalos adestrados, que "saibam representar no palco". Os escudeiros esto encarregados
de ensinar isso a eles. O Sr. Lachenal  extremamente habilidoso nisso. Ele  o antigo diretor das estrebarias de Franconi.
      - Muito bem... mas o que  que ele quer de mim?
      - Eu no sei de nada... Nunca o vi em semelhante estado.
      - Mandem-no entrar!...
      O Sr. Lachenal entra. Traz um chicote na mo e aoita nervosamente com ele uma de suas botas.
      - Bom dia, Sr. Lachenal - disse Richard, impressionado. - A que devemos a honra da sua visita?
      - Senhor diretor, venho lhe pedir para pr toda a estrebaria no olho da rua.
      - Como! O senhor quer pr os nossos cavalos no olho da rua?
      - No se trata dos cavalos, mas dos cavalarios.
      - Quantos cavalarios o senhor tem, Sr. Lachenal?
      - Seis!
      - Seis cavalarios! Tem pelo menos dois a mais!
      - So "vagas" que foram criadas e nos foram impostas pela Subsecretaria das Belas-Artes. Esto sendo ocupadas por protegidos do governo, e se ouso me permitir...
      - O governo, estou pouco ligando para ele!... - afirmou Richard com energia. - No precisamos de mais de quatro cavalarios para doze cavalos.
      - Onze! - retificou o escudeiro-chefe.
      - Doze! - insistiu Richard.
      - Onze! - redarguiu Lachenal.
      - Ah! foi o administrador quem me disse que o senhor tinha doze cavalos!
      - Tinha doze, mas agora s tenho onze, desde que nos roubaram o Csar!
      E, ao dizer isso, o Sr. Lachenal d uma forte chicotada na bota.
      - Roubaram o Csar - gritou o administrador. - Csar, o cavalo branco do Profeta.
      - No existem dois Csares! - declarou em tom seco o escudeiro-chefe. - Estive dez anos a servio de Franconi e vi um bocado de cavalos! Pois bem, no existem
dois Csares! E nos roubaram esse cavalo.
      - Como assim?
      - Eu no sei de nada! Ningum sabe de nada! A est por que eu estou lhe pedindo para pr toda a estrebaria no olho da rua.
      - O que  que eles dizem, os seus cavalarios?
      - Asneiras... uns acusam os figurantes... outros pretendem que foi o porteiro da administrao.
      - O porteiro da administrao? Respondo por ele como por mim mesmo! - protestou Mercier.
      - Mas afinal, senhor primeiro-escudeiro - bradou Richard -, o senhor deve ter alguma idia!...
      - Pois bem, tenho, tenho uma idia! - declarou de repente o Sr. Lachenal -, e vou lhes dizer qual . Para mim, no h dvida. - O primeiro-escudeiro aproximou-se
dos diretores e lhes cochichou no ouvido: - Foi o fantasma da pera quem deu esse golpe!
      Richard levou um susto.
      - Ah! o senhor tambm! o senhor tambm!
      - Como? eu tambm?  a coisa mais natural do mundo...
      - Mas como ento! Sr. Lachenal!, mas como ento, Sr. primeiro-escudeiro.. .
      - Vou dizer o que  que eu penso depois do que vi.
      - E o que  que o senhor viu, Sr. Lachenal?
      - Eu vi, como estou vendo o senhor, uma sombra negra que montava um cavalo branco que se parecia como duas gotas de gua com o Csar!
      - E o senhor no correu atrs desse cavalo branco e dessa sombra preta?
      - Eu corri e chamei, senhor diretor, mas eles fugiram com uma rapidez desconcertante e desapareceram na noite da galeria...
      O Sr. Richard se levantou.
      - Est bem, Sr. Lachenal. O senhor pode se retirar... ns vamos registrar queixa contra o fantasma...
      - E o senhor vai botar a minha estrebaria no olho da rua!
      - Certo! At logo, meu senhor.
      O Sr. Lachenal cumprimentou e saiu. Richard estava espumando.
      - O senhor vai fazer as contas desse imbecil!
      - Ele  amigo do comissrio do governo! - ousou Mercier...
      - E ele toma o aperitivo em Tortoni com Lagren, Scholl e Pertuiset, o matador de lees - acrescentou Moncharmin. - Vo colocar toda a imprensa nos seus calcanhares!
Ele vai contar a histria do fantasma e todo mundo vai se divertir  nossa custa! Se cairmos no ridculo, estamos mortos!
      - Est certo, no se fala mais nisso... - concedeu Richard, que j estava pensando noutra coisa.
      Nesse momento a porta se abriu e, sem dvida, essa porta no estava sendo ento defendida por seu crbero costumeiro, pois se viu entrar de supeto a Sra.
Giry com uma carta na mo e dizer precipitadamente:
      - Com licena, desculpem, meus senhores, mas recebi hoje de manh uma carta do fantasma da pera. Ele me diz para passar aqui, pois aparentemente os senhores
tm alguma coisa para me...
      No terminou a frase. Viu o rosto de Firmin Richard e ele estava terrvel. O honorvel diretor da pera estava prestes a explodir. O furor que o agitava ainda
no se traduzia exteriormente seno pela cor escarlate de suas faces furibundas e pelo brilho dos seus olhos fulgurantes. Ele no disse nada. No podia falar. Mas,
de repente, o seu gesto saiu. Foi primeiro o brao esquerdo que pegou a risvel pessoa da Sra. Giry e f-la descrever uma meia-volta to inesperada, uma pirueta
to rpida que esta soltou um clamor desesperado e, depois, foi o p direito do mesmo honorvel diretor que foi imprimir a sua sola no tafet preto de uma saia que,
certamente, ainda no tivera, num lugar desses, recebido tamanho ultraje.
      O acontecimento fora to precipitado que a Sra. Giry, quando j se encontrava na galeria, estava ainda atordoada e parecia no entender o que se passara. Mas,
de repente, entendeu, e a pera ressoou com os seus gritos indignados, com os seus protestos violentos, com as suas ameaas de morte. Foram necessrios trs rapazes
para lev-la para baixo, at o ptio da administrao, e dois policiais para carreg-la at a rua.
      Mais ou menos na mesma hora, Carlotta, que morava num pequeno hotel da rua do Faubourg-Saint-Honor, tocava a campainha para chamar a camareira e pedir-lhe
que trouxesse a correspondncia at a cama. Nessa correspondncia encontrou uma carta annima que dizia:

      Se voc cantar esta noite, tema que lhe acontea uma grande desgraa no momento mesmo em que estiver cantando... uma desgraa pior do que a morte.

      Essa ameaa estava traada em vermelho, com uma letra hesitante e feita de bastezinhos.
      Lida a carta, Carlotta ficou sem apetite para tomar o caf da manh. Empurrou a bandeja sobre a qual a camareira lhe apresentava o chocolate fumegante. Sentou-se
na cama e refletiu profundamente. No era a primeira carta do gnero que recebia, mas nunca tinha lido nenhuma to ameaadora.
      Ela acreditava, nesse momento, ser vtima das mil tramas do cime e contava a todos que tinha um inimigo secreto que havia jurado a sua runa. Pretendia que
se urdia contra ela alguma armao maldosa, alguma cabala que explodiria qualquer dia desses; mas no era mulher de se deixar intimidar, acrescentava.
      A verdade era que, se cabala havia, esta era conduzida pela prpria Carlotta contra a pobre Christine, que nem desconfiava de nada. Carlotta no perdoara a
Christine o triunfo que arrebatara quando a substitura de ltima hora.
      Quando lhe contaram a acolhida extraordinria que tinham dado  sua substituta, Carlotta se sentira instantaneamente curada de um incio de bronquite e de
um acesso de mau humor contra a administrao, e nunca mais mostrara a menor veleidade de abandonar o emprego. Desde o episdio, vinha trabalhando com todas as foras
para "abafar" a sua rival, fazendo agir amigos poderosos junto dos diretores para que no dessem a Christine qualquer oportunidade de novo triunfo. Certos jornais
que tinham comeado a cantar o talento de Christine s cuidavam agora da glria de Carlotta. Enfim, mesmo no teatro, a clebre diva dizia sobre Christine as coisas
mais ultrajantes e tentava causar-lhe mil pequenos aborrecimentos.
      Carlotta no tinha nem corao nem alma. Era apenas um instrumento! Um maravilhoso instrumento, por certo. Seu repertrio inclua tudo aquilo que pode tentar
a ambio de uma grande artista, tanto entre os mestres alemes quanto os italianos ou franceses. Jamais se ouviu, at o dia de hoje, Carlotta cantar errado, ou
ter falta do volume de voz necessrio para a traduo de qualquer passagem do seu repertrio imenso. Em suma, o instrumento era possante e de uma preciso admirvel.
Mas ningum poderia ter dito a Carlotta o que Rossini dizia a Krauss, depois de ela ter cantado para ele, em alemo, Sombrias florestas: "Voc canta com a alma,
minha filha, e a sua alma  bela!"
      Onde estava a tua alma,  Carlotta, quando danavas nas espeluncas de Barcelona? Onde estava ela quando, mais tarde, em Paris, cantavas, sobre os tristes tablados,
as tuas canes cnicas de bacante de music-hall? Onde estava a tua alma quando, diante dos senhores reunidos na casa de um de teus amantes, fazias ressoar esse
instrumento dcil cujo aspecto maravilhoso est em cantar com a mesma perfeio indiferente o sublime amor e a mais baixa orgia?  Carlotta, se jamais tivesses tido
uma alma e a tivesses perdido ento, t-la-ias recuperado quando te tornaste Julieta, quando foste Elvira, e Oflia, e Margarida! Porque outras subiram de mais baixo
que tu e a quem a arte, ajudada pelo amor, purificou!
      Na verdade, quando penso em todas as vilanias que Christine Daa teve de sofrer, nessa poca, da parte dessa Carlotta, no posso reter a minha clera, e no
posso me espantar de que a minha indignao se traduza em comentrios um pouco vastos sobre a arte em geral e sobre a do canto em particular, em que os admiradores
de Carlotta no tero por certo nenhum interesse.
      Quando Carlotta terminou de refletir sobre a ameaa da estranha carta que acabara de receber, levantou-se.
      - Veremos - retorquiu ela... E pronunciou em espanhol alguns juramentos, com um jeito bastante resoluto.
      A primeira coisa que viu ao botar o nariz para fora da janela foi um carro morturio. O carro morturio e a carta persuadiram-na de que corria os mais srios
riscos naquela noite. Reuniu em sua casa o bando e o sub-bando de seus amigos, informou-os de que estava ameaada, na representao da noite, de uma cabala organizada
por Christine Daa, e declarou que era necessrio pregar uma pea naquela menina enchendo a sala com os seus prprios admiradores. Eles no lhe faltavam, no ?
Contava que eles estivessem prontos para qualquer eventualidade e que conseguiria fazer calarem-se os perturbadores se, como temia, eles desencadeassem o escndalo.
      Tendo o secretrio particular do Sr. Richard vindo em busca de notcias da sade da diva, voltou com a garantia de que ela estava se sentindo muitssimo e,
"mesmo que estivesse agonizando", cantaria naquela mesma noite o papel de Margarida. Como o secretrio havia, da parte de seu chefe, recomendado  diva que no cometesse
nenhuma imprudncia, que no sasse de casa e evitasse vento encanado, Carlotta no pde deixar de relacionar essas recomendaes excepcionais e inesperadas com
as ameaas contidas na carta.
      Eram cinco horas quando ela recebeu pelo correio uma nova carta annima com a mesma letra da primeira. Era breve. Dizia simplesmente:
      Voc est resfriada; se fosse razovel, entenderia que  loucura querer cantar hoje  noite.
      Carlotta deu um sorrisinho de desprezo, levantou os ombros, que eram magnficos, e lanou ao ar duas ou trs notas que lhe deram total segurana.
      Os amigos dela foram fiis  promessa. Estavam todos presentes, naquela noite, na pera, mas procuraram em vo em torno de si aqueles ferozes conspiradores
que tinham recebido a misso de combater. Se se fizesse exceo de alguns profanos, alguns corretos burgueses cujo semblante plcido outra inteno no refletia
a no ser a de ouvir novamente uma msica que, j havia muito, conquistara os seus sufrgios, s havia ali os freqentadores habituais cujos costumes elegantes,
pacficos e corretos afastavam qualquer idia de manifestao. A nica coisa que parecia anormal era a presena dos Srs. Richard e Moncharmin no camarote n. 5.
Os amigos de Carlotta pensaram que, talvez, os diretores tivessem ouvido, de sua parte, algum rumor do escndalo projetado e resolvido se fazerem presentes na sala
para sust-lo logo que eclodisse, mas era uma hiptese injustificada, como vocs sabem; os Srs. Richard e Moncharmin s pensavam no fantasma.
      Nada?... Em vo interrogo a velar incendido
      A Natureza e o Criador.
      Nenhuma voz sussurra ao meu ouvido
      Algo consolador!...
      O clebre bartono Carolus Fonta mal acabava de lanar o primeiro apelo do doutor Fausto s potncias do inferno quando Firmin Richard, que se tinha sentado
na prpria poltrona do fantasma - a da direita, na primeira fila - se inclinou, com o melhor humor do mundo, em direo de seu scio e lhe disse:
      - E voc, alguma voz j sussurrou algo em seu ouvido?
      - Vamos esperar! no tenhamos tanta pressa - respondeu no mesmo tom brincalho Armand Moncharmin. - A representao apenas comeou e voc bem sabe que o fantasma
s chega geralmente l pelo meio do primeiro ato.
      O primeiro ato se passou sem incidente, o que no causou espanto aos amigos de Carlotta, visto que Margarida, nesse ato, no canta. Quanto aos diretores, ao
cair do pano, entreolharam-se a sorrir:
      - Um j se foi! - disse Moncharmin.
      - Certo, o fantasma est atrasado - declarou Firmin Richard.
      Moncharmin, sempre pilheriando, acrescentou:
      - Afinal, a sala no est to mal composta assim, esta noite, para uma sala maldita.
      Richard dignou-se a sorrir. Mostrou ao seu colaborador uma senhora gorda, bastante vulgar, vestida de preto, que estava sentada numa poltrona no meio da sala,
ladeada por dois homens de aspecto rude em suas casacas de casimira.
      - Quem  aquele "pessoalzinho" ali? - perguntou Moncharmin.
      - Aquele pessoalzinho, meu caro,  a minha zeladora, o irmo e o marido dela.
      - Voc deu entradas para eles?
      - Dei, por que no?... Minha zeladora nunca tinha vindo  pera...  a primeira vez... e como, agora, ela deve vir todas as noites, quis que estivesse num
bom lugar antes de passar o tempo a indicar o lugar dos outros.
      Moncharmin pediu explicaes e Richard lhe informou que tinha convencido a zeladora, em quem tinha inteira confiana, a vir, por algum tempo, tomar o lugar
da Sra. Giry.
      - A propsito da velha Giry - disse Moncharmin -, voc sabe que ela vai registrar queixa contra voc?
      - Junto a quem? Junto ao fantasma?
      O fantasma! Moncharmin j tinha quase se esquecido dele. Alis, a misteriosa personagem nada estava fazendo para que os diretores se lembrassem dela.
      De repente, a porta se abriu diante do gerente apavorado.
      - O que  que est havendo? - perguntaram ambos, estupefatos de ver o gerente naquele lugar, naquele momento.
      - Est acontecendo - disse o gerente - que uma cabala est montada pelos amigos de Christine Daa contra Carlotta. Ela est furiosa.
      - O que  que significa mais esta histria? - perguntou Richard franzindo as sobrancelhas.
      Mas a cortina se erguia sobre a Quermesse e o diretor fez sinal ao gerente para que se retirasse.
      Quando o gerente deixou o lugar, Moncharmin inclinou-se ao ouvido de Richard:
      - Ento Daa tem amigos? - perguntou.
      - Sim - retrucou Richard -, tem.
      - Quem?
      Richard designou com o olhar um primeiro camarote onde s havia dois homens.
      - O conde de Chagny?
      - E, ele a recomendou para mim... to calorosamente que, se eu no soubesse que ele  o amigo de Sorelli...
      - Ora! ora! - murmurou Moncharmin. - E quem  aquele rapaz to plido, sentado ao seu lado?
      -  o irmo dele, o visconde.
      - Ele faria melhor se fosse se deitar. Est parecendo doente. O palco retumbava de cantos alegres. A embriaguez em msica. Triunfo da taa.
      Vinho ou cerveja, Cerveja ou vinho, Meu copo esteja Sempre cheinho!
      Estudantes, burgueses, soldados, moas e matronas, de corao alegre, turbilhonam diante do cabar com a efgie do deus Baco  porta. Siebel faz a sua entrada.
      Christine estava encantadora fantasiada. Sua juventude franca, sua graa melanclica seduziam  primeira vista. Imediatamente, os partidrios de Carlotta imaginaram
que ela ia ser saudada com uma ovao que lhes daria informaes sobre as intenes dos seus amigos. Essa ovao indiscreta teria sido, alis, de uma inabilidade
enorme. Entretanto, ela no aconteceu.
      Pelo contrrio, quando Margarida atravessou o palco e cantou os dois nicos versos do seu papel nesse segundo ato: No senhores, no sou senhorita to bela,
E eu no necessito que me dem a mo! retumbantes "bravo" acolheram Carlotta. Era to imprevista e to intil aquela manifestao que os que no estavam a par de
nada se olharam perguntando-se o que estava acontecendo, e o ato ainda terminou sem nenhum incidente. Cada um dizia a si mesmo ento: "Vai ser para o prximo ato,
evidentemente". Alguns que estavam, parece, mais bem informados do que os outros afirmaram que o "barulho" devia comear na "Copa do rei de Tule" e se precipitaram
em direo da entrada dos assinantes para ir avisar Carlotta.
      Os diretores deixaram o camarote durante esse intervalo para se informar a respeito dessa histria de cabala de que tinha falado o gerente, mas logo voltaram
dando de ombros e tratando todo esse caso de ninharia. A primeira coisa que viram ao entrar foi, sobre a tabuinha do apoio de mo, uma caixa de bombons ingleses.
Quem a havia posto ali? Interrogaram as lanterninhas. Ningum soube dar informaes. Ao voltarem-se ento novamente para o lado do apoio de mo, viram, desta vez,
ao lado da caixa de bombons ingleses, um binculo. Entreolharam-se. No tinham vontade de rir. Tudo aquilo que a Sra. Giry lhes havia dito voltou-lhes  mente...
e depois... parecia-lhes haver em torno deles como uma estranha corrente de ar... Sentaram-se em silncio, realmente impressionados.
      A cena representava o jardim de Margarida...
      Fazei-lhe minhas confisses. Levai meus votos...
      Enquanto cantava esses dois primeiros versos, com o buqu de rosas e lilases na mo, Christine, levantando a cabea, divisou em seu camarote o visconde de
Chagny e, a partir da, pareceu a todos que a sua voz estava menos segura, menos pura, menos cristalina do que de costume. Alguma coisa que no se sabia tornava
surdo, pesado o seu canto... Havia, por baixo, tremor e temor.
      - Menina estranha - observou quase em voz alta um amigo de Carlotta que estava na platia... Na outra noite, estava divina e, hoje, a est ela balindo. Sem
experincia, sem mtodo!
      Em vs eu confio, sim, Falai por mim.
      O visconde colocou a cabea entre as mos. Chorava. O conde, atrs dele, mordia violentamente a ponta do bigode, levantava os ombros, franzia as sobrancelhas.
Para que traduzisse por tantos sinais exteriores os seus sentimentos ntimos, o conde, normalmente to correto e frio, devia estar furioso. E estava. Tinha visto
o irmo voltar de uma viagem rpida e misteriosa num estado de sade alarmante. As explicaes que seguiram no tinham por certo tido a virtude de tranqilizar o
conde, que, desejoso de saber a que se ater, pedira um encontro com Christine Daa. Esta tivera a audcia de lhe responder que no podia receb-lo, nem a ele nem
ao irmo. Pensou tratar-se de um clculo abominvel. No perdoava Christine por fazer Raoul sofrer, mas sobretudo no perdoava Raoul por sofrer por Christine. Ah!
tinha feito muito mal de interessar-se um instante por essa pequena, cujo triunfo de uma noite permanecia incompreensvel para todos.
      Que a flor em sua boca Saiba depor ao menos Um beijo ameno.
      - Vai, fingida - resmungou o conde.
      E ele se perguntou o que ela queria... o que afinal podia esperar... Era pura, diziam-na sem amigo, sem protetor de espcie alguma... esse Anjo do Norte devia
ser bem espertinho!
      Raoul, atrs das prprias mos, cortina que escondia as lgrimas de criana, s pensava na carta que recebera, logo ao voltar a Paris, onde Christine tinha
chegado antes dele, tendo escapado de Perros como uma ladra.
      "Meu caro antigo amiguinho,  preciso ter a coragem de no me rever mais, de no falar mais comigo... se voc me ama um pouco, faa isso por mim, por mim que
nunca o esquecerei... meu querido Raoul. Principalmente, nunca mais penetre no meu camarim. Isso tem a ver com a minha vida. Sua pequena Christine."
      Um trovo de aplausos...  Carlotta que entra em cena.
      O ato do jardim se desenrolava com as suas peripcias costumeiras.
      Quando Margarida acabou de cantar a ria do Rei de Tule, foi aclamada; foi de novo aclamada quando terminou a ria das jias:
      Ah! rio ao ver-me assim To bela neste espelho...
      Da por diante, segura de si, segura de seus amigos na sala, segura de sua voz e de seu sucesso, nada mais temendo, Carlotta se deu inteira, com ardor, com
entusiasmo, com embriaguez. O seu jogo no teve mais nenhum recato nem pudor... J no era mais Margarida, era Carmem. Aplaudiram-na ainda mais, e seu dueto com
Fausto parecia preparar-lhe um novo sucesso quando sobreveio de repente... algo de apavorante.
      Fausto se ajoelhara:
      Deixa-me contemplar, deixa-me, teu semblante Sob a luz fugidia
      Com que o astro da noite, em nuvem to distante, Tua graa acaricia.
      E Margarida respondia:
       silncio!  ventura! inefvel mistrio! Langor inebriante!
      Escuto!... E entendo que essa voz solitria Em meu corao cante.
      Nesse momento pois... nesse momento exato... aconteceu alguma coisa... eu disse alguma coisa de apavorante...
      ...A sala, num s movimento, se levantou... Em seu camarote, os diretores no conseguem reter uma exclamao de horror... Espectadores e espectadoras se olham
como para se perguntar uns aos outros a explicao de to inesperado fenmeno... O rosto de Carlotta exprime a dor mais atroz, seus olhos parecem habitados pela
loucura. A pobre mulher se levanta, com a boca ainda aberta, tendo terminado de cantar o verso "em meu corao cante". Mas daquela boca no sai mais nenhum som...
mais nenhuma palavra...
      Porque aquela boca, criada para a harmonia, aquele instrumento gil que nunca havia falhado, rgo magnfico, gerador das mais belas sonoridades, dos mais
difceis acordes, das mais exigentes modulaes, dos ritmos mais ardentes, sublime mecnica humana a que no faltava, para ser divina, seno o fogo do cu que, s
ele, d a verdadeira emoo que eleva as almas... aquela boca tinha deixado passar...
      Daquela boca havia escapado...
      ...Um sapo! Um medonho, asqueroso, peonhento, viscoso, chiante sapo!...
      Por onde teria ele entrado? Como se tinha acocorado sobre a lngua de Carlotta? Com as patas de trs encolhidas, para saltar mais alto e mais longe, soturnamente,
havia sado da boca da cantora e...
      Pois vocs imaginam que s se deve falar de sapo no sentido figurado. A gente no o via mas, pelos diabos!, a gente o ouvia coaxando!
      Nunca batrquio algum,  beira dos brejos ressoantes, havia rasgado a noite com mais medonho coaxar.
      E por certo ele se fazia ouvir por toda gente. Carlotta no acreditava ainda nem na sua garganta nem nos seus ouvidos. Um raio, se casse aos seus ps, no
a teria espantado mais do que aquele sapo coaxando que acabava de sair da sua boca...
      E ela no o teria desonrado. Ao passo que  bem sabido que um sapo encolhido sobre a lngua desonra sempre uma cantora. Algumas morreram por causa disso.
      Meu Deus! Quem teria acreditado numa coisa dessas?... Ela estava cantando to tranqilamente: "E entendo que essa voz solitria em meu corao cante!" Cantava
sem esforo, como sempre, com a mesma facilidade com que vocs dizem: "Bom dia, minha senhora, como est?"
      No se pode negar que existem cantoras presunosas, que cometem o grande erro de no medir as suas foras, e que, em seu orgulho, querem atingir, com a fraca
voz com que o Cu as brindou, efeitos excepcionais e emitir notas que lhes foram proibidas ao virem ao mundo. E ento que o Cu, para as punir, lhes envia, sem que
saibam, um sapo na boca, um sapo que coaxa! Todo mundo sabe disso. Mas ningum podia admitir que uma Carlotta, que tinha pelo menos duas oitavas em sua voz, tivesse
tambm um sapo.
      Ningum podia ter-se esquecido de seus contrafs estridentes, de seus stacati inauditos em A flauta encantada. Todos se lembravam de seu Don Juan, em que ela
era Elvira e em que arrebatou o mais estrondoso triunfo, certa noite, emitindo ela prpria o si bemol que sua colega Dona Anna no conseguia alcanar. Ento, realmente,
que significava esse coaxar, na ponta dessa tranqila, sossegada, pequenina "voz solitria que cantava em seu corao"?
      No era natural. Havia a algum sortilgio. Esse sapo estava com cheiro de queimado. Pobre, miservel, desesperada, aniquilada Carlotta!...
      Na sala, o rumor crescia. Fosse outra que no Carlotta a quem acontecesse semelhante aventura, t-la-iam vaiado! Mas com ela, de quem se conhecia o perfeito
instrumento, ningum mostrava raiva, mas consternao e pavor. Assim os homens tiveram de suportar essa espcie de espanto se houve algum que assistiu  catstrofe
que quebrou os braos da Vnus de Milo!... e ainda puderam ver o golpe que feria... e compreender...
      Mas naquele caso? O sapo era incompreensvel!...
      Tanto assim que depois de passados alguns segundos a se perguntar se ela havia realmente ouvido sair de sua prpria boca aquela nota - seria uma nota, um som?
- poderia chamar-se aquilo um som? Um som  ainda msica - aquele barulho infernal, ela quis se persuadir de que nada tinha sido; que tinha havido ali, por um instante,
uma iluso de seu ouvido, e no uma criminosa traio do rgo vocal.
      Lanou, desvairada, olhares em torno de si como para procurar refgio, proteo, ou melhor, a segurana espontnea da inocncia de sua voz. Levara os dedos
crispados  garganta num gesto de defesa e protesto! No! aquele coaxo no era dela! E parece mesmo que o prprio Carolus Fonta era dessa opinio, pois olhava para
ela com uma expresso inenarrvel de estupefao infantil e gigantesca. Porque, afinal, ele estava perto dela. No a havia deixado. Talvez ele pudesse dizer-lhe
como tinha acontecido semelhante coisa! No, ele no podia! Os seus olhos estavam estupidamente pregados na boca de Carlotta como os olhos das crianas contemplando
o chapu inesgotvel do prestidigitador. Como uma boca to pequena podia ter contido um to grande coaxo?
      Tudo isso, sapo, coaxo, emoo, terror, rumor da sala, confuso do palco, dos bastidores - alguns comparsas exibiam caras espantadas -, tudo isso que lhes
descrevo com pormenores durou apenas alguns segundos.
      Alguns segundos horrveis que pareceram principalmente interminveis aos olhos dos dois diretores l em cima, no camarote n 5. Moncharmin e Richard estavam
muito plidos. Esse episdio inaudito e que permanecia inexplicvel os enchia de uma angstia que ficava ainda mais misteriosa na medida em que estavam havia alguns
instantes sob a influncia direta do fantasma.
      Tinham sentido o seu sopro. Alguns cabelos de Moncharmin se tinham levantado sob esse sopro... E Richard tinha passado o leno na testa banhada em suor...
Sim, ele estava l... em torno deles... atrs deles, ao lado deles, eles o sentiam sem o ver!... Ouviam a sua respirao... e to perto deles, to perto deles!...
A gente sabe quando algum est presente... Pois bem, eles sabiam agora!... Estavam certos de que eram trs no camarote... Estavam tremendo... Tinham vontade de
fugir... No ousavam... No ousavam fazer nenhum movimento, trocar uma palavra que pudesse deixar o fantasma perceber que eles sabiam que ele estava ali!... O que
ia acontecer? O que iria se produzir?
      Acima de todos os barulhos da sala ouviu-se a exclamao de horror dos dois. Eles se sentiam sob os golpes do fantasma. Debruados acima do camarote, olhavam
para Carlotta como se no a reconhecessem. Aquela moa infernal devia ter dado, com o seu coaxo, o sinal de alguma catstrofe! Ah! a catstrofe, eles a esperavam!
O fantasma lhes havia prometido! A sala maldita! O seu duplo peito diretorial arfava j sob o peso da catstrofe. Ouviu-se a voz sufocada de Richard que gritava
para Carlotta:
      - Pois bem! continue!
      No, Carlotta no continuou... Ela recomeou bravamente, heroicamente, o verso fatal ao fim do qual tinha aparecido o sapo.
      Um silncio assustador sucede a todos os rudos. S a voz de Carlotta enche de novo o vaso sonoro.
      Escuto!... A sala toda escuta:
      Escuto!... E entendo que essa voz solitria (coaxo!) Coaxo!... Em meu... coaxo... cante... coaxo...
      O sapo tambm recomeou.
      A sala explode num prodigioso tumulto. Cados em suas poltronas, os diretores nem arriscam voltar a cabea; no tm foras para isso. O fantasma lhes ri no
pescoo! E finalmente eles ouvem distintamente no ouvido direito a sua voz, a impossvel voz, a voz sem boca, a voz que diz:
      "Esta noite ela est cantando de arrancar o lustre!"
      Num movimento conjunto, levantaram a cabea para o teto e soltaram um grito terrvel. O lustre, a imensa massa do lustre deslizava, vinha a eles, ao apelo
dessa voz satnica. Despregado, o lustre mergulhava das alturas da sala e se despencava no meio da platia, em meio a mil clamores. Foi um espanto, um salve-se-quem-puder
generalizado. Minha inteno no  reviver aqui um momento histrico. Aos curiosos, basta abrir os jornais da poca. Houve numerosos feridos e uma morta.
      O lustre tinha-se arrebentado em cima da cabea da infeliz que tinha vindo aquela noite  pera pela primeira vez na vida, em cima daquela que o Sr. Richard
havia designado para substituir nas funes de lanterninha a Sra. Giry, a lanterninha do fantasma. Ela morreu instantaneamente e, no dia seguinte, um jornal saa
com esta manchete: Duzentos mil quilos sobre a cabea de uma zeladora!
      Esse foi todo o seu panegrico.





9

O MISTERIOSO CUP

      Essa noitada trgica foi m para toda gente. Carlotta caiu doente. Quanto a Christine Daa, desapareceu depois da representao. Quinze dias se passaram sem
que a vissem no teatro, sem que se mostrasse fora do teatro.
      No h que se confundir este primeiro desaparecimento, que se deu sem escndalo, com o famoso rapto que, algum tempo depois, devia acontecer em condies to
inexplicveis e to trgicas.
      Raoul foi, naturalmente, o primeiro a no entender nada da ausncia da diva. E lhe havia escrito no endereo da Sra. Valrius e no tinha obtido resposta.
De incio, no ficara particularmente admirado, conhecendo o seu estado de esprito e a resoluo em que ela estava de romper qualquer relao entre eles, sem que
ele, alis, tivesse podido adivinhar a razo disso.
      O que s fez aumentar a sua dor, e acabou ficando preocupado por no ver a cantora em nenhum programa. Levaram Fausto sem ela. Uma tarde, ali pelas 5 horas,
foi informar-se junto  direo sobre as causas do desaparecimento de Christine Daa. Encontrou os diretores muito preocupados. Os prprios amigos deles no os reconheciam
mais; tinham perdido toda alegria e todo entusiasmo. Eram vistos atravessando o teatro cabisbaixos, fronte preocupada, rostos plidos como se estivessem sendo perseguidos
por algum pensamento abominvel, ou sendo vtimas de alguma maldade do destino que agarra o seu homem e no o larga mais.
      A queda do lustre tinha acarretado muitas responsabilidades, mas era difcil fazer com que os diretores se explicassem a esse respeito.
      A diligncia concluiu por acidente advindo em conseqncia do desgaste dos meios de sustentao, mas assim mesmo teria sido dever dos antigos diretores, assim
como dos novos, verificar esse desgaste e tomar providncias antes que este provocasse a catstrofe.
      E preciso dizer que os Srs. Richard e Moncharmin mostraram-se nessa poca to mudados, to distantes... to misteriosos... to incompreensveis que muitos
assinantes puseram-se a imaginar que algum acontecimento mais medonho ainda do que a queda do lustre tinha modificado o estado de alma dos diretores.
      Em suas relaes cotidianas, mostravam-se por demais impacientes, exceto, entretanto, com a Sra. Giry, que fora reintegrada em suas funes. D para desconfiar
qual foi a maneira com que receberam o visconde de Chagny quando este veio pedir notcias de Christine. Limitaram-se a responder que ela estava de licena. Ele perguntou
quanto tempo duraria essa licena; foi-lhe respondido secamente que era ilimitada, pois Christine Daa a pedira por motivo de sade.
      - Ento ela est doente! - exclamou. - O que  que ela tem?
      - Ns no sabemos!
      - Os senhores no lhe mandaram o mdico do teatro?
      - No! Ela no pediu e, como confiamos nela, acreditamos em sua palavra.
      O caso no pareceu natural para Raoul, que deixou o teatro s voltas com os mais sombrios pensamentos. Resolveu, acontecesse o que acontecesse, ir atrs de
notcias na casa da Sra. Valrius. Por certo se lembrava dos termos enrgicos da carta de Christine, que lhe proibia tentar o que quer que fosse para se encontrar
com ela. Mas o que tinha visto em Perros, o que tinha ouvido atrs da porta do camarim, a conversa que tinha tido com Christine  beira da landa, lhe faziam pressentir
alguma maquinao que, por ser um pouco diablica, nem por isso era menos humana. A imaginao exaltada da moa, a sua alma terna e crdula, a educao primitiva
que cercara os seus jovens anos com um crculo de lendas, o contnuo pensamento do pai morto e principalmente o estado de sublime xtase em que a msica a mergulhava
logo que essa arte se manifestava a ela em certas condies excepcionais - no tinha ele estado em condio de presenciar o fato por ocasio da cena do cemitrio?
-, tudo isso lhe aparecia como devendo constituir um terreno moral propcio para as iniciativas malfazejas de alguma personagem misteriosa e sem escrpulos. De quem
Christine Daa estava sendo vtima? Eis a questo muito sensata que Raoul levantava para si mesmo enquanto ia, s pressas, para a casa da Sra. Valrius.
      O visconde tinha, com efeito, uma mente das mais sadias. Sem dvida era poeta e gostava de msica no que ela tem de mais alado, era grande aficionado dos contos
bretes em que danam os "korrigans", e, alm de tudo, estava enamorado dessa fadinha do norte que era Christine Daa; isso no impedia que ele s acreditasse no
sobrenatural em matria de religio e que a histria mais fantstica do mundo no seria capaz de faz-lo esquecer que dois e dois so quatro.
      O que  que ele ia ficar sabendo na casa da Sra. Valrius? Tremia de medo ao tocar a campainha da porta de um pequeno apartamento da rua Notre-Dame-des-Victoires.
      A camareira que, uma noite, tinha sado diante dele do camarim de Christine veio abrir-lhe. Ele perguntou se podia ver a Sra. Valrius. Foi-lhe respondido
que ela estava adoentada, de cama, e impossibilitada de "receber".
      - Faa chegar a ela o meu carto - pediu ele.
      No esperou por muito tempo. A camareira voltou e f-lo entrar numa pequena sala de visitas bastante escura e sumariamente mobiliada onde os dois retratos,
um do professor Valrius e outro do Sr. Daa, estavam colocados frente a frente.
      - Minha senhora se desculpa junto ao senhor visconde - disse a domstica. - Ela s poder receb-lo no seu quarto, pois as pobres pernas j no a podem sustentar.
      Cinco minutos depois Raoul era introduzido num quarto quase escuro, onde distinguiu imediatamente, na penumbra de uma alcova, a bondosa figura da benfeitora
de Christine. Agora os cabelos da Sra. Valrius estavam totalmente brancos, mas os olhos no tinham envelhecido: jamais, pelo contrrio, o seu olhar havia sido to
claro, nem to puro, nem to infantil.
      - Sr. De Chagny! - disse ela alegremente estendendo as duas mos ao visitante... - Ah!  o Cu que me envia o senhor!... Vamos poder falar dela.
      Esta ltima frase soou bastante lgubre aos ouvidos do jovem. Perguntou de imediato:
      - Minha senhora, onde est Christine?
      A velha senhora respondeu-lhe com tranqilidade:
      - Ora, ela est com o seu "bom gnio"!
      - Que bom gnio? - perguntou o pobre Raoul.
      - Ora, o Anjo da musica!
      O visconde de Chagny, consternado, sentou-se pesadamente numa cadeira. Realmente, Christine estava com o Anjo da msica! E a Sra. Valrius, em seu leito, lhe
sorria colocando um dedo na boca para lhe recomendar silncio. Ela acrescentou:
      - Isso no deve ser dito a ningum!
      - A senhora pode confiar em mim! - replicou Raoul sem saber bem o que dizia, pois as suas idias sobre Christine, j bastante confusas, se embaralhavam cada
vez mais, e parecia que tudo comeava a girar em seu redor, ao redor do quarto, ao redor dessa extraordinria boa senhora de cabelos brancos, de olhos de cu azul
plido, de olhos de cu vazio... - A senhora pode confiar em mim...
      - Eu sei! eu sei! - afirmou ela com um sorriso feliz. - Mas aproxime-se ento de mim, como quando o senhor era pequenino. D-me as suas mos como quando me
relatava a histria da pequena Lotte que lhe tinha sido contada pelo Sr. Daa. Eu gosto muito do senhor, sabe, Sr. Raoul. E Christine tambm gosta muito!
      - ... Ela gosta muito de mim... - suspirou o jovem que juntava com dificuldade o seu pensamento em torno do gnio da Sra. Valrius, em torno do Anjo de que
to estranhamente lhe falara Christine, da cabea de caveira que ele tinha vislumbrado numa espcie de pesadelo nos degraus do altar-mor de Perros e tambm do fantasma
da pera, cuja reputao lhe tinha chegado aos ouvidos, numa noite em que se tinha atrasado no palco, a dois passos de um grupo de maquinistas que lembravam a descrio
que dele fizera antes de seu misterioso fim o enforcado Joseph Buquet...
      Perguntou em voz baixa:
      - O que  que a leva a Crer, minha senhora, que Christine gosta de mim?
      - Ela me falava do senhor todos os dias!
      - Mesmo? ... E o que  que ela lhe dizia?
      - Ela me disse que o senhor lhe fez uma declarao!...
      E a boa velhinha se ps a rir s gargalhadas, mostrando todos os dentes, que tinha zelosamente conservado. Raoul levantou-se, com a fronte avermelhada, sofrendo
atrozmente.
      - E ento, aonde o senhor vai?... O senhor no quer se sentar?... O senhor vai me deixar assim?... O senhor se zangou porque eu ri, eu lhe peo perdo... Afinal,
no  culpa sua, o que aconteceu... O senhor no sabia... O senhor  jovem... e acreditava que Christine estava livre...
      - Christine est noiva? - perguntou com voz estrangulada o infeliz Raoul.
      - No! no mesmo!... O senhor sabe bem que Christine, ainda que quisesse, no pode se casar!...
      - O qu? Mas eu no sabia de nada!... E por que Christine no pode se casar?
      - Por causa do gnio da msica, ora!...
      - Outra vez...
      - Sim, ele lhe probe!...
      - Ele lhe probe!... O gnio da msica lhe probe de se casar!...
      Raoul se debruava sobre a Sra. Valrius, com o maxilar avanado, como para mord-la. Se tivesse vontade de devor-la, no a olharia com olhos mais ferozes.
H momentos em que a inocncia de esprito exagerada aparece to monstruosa que se torna digna de dio. Raoul achava a Sra. Valrius por demais inocente.
      Ela no se deu conta do olhar horrvel que pesava sobre ela. Retomou a conversa da maneira mais natural:
      - Oh! ele lhe probe... sem lhe proibir... Ele lhe diz simplesmente que, se ela se casar, no ouvir mais a sua voz! Isso  tudo!... e que ele ir embora para
sempre!... Ento, o senhor compreende, ela no quer deixar que v embora o gnio da msica. E muito natural.
      - Sim, sim - obtemperou Raoul num sopro -,  muito natural.
      - Alis, eu pensava que Christine lhe tivesse dito tudo isso, quando se encontrou com o senhor em Perros sobre o tmulo de Daa! Ele lhe tinha prometido que
tocaria A ressurreio de Lzaro com o violino do pai dela!
      Raoul de Chagny levantou-se e pronunciou estas palavras decisivas com grande autoridade:
      - Minha senhora, a senhora vai me dizer onde mora esse gnio! A velha senhora no pareceu particularmente surpresa com essa pergunta indiscreta. Levantou os
olhos e respondeu:
      - No cu!
      Tanta candura o desarmou. Uma f to simples e perfeita num gnio que, todas as noites, desce do cu para freqentar os camarins de artistas na pera deixou-o
estupefato.
      Dava-se conta agora do estado de esprito em que podia se encontrar uma mocinha criada entre um menestrel supersticioso e uma boa senhora "iluminada"; estremeceu
ao pensar nas conseqncias de tudo isso.
      - Christine continua sendo uma moa honesta? - no pde deixar de perguntar de repente.
      - Pelo meu lugar no paraso, eu juro! - exclamou a velha, que desta vez pareceu irritada. - E, se o senhor duvida disso, no sei o que veio fazer aqui!...
      Raoul arrancava as luvas.
      - H quanto tempo ela travou conhecimento com esse "gnio"?
      - Cerca de trs meses!... Sim, faz bem trs meses que ele comeou a lhe dar aulas!
      O visconde estendeu os braos num gesto imenso e desesperado e os deixou cair com desnimo.
      - O gnio lhe d aulas!... E onde isso?
      - Agora que ela saiu com ele eu no saberia dizer, mas h quinze dias isso acontecia no camarim de Christine. Aqui seria impossvel. A casa toda ouviria. Ao
passo que na pera, s oito horas da manh, no h ningum. Ningum os atrapalha!... Entende?...
      - Entendo! entendo! - exclamou o visconde, e se despediu precipitadamente da velha senhora que se perguntava se o visconde no estava perdendo o juzo.
      Ao atravessar a sala, Raoul viu-se defronte da camareira e, por um instante, teve a inteno de interrog-la, mas pensou surpreender em seus lbios um leve
sorriso. Achou que zombava dele. Fugiu.
      J no estava sabendo de bastante coisa? Voltou a p para o domiclio do irmo, num estado de nimo de causar d...
      Quisera se castigar, bater a cabea nas paredes! Ter acreditado em tanta inocncia, em tanta pureza! Ter tentado, por um instante, explicar tudo com ingenuidade,
com simplicidade de esprito, com candura imaculada! O gnio da msica! Conhecia-o agora! Estava vendo! Era sem nenhuma dvida algum horroroso tenor, belo rapaz,
e que cantava fazendo biquinho! Ele achava-se ridculo e infeliz quanto merecia! Ah! que miservel, pequeno, insignificante e tolo garoto era o Sr. visconde de Chagny!,
pensava raivosamente Raoul. E ela, que criatura audaciosa e satanicamente fingida!
      Apesar de tudo, essa caminhada pelas ruas tinha-lhe feito bem, tinha refrescado um pouco a chama de seu crebro. Quando penetrou em seu quarto, no pensava
noutra coisa que no fosse atirar-se na cama para ali abafar os seus soluos. Mas o seu irmo estava l e Raoul lanou-se em seus braos, como um beb. O conde,
paternalmente, consolou-o, sem lhe pedir explicaes; alis, Raoul teria hesitado em narrar-lhe a histria do gnio da msica. Se existem coisas de que a gente no
se vangloria, existem outras das quais h demasiada humilhao em se queixar.
      O conde levou o irmo para jantar no cabar. Com um desespero to recente,  provvel que Raoul declinasse, naquela noite, qualquer convite se, para decidi-lo,
o conde no houvesse dito que, na vspera,  noite, na alameda do Bosque, a dama de seus pensamentos havia sido vista em galante companhia. De incio o visconde
no quis acreditar e depois foram-lhe dados pormenores to precisos que no protestou mais. Afinal, no era aquilo a aventura mais banal? Tinham-na visto num cup
cujo vidro estava abaixado. Ela parecia aspirar longamente o ar glido da noite. Fazia um luar soberbo. Tinham-na reconhecido perfeitamente. Quanto ao seu companheiro,
s tinham distinguido uma vaga silhueta, na sombra. A carruagem seguia lentamente por uma alameda deserta, atrs das tribunas de Longchamp.
      Raoul vestiu-se com ansiedade, j pronto para esquecer a sua desgraa, a lanar-se, como se diz, no "turbilho do prazer". Infelizmente, ele foi um triste
conviva e, tendo deixado cedo o irmo, encontrou-se, pelas 10 horas da noite, numa calea, atrs das tribunas de Longchamp.
      Fazia um frio terrvel. A estrada mostrava-se deserta e muito iluminada sob a lua. Deu ordem ao cocheiro que o esperasse pacientemente na esquina de uma pequena
alameda adjacente e, dissimulando-se tanto quanto possvel, comeou a caminhar.
      No fazia meia hora que se entregava a esse exerccio quando um carro, vindo de Paris, virou a esquina e, tranqilamente, ao passo do cavalo, veio em sua direo.
      Ele pensou imediatamente:  ela! E o seu corao comeou a dar pancadas fortes e surdas, como as que ouvira no peito quando escutava a voz de homem atrs da
porta do camarim... Meu Deus! como ele a amava!
      O carro continuava avanando. Quanto a ele, no se tinha mexido. Esperava!... Se fosse ela, estava decidido a saltar para a cabea dos cavalos!... Custasse
o que custasse, ele queria ter uma explicao com o Anjo da msica!...
      Mais alguns passos e o cup ia passar ao seu lado. No duvidava de que fosse ela... Uma mulher, com efeito, inclinava a cabea na porta.
      E, de repente, a lua a iluminou com plida aurola.
      - Christine!
      O nome sagrado de seu amor brotou-lhe dos lbios e do corao. Ele no conseguiu se segurar!... Saltou para agarr-lo, pois esse nome lanado na face da noite
havia sido como o sinal esperado de uma carreira furiosa da parelha de cavalos e o cup passou diante dele sem que tivesse tempo para pr em execuo o seu projeto.
O vidro da porta tinha sido levantado. A figura da jovem mulher tinha desaparecido. E o cup, atrs do qual ele corria, no era mais do que um ponto preto sobre
a estrada branca.
      Ele ainda chamou: Christine!... Nada lhe respondeu. Ele ficou parado, no meio do silncio.
      Lanou um olhar desesperado para o cu, para as estrelas; golpeou com o punho o peito em fogo; ele amava e no era amado!
      Com um olhar abatido, contemplou aquela estrada desolada e fria, a noite plida e morta. Nada estava mais frio, nada estava mais morto do que o seu corao;
tinha amado um anjo e desprezava uma mulher!
      Raoul, como brincou com voc a fadinha do Norte! No  verdade, no  verdade que  intil ter um rosto to fresco, uma fronte to tmida para passar na noite
solitria, no fundo de um cup de luxo, em companhia de um misterioso amante? No  verdade que deveria haver limites sagrados para a hipocrisia e para a mentira?...
E que no se devia ter os olhos claros da infncia quando se tem a alma das cortess?
      ... Ela havia passado sem responder ao seu apelo...
      Tambm, por que ele tinha vindo atravessar o seu caminho?
      Com que direito tinha ele levantado, de repente, diante dela, que no lhe pedia mais do que o esquecimento, a censura de sua presena?...
      - Vai-te embora!... desaparece!... Tu no contas!...
      Pensava em morrer e s tinha 20 anos!... O seu criado surpreendeu-o, pela manh, sentado na cama. No se tinha despido, e o valete, ao v-lo, temeu por alguma
desgraa, de tal maneira ele estava com uma cara de desastre. Raoul arrancou-lhe das mos a correspondncia que lhe trazia. Ele reconhecera uma carta, um papel,
uma letra. Christine lhe dizia:

      Meu amigo,
      esteja, depois de amanh, no baile de mscaras da pera,  meia-noite, no pequeno salo que fica atrs da lareira do grande pavilho; fique de p junto da
porta que conduz  Rotunda. No fale deste encontro a ningum neste mundo. Fantasie-se de domin branco, bem mascarado. Por minha vida, que no o reconheam.
      Christine.







10

NO BAILE DE MSCARAS

      O envelope, todo maculado de lama, no trazia nenhum selo. "Para entregar em mos do Sr. visconde de Chagny" e o endereo a lpis. Isto certamente tinha sido
jogado na esperana de que algum transeunte recolhesse o bilhete e o entregasse em domiclio; o que se deu. O bilhete tinha sido encontrado numa calada da Praa
da pera. Raoul releu-o febrilmente.
      No precisava mais que isso para que ele renascesse para a esperana. A sombria imagem que se fizera por um instante de uma Christine negligente dos deveres
para consigo mesma cedeu  primeira imaginao que tivera de uma criana inocente, vtima de uma imprudncia e de sua sensibilidade demasiada. At que ponto, a esta
hora, ela era realmente vtima? De quem era prisioneira? Para que abismo a tinham arrastado? Perguntava-se tudo isso com uma angstia cruel; mas essa dor mesma lhe
parecia suportvel ao lado do delrio em que o lanava a idia de uma Christine hipcrita e mentirosa!
      O que tinha acontecido? A que influncia estava submetida? Que monstro a tinha raptado, e com que armas?...
      ... Com que armas, pois, se no fossem as da msica? Sim, sim, quanto mais pensava, mais se persuadia de que era por esse lado que encontraria a verdade. Teria
esquecido o tom com que, em Perros, ela lhe contara que tinha recebido a visita do enviado celeste? E a prpria histria de Christine, nestes ltimos tempos, no
devia ela ajud-lo a esclarecer as trevas em que se debatia? Teria ele ignorado o desespero que se tinha apossado dela aps a morte do pai e a averso que tinha
tido ento por todas as coisas da vida, mesmo por sua arte? No Conservatrio, tinha passado como uma pobre mquina cantante, desprovida de alma. E, de repente, tinha
acordado, como ao sopro de uma interveno divina. O Anjo da msica tinha chegado. Ela canta a Margarida de Fausto e triunfa!... O Anjo da msica!... Quem ento,
quem ento se faz passar a seus olhos por esse maravilhoso gnio?... Quem ento, informado sobre a lenda cara ao velho Daa, serve-se dela a ponto de a jovem j
no passar, entre as suas mos, de um instrumento sem defesa que ele faz vibrar como quer?
      E Raoul ficava pensando que uma aventura assim no era excepcional. Lembrava-se do que tinha acontecido com a princesa de Belmonte, que acabara de perder o
marido e cujo desespero tinha-se tornado estupor... Havia meses, a princesa nem mesmo falava. Essa inrcia fsica e moral ia se agravando a cada dia e o enfraquecimento
da razo levava aos poucos ao aniquilamento da vida. Todas as tardes, levavam a doente aos seus jardins; mas ela no parecia nem mesmo entender onde estava. Raff,
o maior cantor da Alemanha, de passagem por Npoles, quis visitar aqueles jardins, famosos por sua beleza. Uma das acompanhantes da princesa rogou ao grande artista
que cantasse, sem se deixar ver, junto do bosquezinho onde a princesa estava estendida. Raff consentiu e cantou uma ria simples que a princesa tinha ouvido da boca
de seu marido nos primeiros dias do seu himeneu. Essa ria era expressiva e tocante. A melodia, a letra, a voz admirvel do artista, tudo se reuniu para mexer profundamente
na alma da princesa. As lgrimas lhe correram dos olhos... ela chorou, foi salva e ficou persuadida de que o seu esposo, naquela tarde, tinha descido do cu para
cantar para ela a ria de outrora!
      "Sim... naquela tarde!... Uma tarde", pensava agora Raoul, "uma nica tarde..." Mas essa bela imaginao no teria resistido diante de uma experincia repetida...
      Ela teria acabado por descobrir Raff, atrs do bosque, a ideal e dolente princesa de Belmonte, se tivesse voltado quele lugar, voltado todas as tardes, durante
trs meses...
      O Anjo da msica, durante trs meses, tinha dado aulas particulares a Christine... Ah! era um professor pontual!... E agora levava-a para passear no Bosque!...
      Arrastando os dedos crispados sobre o peito onde batia o seu corao ciumento, Raoul rasgava a carne. Inexperiente, perguntava-se agora com terror a que jogo
a senhorita o convidava para uma prxima mascarada? E at que ponto uma rapariga da pera pode zombar de um rapaz totalmente novo no amor? Que misria!...
      Assim, o pensamento de Raoul ia aos extremos. No sabia mais se devia ter compaixo de Christine ou maldiz-la e, alternadamente, tinha compaixo dela e a
maldizia. Por via das dvidas, entretanto, ele providenciou uma fantasia de domin branco.
      Finalmente, chegou a hora do encontro. Com o rosto coberto por meia mscara prolongada por uma longa e espessa renda, todo de branco, o visconde achou-se ridculo
por ter envergado esse traje das mascaradas romnticas. Um homem de posio no se fantasiava para ir ao baile da pera. Provocaria risos. Um pensamento consolava
o visconde: certamente no o reconheceriam! E, alm disso, aquela roupa e aquela mscara tinham outra vantagem: Raoul ia poder passear l dentro "como se estivesse
em casa", sozinho, com a desordem de sua alma e a tristeza do seu corao. No precisaria fingir; ser-lhe-ia suprfluo compor uma mscara para o seu rosto: ele j
a tinha!
      Esse baile era uma festa excepcional, dada antes da tera-feira gorda, em homenagem ao aniversrio de nascimento de um antigo desenhista dos folguedos de antanho,
um mulo de Gavarni, cujo lpis tinha imortalizado os "bacanas" e a descida da "Courtille". Assim, devia ter um aspecto muito mais alegre, mais bomio do que os
bailes de mscaras comuns. Numerosos artistas tinham marcado presena nesse baile, seguidos de toda uma clientela de modelos e troca-tintas que, por volta da meia-noite,
comeavam a fazer uma enorme algazarra.
      Raoul subiu a grande escadaria s cinco para meia-noite. No demorou para considerar ao seu redor o espetculo dos trajes multicoloridos que se estendia ao
longo dos degraus de mrmore, num dos mais suntuosos cenrios do mundo, no se deixou seduzir por nenhuma mscara faceciosa, no respondeu a nenhuma pilhria, e
sacudiu a familiaridade assediadora de vrios casais que j estavam alegres demais. Tendo atravessado o grande pavilho e escapado de um cordo que, por um momento,
o tinha aprisionado, penetrou finalmente no salo que o bilhete de Christine lhe havia indicado. Naquele pequeno espao havia uma multido; pois era ali o cruzamento
onde se encontravam todos aqueles que iam cear na Rotunda ou que voltavam depois de tomar uma taa de champanhe. O tumulto ali era ardente e alegre. Raoul pensou
que Christine tinha, para seu misterioso encontro, preferido aquela confuso a qualquer cantinho isolado: ali estariam mais dissimulados.
      Encostou-se  porta e esperou. No por muito tempo. Um domin negro passou e lhe apertou rapidamente a ponta dos dedos. Raoul entendeu que era ela e acompanhou-a.
      - E voc, Christine? - perguntou num sussurro.
      O domin negro voltou-se com vivacidade e levantou o dedo at a altura dos lbios para lhe recomendar sem dvida que no repetisse aquele nome.
      Raoul continuou a acompanhar em silncio.
      Tinha medo de perd-la, depois de t-la to estranhamente reencontrado. J no sentia nenhum dio contra Christine. Nem mesmo duvidava de que ela "nada tivesse
para se recriminar", por mais inexplicvel que tivesse sido a sua conduta. Estava pronto para todas as mansides, para todos os perdes, para todas as covardias.
Ele a amava. E, certamente, logo lhe seria explicada muito naturalmente a razo de uma ausncia to singular...
      O domin negro, de vez em quando, virava-se para trs para ver se continuava sendo seguido pelo domin branco.
      Como Raoul estivesse atravessando de volta, atrs do seu guia, o grande pavilho do pblico, no pde fazer de outro modo seno notar, entre todas as gritarias,
uma gritaria... entre todos os grupos que se entregavam s mais loucas extravagncias, um grupo que se comprimia em torno de uma personagem cuja fantasia, cujo jeito
original causavam sensao...
      Essa personagem estava toda vestida de escarlate com um imenso chapu de plumas em cima da cabea de esqueleto. Ah! que bela imitao de caveira era aquela!
Os jovens pintores em torno dele faziam grande alarido, felicitavam-no... perguntavam-lhe com que mestre, em qual ateli, freqentado por Pluto, lhe tinham feito,
desenhado, maquilado uma caveira to linda! A prpria Morte devia ter pousado para isso.
      O homem com a cabea de esqueleto, chapu vermelho com plumas e vestes escarlates arrastava atrs de si um imenso manto de veludo vermelho cuja chama se alongava
regiamente sobre o piso; e sobre esse manto tinham bordado em letras de ouro uma frase que cada um lia e repetia em voz alta: "No me toques! Eu sou a Morte vermelha
que passa!..."



      E algum quis toc-lo... mas uma mo de esqueleto, saindo de uma manga de prpura, agarrou brutalmente o pulso do imprudente e este, tendo sentido o aperto
dos ossos, o abrao furioso da Morte que parecia no querer larg-lo nunca mais, soltou um grito de dor e de pavor. A Morte vermelha devolveu-lhe finalmente a liberdade
e ele fugiu feito um louco, em meio aos gracejos. Foi nesse instante que Raoul cruzou pela fnebre personagem que, justamente, acabava de voltar-se para o seu lado.
E ele esteve a ponto de soltar um grito: "A caveira de Perros-Guirec!" Ele a tinha reconhecido!... Quis precipitar-se, esquecendo Christine; mas o domin negro,
que parecia tomado, tambm ele, por uma estranha emoo, lhe agarrara o brao e o arrastava... arrastava para longe do pavilho, para fora daquela multido demonaca
onde passava a Morte vermelha...
      A cada instante, o domin negro se voltava e pareceu-lhe, sem dvida, por duas vezes, perceber alguma coisa que o apavorava, pois apressou ainda mais o seu
passo e o de Raoul como se estivessem sendo perseguidos.
      Assim subiram dois andares. Ali, as escadas, os corredores estavam quase desertos. O domin negro empurrou a porta de um camarote e fez sinal para que o domin
branco entrasse atrs dele. Christine (pois era mesmo ela, ele pde reconhec-la pela voz) fechou imediatamente a porta do camarote e recomendou-lhe, em voz baixa,
que ficasse na parte de trs e que no se mostrasse. Raoul retirou a mscara. Christine conservou a sua. E, como o rapaz ia pedir  cantora que se desfizesse dela,
ficou muito espantado de v-la inclinar-se para a divisria e escutar atentamente o que se passava ao lado. Depois ela entreabriu a porta e olhou no corredor, dizendo
em voz baixa: "Ele deve ter subido ali em cima, no camarote dos Cegos"! De repente ela exclamou: "Ele est descendo!"
      Ela quis fechar a porta, mas Raoul se ops, pois ele tinha visto no degrau mais alto da escada que subia para o andar superior pousar um p vermelho, depois
outro... e lentamente, majestosamente, desceu toda a vestimenta escarlate da Morte vermelha. E ele reviu a caveira de Perros-Guirec.
      -  ele! - exclamou o visconde. - Desta vez ele no me escapa!...
      Mas Christine havia fechado a porta no momento em que Raoul se lanava em sua direo. Ele quis afast-la de seu caminho...
      - Ele quem? - perguntou ela com voz alterada. - Quem no vai lhe escapar?...
      Brutalmente, Raoul tentou vencer a resistncia da moa, mas ela o empurrava com uma fora inesperada... Ele compreendeu ou achou que compreendeu e ficou imediatamente
furioso.
      - Ele quem? - disse ele com raiva. - Ora, ele! O homem que se dissimula sob essa horrvel imagem morturia!... O mau gnio do cemitrio de Perros!... A Morte
vermelha!... Enfim, o seu amigo, madame... O seu Anjo da msica!... Mas eu vou lhe arrancar a mscara da cara, como arrancarei a minha, e ns nos olharemos cara
a cara, sem vu e sem mentira, e ficarei sabendo quem voc ama e quem ama voc!
      Ele explodiu numa risada insensata enquanto Christine, atrs da sua mscara, emitiu um doloroso gemido.
      Ela estendeu num gesto trgico os seus dois braos que puseram uma barreira de carne branca sobre a porta.
      - Em nome do nosso amor, Raoul, voc no vai passar!...
      Ele estacou. O que  que ela dissera?... Em nome do amor deles?... Mas nunca ela lhe tinha dito que o amava. E, no entanto, no lhe tinham faltado ocasies!...
Ela j o tinha visto bastante infeliz, debulhado em lgrimas diante dela, implorando uma palavra de esperana que no tinha chegado!... Ela o tinha visto doente,
quase morto de terror e de frio depois da noite do cemitrio de Perros! Teria ela pelo menos ficado ao p dele no momento em que mais precisava de seus cuidados?
No! Ela tinha fugido!... E estava dizendo que o amava! Falava "em nome do amor deles". Vamos! Seu nico objetivo era retard-lo por alguns segundos... Era preciso
dar  Morte vermelha o tempo de escapar... O amor deles? Ela estava mentindo!...
      - Est mentindo, madame! porque no me ama, e nunca me amou! E preciso ser um mocinho muito infeliz como eu para se deixar enganar, para se deixar tapear como
eu fui! Por que ento por sua atitude, pela alegria do seu olhar, por seu silncio mesmo, quando nos encontramos pela primeira vez em Perros, voc me permitiu todas
as esperanas? Todas as esperanas honradas, pois eu sou homem de honra e achava que voc fosse uma mulher honrada, quando voc tinha apenas a inteno de zombar
de mim! E triste! Voc zombou de todo mundo! Abusou at do corao cndido da sua benfeitora, que continua no entanto a acreditar na sua sinceridade quando voc
passeia pelo baile da pera com a Morte vermelha!... Eu a desprezo!...
      E ele chorou. Ela deixava que a injuriasse. S pensava numa coisa, ret-lo.
      - Um dia voc me pedir perdo por todas as suas palavras feias, Raoul, e eu o perdoarei!...
      Ele sacudiu a cabea.
      - No! no! Voc tinha me deixado louco!... quando penso que eu no tinha outro objetivo na vida seno dar o meu nome a uma moa de pera!...
      - Raoul!...
      - Vou morrer de vergonha!
      - Viva, meu amigo - disse Christine com a voz grave e alterada. - E adeus!...
      - Adeus, Christine!...
      - Adeus, Raoul!...
      O rapaz avanou com passo cambaleante. Arriscou ainda um sarcasmo:
      - Oh! voc vai me permitir que ainda venha aplaudi-la de vez em quando.
      - No cantarei mais, Raoul!...
      - Realmente - acrescentou ele com mais ironia ainda... - Esto arranjando distraes para voc: meus parabns!... Mas a gente vai se ver no Bosque uma noite
dessas!
      - Nem no Bosque, nem em lugar nenhum, Raoul, voc no me ver mais...
      - A gente poderia pelo menos saber a que trevas voc retorna? Para que inferno voc est partindo de volta, misteriosa dama?... ou para que paraso?...
      - Eu tinha vindo para lhe dizer... meu amigo... mas no posso mais lhe dizer nada.... Voc no acreditaria em mim! Voc perdeu a confiana em mim, Raoul, est
tudo acabado!...
      Ela disse aquelas ltimas palavras num tom to desesperado que o rapaz estremeceu e o remorso por sua crueldade comeou a lhe perturbar a alma.
      - Mas afinal - exclamou -, voc vai nos dizer o que significa tudo isto!... Voc  livre, sem entrave... Passeia pela cidade... veste uma fantasia para vir
ao baile... Por que no volta para casa?... O que  que voc tem feito nestes quinze dias?... Que histria  essa de Anjo da msica que voc contou  Sra. Valrius?
Algum pode ter enganado voc, abusado da sua credulidade... Eu prprio fui testemunha disso em Perros, mas agora voc sabe a que se ater!... Voc me parece bastante
sensata, Christine... Voc sabe o que est fazendo!... e no entanto a Sra. Valrius continua esperando voc, invocando o "bom gnio"!... Explique-se, Christine,
eu lhe peo!... O que significa essa comdia?...
      Christine, simplesmente, tirou a mscara e disse:
      - E uma tragdia, meu amigo...
      Raoul viu ento o seu rosto e no pde reter uma exclamao de surpresa e de terror. As frescas cores de outrora haviam desaparecido. Uma palidez mortal se
estendia sobre aquelas feies que ele conhecera to encantadoras e to suaves, reflexos da graa tranqila e da conscincia impoluta. O vinco da dor as havia impiedosamente
talhado e os belos olhos claros de Christine, outrora lmpidos como os lagos que serviam de olhos para a pequena Lotte, mostravam-se de uma profundeza escura, misteriosa
e insondvel, e cercados com uma sombra pavorosamente triste.
      - Minha amiga! minha amiga! - gemeu ele estendendo os braos... - voc prometeu me perdoar...
      - Talvez!... talvez um dia... - disse ela recolocando a mscara, e se foi, proibindo-lhe de a seguir com um gesto que o rechaava...
      Quis lanar-se atrs dela, mas esta se virou e repetiu com tal autoridade o seu gesto de adeus que ele no ousou dar nem mais um passo.
      Ele a viu afastar-se... Depois desceu at a multido, sem saber precisamente o que fazia, com as tmporas a pulsar forte, o corao dilacerado, e perguntou,
na sala que estava atravessando, se tinham visto passar a Morte vermelha. Diziam-lhe: "Quem  essa Morte vermelha?" Ele respondia: " um homem fantasiado com uma
caveira e um grande manto vermelho". Por toda parte diziam que a Morte vermelha tinha acabado de passar, arrastando o seu manto real, mas ele no a encontrou em
lugar nenhum e voltou, pelas duas da manh, ao corredor que, atrs do palco, conduzia ao camarim de Christine Daa.
      Seus passos o conduziram a esse lugar onde tinha comeado a sofrer. Bateu  porta. Ningum respondeu. Entrou como tinha entrado quando procurava por toda parte
a voz de homem. O camarim estava deserto. Um bico de gs estava aceso, com a chama baixa. Sobre uma pequena escrivaninha havia papel de carta. Pensou em escrever
a Christine, mas soaram passos no corredor... S teve o tempo de se esconder no toucador que estava separado do camarim por uma simples cortina. Uma mo empurrou
a porta do camarim. Era Christine!
      Ele segurou a respirao. Queria ver! Queria saber!... Alguma coisa lhe dizia que ia assistir a uma parte do mistrio e que ia comear a compreender talvez...
      Christine entrou, retirou a mscara num gesto cansado e a jogou sobre a mesa. Suspirou, deixou cair a linda cabea entre as mos... Em que estava pensando?...
Nele, Raoul?... No! porque ouviu-a em seguida murmurar: "Pobre Erik!"
      A princpio pensou ter ouvido mal. De incio, estava persuadido de que, se algum merecia d, era ele, Raoul. O que de mais natural, depois do que tinha acabado
de acontecer entre eles, do que ela dizer num suspiro: "Pobre Raoul!" Mas ela repetiu, sacudindo a cabea: "Pobre Erik!" O que  que esse Erik vinha fazer nos suspiros
de Christine e por que a fadinha do Norte exprimia a sua compaixo por Erik quando Raoul estava to infeliz?
      Christine ps-se a escrever, pausadamente, tranqilamente, to pacificamente que Raoul, que ainda tremia pelo drama que os separava, ficou singular e raivosamente
impressionado com o que via. "Quanto sangue-frio!", pensou. Assim, ela foi escrevendo, enchendo duas, trs, quatro pginas. De repente, levantou a cabea e escondeu
as folhas no decote. Parecia estar tentando escutar algo... Raoul fez o mesmo... De onde vinha aquele barulho estranho, aquele ritmo distante?... Um canto surdo
que parecia sair das muralhas... Sim, dir-se-ia que as paredes cantavam!... O canto ia se tornando mais claro... as palavras, inteligveis... distinguiu-se uma voz...
uma belssima, suavssima e cativante voz... mas tanta doura se mantinha entretanto mscula e assim podia-se deduzir que a voz no pertencia a uma mulher... A voz
continuava a se aproximar... atravessou a parede... chegou... e a voz agora estava no camarim, diante de Christine. Christine se levantou e falou para a voz como
se estivesse falando com algum presente junto dela.
      - Aqui estou eu, Erik. Estou pronta. E voc que est atrasado, meu amigo.
      Raoul, que olhava com prudncia atrs da sua cortina, no podia acreditar em seus olhos que no lhe mostravam nada.
      A fisionomia de Christine se iluminou. Um sorriso veio pousar em seus lbios exangues, um sorriso como aquele dos convalescentes quando comeam a esperar que
o mal que os atingiu no os levar.
      A voz sem corpo comeou a cantar novamente e Raoul concluiu que nunca ouvira nada neste mundo de mais suave, de mais insidioso, de mais delicado na fora,
de mais forte na delicadeza, enfim, de mais irresistivelmente triunfante. Havia ali acentos definitivos que cantavam magistralmente e que deviam certamente, pela
fora apenas de sua audio, fazer nascer acentos elevados nos mortais que sentem, amam e traduzem a msica. Havia ali uma fonte tranqila e pura de harmonia a que
os fiis podiam com toda segurana devotamente beber, certos de que estavam bebendo a graa musical oriunda de um Anjo. E a sua arte, por si s, tendo atingido o
divino, ficava transfigurada. Raoul ouvia essa voz febrilmente e comeava a entender como Christine Daa tinha podido aparecer uma noite diante do pblico estupefato,
com acentos de uma beleza desconhecida, de uma exaltao sobre-humana, sem dvida ainda sob a influncia do misterioso e invisvel mestre! E tanto mais entendia
to considervel acontecimento ao ouvir a excepcional voz quanto esta justamente no cantava nada de excepcional: com barro, ela havia feito o cu. A banalidade
do verso e a facilidade e a quase vulgaridade popular da melodia pareciam transformadas em beleza por um sopro que as elevava e as carregava em pleno cu sobre as
asas da paixo. Porque aquela voz anglica glorificava um hino pago.
      Aquela voz cantava "a noite de himeneu" de Romeu e Julieta.
      Raoul viu Christine estender os braos para a voz como, no cemitrio de Perros, fizera para o violino invisvel que tocava A ressurreio de Lzaro...
      Nada poderia descrever a paixo com que a voz disse:
      O destino acorrenta-te a mim sem retorno!...
      Raoul teve o corao como que traspassado e, lutando contra o encantamento que parecia lhe tirar toda vontade e toda energia, e quase toda lucidez no momento
em que mais precisava dela, conseguiu puxar a cortina que o escondia e caminhou em direo de Christine. Esta, que avanava para o fundo do camarim cuja parede era
toda ocupada por um grande espelho que lhe devolvia a sua imagem, no podia v-lo, pois ele estava exatamente atrs dela e inteiramente coberto por ela.
      O destino acorrenta-te a mim sem retorno!...
      Christine caminhava sempre em direo de sua imagem e sua imagem descia para ela. As duas Christines - o corpo e a imagem - acabaram por tocar-se, confundir-se.
E Raoul estendeu o brao para, num mesmo gesto, peg-las a ambas.
      Entretanto, por uma espcie de milagre ofuscante que o fez balanar, Raoul foi de repente repelido para trs, enquanto um vento gelado lhe varria o rosto;
ele viu j no mais duas, mas quatro, oito, vinte Christines que giraram ao seu redor com tal ligeireza, que zombavam e fugiam to rapidamente que a sua mo no
pde agarrar nenhuma. Finalmente, tudo voltou a ficar imvel e ele se viu no espelho. Mas Christine tinha desaparecido.
      Ele se precipitou sobre o espelho. Chocou-se contra as paredes. Ningum! E no entanto o camarim ainda ressoava com um ritmo distante, apaixonado:



      O destino acorrenta-te a mim sem retorno!...
      As suas mos apertaram a fronte banhada em suor, apalparam a sua carne dolorida, tatearam a penumbra, devolveram ao bico de gs toda a sua fora. Estava certo
de que no sonhava. Encontrava-se no centro de um jogo formidvel, fsico e moral, de que no possua a chave e que talvez fosse tritur-lo. Ele se via assim vagamente
como um prncipe aventureiro que tivesse ultrapassado o limite proibido de um conto de fadas e que no deve mais se espantar de estar a braos com fenmenos mgicos
que inopinadamente enfrentou e desencadeou por amor...
      Por onde Christine tinha sado?...
      Por onde ela voltaria?...
      Acaso voltaria?... Tristeza! No lhe afirmara Christine que tudo estava terminado!... e a parede no estava a repetir: O destino acorrenta-te a mim sem retorno?
A mim? A quem?
      Ento, extenuado, vencido, sentou-se no lugar que havia pouco estava ocupado por Christine. Como ela, deixou a cabea pender entre as mos. Quando a ergueu,
lgrimas abundantes lhe corriam ao longo do jovem rosto, verdadeiras e pesadas lgrimas, como as que vertem as crianas ciumentas, lgrimas que caam sobre uma desgraa
nada fantstica, mas comum a todos os amantes da terra e que ele explicitou bem alto:
      - Quem  esse Erik? - perguntou Raoul.










11

 PRECISO ESQUECER O NOME DA "VOZ DE HOMEM"

      No dia seguinte ao que Christine tinha desaparecido diante de seus olhos numa espcie de ofuscamento que o fazia ainda duvidar de seus sentidos, o visconde
de Chagny foi procurar notcias na casa da Sra. Valrius. Deparou com um quadro encantador.
       cabeceira da velha senhora, que, sentada na cama, tricotava, Christine fazia renda. Nunca rosto mais encantador, nunca fronte mais pura, nunca olhar mais
terno se debruaram sobre um trabalho de virgem. O frescor das cores tinha voltado s faces da jovem. O crculo azulado em torno de seus olhos havia desaparecido.
Raoul no reconheceu mais o rosto trgico da vspera. Se o vu da melancolia espalhado sobre os seus traos adorveis no se tivesse mostrado ao rapaz como o ltimo
vestgio do drama inaudito em que se debatia aquela misteriosa criana, ele poderia pensar que Christine no era a sua incompreensvel herona.
      Ela se levantou, sem emoo aparente, quando o viu aproximar-se, e estendeu-lhe a mo. Mas a estupefao de Raoul era tal que ele permanecia ali, aniquilado,
sem um gesto, sem uma palavra.
      - Pois bem, Sr. De Chagny - disse a Sra. Valrius. - Ento o senhor no conhece mais Christine? O "bom gnio" dela no-la devolveu.
      - Mame! - interrompeu a moa num tom breve, enquanto um vivo rubor lhe subia at os olhos. - Eu pensava que nunca mais se trataria disso!... A senhora bem
sabe que no existe gnio da msica algum!
      - Minha filha, ele lhe deu aulas, no entanto, durante trs meses!
      - Mame, eu lhe prometi explicar tudo um dia desses; assim espero... mas, at esse dia, a senhora me prometeu guardar silncio e no me interrogar nunca!
      - Se voc me prometesse no mais me abandonar! Voc vai me prometer isso, Christine?
      - Mame, nada disso pode interessar ao Sr. De Chagny...
      -  a que voc se engana, senhorita - interrompeu o rapaz cora uma voz que queria tornar firme e corajosa e que ainda estava trmula -, tudo que lhe diz respeito
me interessa a um ponto que voc acabar talvez um dia por entender. No posso esconder-lhe que o meu espanto iguala a minha alegria ao reencontr-la ao p de sua
me adotiva e aquilo que ontem se passou entre ns, o que voc pde me dizer, ou que eu pude adivinhar, nada me fazia prever um to rpido retorno. Eu seria o primeiro
a me alegrar com isso se voc no se obstinasse em conservar sobre essas coisas todas um segredo que pode lhe ser fatal... e eu sou seu amigo h tempo demais para
no ficar preocupado, como a Sra. Valrius, com uma aventura funesta que continuar perigosa enquanto no tivermos desfeito a sua trama e de que voc acabar sendo
vtima, Christine.
      A essas palavras, a Sra. Valrius se agitou em seu leito.
      - Que significa isso? Ento Christine est correndo perigo?
      - Isso mesmo, minha senhora.... - declarou corajosamente Raoul, ignorando os sinais que Christine fazia.
      - Meu Deus! - exclamou, ofegante, a boa e ingnua velhinha. - Voc tem de me dizer tudo, Christine! Por que voc estava tentando me tranqilizar? E de que
perigo se trata, Sr. De Chagny?
      - Um impostor que est abusando da boa f de Christine!
      - O Anjo da msica  um impostor?
      - Ela mesma disse para a senhora que no existe Anjo da msica nenhum!
      - E o que  que existe ento, em nome do Cu! - suplicou a invlida. - Assim vocs esto me matando!
      - Existe, em torno de ns, em torno da senhora, em torno de Christine, um mistrio terrestre muito mais temvel do que todos os fantasmas e todos os gnios!
      A Sra. Valrius dirigiu para Christine um rosto terrificado, mas esta j se precipitara em direo da me adotiva e a apertava nos braos:
      - No acredite nele, mame... no acredite nele... - repetia e tentava, com seus afagos, consol-la, pois a velha senhora soltava suspiros de cortar a alma.
      - Ento diga-me que voc no vai me abandonar mais! - implorou.
      Christine permanecia calada e Raoul disse:
      -  isso que  preciso prometer, Christine...  a nica coisa que nos pode deixar tranqilos,  sua me e a mim! Ns nos comprometemos a no fazer mais nem
uma nica pergunta sobre o passado se voc nos prometer ficar sob a nossa salvaguarda no futuro...
      -  um compromisso que eu no lhes peo, e  uma promessa que no lhes farei! - pronunciou a moa com altivez. - Sou livre em minhas aes, Sr. De Chagny;
o senhor no tem nenhum direito de as controlar e eu lhe peo que se dispense disso daqui para a frente. Quanto ao que venho fazendo h quinze dias, s existe um
homem no mundo que teria o direito de exigir que eu lhe relatasse tudo: o meu marido! Ora, eu no tenho marido, e nunca vou me casar!
      Dizendo isso, estendeu a mo para Raoul, de modo a tornar suas palavras mais solenes, e Raoul empalideceu, no apenas por causa das palavras que acabava de
ouvir, mas porque percebera, no dedo de Christine, um anel de ouro.
      - Voc no tem marido e, no entanto, voc usa uma "aliana". E quis agarrar-lhe a mo, mas, com presteza, Christine retirou-a.
      - Foi um presente! - declarou ela, corando e esforando-se para esconder o seu embarao.
      - Christine! J que voc no tem marido, esse anel s pode ter-lhe sido dado por aquele que espera um dia vir a s-lo! Por que continuar nos enganando? Por
que me torturar ainda mais? Esse anel  uma promessa! E essa promessa foi aceita!
      - Foi o que eu lhe disse! - exclamou a velha senhora.
      - E o que foi que ela lhe respondeu?
      - Isso no lhe diz respeito - interferiu Christine exasperada. - O senhor no acha que este interrogatrio j est durando demais?... Quanto a mim...
      Raoul, muito emocionado, temeu deix-la pronunciar as palavras de uma ruptura definitiva e interrompeu-a:
      - Desculpe-me se lhe falei assim, senhorita... Bem sabe quanto  honesto o sentimento que me leva a imiscuir-me, neste momento, em coisas que, sem dvida,
no me dizem respeito! Mas deixe-me dizer-lhe o que vi... e vi mais do que voc pensa, Christine... ou o que eu acreditei ver, pois, na verdade, o mnimo que se
pode, numa aventura assim,  duvidar dos prprios olhos.
      - O que foi ento que o senhor viu, ou acreditou ter visto?
      - Eu vi o seu xtase ao som da voz, Christine! da voz que saa da parede, ou de um camarim, ou de aposentos ao lado... sim, o seu xtase!... E  isto que,
por voc, me assusta!... Voc est sob a ao do mais perigoso dos encantamentos!... E parece, entretanto, que voc se deu conta da impostura, visto que voc declarou
h pouco que no existe gnio da msica... Ento, Christine, por que voc o seguiu uma vez mais? Por que voc se levantou, com o rosto radiante, como se realmente
estivesse ouvindo os anjos?... Ah! essa voz  perigosssima, Christine, j que eu mesmo, enquanto a ouvia, fiquei to arrebatado que voc desapareceu da minha vista
sem que eu pudesse dizer por onde voc tinha sado!... Christine! Christine! Em nome do Cu, em nome do seu pai que est no cu e que tanto amou voc, e que me amou,
Christine, voc vai nos dizer,  sua benfeitora e a mim, a quem pertence aquela voz!... E, apesar de voc, ns a salvaremos!... Vamos, o nome desse homem, Christine?...
Desse homem que teve a audcia de colocar no seu dedo um anel de ouro!...
      - Sr. De Chagny - declarou friamente a moa -, o senhor nunca o saber!...
      A seguir, ouviu-se a voz acre da Sra. Valrius que, de repente, tomou o partido de Christine, vendo com que hostilidade a sua pupila acabara de se dirigir
ao visconde.
      - E se ela o ama, senhor visconde, se ama esse homem, isso no  da sua conta ainda!
      - E pena, minha senhora - disse humildemente Raoul sem poder reter as lgrimas. - E pena! Eu acredito, de fato, que Christine o ama... Tudo me prova isso,
mas no  s isso que faz o meu desespero, pois aquilo de que no estou certo, senhora,  que aquele que  amado por Christine seja digno desse amor!
      - S a mim cabe julgar, meu senhor! - redarguiu Christine olhando bem de frente para Raoul e mostrando-lhe no rosto uma irritao soberana.
      - Quando se usa - continuou Raoul, que sentia as suas foras o abandonarem -, para seduzir uma moa, meios to romnticos...
      -  preciso, no , que o homem seja miservel ou que a moa seja bem tola? - Christine aparteou.
      - Christine!
      - Raoul, por que voc condena assim um homem a quem voc nunca viu, que ningum conhece e de quem voc mesmo no sabe nada?...
      - Sim, Christine... Sim... Eu sei pelo menos aquele nome que voc pretendia me esconder para sempre... O seu Anjo da msica, senhorita, chama-se Erik...
      Christine traiu-se imediatamente. Ficou, desta vez, branca como uma toalha de altar. Balbuciou:
      - Quem foi que lhe disse?
      - Voc mesma!
      - Como assim?
      - Quando manifestava compaixo por ele, na outra noite, na noite do baile de mscaras. Ao chegar ao seu camarim, voc disse: "Pobre Erik!" Pois bem, Christine,
havia, em algum lugar, um pobre Raoul que ficou esperando por voc.
      - E a segunda vez que o senhor escuta atrs das portas, Sr. de Chagny!
      - Eu no estava atrs da porta!... Eu estava dentro do camarim!... no seu toucador.
      - Infeliz! - gemeu a moa, que manifestou todas as marcas de um verdadeiro pavor... - Infeliz! Voc est querendo ser morto?
      - Talvez!
      Raoul pronunciou esse "talvez" com tanto amor e desespero que Christine no pde segurar um soluo.
      Ela pegou ento as mos dele e o olhou com toda a terna pureza de que era capaz, e o jovem, sob aqueles olhos, sentiu que j se aplacava a sua angstia.
      - Raoul - disse ela. -  necessrio esquecer a voz de homem e nunca mais se lembrar desse nome... e jamais tentar penetrar o mistrio da voz de homem.
      - Esse mistrio deve ser ento muito terrvel?
      - No existe nenhum mais pavoroso sobre a terra!
      Um silncio separou os dois jovens. Raoul estava arrasado.
      - Jure para mim que voc no tentar descobrir mais nada - insistiu ela. - Jure para mim que voc no vai mais entrar no meu camarim sem que eu o chame.
      - Voc promete que vai me chamar ali de vez em quando, Christine?
      - Prometo.
      - Quando?
      - Amanh.
      - Ento eu juro o que voc me pediu! Foram as suas ltimas palavras naquele dia.
      Ele beijou-lhe as mos e se foi, maldizendo Erik e prometendo a si mesmo que teria pacincia.



11

ACIMA DOS ALAPES

      No dia seguinte encontraram-se na pera. Ela continuava com a aliana de ouro no dedo. Mostrou-se meiga e boa. Conversou com ele sobre projetos que tinha,
o seu futuro, a carreira.
      Ele lhe contou que a partida da expedio polar tinha sido antecipada e que, dentro de trs semanas, no mais tardar dentro de um ms, ele deixaria a Frana.
      Ela o incentivou quase prazerosamente a considerar essa viagem com alegria, como uma etapa de sua glria futura. E como ele respondesse que a glria sem amor
no oferecia a seus olhos nenhum encanto, ela o tratou como criana cujos pesares devem ser passageiros. Ele lhe disse:
      - Como  que voc pode, Christine, falar to levianamente de coisas to srias? Talvez nunca mais voltemos a nos ver!... Posso morrer durante essa expedio!...
      - E eu tambm - disse ela simplesmente.
      Ela j no sorria, j no estava mais brincando. Parecia pensar em alguma coisa nova que lhe vinha pela primeira vez  mente. O seu olhar estava iluminado.
      - Em que voc est pensando, Christine?
      - Estou pensando que ns no nos veremos mais.
      - E  isso que a torna to radiante?
      - E que, dentro de um ms, teremos que nos dizer adeus... para sempre!...
      - Pelo menos, Christine, empenhemos a nossa f e fiquemos nos esperando para sempre.
      Ela lhe colocou a mo sobre a boca:
      - Cale-se, Raoul!... No se trata disso, voc bem sabe!... E ns nunca nos casaremos! Est entendido!
      De repente ela parecia conter com dificuldade uma alegria transbordante. Bateu em suas mos com uma alegria infantil. Raoul olhava para ela, inquieto, sem
entender.
      - Mas... mas... - ela balbuciou estendendo as duas mos para o rapaz, ou melhor, dando-as a ele, como se, de sbito, tivesse resolvido fazer-lhe presente delas.
- Mas se no podemos nos casar, podemos... podemos ficar noivos!... Ningum ficar sabendo, Raoul!... J houve casamentos secretos!... Pode haver tambm noivado
secreto!... Ficamos noivos, meu amigo, por um ms!... Dentro de um ms, voc partir e eu poderei ficar feliz, com a lembrana desse ms, pela vida toda!
      Ela estava radiante com a sua idia e voltou a ficar sria.
      - Isso... - disse -  uma felicidade que no far mal a ningum.
      Raoul tinha entendido. Atirou-se sobre essa inspirao. Quis imediatamente fazer dela uma realidade. Inclinou-se diante de Christine com uma humildade sem
igual e disse:
      - Senhorita, tenho a honra de pedir a sua mo!
      - Ora, voc j tem as duas, meu querido noivo!... Oh! Raoul, como vamos ser felizes!... Ns vamos brincar de futuro maridinho e de futura mulherzinha!...
      Raoul dizia consigo: "Daqui a um ms, terei tempo para faz-la esquecer ou para penetrar e destruir o 'mistrio da voz de homem', e em um ms Christine consentir
em tornar-se a minha mulher. Enquanto se espera, vamos ficar brincando!".
      Foi o jogo mais bonito do mundo, e desfrutaram dele como duas crianas que eram. Ah! como disseram coisas maravilhosas um ao outro! E quantas juras eternas
trocaram! A idia de que, passado um ms, no haveria mais ningum para guardar aqueles juramentos os deixava entre o riso e as lgrimas. Brincavam "de corao"
como outros brincam "de bola"; s que, como eram os seus coraes que eles jogavam um para o outro, era-lhes necessrio ser muito bons jogadores para receb-lo sem
provocar dor. Um dia - era o oitavo do jogo - o corao de Raoul doeu muito e o rapaz interrompeu a partida com estas palavras extravagantes: "No vou mais para
o Plo Norte".
      Christine, que, na sua inocncia, no pensara nessa possibilidade, descobriu de repente o perigo do jogo e ficou amargamente zangada consigo mesma. No respondeu
uma palavra para Raoul e voltou para casa.
      Isso aconteceu  tarde, no camarim da cantora onde ela marcava todos esses encontros e onde se divertiam em verdadeiros "jantares" constitudos por alguns
biscoitos, dois clices de vinho do Porto e um buqu de violetas.
       noite, ela no cantava. Ele no recebeu a carta costumeira, embora se tivessem permitido escrever todos os dias um ao outro durante aquele ms. Na manh
seguinte, ele correu  casa da Sra. Valrius, que lhe informou que Christine estaria ausente por dois dias. Tinha partido na tarde do dia anterior, s 5 horas, dizendo
que no estaria de volta antes de dois dias. Raoul ficou transtornado. Estava detestando a Sra. Valrius que lhe dava uma notcia dessas com estupenda tranqilidade.
Tentou "tirar alguma coisa" dela, mas parecia evidente que a boa senhora no sabia de nada. Consentiu apenas em responder s perguntas enlouquecidas do rapaz:
      -  o segredo de Christine!
      E levantava o dedo, dizendo isso com uma uno comovente que recomendava a discrio ao mesmo tempo em que pretendia dar segurana.
      - Ah! as moas esto bem protegidas com essa Sra. Valrius! - exclamou com raiva Raoul enquanto descia as escadas como louco.
      Onde poderia estar Christine?... Dois dias... Dois dias a menos na j to curta felicidade deles! E, era culpa dele! No tinha sido combinado que ele devia
partir?... E se a sua firme inteno era no partir, por que tinha falado to cedo? Ele se acusava de falta de tato e foi o mais infeliz dos homens durante quarenta
e oito horas, ao cabo das quais Christine reapareceu.
      Reapareceu num triunfo. Reencontrou finalmente o sucesso inaudito da noite de gala. Desde a aventura do "sapo", Carlotta no tinha podido se apresentar no
palco. O terror de falhar novamente habitava-lhe o corao e lhe tirava todas as foras; e os lugares, testemunhas de sua incompreensvel derrota, tinham-se tornado
odiosos para ela. Encontrou um meio de romper o seu contrato. Momentaneamente, pediu-se a Daa que ocupasse a vaga. Um verdadeiro delrio acolheu-a em A judia.
      O visconde, presente nessa noite, naturalmente, foi o nico a sofrer ao ouvir os mil ecos desse novo triunfo; porque viu que Christine conservava no dedo o
seu anel de ouro. Uma voz distante murmurava no ouvido do rapaz: "Esta noite, ela ainda est com o anel de outro, e no foi voc quem o deu para ela. Esta noite,
ela deu de novo a sua alma, e no foi para voc".
      E a voz o perseguia ainda: "Se ela no quer lhe dizer o que faz, h dois dias... se lhe esconde o lugar onde se retirou,  preciso ir pergunt-lo a Erik!".
      Correu para o palco. Colocou-se no caminho dela. Ela o viu, pois os seus olhos o procuravam. Ela lhe disse: "Depressa! Depressa! Venha!" E puxou-o para o seu
camarim, sem se preocupar com todos os cortesos da sua jovem glria que murmuravam diante da porta fechada: " um escndalo!".
      Raoul caiu imediatamente a seus ps. Jurou-lhe que iria partir e suplicou-lhe que doravante no cortasse mais nenhuma hora da felicidade ideal que ela lhe
tinha prometido. Ela deixou correrem as lgrimas. Abraaram-se como irmo e irm desesperados que acabam de ser atingidos por um luto comum e se reencontram para
chorar um morto.
      Sbito, ela se arrancou ao suave e tmido abrao do rapaz, pareceu escutar alguma coisa e, com um gesto breve, mostrou a porta a Raoul. Quando ele estava saindo,
ela lhe disse, to baixo que o visconde adivinhou mais do que ouviu as palavras:
      - Amanh, meu querido noivo! E seja feliz, Raoul... foi para voc que eu cantei esta noite!...
      E ele voltou.
      Mas, infelizmente, esses dois dias de ausncia tinham rompido o encanto da amvel mentira que havia entre eles. Olharam um para o outro, no camarim, sem nada
dizer, com olhos tristes. Raoul se segurava para no gritar: "Eu estou com cimes!". Mas ela o ouvia assim mesmo.
      Ento, ela disse:
      - Vamos dar um passeio, meu amigo, o ar livre lhe far bem. Raoul pensou que ela fosse lhe propor alguma brincadeira no campo, longe daquele monumento, que
ele detestava como se fosse uma priso, e cujo carcereiro ele sentia raivosamente passear pelas paredes... o carcereiro Erik... Mas ela o conduziu ao palco e f-lo
sentar-se sobre a beirada de madeira de uma fonte, na paz e no frescor duvidosos de um primeiro cenrio plantado para o prximo espetculo; num outro dia, ela vagou
com ele, segurando-lhe a mo, pelas alamedas abandonadas de um jardim cujas trepadeiras tinham sido recortadas pelas mos hbeis de um decorador, como se o cu de
verdade, as flores de verdade, a terra de verdade lhe estivessem para sempre proibidos e ela estivesse condenada a no respirar outro ar que no fosse o do teatro!
O rapaz hesitava em fazer-lhe a menor pergunta, pois, como parecia imediatamente que ela no podia responder, temia faz-la sofrer inutilmente. De vez em quando,
um bombeiro passava, e de longe espiava o seu idlio melanclico. Por vezes, ela tentava corajosamente engan-lo sobre a beleza mentirosa daquele quadro inventado
para a iluso dos homens. A sua imaginao sempre viva o enfeitava com as mais brilhantes cores e tais, dizia ela, que a natureza no podia produzir comparveis.
Ela se exaltava, enquanto Raoul apertava a sua mo febril. Dizia: "Veja, Raoul, essas muralhas, esses bosques, esses dossis, essas imagens pintadas na tela, tudo
isso viu os mais sublimes amores, pois aqui foram inventados por poetas, que ultrapassam de cem cvados o tamanho dos homens. Diga-me ento que o nosso amor est
a presente, meu Raoul, pois que ele tambm foi inventado, e que no , tampouco ele, infelizmente, mais que uma iluso!".
      Desolado, ele no respondia.
      "O nosso amor  triste demais sobre a terra, vamos faz-lo passear no cu!... Veja como  fcil aqui!"
      E ela o puxava para um lugar acima das nuvens, na desordem magnfica da rede de cordames e se divertia em provocar-lhe vertigem correndo  sua frente sobre
as pontes frgeis da gambiarra, entre os cabos que se amarravam s roldanas, aos guindastes, aos tambores, no meio de uma verdadeira floresta area de mastros. Se
ele hesitasse, ela lhe dizia com um beicinho adorvel: "Voc, um marinheiro?!"
      Depois desciam para a terra firme, isto , para algum corredor que os conduzia a risos, a danas,  juventude que se fazia repreender por uma voz severa: "Mais
flexibilidade, mocinhas!... Cuidado com as suas pontas!"... E a classe das garotas, daquelas que acabam de passar dos seis anos ou que logo vo fazer nove ou dez...
e j tm a blusinha decotada, o saiote ligeiro, a cala colante branca e as meias cor-de-rosa, e trabalham, trabalham com toda a fora dos seus pezinhos doloridos
na esperana de se tornarem alunas das quadrilhas, corifias, danarinas, primeiras danarinas, com muitos diamantes em volta... Enquanto esperam, Christine lhes
distribui balas.
      Noutro dia, ela o fazia entrar num vasto salo do seu palcio, todo cheio de ouropis, vestimentas de cavaleiros, lanas, escudos e penachos, e passava em
revista todos os fantasmas de guerreiros imveis e cobertos de poeira. Dirigia-lhes boas palavras, prometendo-lhes que voltariam a vir noites ofuscantes de luz,
e os desfiles de msica diante da rampa retumbante.
      Ela o fez passear assim por todo o seu imprio, que era factcio, mas imenso, a estender-se por dezessete andares do trreo at o topo e era habitado por um
exrcito de sditos. Passava pelo meio deles como uma rainha popular, animando os trabalhos, sentando-se nos armazns, dando sbios conselhos s operrias cujas
mos hesitavam em dar o pique nos ricos estofos que deviam vestir heris. Os habitantes desse pas tinham todas as profisses. Havia sapateiros e ourives. Todos
tinham aprendido a am-la, pois ela se interessava pelos sofrimentos e pelas pequenas manias de cada um. Sabia de recantos desconhecidos habitados em segredo por
velhos casais.
      Batia  porta deles e apresentava Raoul como um prncipe encantado que tinha pedido a sua mo, e ambos sentados sobre algum acessrio carunchado escutavam
as lendas da pera como outrora tinham escutado, na infncia, os velhos contos bretes. Esses ancios no tinham outra lembrana que no fosse a pera. Moravam ali
desde inumerveis anos. As administraes desaparecidas os tinham esquecido ali; as revolues de palcio os tinham ignorado; fora, a histria da Frana tinha passado
sem que eles se dessem conta, e ningum se lembrava deles.
      Assim se passavam os preciosos dias e Raoul e Christine, pelo interesse excessivo que pareciam atribuir s coisas exteriores, esforavam-se inabilmente por
esconder um do outro o nico pensamento de seu corao. Um fato certo era que Christine, que se tinha mostrado at ento a mais forte, ficou de repente nervosa alm
de qualquer expresso. Em suas expedies, punha-se a correr sem motivo ou parava bruscamente, e a sua mo, que ficara gelada num instante, segurava o rapaz. Os
seus olhos pareciam s vezes seguir sombras imaginrias. Gritava: "Por aqui", depois "por aqui", e novamente "por aqui", rindo, com um riso ofegante que terminava
muitas vezes em lgrimas. Raoul ento queria falar, interrogar apesar de suas promessas, de seus compromissos. Mas, antes mesmo que tivesse formulado uma pergunta,
ela respondia febrilmente: "Nada!... juro-lhe que no h nada".
      Uma vez em que, no palco, eles passavam diante de um alapo entreaberto, Raoul se debruou sobre o abismo escuro e disse: "Voc me fez visitar os altos do
seu imprio, Christine... mas contam histrias estranhas sobre os baixos... Voc no gostaria que a gente descesse at l?". Ouvindo isso, ela o agarrou pelo brao,
como se temesse v-lo desaparecer no buraco negro, e lhe disse bem baixinho a tremer: "Nunca!... Probo-o de ir l embaixo!.. E depois, no  meu!... Tudo que est
debaixo da terra lhe pertence!..."



      Raoul mergulhou o seu olhar no dela e lhe disse com voz rude:
      - Ento ele mora l embaixo?
      - Eu no lhe disse isso!... Quem foi que lhe disse semelhante coisa? Vamos! venha! H momentos, Raoul, em que eu me pergunto se voc no est louco... Voc
sempre ouve coisas impossveis!... Venha! Venha!
      E ela o arrastava literalmente, pois ele queria obstinadamente ficar perto do alapo, aquele buraco o atraa.
      O alapo de repente se fechou, e to subitamente, sem que tivessem nem mesmo percebido a mo que o fazia mover-se, que ficaram completamente aturdidos.
      - Talvez fosse ele quem estava l? - Raoul acabou por dizer. Ela levantou os ombros, mas no parecia nada sossegada.
      - No! no! so os "fechadores de alapes". Eles tm de fazer alguma coisa... Abrem e fecham os alapes sem motivo...  como os "fechadores de portas"; eles
tm de fazer algo para "matar o tempo".
      - E se fosse ele, Christine?
      - No! No ! Ele est trancado! Ele est trabalhando.
      - Ah! realmente, ele trabalha?
      - E, ele no pode abrir e fechar os alapes e trabalhar ao mesmo tempo. No temos com que nos preocupar.
      Ao dizer isso, ela estremecia.
      - Em que  que ele trabalha?
      - Oh! em alguma coisa de terrvel!... Assim, ns ficamos despreocupados!... Quando ele trabalha nisso, no v nada; ele no come, no bebe, nem respira...
durante dias e noites...  um morto vivo e no tem tempo para ficar brincando com alapes!...
      Ela estremeceu mais uma vez, inclinou-se para escutar do lado do alapo... Raoul ficou calado. Temia agora que o som de sua voz a fizesse refletir, interrompendo-o
no curso ainda to frgil de suas confidncias.
      Ela no o tinha largado, continuava a segur-lo pelo brao e por sua vez acrescentou:
      - Se fosse ele!
      Raoul, tmido, perguntou:
      - Voc tem medo dele? Ela disse:
      - Ora, no!
      O rapaz, involuntariamente, ficou com d dela, como se faz com uma pessoa impressionvel que ainda est a braos com um sonho recente. Ele parecia dizer: "Porque
voc sabe, eu... eu estou aqui!" E o seu gesto foi, quase involuntariamente, ameaador; ento Christine olhou para ele assustada, como um fenmeno de coragem e de
virtude, e pareceu, em sua mente, medir em seu justo valor tanto cavalheirismo intil e audacioso. Abraou o pobre Raoul como uma irm que o recompensasse, com um
acesso de ternura, por ter fechado o seu punhozinho fraternal para defend-la contra os perigos sempre possveis da vida.
      Raoul entendeu e corou de vergonha. Ele se achava to frgil quanto ela. Dizia a si mesmo: "Ela quer demonstrar que no est com medo, mas nos afasta do alapo
a tremer". Era verdade. No dia seguinte e nos outros dias subseqentes, foram abrigar os seus curiosos e castos amores quase nos stos, bem longe dos alapes.
A agitao de Christine s ia aumentando  medida que passavam as horas. Finalmente, numa tarde, ela chegou atrasadssima, com o rosto plido e os olhos avermelhados
por um desespero incontestvel, que Raoul resolveu chegar a todos os extremos, quele, por exemplo, que lhe exprimiu sem rodeios, de que s partiria para o Plo
Norte se ela lhe confiasse o segredo da voz de homem.
      - Cale-se! Em nome do Cu, cale-se. Se ele ouvisse o que voc est dizendo, pobre Raoul!
      E os olhos ferozes da moa rondavam pelas coisas em seu redor.
      - Eu retirarei voc do poder dele, Christine, juro! E voc nem sequer pensar mais nele, o que  necessrio.
      - Seria possvel?
      Ela se permitiu essa dvida que era um incentivo, enquanto arrastava o rapaz at o ltimo andar do teatro, "na altitude", l onde se est bem longe dos alapes.
      - Esconderei voc num canto desconhecido do mundo, onde ele no ir procurar voc. Voc estar salva, e ento eu partirei pois que voc jurou nunca se casar.
      Christine atirou-se s mos de Raoul e as apertou com um mpeto incrvel. Mas, ficando de novo inquieta, virava a cabea.
      - Mais alto! - disse apenas... mais alto ainda!... - E o arrastava para os pontos mais elevados.
      Ele tinha dificuldade para segui-la. Logo estavam abaixo do telhado, num labirinto de vigas. Escorregavam entre os arcos de sustentao, as cavilhas, as mos-francesas,
os painis, as guas, os desnveis; corriam de viga em viga, como se, numa floresta, corressem de rvore em rvore, de troncos formidveis...
      E, apesar da precauo que tomava de olhar a cada instante para trs, ela no viu uma sombra que a seguia como a sua sombra, que parava com ela, que seguia
quando ela seguia e que no fazia barulho maior do que o que faria uma sombra. Quanto a Raoul, no percebeu nada, pois, quando tinha Christine diante de si, nada
do que se passava atrs lhe interessava.





13

A LIRA DE APOLO

      Assim, chegaram aos telhados. Ela deslizava sobre eles, leve e familiar, como uma andorinha. O olhar deles, entre as trs cpulas e o fronto triangular, percorreu
o espao deserto. Ela respirou com fora, acima de Paris, de onde se avistava todo o vale a trabalhar. Olhou para Raoul com confiana. Chamou-o para bem pertinho
de si e, lado a lado, caminharam, bem l no alto, pelas ruas de zinco, nas avenidas de ferro; colocaram a sua forma gmea dentro dos vastos reservatrios cheios
de gua imvel onde, na estao quente, os garotinhos do bal, cerca de vinte meninos, mergulham e aprendem a nadar. A sombra atrs deles, sempre fiel aos seus passos,
tinha surgido, achatando-se sobre os telhados, alongando-se com movimentos de asas negras. nas esquinas das ruelas de ferro, dando a volta s depresses, contornando,
silenciosa, os zimbrios; e as pobres crianas nem desconfiavam da sua presena quando se sentaram finalmente, confiantes, sob a alta proteo de Apoio, que levantava
o seu semblante de bronze, a sua prodigiosa lira, no corao do cu em fogo.
      Uma tarde inflamada de primavera os rodeava. Algumas nuvens, que acabavam de receber do poente a leve roupagem de ouro e prpura, passavam lentamente; e Christine
disse a Raoul: "Logo, iremos mais longe e mais depressa do que as nuvens, ao fim do mundo, e depois voc me abandonar, Raoul. Mas se, chegado o momento de voc
me raptar, eu no consentir mais em segui-lo, ento, Raoul, voc me carregaria embora!"
      Com que fora, que parecia dirigida contra si mesma, ela disse isso, enquanto se apertava nervosamente contra ele. O rapaz ficou impressionado.
      - Ento voc teme mudar de idia, Christine?
      - No sei - disse ela, sacudindo estranhamente a cabea. -  um demnio!
      E ela, estremecendo, encolheu-se nos braos dele com um gemido.
      - Agora tenho medo de voltar a habitar com ele na terra!
      - O que  que fora voc a voltar, Christine?
      - Se eu no voltar para junto dele, podem acontecer grandes desgraas!... Mas no agento mais!... Sei que  preciso ter pena das pessoas que moram "debaixo
da terra"... Mas aquele l  muito horrvel! No entanto, aproxima-se o momento; s tenho mais um dia! E, se eu no voltar, ele  que vir me buscar com aquela sua
voz! Ir me arrastar com ele, para onde mora, debaixo da terra, e se por de joelhos na minha frente, com aquela sua caveira! E dir que me ama! E ir chorar! Ah!
aquelas lgrimas, Raoul! Aquelas lgrimas nos dois buracos negros da caveira. No posso mais ver correrem aquelas lgrimas!
      Ela torceu horrivelmente as mos, enquanto Raoul, tambm tomado desse desespero contagioso, apertava-a contra o corao:
      - No! no! Voc nunca mais vai ouvi-lo dizer que a ama! No ver mais correrem as suas lgrimas! Vamos fugir!... Imediatamente, Christine, vamos fugir! -
E j queria arrast-la.
      Mas ela o fez parar.
      - No, no - disse ela, meneando dolorosamente a cabea -, agora no!... Seria cruel demais... Deixe que ele me oua cantar ainda amanh  noite, pela ltima
vez... e depois ns iremos embora.  meia-noite, voc vir buscar-me no meu camarim;  meia-noite em ponto. Nesse momento, ele estar me esperando na sala de jantar
do lago... ns estaremos livres e voc me raptar!... Ainda que eu recuse, voc tem de me jurar isso, Raoul... porque estou sentindo que, desta vez, se eu voltar
para l, talvez nunca mais retorne...
      E acrescentou:
      - Voc no pode entender!...
      Lanou um suspiro ao qual, pareceu-lhe, atrs dela outro suspiro respondeu.
      - Voc no ouviu?
      Ela estava batendo os dentes.
      - No - garantiu Raoul -, no ouvi nada...
      - E terrvel demais - confessou a moa -, ficar tremendo assim!... E no entanto, aqui, no corremos nenhum risco; estamos em casa, em minha casa, no cu, em
pleno ar, em pleno dia. O sol est em chamas, e as aves noturnas no gostam de olhar o sol! Nunca o vi  luz do dia... Deve ser horrvel!... - balbuciou, voltando
para Raoul uns olhos desvairados. - Ah! a primeira vez que eu o vi!... Achei que ele ia morrer!
      - Por qu? - perguntou Raoul, realmente assustado com o tom que tomava essa estranha e tremenda confidncia. - Por que voc achou que ele ia morrer?
      - PORQUE EU O TINHA VISTO!!!
      Desta vez Raoul e Christine viraram-se ao mesmo tempo. - H algum aqui! - disse Raoul. - Talvez um ferido. Voc ouviu?
      - Eu? Eu no poderia lhe dizer - confessou Christine. - Mesmo quando ele no est mais presente, os meus ouvidos esto repletos dos seus suspiros... Entretanto,
se voc ouviu...
      Levantaram-se, olharam em torno de si... Estavam completamente sozinhos sobre o luminoso teto de chumbo. Voltaram a sentar-se. Raoul perguntou:
      - Como foi que voc o viu pela primeira vez?
      - Fazia trs meses que eu o ouvia sem v-lo. A primeira vez que o "ouvi", acreditei, como voc, que aquela voz adorvel, que de repente comeara a cantar ao
meu lado, cantava em um camarim prximo. Sa e procurei-a por toda parte; mas meu camarim fica muito isolado, Raoul, como voc sabe, e foi-me impossvel encontrar
a voz fora do meu camarim, enquanto ela permanecia fielmente ali. E no apenas ela cantava, mas falava comigo, respondia s minhas perguntas como uma voz de homem
verdadeira, com a diferena que ela era bela como uma voz de anjo. Como explicar um fenmeno to incrvel? Eu nunca tinha deixado de pensar no Anjo da msica que
o meu pobre papai havia prometido me enviar logo depois de sua morte. Arrisco falar com voc de tamanha infantilidade, Raoul, porque voc conheceu o meu pai, e ele
gostava muito de voc, e voc acreditou, ao mesmo tempo que eu, quando ramos pequenos, no Anjo da msica, e porque tenho certeza de que voc no vai rir nem caoar
de mim. Eu tinha conservado, meu amigo, a alma terna e crdula da pequena Lotte e no seria a companhia da Sra. Valrius que iria me tirar isso. Peguei entre as
minhas mos ingnuas aquela alma toda branca e ingenuamente a estendi, ofereci-a  voz de homem, acreditando oferec-la ao anjo. A culpa coube, um pouco,  minha
me adotiva, a quem eu no escondia nada do inexplicvel fenmeno. Ela foi a primeira a dizer: "Deve ser o anjo; em todo caso, voc sempre pode perguntar a ele".
Foi o que eu fiz e a voz de homem me respondeu que, de fato, era a voz do anjo que eu estava esperando e que meu pai me havia prometido ao morrer. A partir desse
momento, uma grande intimidade se estabeleceu entre a voz e mim, e tive nela uma confiana absoluta. Disse-me que tinha descido  Terra para me fazer provar as supremas
alegrias da arte eterna, e pediu-me licena para me dar aulas de msica, todos os dias. Consenti com ardor fervoroso e no faltei a nenhum encontro marcado, desde
a primeira hora, no meu camarim, quando aquele canto da pera estava totalmente deserto. Dizer-lhe como foram essas aulas! Voc mesmo, que ouviu a voz, pode fazer
idia.



      - Evidente que no! No posso fazer idia - replicou o rapaz. - Com que vocs faziam o acompanhamento?
      - Com uma msica que eu ignoro, que ficava atrs da parede e era de um armamento incomparvel. E, alm disso, eu poderia jurar, meu amigo, que a Voz sabia
exatamente a que ponto o meu pai, ao morrer, tinha parado as minhas lies e de que mtodo simples ele se tinha servido; e assim, me lembrando de todas as lies
passadas, me beneficiei das presentes, fiz progressos prodigiosos, a tal ponto que, noutras condies, teria levado anos! Lembre-se de que eu sou bastante delicada,
meu amigo, e minha voz, de incio, era pouco caracterizada, as notas baixas estavam mal desenvolvidas; os tons agudos eram bastante duros e o mdio, velado. Foi
contra todos esses defeitos que meu pai havia combatido e triunfado por um instante; foram defeitos que a Voz venceu definitivamente. Pouco a pouco, eu aumentava
o volume dos sons em propores que a minha fraqueza passada no me permitia esperar: aprendi a dar  minha respirao a maior amplitude. Mas, principalmente, a
Voz me confiou o segredo de desenvolver sons de peito numa voz de soprano. Finalmente, envolveu tudo isso no fogo sagrado da inspirao, despertou em mim uma vida
ardente, devoradora, sublime. A Voz tinha a virtude, ao se fazer ouvir, de me elevar at ela. Colocava-me em unssono com o seu vo soberbo. A alma da Voz habitava
a minha boca e ali soprava a harmonia!
      "Ao fim de algumas semanas, eu no me reconhecia mais quando cantava!... Ficava at espantada com o que estava acontecendo... tive medo, um instante, que houvesse
nisso algum sortilgio; mas a Sra. Valrius me tranqilizou. Sabia que eu era uma menina simples demais, dizia, para dar chance ao demnio.
      "Os meus progressos permaneceram secretos, entre a Voz, a Sra. Valrius e mim, por ordem da prpria Voz. Coisa curiosa, fora do camarim, eu cantava com a minha
voz de sempre, e ningum percebia nada. Eu fazia tudo o que a Voz queria. Ela me dizia: ' preciso esperar... voc ver! Ns vamos deixar espantada Paris!' E eu
esperava. Vivia numa espcie de sonho exttico em que comandava a Voz.. Entrementes, Raoul, vi voc, uma noite, na sala. Minha alegria foi tanta que nem pensei em
escond-la ao voltar ao camarim. Para nossa infelicidade, a Voz j estava l e viu, pelo meu jeito, que havia algo de novo. Perguntou-me o que eu tinha e no vi
nenhum inconveniente em lhe contar a nossa meiga histria, nem achei que devesse lhe dissimular o lugar que voc ocupava no meu corao. Ento a Voz se calou. Chamei-a,
ela no me respondeu; supliquei-lhe, foi em vo. Tive um pavor louco de que ela tivesse ido embora para sempre! Provera a Deus, meu amigo!... Voltei para casa, naquela
noite, em estado de desespero. Lancei-me num abrao  Sra. Valrius dizendo-lhe: 'Sabe, a Voz foi-se embora! Talvez no volte nunca mais!' E ela ficou to assustada
quanto eu e me pediu explicaes. Contei-lhe tudo. Ela me disse: 'Por Deus! a Voz est com cime!' Isso, meu amigo, fez-me descobrir que eu amava voc..."
      Neste ponto, Christine parou um instante. Debruou a cabea no peito de Raoul e ambos ficaram silenciosos por um momento, nos braos um do outro. A emoo
que os unia era tanta que no viram, ou melhor, no sentiram deslocar-se, a alguns passos deles, a sombra rastejante de duas grandes asas negras que se aproximou,
rente aos telhados, to perto deles que teria podido, caindo sobre eles, sufoc-los...
      - No dia seguinte - retomou Christine com um profundo suspiro -, voltei ao meu camarim toda pensativa. A Voz estava l.
       meu amigo! Ela se dirigiu a mim com grande tristeza. Declarou claramente que, se eu devia dar o corao neste mundo, ela no tinha mais nada a fazer, seno
voltar para o cu. E disse-me isso com um tom de dor humana tal que, a partir desse dia, eu deveria ter desconfiado e comeado a compreender que tinha sido estranhamente
vtima do engano dos meus sentidos abusados. Mas a minha f naquela apario de Voz,  qual se mesclava to intimamente o pensamento de meu pai, estava ainda inteira.
Nada eu temia mais do que parar de ouvi-la; por outro lado, tinha refletido sobre o sentimento que me levava para voc; eu tinha medido todo o seu intil perigo;
ignorava at se voc ainda se lembrava de mim. Acontecesse o que acontecesse, a sua situao na sociedade me proibia para sempre o pensamento de uma unio honesta;
jurei  Voz que voc no era nada para mim alm de um irmo e que voc nunca seria mais do que isso, e que o meu corao estava vazio de amor terrestre... E a est
a razo, meu amigo, pela qual eu desviava os olhos quando, no palco ou nos corredores, voc procurava atrair a minha ateno, a razo pela qual eu no o reconhecia...
pela qual eu no o via!.. Durante esse tempo, as horas de aula, entre a Voz e mim, escoavam num delrio divino. Nunca a beleza dos sons me havia possudo a esse
ponto e um dia a Voz me disse: "Agora, Christine Daa, podes levar aos homens um pouco da msica do cu!"
      - Como, naquela noite, que era a noite de gala, Carlotta no veio ao teatro? Como fui chamada para substitu-la? No sei; mas eu cantei... cantei com um enlevo
desconhecido; estava leve como se me tivessem dado asas; acreditei por um instante que a minha alma abrasada tinha deixado o meu corpo!
      - , Christine! - exclamou Raoul, cujos olhos estavam midos com a lembrana -, aquela noite o meu corao vibrou a cada vibrao da sua voz. Eu vi as suas
lgrimas rolarem nas faces plidas, e chorei com voc. Como voc podia cantar chorando?
      - As minhas foras me abandonaram - disse Christine - fechei os olhos... Quando os reabri, voc estava ao meu lado! Mas a Voz tambm estava, Raoul!... Fiquei
com medo de voc, e ainda desta vez no quis reconhec-lo e me pus a rir quando voc me lembrou que tinha recolhido a minha echarpe no mar!...
      "Infelizmente, no se consegue enganar a Voz!... Ela reconheceu voc!... E a Voz estava enciumada!... Nos dois dias seguintes, ela me fez cenas atrozes...
Dizia-me: 'Voc o ama! Se voc no o amasse, no fugiria dele! Seria um velho amigo de quem voc apertaria a mo, como a todos os outros... Se voc no o amasse,
no recearia encontrar-se com ele e comigo sozinha no camarim!... Se voc no o amasse, no o expulsaria!...'
      "- Basta! - disse eu, irritada,  Voz. - Amanh devo ir a Perros, ao tmulo de meu pai; pedirei ao Sr. Raoul de Chagny que me acompanhe.
      "- Fique  vontade - disse ela -, "mas saiba que tambm eu estarei em Perros, porque estarei em toda parte onde voc estiver, Christine, e se voc continua
digna de mim, se voc no mentiu, tocarei para voc, ao toque da meia-noite, sobre o tmulo de seu pai, A ressurreio de Lzaro, com o violino do falecido.
      "Assim, fui levada, meu amigo, a escrever-lhe a carta que levou voc a Perros. Como pude ser enganada a esse ponto? Como, diante das preocupaes to pessoais
da Voz, no desconfiei de alguma impostura?  triste, mas eu no era mais senhora de mim: eu era um mero objeto em suas mos!... E os meios de que dispunha a Voz
deviam facilmente enganar uma menina como eu!"
      - Mas afinal - exclamou Raoul, neste ponto da narrativa de Christine em que ela parecia deplorar com lgrimas a inocncia exagerada de um esprito bem pouco
perspicaz -, mas afinal, voc logo soube a verdade!... Como voc no saiu imediatamente desse abominvel pesadelo?
      - Ficar sabendo da verdade!... Raoul!... Sair desse pesadelo!... Mas eu s entrei, infeliz, nesse pesadelo no dia em que fiquei sabendo desta verdade!... Cale-se!...
Cale-se!... Eu no lhe disse nada... e agora ns vamos descer do cu para a terra, lamente-me, Raoul!... lamente-me!... Uma noite, noite fatal... veja... era a noite
em que deviam acontecer tantas desgraas... a noite em que Carlotta pde, no palco, sentir-se transformada num sapo nojento e em que ela se ps a soltar gritos como
se tivesse morado a vida toda  beira dos brejos... a noite em que a sala ficou de repente mergulhada na escurido, sob o raio do lustre que desabou sobre a platia...
Houve, naquele dia, mortos e feridos, e todo o teatro ressoou com os mais tristes clamores.
      "O meu primeiro pensamento, Raoul, no estado de catstrofe, foi ao mesmo tempo para voc e para a Voz, pois vocs eram, nessa poca, as duas metades iguais
do meu corao. Fui logo tranqilizada no que diz respeito a voc, porque o vi no camarote do seu irmo e sabia que no corria nenhum risco. Quanto  Voz, tinha-me
anunciado que assistiria  representao, e temi por ela; sim, realmente temi, como se ela tivesse sido 'uma pessoa normal viva que fosse capaz de morrer'. Dizia
a mim mesma: 'Meu Deus! Talvez o lustre tenha esmagado a Voz'. Eu estava ento no palco e aflita a ponto de me dispor a correr para a sala e procurar a Voz entre
os mortos e feridos, quando me veio a idia de que, se nada de ruim lhe tivesse acontecido, ela j deveria estar no meu camarim, aonde se apressaria em ir para me
tranqilizar. Num salto, corri para o camarim. A Voz no estava l. Fechei-me no camarim e, com lgrimas nos olhos, supliquei-lhe que, se ainda estivesse viva, se
manifestasse a mim. A Voz no respondeu, mas de repente ouvi um longo, admirvel gemido que eu conhecia bem. Era a queixa de Lzaro quando,  voz de Jesus, comea
a levantar as pupilas e rever a luz do dia. Eram os choros do violino de meu pai. Reconhecia o toque de arco de Daa, o mesmo, Raoul, que nos mantinha imveis nos
caminhos de Perros, o mesmo que tinha 'encantado' a noite do cemitrio. E depois foi ainda, no instrumento invisvel e triunfante, o grito de jbilo da vida, e a
Voz, fazendo-se finalmente ouvir, ps-se a cantar a frase dominante e soberana: 'Vem! e cr em mim! Quem cr em mim reviver! Anda! Quem acreditou em mim no poder
morrer!' Eu no saberia dizer-lhe a impresso que recebi dessa msica que cantava a vida eterna no momento em que, ao lado de ns, pobres infelizes, esmagados por
aquele lustre fatal, entregavam a alma... Parecia que ela mandava tambm a mim que me levantasse, que caminhasse em sua direo. Ela ia se afastando, eu a segui.
'Vem! e cr em mim!' Eu acreditava nela, eu ia... pois eu tinha o espelho  minha frente... E de repente encontrei-me fora do meu camarim, sem saber como."
      Aqui Raoul interrompeu bruscamente a jovem:
      - Como isso pde acontecer, Christine? Voc precisava tentar parar de sonhar!
      - Pois , pobre amigo, eu no estava sonhando! Eu me encontrava fora do meu camarim sem saber como! Voc que me viu desaparecer do meu camarim uma noite, meu
amigo, voc poderia talvez explicar isso, mas eu no consigo!... S posso lhe dizer uma coisa:  que, encontrando-me na frente do espelho, de repente no o vi mais
na minha frente, e procurei atrs... mas no havia mais espelho, nem camarim... Estava num corredor escuro... fiquei com medo e gritei!...
      "Tudo era negro ao meu redor; ao longe, um dbil claro vermelho iluminava um ngulo da parede, um canto de um cruzamento. Gritei. Apenas a minha voz enchia
as paredes, pois o canto e os violinos tinham emudecido. E eis que de repente, no escuro, uma mo pousou sobre a minha... ou melhor, algo ossudo e gelado que me
aprisionou o pulso e no me largou mais... Gritei. Um brao aprisionou a minha cintura e me ergueu... Debati-me um instante tomada de horror; meus dedos escorregaram
ao longo das pedras midas em que no conseguiram agarrar-se. Depois, no me mexia mais, achei que ia morrer de pavor. Estava sendo levada na direo do pequeno
claro vermelho; penetramos nesse claro e ento eu vi que estava entre os braos de um homem envolto numa grande manta negra e cujo rosto estava todo escondido
atrs de uma mscara... Tentei um esforo supremo: os meus membros se enrijeceram, minha boca se abriu para berrar o meu pavor, mas uma mo a fechou, uma mo que
senti sobre os lbios, sobre a carne... e que cheirava  morte! Desmaiei.
      "Quanto tempo fiquei sem sentidos? No saberia dizer. Quando reabri os olhos, estvamos ainda, o homem de negro e eu, no seio das trevas. Uma lanterna surda,
posta no cho, iluminava o jato de uma fonte. A gua, marulhante, jorrando da muralha, desaparecia quase imediatamente sob o solo em que eu estava estendida; minha
cabea repousava no joelho do homem da mscara e do manto negros, e o meu silencioso companheiro refrescava-me as tmporas com um cuidado, uma ateno, uma delicadeza
que me pareceram mais horrveis de suportar do que a brutalidade de seu rapto de h pouco. Suas mos, por mais leves que fossem, no deixaram de cheirar  morte.
Rechacei-as, mas sem fora. Perguntei num sopro: 'Quem  voc? Onde est a Voz?' S um suspiro me respondeu. De repente, um bafo quente me passou pelo rosto e vagamente,
nas trevas, ao lado da forma negra de homem, distingui uma forma branca. A forma negra me ergueu e me colocou sobre a forma branca. Imediatamente, um relinchar alegre
atingiu os meus ouvidos estupefatos e murmurei: 'Csar!' O animal estremeceu. Meu amigo, eu estava meio deitada sobre uma sela e reconhecera o cavalo branco do Profeta,
que tantas vezes eu tinha mimado com guloseimas. Ora, uma noite correra, no teatro, o rumor de que o animal havia desaparecido e tinha sido roubado pelo fantasma
da pera. Quanto a mim, acreditava na Voz; nunca tinha acreditado no fantasma, e eis que, no entanto, perguntei a mim mesma, arrepiada, se eu no era prisioneira
do fantasma! Chamei, do fundo do corao, a Voz em meu socorro, pois nunca teria imaginado que a Voz e o fantasma fossem um s! Voc ouviu falar do fantasma da pera,
Raoul?
      - Ouvi - respondeu o rapaz. - Mas diga-me, Christine, o que lhe aconteceu quando voc estava sobre o cavalo branco do Profeta?
      - No fiz nenhum movimento e me deixei conduzir... Pouco a pouco um estranho torpor sucedeu ao estado de angstia e de terror em que me havia lanado essa
aventura infernal. A forma negra me segurava e eu no fazia mais nada para escapar-lhe. Uma paz singular se espalhara sobre mim e pensei estar sob a influncia benfazeja
de algum elixir. Gozava da plena disposio de meus sentidos. Os olhos se acostumavam com as trevas que, alis, aqui e ali se iluminavam de breves clares... Julguei
que estivssemos numa estreita galeria circular e imaginei que essa galeria fazia a volta da pera, que, debaixo da terra,  imensa. Uma vez, meu amigo, uma nica
vez, desci a esses subterrneos, que so prodigiosos, mas parei no terceiro pavimento, no ousando ir mais adiante dentro da terra. E, no entanto, mais dois andares
onde se poderia alojar uma cidade inteira se abriam a meus ps. Mas as figuras que se mostraram a mim me fizeram fugir. Existem ali demnios, bem pretos diante das
caldeiras, e agitam ps, garfos, atiam braseiros, acendem chamas, ameaam voc, se a gente se aproxima, abrindo de repente para voc a goela vermelha dos fornos!...
Ora, durante o tempo em que Csar, tranqilamente, nessa noite de pesadelo, me levava nas costas, avistei, de repente, longe, muito longe, e bem pequenos, como na
ponta de uns binculos invertidos, os demnios negros diante dos braseiros vermelhos e de seus colorferos... Apareciam... Desapareciam... Reapareciam ao sabor bizarro
da nossa marcha... Finalmente, desapareceram de todo. A forma de homem continuava me segurando, e Csar caminhava sem guia e com p firme... No saberia lhe dizer,
nem mesmo aproximadamente, quanto tempo, na noite, durou essa viagem; eu tinha apenas a idia de que estvamos dando voltas! dando voltas!, de que descamos seguindo
uma inflexvel espiral at o mago mesmo dos abismos da terra; e ainda, no seria a minha cabea que estava girando?... Todavia, no  o que penso. No! Eu estava
incrivelmente lcida. Csar, um instante, levantou as narinas, cheirou a atmosfera e apressou um pouco o passo. Senti o ar mido e a Csar parou. A noite tinha
clareado. Um claro azulado nos cercava. Olhei onde nos encontrvamos. Estvamos  beira de um lago cujas guas de chumbo se perdiam ao longe, no breu... mas a luz
azul iluminava essa margem e vi uma barquinha, amarrada a uma argola de ferro, no ancoradouro!
      "Sem dvida, eu sabia que tudo aquilo existia, e a viso do lago e da barca debaixo da terra no tinha nada de sobrenatural. Mas pense nas condies excepcionais
em que abordei essas paragens. As almas dos mortos no deviam sentir mais inquietao ao abordarem o Stix. Caronte no era certamente mais lgubre nem mais mudo
do que a forma de homem que me transportou na barca. Teria terminado o efeito do elixir? O frescor desses lugares bastaria para me devolver to completamente a mim
mesma? O meu torpor ia desaparecendo e fiz alguns movimentos que denotavam o reinicio do meu terror. Meu sinistro companheiro deve t-lo notado, porque, com um gesto,
despachou Csar, que fugiu nas trevas da galeria e cujas ferraduras ouvi bater nos degraus sonoros de uma escada; depois o homem se lanou na barca e livrou-a de
sua amarra de ferro; apoderou-se dos remos e remou com fora e presteza. Os seus olhos, sob a mscara, no me deixavam; sentia sobre mim o peso de suas pupilas imveis.
A gua, em torno de ns, no fazia nenhum barulho. Deslizamos nesse claro azulado de que lhe falei e depois ficamos de novo totalmente mergulhados na noite, e abordamos.
A barca bateu num corpo duro. Mais uma vez fui carregada nos braos. Eu tinha recuperado a fora de gritar. Uivei. Depois, de repente, calei-me, atingida pela luz.
Sim, uma luz radiante, no meio da qual eu tinha sido colocada. Levantei-me num salto. Estava com todas as minhas foras. No centro de um salo, que no me parecia
enfeitado, ornado, mobiliado seno com flores, flores magnficas e tolas por causa das fitas de seda que as amarravam, a cestos, corno se vendem nas lojas das avenidas,
flores civilizadas demais como aquelas que eu tinha o hbito de encontrar em meu camarim depois de cada premire; no centro desse embalsamento muito parisiense,
a forma negra do homem da mscara mantinha-se de p, com os braos cruzados... e falou:
      "- Fique tranqila, Christine, voc no corre nenhum risco.
      "Era a Voz!
      "O meu furor igualou a minha estupefao. Saltei sobre aquela mscara e quis arranc-la, para conhecer o rosto da Voz. A forma de homem me disse:
      "- Voc no corre nenhum risco se no tocar na mscara!
      "E aprisionando-me suavemente os pulsos, fez-me sentar.
      "Em seguida, ps-se de joelhos diante de mim e no disse mais nada!
      "A humildade desse gesto me devolveu alguma coragem; a luz, que agora definia cada coisa ao meu redor, devolveu-me  realidade da vida. Por mais extraordinria
que ela parecesse, a aventura se cercava agora de coisas mortais que eu podia ver e tocar. As tapearias da parede, os mveis, as tochas, os vasos e at as flores
que eu podia dizer de onde vinham, com suas faixas douradas, e quanto tinham custado, encerravam fatalmente a minha imaginao nos limites de uma sala to banal
quanto outras, que tinham pelo menos a desculpa de no estar situadas nos subterrneos da pera. Eu estava, sem dvida, s voltas com algum manaco original e medonho
que, misteriosamente, tinha-se alojado nos pores, como outros. por necessidade, e, com muda cumplicidade da administrao, tinha achado um abrigo permanente nos
subterrneos dessa Torre de Babel moderna, onde se faziam intrigas, onde se cantava em todas as lnguas, onde se amava em todos os dialetos.
      "E ento a Voz, a Voz que eu tinha reconhecido sob a mscara, que no a tinha podido esconder, era isso que estava de joelhos diante de mim: um homem!
      "No pensei mais nem mesmo na horrvel situao em que me achava, nem perguntei o que seria feito de mim e qual era o plano obscuro e friamente tirnico que
me havia conduzido a essa sala como se tranca um prisioneiro numa jaula, uma escrava num harm. No! no! e comecei a chorar.
      "O homem, sempre de joelhos, compreendeu sem dvida o sentido das minhas lgrimas, pois disse:
      "- E verdade, Christine!... Eu no sou nem anjo, nem gnio, nem fantasma... Eu sou Erik!"
      Aqui, mais uma vez, a narrativa de Christine foi interrompida. Pareceu aos jovens que o eco tinha repetido atrs deles: Erik!... Que eco?... Viraram-se para
trs e perceberam que a noite tinha chegado. Raoul fez um movimento como para se levantar, mas Christine, o reteve junto de si:
      - Fique! E preciso que voc fique sabendo de tudo aqui!
      - Por que aqui, Christine? Temo por voc a friagem da noite.
      - Ns s devemos temer os alapes, meu amigo, e aqui estamos no fim do mundo dos alapes... e eu no tenho o direito de ver voc fora do teatro... No 
o momento de contrari-lo... No despertemos suspeitas...
      - Christine! Christine! alguma coisa me diz que no podemos esperar at amanh  noite e que deveramos fugir imediatamente!
      - Eu lhe digo que, se ele no me ouvir cantar amanh  noite, ele ficar infinitamente magoado.
      - E difcil no causar mgoa a Erik e fugir para sempre...
      - Voc tem razo, Raoul, nisso... pois certamente, com a minha fuga, ele morrer...
      A moa acrescentou com voz surda:
      - Mas tambm a partida fica empatada... pois corremos o risco de ele nos matar.
      - Ele gosta mesmo muito de voc?
      - At o crime!
      - Mas a sua morada no  impossvel de ser encontrada... Pode-se ir procur-lo l. Se Erik no  um fantasma, pode-se falar com ele e mesmo for-lo a responder!
      Christine meneou a cabea:
      - No! no! No se pode nada contra Erik!... S se pode fugir!
      - E como, podendo fugir, voc voltou para junto dele?
      - Porque era preciso... E voc compreender isso quando souber como sa da casa dele...
      - Ah! Como o detesto! - exclamou Raoul... e voc, Christine, diga-me... eu necessito que voc me diga isso para poder ouvir com mais calma a continuao desta
extraordinria histria de amor... e voc, voc o odeia?
      - No! - declarou Christine com simplicidade.
      - Ah! Sim... Voc certamente o ama! O seu medo, os seus terrores, tudo isso  tambm amor e do mais delicioso! Aquele que a gente no confessa - disse Raoul
com amargura. - Aquele que, quando voc pensa nele, faz voc se arrepiar... Pense bem, um homem que habita num palcio debaixo da terra!
      - Voc quer ento que eu volte para l! - interrompeu brutalmente a moa. - Tome cuidado, Raoul, eu j lhe disse: eu no conseguirei retornar!
      Houve um silncio pavoroso entre os trs... os dois que falavam e a sombra que estava ouvindo, atrs...
      - Antes de lhe responder - disse finalmente Raoul com voz lenta --, desejaria saber que sentimento ele lhe inspira, j que voc no o odeia.
      - De horror! - exclamou ela, lanando essas palavras com tal fora que elas encobriram os suspiros da noite.
      " o que h de terrvel... - acrescentou ela, numa febre crescente. - Tenho horror por ele e no o detesto. Como odi-lo, Raoul? Veja Erik a meus ps, na morada
do Lago, debaixo da terra. Ele se acusa, se maldiz, implora o meu perdo!...
      "Confessa a sua impostura. Ele me ama! Coloca a meus ps um imenso e trgico amor!... Raptou-me por amor!... Aprisionou-me com ele, dentro da terra, por amor...
e me respeita, e rasteja, e geme, e chora!... E quando me levanto, Raoul, quando lhe digo que s posso desprez-lo se ele no me devolver imediatamente essa liberdade,
que me roubou, coisa incrvel... ele a oferece para mim... basta que eu v embora... Est pronto para me mostrar o misterioso caminho... s que... s que ele tambm
se levantou e sou obrigada a me lembrar de que, se ele no  fantasma, nem anjo, nem gnio, ele continua sendo a Voz, pois ele canta!...
      "E eu o escuto... eu fico!
      "Naquela noite, no trocamos mais nenhuma palavra... Tinha pegado uma harpa e comeou a cantar para mim, ele, a voz de anjo, a romana de Desdmona. A lembrana
que eu tinha de t-la cantado me deixava envergonhada. Meu amigo, existe uma virtude na msica que faz com que nada exista no mundo exterior fora daqueles sons que
vm lhe tocar o corao. S revivia a Voz e eu a seguia inebriada em sua viagem harmoniosa; eu fazia parte do rebanho de Orfeu! Ela me conduziu pela dor e pela alegria,
no martrio, no desespero, no jbilo, na morte e nos triunfantes himeneus... Eu escutava... Ela cantava... Cantou para mim trechos desconhecidos... e me fez ouvir
uma msica nova que me causou uma estranha impresso de doura, de langor, de repouso... uma msica que, depois de elevar a minha alma, tranqilizou-a pouco a pouco
e a conduziu at o limiar do sonho. Adormeci.
      "Quando despertei, estava sozinha, numa espreguiadeira, num pequeno quarto bem simples, equipado com uma cama banal de mogno, com paredes lisas de tela de
Jouy, e iluminado por um abajur colocado sobre o mrmore de uma velha cmoda no estilo Louis Phillipe. Que novo cenrio era esse?... Passei a mo na testa, como
para espantar um mau sonho... Infelizmente, no demorei muito para perceber que eu no havia sonhado! Era prisioneira e no podia sair do meu quarto seno para entrar
num banheiro dos mais confortveis; gua quente e fria  vontade. Ao voltar ao meu quarto, deparei, sobre a cmoda, com um bilhete a tinta vermelha que me informava
detalhadamente sobre a minha triste situao e que, se isso fosse ainda necessrio, tirava-me todas as dvidas sobre a realidade dos acontecimentos: 'Minha querida
Christine, dizia o papel, fique sossegada quanto  sua sorte. Voc no tem no mundo amigo melhor nem mais respeitoso do que eu. Voc est sozinha, neste momento,
nesta morada que lhe pertence. Sa para ir at as lojas e lhe trazer toda a roupa de que voc pode precisar'.
      "- Decididamente, ca nas mos de um louco! - exclamei. - O que ser de mim? E quanto tempo esse miservel pensa manter-me fechada em sua priso subterrnea?
      "Corri pelo meu pequeno apartamento como uma insensata, procurando sempre uma sada que no encontrava. Acusei-me amargamente pela minha estpida superstio
e tive um prazer medonho em recriminar a perfeita inocncia com que havia acolhido, atravs das paredes, a Voz do gnio da msica... Quando a gente  assim to tola,
tem de esperar pelas mais inauditas catstrofes, e todas elas so merecidas! Tinha vontade de bater em mim mesma e comecei a rir e a chorar ao mesmo tempo. Foi nesse
estado que Erik me encontrou.
      "Depois de dar trs pancadinhas secas na parede, ele entrou por uma porta que eu no tinha descoberto e que deixou aberta. Estava carregado de caixas e pacotes
e os colocou, sem pressa, em cima da cama, enquanto eu o cobria de ultrajes e o intimava a retirar a mscara, se tivesse a pretenso de dissimular um rosto de cavalheiro.
      "Respondeu-me com grande serenidade:
      "- Voc jamais ver o rosto de Erik.
      "E me recriminou por eu ainda no ter feito a toalete a essa hora do dia; dignou-se informar-me que eram duas horas da tarde. Ia deixar-me meia hora sozinha
para que fizesse minha toalete. Enquanto dizia isso, tomou o cuidado de dar corda no meu relgio e coloc-lo na hora certa. A seguir, convidou-me para passar  sala
de jantar, onde um excelente almoo nos esperava. Eu estava com muita fome, bati-lhe a porta no nariz e entrei no banheiro. Tomei um banho depois de ter colocado
ao meu alcance uma tesoura magnfica com a qual estava disposta a me matar, caso Erik, depois de ter procedido como um louco, cessasse de agir como um cavalheiro.
A frescura da gua me fez bem e, quando reapareci diante dele, tinha tomado a sbia resoluo de no entrar em choque com ele nem irrit-lo no que quer que fosse,
de adul-lo se necessrio fosse para conseguir dele uma pronta liberdade. Foi ele, primeiro, quem me falou de seus projetos a meu respeito, e os precisou, para me
tranqilizar. Sentia prazer demais em minha companhia para privar-se dela imediatamente como, por um momento, tinha consentido na vspera, diante da expresso de
meu terror. Eu devia entender agora que no tinha razo alguma para ficar apavorada por v-lo ao meu lado. Amava-me, mas no me diria isso enquanto eu no permitisse,
e o resto do tempo se passaria em msica.
      "O que  que voc entende por 'o resto do tempo'? - perguntei.
      "Ele me respondeu com firmeza:
      "- Cinco dias.
      "E depois ficarei livre?
      "- Voc estar livre, Christine, pois, passados esses cinco dias, voc ter aprendido a no ter mais medo de mim: e ento voc vir visitar, de vez em quando,
o pobre Erik!...
      "O tom em que ele pronunciou estas ltimas palavras mexeu profundamente comigo. Pereceu-me descobrir nele um desespero to real, to digno de d que levantei
para a mscara o meu rosto enternecido. No podia ver os olhos atrs da mscara e isso no diminua o estranho sentimento de mal-estar que se tinha em interrogar
esse misterioso quadrado de seda preta; mas por baixo do pano, na extremidade da barba da mscara, apareceram uma, duas, trs, quatro lgrimas.
      "Silenciosamente, apontou-me um lugar  frente dele, numa pequena mesa redonda que ocupava o centro da sala onde, na vspera, ele tinha tocado harpa para mim,
e eu me sentei, muito perturbada. Comi, entretanto, com bom apetite, alguns caranguejos, uma asa de frango regada com um pouco de vinho de Tokay que ele prprio
trouxera, dizia-me, das adegas de Koenigsberg, outrora freqentadas por Falstaff. Quanto a ele, no comia, no bebia. Perguntei-lhe qual era a sua nacionalidade,
e se esse nome, Erik, no manifestava uma origem escandinava. Respondeu-me que no tinha nem nome nem ptria, e que tomara o nome de Erik por acaso. Perguntei-lhe
por que, j que me amava, no tinha encontrado outro jeito de me mostrar isso que no fosse me arrastando com ele e me prender dentro da terra.
      "E muito difcil fazer-se amar dentro de um tmulo.
      "- A gente tem - respondeu ele - os encontros que pode.
      "Depois levantou-se e me estendeu os dedos, pois queria, dizia ele, fazer-me as honras de seu apartamento, mas eu retirei vivamente a minha mo da dele soltando
um grito. O que eu tinha tocado era ao mesmo tempo mido e sseo, e lembrei-me de que as suas mos cheiravam  morte.
      "- Oh! Desculpe - gemeu.
      "E abriu uma porta  minha frente.
      "- Aqui est o meu quarto - disse ele. - Ele  bastante curioso de se visitar... se voc quiser v-lo?
      "No hesitei. As maneiras dele, as palavras, todo o seu jeito me dizia para ter confiana... e alm disso eu sentia que no precisava ter medo.
      "Entrei. Parecia que estava penetrando numa cmara morturia. As paredes eram todas cobertas de preto, mas, em vez das lgrimas brancas que, em geral, complementam
esse ornamento fnebre, viam-se, numa enorme pauta musical, as notas repetidas do Dies irae. No meio desse quarto havia um dossel de onde pendiam cortinas de brocado
vermelho e, sob o dossel, um esquife aberto.
      "Ao ver aquilo, recuei.
      "-  a dentro que eu durmo - disse Erik. -  preciso acostumar-se com tudo na vida, mesmo com a eternidade.
      "Desviei a cabea, de to sinistra que foi a impresso que recebi desse espetculo. Os meus olhos deram ento com o teclado de um rgo que ocupava todo um
lado da parede. Sobre a estante estava um caderno, todo salpicado de notas vermelhas. Pedi licena para olh-lo e li a primeira pgina: Don Juan triunfante.
      "- Sim, algumas vezes eu componho. J vo para vinte anos que comecei esse trabalho. Quando ele estiver terminado, vou lev-lo comigo para dentro desse caixo
e no acordarei mais.
      "-  preciso trabalhar nele o menos possvel - disse eu.
      "- Trabalho s vezes quinze dias e quinze noites seguidos, durante os quais s vivo de msica, e depois descanso durante anos.
      "- Voc quer tocar para mim alguma coisa do seu Don Juan triunfante?- pedi, achando que ia agradar-lhe e vencendo a repugnncia que sentia em ficar naquele
quarto da morte.
      "- Nunca me pea isso - respondeu com voz sombria. - Esse Don Juan a no foi escrito em cima da letra de um Lorenzo d'Aponte, inspirado pelo vinho, pelos
pequenos amores e pelo vcio, finalmente castigado por Deus. Toco Mozart para voc, se quiser, que far correr as suas belas lgrimas e lhe inspirar honestas reflexes.
Mas o meu Don Juan, ele queima, Christine, e, no entanto, no ser fulminado pelo fogo do cu!...
      "A seguir, voltamos para a sala que acabramos de deixar. Notei que em nenhum lugar do apartamento havia espelhos. Ia fazer uma reflexo sobre isso, mas Erik
acabara de sentar-se ao piano. Ele me disse:
      "- Est vendo, Christine, existe uma msica to terrvel que consome todos aqueles que dela se aproximam. Voc ainda no chegou at essa msica, felizmente,
pois voc perderia as suas frescas cores e no a reconheceriam mais quando voltasse a Paris. Cantemos a pera, Christine Daa.
      "Ele me disse: 'Cantemos a pera, Christine Daa', como se estivesse me lanando uma injria.
      "Mas no tive tempo para ponderar o tom que ele tinha dado s suas palavras. Comeamos imediatamente o dueto de Otelo, e j a catstrofe estava sobre as nossas
cabeas. Desta vez, ele me tinha deixado o papel de Desdmona, que cantei com um desespero, um pavor reais que nunca houvera atingido at esse dia. A vizinhana
de semelhante parceiro, em vez de me aniquilar, inspirava-me um terror magnfico. Os acontecimentos de que eu era vtima me aproximavam singularmente do pensamento
do poeta e encontrei acentos com que o msico teria ficado ofuscado. Quanto a ele, a sua voz era toante, a sua alma vingativa se transportava para cada som e aumentava-lhe
terrivelmente a potncia. O amor, o cime, o dio explodiam em torno de ns em gritos lancinantes. A mscara negra de Erik me fazia pensar na mscara natural do
Mouro de Veneza. Ele era o prprio Otelo. Acreditei que ele ia me ferir e que eu ia cair sob os seus golpes... e no entanto eu no fazia nenhum movimento para fugir,
para evitar o seu furor como a tmida Desdmona. Pelo contrrio, aproximava-me dele, atrada, fascinada, encontrando encantos na morte no centro de to grande paixo;
mas, antes de morrer, quis conhecer, para levar sua imagem sublime no meu ltimo olhar, essas feies desconhecidas que o fogo da arte eterna devia transfigurar.
Quis ver o rosto da Voz e, instintivamente, num gesto de que eu no era dona, pois no mais me possua, os meus dedos rpidos arrancaram a mscara...
      "Oh! horror!... horror!... horror!..."
      Christine parou, diante dessa viso que parecia ainda querer afastar com as duas mos trmulas, enquanto os ecos da noite, como tinham repetido o nome de Erik,
repetiam trs vezes o clamor: "Horror! horror! horror!" Raoul e Christine, mais estreitamente unidos ainda pelo terror da narrativa, levantaram os olhos para as
estrelas que brilhavam num cu calmo e puro.
      Raoul disse:
      -  estranho, Christine, como esta noite to suave e to calma est cheia de gemidos.  como se ela se lamentasse conosco!
      Ela lhe respondeu:
      - Agora que voc vai estar conhecendo o segredo, os seus ouvidos, como os meus, vo estar repletos de lamentaes.
      Ela aprisionou as mos protetoras de Raoul nas suas e, sacudida por um longo gemido, continuou:
      - Oh! sim, vivesse eu cem anos, ouviria sempre o clamor sobre-humano que ele lanou, o grito de sua dor e de sua raiva infernais, enquanto a coisa aparecia
aos meus olhos imensos de horror, como a minha boca que no se fechava mais e que, no entanto, j no mais gritava.
      "Oh! Raoul, aquela coisa! Como no ver mais aquela coisa, se os meus ouvidos esto para sempre repletos dos seus gritos, os meus olhos esto para sempre assombrados
por seu rosto! Que imagem! Como no v-la mais e como fazer com que voc a veja?... Raoul, voc viu as caveiras quando foram ressequidas pelos sculos e, talvez,
se voc no foi vtima de um pavoroso pesadelo, voc tenha visto a caveira dele, na noite de Perros. E tambm voc viu passear, no ltimo baile de mscaras, a Morte
vermelha! Mas todas essas caveiras eram imveis, e o seu mudo horror no estava vivo! Mas imagine, se puder, a mscara da Morte comeando de repente a viver para
exprimir com os quatro buracos negros de seus olhos, nariz e boca, a clera em seu grau supremo, o furor soberano de um demnio, e sem um olhar naqueles buracos
dos olhos, pois, como fiquei sabendo mais tarde, nunca se percebem os seus olhos de brasa, a no ser na noite profunda... Eu devia ser, colada contra a parede, a
prpria imagem do Espanto como ele era a da Hediondez.
      "Ento aproximou-se de mim com o ranger horrvel de seus dentes sem lbios e, enquanto eu caa sobre os joelhos, ele disse para mim raivosamente coisas insensatas,
palavras sem seqncia, maldies, delrio... Ser que eu sei?!... Ser que eu sei?!...
      "Debruado sobre mim gritava:
      "- Olhe! Voc quis ver! Veja! Repaste os seus olhos, embebede a sua alma com minha feira maldita! Olhe o rosto de Erik! Agora voc conhece o rosto da Voz!
Ouvir-me, diga, no lhe bastava? Voc quis saber como eu era feito. Vocs so to curiosas, vocs, as mulheres!



      "E punha-se a rir, repetindo:
      "- Vocs so to curiosas, vocs, as mulheres!... - num riso estrondoso, rouco, espumante, formidvel... Dizia ainda coisas como estas: - Est satisfeita?
Eu sou bonito, hein... Quando uma mulher me v, como voc, ela  minha. Ela me ama para sempre! Eu, eu sou um tipo do gnero Don Juan.
      "E, erguendo-se em toda a sua altura, com o punho na boca, chacoalhando sobre os ombros aquela coisa hedionda que era a sua cabea, ele esbravejava:
      "- Olhe para mim! Eu sou o Don Juan triunfante!
      "E como eu desviasse a cabea pedindo clemncia, puxou para junto de si a minha cabea, brutalmente, pelos cabelos, onde tinham penetrado os seus dedos de
morto."
      - Basta! Basta! - interrompeu Raoul. - Eu o matarei! Eu o matarei! Em nome de Deus, Christine, diga-me onde se encontra a sala de jantar do lago! Eu preciso
mat-lo!
      - Cale-se ento, Raoul, se voc quer saber!
      - Ah! sim, quero saber como e por que voc voltava para l!  isso, o segredo, Christine, tome cuidado! no h outro! Mas. de qualquer jeito, eu o matarei!
      - Oh! meu Raoul! escute! j que voc quer saber, escute! Ele me arrastava pelos cabelos, e ento... e ento... Oh! isso  ainda mais horrvel!
      - Pois bem, diga, agora!... - exclamou Raoul, feroz. - Diga depressa!
      - Ento, ele disse: "Qu? eu lhe meto medo?  possvel!... Voc acha, talvez, que eu ainda estou com uma mscara, hein? e que isto... isto! Minha face  uma
mscara? Pois bem, v! - ps-se ento a berrar. - Arranque-a como  outra! Vamos! vamos! de novo! de novo! eu quero! Suas mos! Suas mos!... D aqui as suas mos...
se elas no lhe bastam, ofereo-lhe as minhas... e ns nos empenharemos a dois, para arrancar a mscara".
      "Eu rolava aos seus ps, mas ele agarrou as minhas mos, Raoul... e as enfiou no horror do seu rosto.... Com as minhas unhas, ele rasgou as suas carnes, as
suas horrveis carnes mortas!
      "- Saiba! saiba! - cantava no fundo de sua garganta que soprava como uma forja... - saiba que eu sou feito inteiramente da morte!... da cabea aos ps!...
e que  um cadver que ama voc, que a adora e que no a deixar nunca mais! nunca!... Vou mandar aumentar o caixo, Christine, para mais tarde, quando chegarmos
ao fim dos nossos amores!... Olhe! eu j no estou mais rindo, est vendo, estou chorando... chorando por voc, Christine, que me arrancou a mscara, e que, por
causa disso, no poder me deixar nunca mais!... Enquanto voc podia pensar que eu era belo, voc podia voltar!... eu sei que voc teria voltado... mas agora voc
conhece a minha feira, fugir para sempre... Tambm, por que voc quis me ver!... Insensata! louca Christine, que quis me ver!... quando o meu pai, mesmo ele, nunca
me viu, quando a minha me, para no mais me ver, deu-me de presente a minha primeira mscara!
      "Largou-me finalmente e se arrastava agora pelo cho com soluos horrendos. E depois, como um rptil, rastejou, arrastou-se para fora da sala, penetrou no
quarto, cuja porta se fechou, e fiquei sozinha, entregue ao meu horror e s minhas reflexes, mas libertada da viso daquela coisa. Um prodigioso silncio, o silncio
do tmulo havia sucedido a essa tempestade e pude pensar nas conseqncias terrveis do gesto que tinha arrancado a mscara. As ltimas palavras do monstro tinham-me
informado o bastante. Eu tinha para sempre me tornado prisioneira e a minha curiosidade ia ser a causa de todas as minhas desgraas. Ele tinha-me avisado suficientemente...
Tinha repetido que eu no corria nenhum risco enquanto no tocasse na mscara, e eu tinha tocado nela. Maldisse a minha imprudncia, mas verifiquei estremecendo
que o raciocnio do monstro tinha lgica. Sim, eu teria voltado se no tivesse visto o seu rosto... Ele j tinha-me comovido, interessado, apiedado at por suas
lgrimas mascaradas, para que eu no ficasse insensvel aos seus rogos. Afinal eu no era ingrata, e a sua impossibilidade no podia fazer-me esquecer que ele era
a Voz e que me havia acalentado com o seu gnio. Eu teria voltado! E agora, tendo sado daquelas catacumbas, no voltaria certamente! No se volta para fechar-se
num tmulo com um cadver que ama voc!
      "Por certas maneiras aloucadas que tinha tido, durante a cena, de me olhar, ou melhor, de aproximar de mim os dois buracos negros do seu olhar invisvel, eu
tinha podido mensurar a selvageria de sua paixo. Para no me haver tomado nos braos, quando eu no podia oferecer-lhe nenhuma resistncia, era necessrio que esse
monstro fosse metade anjo e quem sabe, afinal de contas, ele no era um pouco o Anjo da msica, e quem sabe ele o tivesse sido inteiramente se Deus o tivesse vestido
de beleza em vez de traj-lo de podrido!
      "J desvairada pelo pensamento da sorte que me era reservada, a braos com o terror de ver reabrir-se a porta do quarto do esquife e de rever a figura do monstro
sem mscara, eu tinha-me enfiado no meu prprio apartamento e tinha-me apoderado da tesoura, que podia pr termo ao meu espantoso destino... quando os sons do rgo
se fizeram ouvir...
      "Foi ento, meu amigo, que comecei a compreender as palavras de Erik sobre o que ele chamava, com um desprezo que me havia causado estupefao, a msica de
pera.
      "O que eu ouvia nada tinha a ver com o que me havia encantado at aquele dia. O seu Don Juan triunfante (pois eu no tinha dvida de que ele se tinha atirado
 sua obra-prima para esquecer o horror do minuto presente), o seu Don Juan triunfante no me pareceu mais do que um longo, medonho e magnfico soluo em que o pobre
Erik tinha colocado toda a sua misria maldita.
      "Eu voltava a ver o caderno com notas vermelhas e imaginava facilmente que aquela msica tinha sido escrita com sangue. Ela me conduzia por todo o detalhe
do martrio; fazia-me entrar em todos os cantos do abismo, do abismo habitado pelo homem feio; mostrava-me Erik batendo atrozmente a pobre e horrvel cabea nas
paredes fnebres daquele inferno, fugindo para l para no assustar os olhares dos homens. Assisti, aniquilada, ofegante, apiedada e vencida  ecloso daqueles acordes
gigantescos em que era divinizada a Dor e depois os sons que subiam do abismo se agruparam de repente em um vo prodigioso e ameaador, a sua tropa rodopiante pareceu
escalar o cu como a guia sobe para o sol, e o mundo pareceu abrasar-se por uma sinfonia triunfal a tal ponto que entendi que a obra estava enfim acabada e que
a Feira, erguida nas asas do Amor, tinha ousado olhar face a face a Beleza! Eu estava como embevecida; a porta que me separava de Erik cedeu aos meus esforos.
Ele tinha-se levantado ao ouvir-me, mas no ousou se voltar em minha direo.
      "- Erik! - exclamei - mostre-me o seu rosto sem terror. Juro-lhe que voc  o mais doloroso e o mais sublime dos homens, e se Christine Daa estremecer, daqui
em diante, ao olhar para voc,  que ela pensar no esplendor do seu gnio!
      "Ento Erik voltou-se em minha direo, pois acreditou em mim, e eu tambm, infelizmente! Eu tinha confiana em mim... Levantou para o Destino as suas mos
descarnadas, e caiu nos meus joelhos com palavras de amor...
      "... Com palavras de amor em sua boca de morto... e a msica tinha silenciado...
      "Abraava-me a barra do vestido; no viu que eu fechava os olhos.
      "Que lhe direi ainda, meu amigo? Agora voc conhece o drama... Durante quinze dias, este se renovou... quinze dias durante os quais eu lhe menti. Minha mentira
foi to horrenda quanto o monstro que a inspirava, e a esse preo pude recuperar a minha liberdade. Queimei a sua mscara. E interpretei to bem o meu papel que,
mesmo quando ele no estava mais cantando, atrevia-se a mendigar um de meus olhares, como um co tmido que ronda ao redor de seu dono. Ele estava assim, ao redor
de mim, como um escravo fiel, e me cercava de mil atenes. Pouco a pouco, inspirei-lhe tamanha confiana que acedeu a levar-me a passeio s margens do Lago Averno
e conduzir-me de barco sobre suas guas de chumbo; nos ltimos dias de meu cativeiro, ele me fazia,  noite, ultrapassar as grades que fecham os subterrneos do
lado da rua Scribe. Ali, uma carruagem nos esperava e nos conduzia rumo s solides do Bosque.
      "A noite em que encontramos voc quase me foi trgica, pois ele tem um cime terrvel de voc, cime que no combati seno lhe afirmando que voc partiria
em breve... Finalmente, aps quinze dias desse abominvel cativeiro em que estive alternadamente ardente de piedade, de entusiasmo, de desespero e de horror, ele
acreditou em mim quando lhe disse: eu voltarei!"
      - E voc voltou, Christine - gemeu Raoul.
      -  verdade, amigo, e devo dizer que no foram as espantosas ameaas com que ele acompanhou a minha libertao que me ajudaram a manter a minha palavra; mas
o suspiro lancinante que ele soltou  sada do seu tmulo! Sim, esse suspiro - repetiu Christine, sacudindo dolorosamente a cabea - me acorrentou ao infeliz mais
do que supus eu mesma no momento da despedida. Pobre Erik! Pobre Erik!
      - Christine - disse Raoul levantando-se -, voc diz que me ama, entretanto, mal tinham passado umas poucas horas do momento em que voc recobrara a liberdade,
e j estava voltando para junto de Erik!... Lembre-se do baile de mscaras!
      - As coisas estavam combinadas assim... Lembre-se, voc tambm, que aquelas poucas horas, eu as passei com voc, Raoul... para grande risco de ambos...
      - Durante aquelas poucas horas duvidei de que voc me amasse.
      - E voc ainda duvida, Raoul?... Fique ento sabendo que cada uma de minhas viagens junto de Erik aumentou o meu horror por ele, pois cada uma dessas viagens,
em vez de faz-lo sossegar, como eu esperava, o tornou mais louco de amor!... E eu tenho medo! tenho medo!... tenho medo!...
      - Voc tem medo... mas voc me ama?... Se Erik fosse belo, voc me amaria, Christine?
      - Infeliz! por que tentar o destino?... Por que perguntar coisas que eu escondo no fundo da minha conscincia como se esconde o pecado?
      Ela levantou-se, por sua vez, envolveu a cabea do jovem em seus belos braos trmulos e lhe disse:
      -  meu noivo de um dia, se eu no o amasse, no lhe daria os meus lbios. Pela primeira vez e pela ltima, aqui esto eles.
      Ele os tomou, mas a noite que os cercava teve tamanho laceramento que fugiram como ao aproximar-se uma tempestade, e os seus olhos, em que morava o terror
de Erik, lhes mostraram, antes que desaparecessem na floresta dos cimos, bem no alto, acima deles, um imenso pssaro noturno que olhava para eles com olhos de brasa,
que parecia agarrado s cordas da lira de Apoio!



14

UM GOLPE DE MESTRE DO AMADOR DE ALAPES

      Raoul e Christine correram, correram. Agora fugiam do telhado onde havia os olhos de brasa que s se avistam na noite profunda; e s pararam no oitavo andar
descendo para a terra. Naquela noite no havia representao, e os corredores da pera estavam desertos.
      De repente uma silhueta estranha se ergueu  frente dos jovens, barrando-lhes o caminho:
      - No! por aqui no!
      E a silhueta lhes indicou um outro corredor por onde deviam atingir os bastidores.
      Raoul queria parar, pedir explicaes.
      - Vo! vo depressa!... - ordenou aquela forma vaga, dissimulada numa espcie de casaco e com um bon pontudo na cabea.
      Christine j arrastava Raoul, forava-o a continuar correndo:
      - Mas quem ? Mas quem  aquele ali? - perguntava o rapaz. E Christine respondia:
      -  o Persa!...
      - O que  que ele est fazendo ali...
      - Sei l!... Ele est sempre na pera!
      - O que voc me est obrigando a fazer  covardia, Christine - disse Raoul, que estava bastante emocionado. - Voc me obriga a fugir,  a primeira vez na minha
vida.
      - Ora! - respondeu Christine, que comeava a se acalmar -, eu acho que fugimos da sombra da nossa imaginao!
      - Se realmente vimos Erik, eu deveria t-lo pregado na lira de Apoio, como se prega a coruja nas paredes das fazendas da Bretanha, e estaria tudo acabado.
      - Meu bom Raoul, primeiro voc ia ter que subir at a lira de Apoio; no  uma subida fcil.
      - , mas os olhos de brasa estavam l.
      - Oh! voc est agora como eu, pronto para v-lo por toda parte, mas a gente raciocina depois e se diz: aquilo que eu achei que eram os olhos de brasa no
passavam certamente dos pregos de ouro de duas estrelas que olhavam a cidade atravs das cordas da lira.
      E Christine desceu mais um andar. Raoul ia seguindo. Ele disse:
      - J que voc est decidida a ir-se embora, Christine, eu lhe garanto que seria melhor fugir imediatamente. Por que esperar at amanh? Ele pode ter ouvido
a nossa conversa desta noite!...
      - No! no mesmo! Ele est trabalhando, repito, no seu Don Juan triunfante, e ele no est preocupado conosco.
      - Voc est to pouco segura disso que no pra de olhar para trs.
      - Vamos para o meu camarim.
      -  melhor marcarmos encontro fora da pera.
      - Nunca, at o minuto da nossa fuga! No cumprir a minha palavra me traria desgraa. Prometi a ele que s nos veramos aqui.
      - Ainda tenho que me dar por feliz se ele lhe permitiu isso. Sabe - declarou amargamente Raoul - que voc foi de uma audcia incrvel permitindo-nos a brincadeira
do noivado.
      - Mas, meu caro, ele est a par. Ele me disse: "Confio em voc, Christine. O Sr. Raoul de Chagny est enamorado de voc e deve partir. Antes de partir, que
fique to infeliz quanto eu!..."
      - E que significa isso?
      - Eu  que devia lhe perguntar. Ento a gente fica infeliz quando est amando?
      - Fica, Christine, quando se ama e no se tem certeza de estar sendo amado.
      - E por Erik que voc est dizendo isso?
      - Por Erik e por mim - disse, meneando a cabea com um ar pensativo e desolado.
      Chegaram ao camarim de Christine.
      - Por que voc se sente mais segura neste camarim do que no teatro? - perguntou Raoul. - J que voc o ouvia atravs das paredes, ele tambm pode nos ouvir.
      - No! Ele me deu a palavra de que no ficaria mais atrs das paredes do meu camarim e eu acredito na palavra de Erik. Meu camarim e meu quarto, no apartamento
do lago, so meus, exclusivamente meus, e sagrados para ele.
      - Como ser que voc saiu deste camarim para ser transportada para o corredor escuro, Christine? E se ns tentssemos repetir os seus gestos, de acordo?
      -  perigoso, meu amigo, pois o espelho poderia de novo me carregar embora e, em lugar de fugir, eu seria obrigada a ir at o fim da passagem secreta que conduz
s margens do lago e l chamar Erik.
      - Ele ouviria voc?
      - Em toda parte onde eu chamar, Erik me ouvir... Foi ele quem me disse,  um curiosssimo gnio. No se deve pensar, Raoul, que seja apenas um homem que resolveu
brincar de morar debaixo da terra. Ele faz coisas que nenhum outro homem poderia fazer; ele sabe coisas que o mundo dos vivos ignora.
      - Tome cuidado, Christine, voc de novo vai fazer dele um fantasma.
      - No, no  um fantasma;  um homem do cu e da terra, s isso.
      - Um homem do cu e da terra... s isso! Veja a maneira como fala dele!... E voc continua decidida a fugir?
      - Sim, amanh.
      - Voc quer que eu lhe diga por que eu queria ver voc fugir esta noite?
      - Diga, meu amigo.
      - Porque amanh voc no estar mais decidida a fazer coisa nenhuma!
      - Ento, Raoul, voc me levar contra a minha vontade... no ficou decidido?
      - Aqui, ento, amanh  noite! A meia-noite eu estarei no seu camarim - disse o rapaz com um ar sombrio. - Acontea o que acontecer, cumprirei a minha promessa.
Voc disse que, depois de ter assistido  representao, ele deve ir esperar voc na sala de jantar do lago?
      - Foi l, realmente, que ele marcou encontro comigo.
      - E como  que voc devia fazer para ir at ele, Christine, se voc no sabe sair do seu camarim "pelo espelho"?
      - Ora, indo diretamente para a beira do lago.
      - Atravs de todos os subterrneos? pelas escadas e corredores por onde passa o pessoal de servio? Como  que voc guardaria o segredo do que estava fazendo?
Todo mundo iria seguir Christine Daa e ela chegaria  beira do lago acompanhada por uma multido.
      Christine tirou de um cofrinho uma chave enorme e mostrou-a a Raoul.
      - Que  isso? - perguntou ele.
      -  a chave da grade do subterrneo da rua Scribe.
      - Entendi, Christine. Ele conduz diretamente ao lago. D-me essa chave, sim?
      - Nunca! - respondeu ela com energia. - Seria uma traio! De repente, Raoul viu Christine mudar de cor. Uma palidez mortal espalhou-se sobre as suas feies.
      - Oh! meu Deus! - exclamou. - Erik! Erik! tenha piedade de mim!
      - Cale-se! - ordenou o rapaz. - Eu no lhe tinha dito que ele podia ouvir voc?
      Mas a atitude da cantora se tornava cada vez mais inexplicvel. Esfregava os dedos uns nos outros, a repetir com um jeito desvairado:
      - Oh! meu Deus! Oh! meu Deus!
      - Mas o que  que h? o que  que h? - implorou Raoul.
      - A aliana.
      - A aliana o qu? Eu lhe imploro, Christine, volte a si!
      - A aliana de ouro que ele me deu.
      - Ento foi Erik quem lhe deu o anel de ouro?
      - Voc sabe muito bem que sim, Raoul! Mas o que voc no sabe  que ele me disse ao me d-la: "Devolvo a sua liberdade, Christine, mas  com a condio de
que este anel sempre esteja no seu dedo. Enquanto voc o mantiver, estar preservada do perigo e Erik permanecer seu amigo. Mas se voc um dia se separar dele,
ai de voc, Christine, porque Erik se vingar!..." Meu amigo, meu amigo! A aliana no est mais no meu dedo!... ai de ns!
      Procuraram em vo o anel ao redor deles. No o encontraram. A moa no se acalmava.
      - Foi quando eu lhe concedi aquele beijo, l no alto, sob a lira de Apoio - ela tentou explicar, a tremer. - O anel escorregou do meu dedo e caiu sobre a cidade!
Como encontr-lo agora? E de que desgraa, Raoul, estamos ameaados! Ah! Vamos fugir!
      - Sim! Vamos fugir imediatamente - insistiu uma vez mais Raoul.
      Ela hesitou. Ele pensou que ela ia dizer sim... E a seguir as suas claras pupilas se turvaram e ela disse:
      - No! amanh!
      Ela o deixou rapidamente, toda transtornada, continuando a esfregar os dedos uns nos outros, por certo na esperana de que o anel iria reaparecer.
      Quanto a Raoul, voltou para casa, preocupadssimo com tudo que tinha ouvido.
      - Se eu no a salvar das mos daquele charlato - disse em voz alta no seu quarto -, est perdida; mas eu a salvarei!
      Apagou a lmpada e sentiu, na escurido, necessidade de insultar Erik. Gritou trs vezes em voz alta: "Charlato!... Charlato!... Charlato!..."
      Mas, de repente, levantou-se sobre um cotovelo; um suor frio lhe escorria pelas tmporas. Dois olhos, ardentes como brasas, acabavam de acender-se ao p de
sua cama. Olhavam para ele fixamente, terrivelmente, na noite negra.
      Raoul era corajoso, e no entanto tremia. Avanou a mo, tateante, hesitante, incerta, sobre o criado-mudo. Ao encontrar uma caixa de fsforos, acendeu uma
luz. Os olhos desapareceram.
      Pensou, sentindo-se totalmente inseguro: "Ela me disse que os olhos dele s se viam na escurido. Os olhos dele desapareceram com a luz, mas ele deve estar
ainda a."
      E levantou-se, procurou, deu prudentemente uma volta ao redor das coisas. Olhou debaixo da cama, como uma criana. Ento, achou-se ridculo e disse em voz
alta:
      - Em que acreditar? Em que no acreditar com semelhante conto de fadas? Onde acaba o real, onde comea o fantstico? O que foi que ela viu? O que foi que ela
achou que viu?
      E acrescentou, estremecendo:
      - E eu prprio, o que foi que eu vi? Vi mesmo os olhos de brasa agora h pouco? Ser que eles no brilharam s na minha imaginao? Agora no estou mais seguro
de nada! E eu no juraria sobre ter visto aqueles olhos.
      Voltou a deitar-se. De novo se fez a escurido. Os olhos reapareceram.
      - Oh! - suspirou Raoul.
      Erguendo-se na cama, fixava-os to corajosamente quanto podia. Depois de um silncio que usou para recuperar toda a sua coragem, gritou de repente:
      -  voc, Erik? Homem, gnio ou fantasma!  voc? Ele raciocinou:
      - Se for ele, est na sacada!
      Ento correu, em mangas de camisa, at um movelzinho onde agarrou, tateando, um revlver. Armado, abriu a porta-janela. A noite estava extremamente fria. Raoul
s tomou o tempo de lanar um olhar sobre a sacada deserta e voltou para dentro, fechando a porta. Voltou a deitar-se sentindo um arrepio, e deixou o revlver sobre
o criado-mudo, ao seu alcance.
      Mais uma vez, apagou a vela.
      Os olhos continuavam ali, depois da cama. Ser que eles estavam entre a cama e o vidro da janela ou atrs do vidro, isto , na sacada?
      Era o que Raoul queria saber. Queria saber tambm se aqueles olhos pertenciam a um ser humano. Queria saber tudo...
      Ento, pacientemente, friamente, sem perturbar a noite que o envolvia, o rapaz pegou o revlver e apontou.
      Apontou para as duas estrelas de ouro que continuavam a olhar para ele com um brilho to singular e imvel..
      Mirou um pouco acima das duas estrelas. Certamente! Se aquelas duas estrelas eram olhos, e se acima daqueles olhos havia uma testa, e se Raoul no fosse muito
desajeitado...
      O estampido rolou com um barulho terrvel na paz da casa adormecida... E enquanto nos corredores precipitavam-se passos, Raoul, sentado na cama, com o brao
estendido, pronto para atirar de novo, olhava...
      As duas estrelas, desta vez, tinham desaparecido.
      Luz, gente, o conde Philippe medonhamente ansioso.
      - O que foi, Raoul?
      - Acho que sonhei - respondeu o rapaz. - Atirei em duas estrelas que me impediam de dormir.
      - Voc est delirando?... Est doente!... por favor, Raoul, o que  que aconteceu? - perguntou o conde apoderando-se do revlver.
      - No, no, no estou delirando!... Alis, vamos ficar sabendo... Levantou-se, ps um robe, calou os chinelos, tomou das mos de um criado um lampio e, abrindo
a porta-janela, voltou  sacada. O conde notara que a janela tinha sido atravessada por um bala  altura de um homem. Raoul estava debruado sobre a sacada...
      - Oh! - exclamou. - Sangue... Aqui... ali... mais sangue! Ainda bem!... Um fantasma que sangra...  menos perigoso! - ridicularizou.
      - Raoul! Raoul!
      O conde sacudiu-o como se quisesse tirar um sonmbulo de seu perigoso sonho.
      - Mas, meu irmo, eu no estou devaneando! - protestou Raoul impaciente. - Voc pode ver esse sangue como todo mundo. Pensei que estava sonhando e que tinha
atirado em duas estrelas. Eram os olhos de Erik e a est o seu sangue!...
      Em seguida, acrescentou, subitamente preocupado:
      - Afinal de contas, talvez eu tenha feito mal em atirar, e Christine  bem capaz de no me perdoar por isso!... Nada disso teria acontecido se eu tivesse tomado
a precauo de fechar as cortinas da janela ao me deitar.
      - Raoul, voc ficou louco de repente? Acorde!
      - De novo! Voc faria melhor, meu irmo, de me ajudar a procurar Erik... pois afinal, um fantasma que sangra deve poder ser achado...
      O camareiro do conde disse:
      - E verdade, meu senhor, que tem sangue aqui no terrao.
      Um empregado trouxe uma lmpada  luz da qual se pde examinar melhor o terrao. O rastro de sangue seguia a rampa da sacada e ia encontrar uma calha, e a
marca de sangue subia ao longo da calha.
      - Meu amigo - disse o conde Philippe -, voc atirou num gato.
      - Que desgraa! - disse Raoul, com uma risada que ressoou dolorosamente aos ouvidos do conde. - E bem possvel. Com Erik, nunca se sabe. Ser Erik? Ser um
gato? Ser o fantasma? Ser carne ou sombra? No! Com Erik, nunca se sabe!
      Raoul comeou com essas falas estranhas que correspondiam to intimamente e to logicamente s preocupaes de sua mente e que faziam seqncia perfeita s
confidncias estranhas, ao mesmo tempo reais e de aparncia sobrenatural, de Christine Daa; e essas falas no contriburam pouco para persuadir a muita gente de
que o crebro do jovem estava perturbado. O prprio conde acreditou nisso e mais tarde o juiz de instruo, sobre o relatrio do delegado de polcia, no teve dificuldade
em concluir que isso era verdade.
      - Quem  Erik? - perguntou o conde apertando a mo do irmo.
      -  o meu rival! E, se ele no morreu, azar meu! Com um gesto, afastou os criados.
      A porta do quarto voltou a fechar-se sobre os dois Chagny. Mas as pessoas no se afastaram to depressa que o camareiro do conde no ouvisse Raoul pronunciar
distintamente e com fora:
      - Esta noite, raptarei Christine Daa!
      Essa frase foi repetida posteriormente ao juiz de instruo Faure. Mas nunca se soube exatamente o que foi dito entre os dois irmos durante aquela conversa.
      Os empregados contaram que no era aquela noite a primeira briga que os fazia trancar-se.
      Atravs das paredes, ouviam-se gritos, e sempre se tratava de uma atriz que se chamava Christine Daa.
      No caf da manh, que o conde tomava em seu gabinete de trabalho, Philippe deu ordem para que fossem pedir ao irmo que viesse encontrar-se com ele. Raoul
chegou, taciturno e calado. A cena foi bem curta.
      O conde: - Leia aqui!
      Philippe estende ao irmo um jornal: L'poque. Com o dedo, mostra-lhe a seguinte nota social: "Uma grande notcia no Faubourg Saint-Germain: existe promessa
de casamento entre a Srta. Christine Daa, artista lrica, e o Sr. visconde Raoul de Chagny. Se se der crdito s fofocas de bastidores, o conde Philippe teria jurado
que, pela primeira vez, os Chagny no cumpririam a sua promessa. Como o amor, na pera mais do que em qualquer outro lugar,  onipotente, no se pergunta de que
meios poderia dispor o conde Philippe para impedir que o visconde, seu irmo, conduza ao altar a nova Margarida. Dizem que os dois irmos se adoram, mas o conde
est estranhamente enganado se espera que o amor fraterno se sobrepor ao amor puro e simples!"
      O visconde l e depois encara o irmo.
      O conde (triste): - Est vendo, Raoul, voc est nos tornando ridculos!... Essa pequena virou completamente a sua cabea com essas histrias de alma do outro
mundo.
      (O visconde contara, pois, a narrativa de Christine ao irmo.)
      O visconde: - Adeus, meu irmo!
      O conde: - Est bem entendido? Voc parte esta noite com ela? (O visconde no responde.) Voc no vai fazer uma besteira dessas, vai?! (Silncio do visconde.)
Eu saberei impedi-lo!
      O visconde: - Adeus, meu irmo!
      (Com estas palavras, Raoul vai embora.)
      Essa cena foi contada ao juiz de instruo pelo prprio conde, que no deveria rever o irmo a no ser naquela noite mesma, na pera, alguns minutos antes
do desaparecimento de Christine.
      O dia todo, na verdade, foi dedicado por Raoul aos preparativos do rapto.
      Os cavalos, a carruagem, o cocheiro, as provises, as bagagens, o dinheiro necessrio, o itinerrio - no se devia pegar a estrada de ferro para despistar
o fantasma -, tudo isso o manteve ocupado at as 9 horas da noite.
      s 9 horas, uma espcie de berlinda cujas cortinas estavam puxadas sobre as janelas hermeticamente fechadas veio entrar na fila do lado da Rotunda. Estava
atrelada a dois vigorosos cavalos e era conduzida por um cocheiro cujo rosto era difcil de distinguir, de tal modo estava enrolado nas longas pregas de um cachen.
 frente dessa berlinda achavam-se trs carros. O inqurito estabeleceu mais tarde que eram os cups de Carlotta, que voltara subitamente a Paris, e de Sorelli,
e, na ponta, do conde Philippe de Chagny. Da berlinda no desceu ningum. O cocheiro permaneceu em seu assento. Os trs outros cocheiros dos outros carros tinham
ficado igualmente nos seus.
      Uma sombra, envolvida num grande manto negro, e usando um chapu mole de feltro preto, passou pela calada entre a Rotunda e as equipagens. Parecia considerar
mais atentamente a berlinda. Aproximou-se dos cavalos, depois do cocheiro, depois se afastou sem ter pronunciado uma palavra. O inqurito apontou, mais tarde, que
essa sombra era o visconde Raoul de Chagny; quanto a mim, no acredito, visto que nessa noite, como nas outras, o visconde de Chagny usava uma cartola, que, alis,
foi depois encontrada. Acho mesmo que aquela sombra era a do fantasma, que estava a par de tudo como logo adiante se ver.
      Levava-se Fausto, como por acaso. A sala estava das mais brilhantes. O Faubourg Saint-Germain estava magnificamente representado. Nessa poca, os assinantes
no cediam, no alugavam nem sublocavam, nem dividiam os seus camarotes com o mundo das finanas ou do comrcio, nem com o estrangeiro. Hoje os camarotes continuam
ostentando os ttulos de seus contratantes: "camarote do marqus fulano de tal", pois que o marqus em referncia  por contrato o seu titular, entretanto nesse
mesmo camarote se pavoneia um negociante de carne de porco salgada e sua famlia - o que est no direito do negociante de carne de porco, j que ele paga o camarote
do marqus. Outrora, esses costumes eram praticamente desconhecidos. Os camarotes da pera eram sales onde se estava mais ou menos seguro de encontrar ou de ver
pessoas da alta sociedade que, s vezes, gostavam de msica.
      Toda essa sociedade elegante se conhecia, sem para isso freqentar-se necessariamente. Mas os nomes estavam todos ligados aos rostos e a fisionomia do conde
de Chagny no era ignorada por ningum.
      A notcia que tinha aparecido pela manh em L'poque j devia ter produzido o seu efeito, pois todos os olhos estavam voltados para o camarote onde o conde
Philippe, de aparncia bem indiferente e de semblante despreocupado, achava-se sozinho. O elemento feminino dessa brilhante assemblia parecia singularmente intrigado
e a ausncia do visconde dava azo a mil cochichos por trs dos leques. Christine Daa foi acolhida com bastante frieza. Aquele pblico especial no lhe perdoava
ter mirado to alto.
      A diva deu-se conta da m disposio de uma parte da sala e ficou perturbada.
      Os habitus que pretendiam estar a par dos amores do visconde no se privaram de sorrir em certas passagens do papel de Margarida. Foi assim que se viraram
ostensivamente para o lado do camarote de Philippe de Chagny quando Christine cantou a frase: "Eu bem quisera saber quem era aquele jovem, se  um grande senhor
e como ele se chama".
      Com o queixo apoiado na mo, o conde no parecia tomar conhecimento dessas manifestaes. Fixava o palco; mas estava mesmo olhando para ele? Parecia longe
de tudo...
      Cada vez mais, Christine perdia toda a segurana. Estava tremendo. Caminhava para uma catstrofe... Carolus Fonta perguntou a si mesmo se ela no estava doente,
se iria agentar em cena at o fim do ato que era o do jardim. Na sala, todos se lembravam da desgraa acontecida no fim desse ato a Carlotta, que tinha momentaneamente
suspendido a sua carreira em Paris.
      Justamente Carlotta fez sua entrada, nesse momento, num camarote de frente, entrada sensacional. A pobre Christine levantou os olhos para esse novo motivo
de comoo. Reconheceu a sua rival. Pensou t-la visto rir zombeteiramente. Isso a salvou. Esqueceu tudo para, uma vez mais, triunfar.
      A partir desse momento, cantou com toda a alma. Tentou superar tudo que tinha feito at ento e conseguiu. No ltimo ato, quando comeou a invocar os anjos
e a se levantar da terra, arrastou num novo mpeto toda a sala fremente, e cada um pde acreditar que ela tinha asas.
      A esse apelo sobre-humano, no centro do anfiteatro, um homem tinha-se levantado e se mantinha de p, face  atriz, como se no mesmo movimento ele deixasse
a terra... Era Raoul.
      Anjos puros! Anjos radiosos! Anjos puros! Anjos radiosos!
      E Christine, de braos estendidos, garganta abrasada, envolta na glria de sua cabeleira desatada sobre os ombros nus, lanava o clamor divino:
      Levai minha alma para o seio dos cus!
      Foi ento que uma brusca escurido se abateu sobre o teatro. Foi to rpido que os espectadores mal tiveram tempo de soltar um grito de estupor, pois a luz
iluminou de novo o palco.
      Mas Christine Daa no estava mais l!... Que foi feito dela?... Que milagre era aquele? Todos se olhavam sem entender e a emoo foi de imediato levada ao
cmulo. A emoo no era menor no palco do que na sala. Dos bastidores as pessoas se precipitavam para o lugar onde, naquele mesmo instante, Christine cantava. O
espetculo estava interrompido em meio  maior desordem. Aonde, afinal, tinha ido parar Christine? Que sortilgio a tinha roubado a milhares de espectadores entusiastas
e nos braos mesmos de Carolus Fonta? Na verdade, podia-se perguntar se, atendendo  sua prece inflamada, os anjos no a tinham realmente levado "para o seio dos
cus" em corpo e alma...
      Raoul, sempre de p no anfiteatro, soltara um grito. O conde Philippe levantara-se em seu camarote. Olhava-se para o palco, olhava-se para o conde, olhava-se
para Raoul, e todos se perguntavam se aquele curioso acontecimento no tinha a ver com a notcia publicada naquela mesma manh por um jornal. Mas Raoul abandonou
o seu lugar s pressas, o conde desapareceu do seu camarote, e, enquanto caa o pano, os assinantes se precipitaram para a entrada dos bastidores. O pblico esperava
uma informao numa confuso indescritvel. Todo mundo falava a uma s vez. Cada um pretendia explicar como as coisas tinham acontecido. Alguns diziam: "Ela caiu
num alapo"; outros: "Ela foi arrebatada para as frisas; a coitada foi vtima, talvez, de um novo truque inaugurado pela nova direo"; outros ainda: "E uma armadilha.
A coincidncia entre o desaparecimento e a escurido so provas suficientes".



      Finalmente a cortina se levantou lentamente, e Carolus Fonta, avanando at a estante do maestro, anunciou com voz grave e triste:
      - Senhoras e senhores, um acontecimento nunca visto e que nos deixa em profunda preocupao acaba de produzir-se. Nossa colega, Christine Daa, desapareceu
sob os nossos olhos sem que se possa saber como!



15

SINGULAR ATITUDE DE UM ALFINETE DE PRESSO

      No palco ocorre uma balbrdia sem nome. Artistas, maquinistas, danarinas, figurantes, coristas, assinantes, todo mundo interroga, grita, se acotovela. "Que
foi feito dela?" "Ela foi raptada!" "Foi o visconde de Chagny que a seqestrou!" "No, foi o conde!" "Ah! ali est Carlotta! Foi Carlotta que armou o golpe!" "No!
foi o fantasma!"
      E alguns riem, principalmente depois que o exame atento dos alapes e dos assoalhos eliminou a idia de acidente.
      Nessa multido barulhenta, nota-se um grupo de trs personagens que conversam em voz baixa com gestos desesperados.  Gabriel, o mestre de canto, Mercier,
o administrador, e o secretrio Rmy. Retiraram-se no ngulo formado pela caixa de uma porta vaivm que fazia a comunicao entre o palco e o largo corredor do pavilho
da dana. Ali, atrs de enormes acessrios, parlamentavam:
      - Eu bati! Eles no atenderam! Talvez no estejam mais no escritrio. Em todo caso,  impossvel saber, pois eles levaram as chaves.
      Assim se exprime o secretrio Rmy e no h dvida de que designa com essas palavras os diretores. Estes deram ordem, no ltimo intervalo, para que no fossem
perturb-los sob nenhum pretexto. No estavam para ningum.
      - Ora essa - exclama Gabriel -, no se rapta uma cantora, em pleno palco, todos os dias!...
      - Voc gritou isso para eles? - interroga Mercier.
      - Vou voltar l - disse Rmy e, correndo, desaparece. Neste ponto, chega o gerente.
      - Ento, Sr. Mercier, o senhor vem? O que esto fazendo aqui os senhores dois? Esto precisando do senhor, senhor administrador.
      - No quero fazer nada nem saber de nada antes que chegue o delegado - declara Mercier. - Mandei procurar o Mifroid. Veremos quando ele estiver presente!
      - E eu lhe digo que  preciso descer imediatamente at o jogo de tubos de rgo.
      - No antes que chegue o delegado...
      - Eu j fui l embaixo, no jogo de tubos de rgo.
      - Ah! e o que  que voc viu?
      - Pois bem, eu no vi ningum.
      - O que  que voc quer que eu faa l?
      - Nada, evidentemente - replica o gerente, que passa freneticamente as mos numa cabeleira rebelde. - Mas talvez, se houvesse algum no jogo de tubos de rgo,
esse algum pudesse nos explicar como a escurido se fez de repente no palco. Ora, Mauclair no est em parte alguma, vocs entendem?
      Mauclair era o chefe da iluminao que fazia aparecer  vontade sobre o palco o dia e a noite.
      - Mauclair no est em parte alguma... - repete Mercier abalado. - E os seus ajudantes?
      - Nem Mauclair nem os seus ajudantes! Ningum na iluminao, estou lhe dizendo! Voc deve imaginar que essa garota no foi raptada sozinha! A tem um "golpe
montado" que  preciso esclarecer.... E os diretores no esto presentes?... Proibi que desam  iluminao, coloquei um bombeiro diante do nicho do jogo de tubos
de rgo! No fiz bem?
      - Fez, sim, voc fez muito bem... E agora vamos esperar o delegado.
      O gerente afasta-se erguendo os ombros, raivoso, mastigando improprios contra aqueles "pamonhas" que ficam tranqilamente encolhidos num canto enquanto todo
o teatro est "de cabea para baixo".
      Gabriel e Mercier no estavam nada tranqilos. Somente tinham recebido uma ordem que os paralisava. No se devia perturbar os diretores por razo nenhuma do
mundo. Rmy tinha infringido essa ordem e isso no o tinha levado a nada.
      Justamente a vem ele voltando de sua nova expedio. Est com uma cara curiosamente espantada.
      - E ento, voc falou com eles? - interroga Mercier. Rmy responde:
      - Moncharmin acabou de me abrir a porta. Os olhos dele estavam saltando fora das rbitas. Achei que ele ia me bater. No pude dizer palavra, e sabe o que foi
que ele me gritou? "Voc tem um alfinete de presso?" Eu respondi que no. "Pois bem, me deixe em paz!..." Eu quero lhe explicar que no teatro se d um fato nunca
visto... O diretor clama: "Um alfinete de presso! Me d imediatamente um alfinete de presso!" Um rapaz do escritrio que tinha ouvido os seus berros, ele gritava
como um surdo, acorre com um alfinete de presso, entrega-o a ele e logo Moncharmin me bate a porta no nariz! A est!
      - E voc no pde lhe dizer que Christine Daa...
      - Ah! eu queria ver voc l!... Ele estava espumando... S pensava no seu alfinete de presso... Acho que, se no lhe tivessem trazido imediatamente o tal
alfinete, ele teria tido um ataque! Certamente, nada disso parece natural e os nossos diretores esto ficando malucos!...
      O secretrio Rmy no ficou nada contente. E demonstrou isso:
      - Isso no pode continuar assim! No estou acostumado a ser tratado assim!
      De repente, Gabriel diz:
      -  mais um golpe do F. da .
      Rmy d uma risadinha. Mercier suspira, parece prestes a soltar uma confidncia... mas tendo olhado para Gabriel que lhe faz sinal para ficar quieto, permanece
mudo.
      Entretanto, Mercier, que sente a sua responsabilidade crescer  medida que os minutos passam e que os diretores no aparecem, no agenta mais:
      - Ora! eu mesmo vou at l fazer com que se mexam - decidiu.
      - Pense no que est fazendo, Mercier! Se eles no saem do escritrio,  porque, talvez, seja necessrio! O F. da . tem mais de uma mgica em sua cartola!
      Mas Mercier sacode a cabea.
      - Tanto pior! Eu vou! Se tivessem me ouvido, h muito tempo que tudo teria sido dito  polcia!
      Ele sai.
      - Tudo o qu? - pergunta logo Rmy. - O que  que se teria dito  polcia? Ah! Vocs ficam calados!... Vocs tambm esto na confidncia! Pois bem, vocs no
fariam mal se me pusessem tambm nessa histria, se no quiserem que eu saia gritando que vocs esto ficando todos loucos!... Isso mesmo, loucos, de verdade!
      Gabriel gira os olhos abestalhados e afeta no estar entendendo nada dessa "sada" inconveniente do senhor secretrio particular.
      - Que confidncia? - murmura ele. - No sei o que voc est querendo dizer.
      Rmy exaspera-se.
      - Esta noite, Richard e Moncharmin, aqui mesmo, nos intervalos, faziam gestos alienados.
      - No notei - resmunga Gabriel, muito enfadado.
      - Voc foi o nico!... Voc acha que eu no vi?!... E que o Sr. Parabise, diretor do Crdito Central, no percebeu nada?... E que o Sr. embaixador de La Broderie
est cego?... Mas, senhor mestre de canto, todos os assinantes os apontavam com o dedo, aos nossos diretores!
      - O que  ento que fizeram os nossos diretores? - pergunta Gabriel com o seu jeito mais simplrio.
      - O que fizeram? Voc sabe melhor do que ningum o que  que eles fizeram!... Voc estava l!... E voc os estava observando, voc e Mercier!... E vocs eram
os nicos que no riam...
      - No entendo!
      Muito frio, muito "fechado", Gabriel estende os braos e os deixa cair, gesto que significa evidentemente que ele se desinteressa da questo... Rmy continua:
      - O que  essa nova mania agora de no querem mais que a gente se aproxime deles?
      - Como  que ?
      - No querem mais que se toque neles!
      - A est uma coisa realmente estranha!
      - Voc concorda! J no  sem tempo! Pois eles caminham para trs quando nos aproximamos! Eu achava que eram s os caranguejos que caminhavam para trs.
      - No ria, Gabriel! No ria!
      - No estou rindo - protesta Gabriel, que se mostra srio "como um papa".
      - Poderia explicar-me, por gentileza, Gabriel, voc que  amigo ntimo da diretoria, por qu, no entreato do "jardim", diante do foyer, quando eu avanava,
com a mo estendida para o Sr. Richard, ouvi o Sr. Moncharmin me dizer precipitadamente em voz baixa: "Afaste-se! Afaste-se! Sobretudo no toque no senhor diretor?...".
Acaso eu sou um empesteado?
      - Incrvel!
      - E alguns instantes mais tarde, quando o Sr. embaixador de La Broderie se dirigiu por sua vez em direo do Sr. Richard, voc no viu o Sr. Moncharmin lanar-se
entre os dois e no o ouviu exclamar: "Senhor embaixador, eu o conjuro, no toque no senhor diretor!"
      - Espantoso!... E o que fazia o Sr. Richard durante esse tempo?
      - O que ele fazia? Voc bem viu! Fazia meia-volta, cumprimentava  frente dele, quando no havia ningum na frente dele! e se retirava caminhando para trs.
      - Para trs?
      - E Moncharmin, atrs de Richard, tambm tinha dado meia-volta, quer dizer, tinha feito atrs de Richard um rpido semicrculo, e tambm ele se retirava "'caminhando
para trs"... E foram indo assim at a escada da administrao, recuando!... recuando!... Afinal! se no esto malucos, voc pode me explicar o que isso significa?
      - Estavam ensaiando, talvez - explica Gabriel, sem convico -, uma figura de bal!
      O secretrio Rmy sente-se ultrajado por to vulgar gracejo em momento to dramtico. Os seus olhos se franzem, os lbios se apertam. Inclina-se para o ouvido
de Gabriel.
      - No se faa de esperto, Gabriel. Esto acontecendo coisas aqui pelas quais voc e Mercier poderiam ter sua parte de responsabilidade.
      - O qu? - interroga Gabriel.
      - Christine Daa no  a nica que desapareceu de repente, esta noite.
      - Ah, !?
      - No tem "ah, !?". Poderia me dizer por que, quando a Sra. Giry desceu h pouco ao foyer, Mercier tomou-a pela mo e a conduziu rapidinho com ele?
      - Est a! - diz Gabriel. - Eu no notei.
      - Tanto voc notou, Gabriel, que voc seguiu Mercier e a Sra. Giry at o escritrio de Mercier. Desde esse momento, voc e Mercier foram vistos, mas a Sra.
Giry ningum mais viu...
      - Voc por acaso acha que a gente a engoliu?
      - No, mas vocs a trancaram com duas voltas de chave no escritrio, e, quando se passa perto da porta do escritrio, sabe o que se ouve? Ouvem-se estas palavras:
"Ah! esses bandidos! Ah! esses bandidos!"
      Neste ponto da singular conversa chega Mercier, todo esbaforido.
      - Pronto! - diz ele com voz desanimada. -  mais forte do que tudo... Eu gritei para eles: " gravssimo! Abram! Sou eu, Mercier". Ouvi passos. A porta se
abriu e Moncharmin apareceu. Estava muito plido. Perguntou-me: "O que  que voc quer?" Respondi: "Raptaram Christine Daa". Sabem o que ele me respondeu? "Melhor
para ela!" E fechou a porta colocando-me isto na mo.
      Mercier abre a mo; Rmy e Gabriel olham.
      - O alfinete de presso! - exclama Rmy.
      - Estranho! Estranho! - pronuncia baixinho Gabriel, que no pode evitar de ter um arrepio.
      De repente, uma voz faz os trs virarem para trs.
      - Com licena, senhores, poderiam dizer-me onde est Christine Daa?
      Apesar da gravidade das circunstncias, uma pergunta dessas certamente os teria feito rir se no tivessem percebido uma figura to acabrunhada que imediatamente
sentiram d. Era o visconde Raoul de Chagny.



16

CHRISTINE! CHRISTINE!

      O primeiro pensamento de Raoul, depois do desaparecimento fantstico de Christine Daa, tinha sido o de acusar Erik. No duvidava mais do poder sobrenatural
do Anjo da msica, no domnio da pera, onde havia diabolicamente estabelecido o seu imprio.
      E Raoul tinha corrido para o palco, numa loucura de desespero e de amor. "Christine! Christine!", gemia, desvairado, chamando-a como ela devia estar chamando-o
do fundo desse abismo escuro onde o monstro a havia transportado como uma presa, toda fremente ainda de sua exaltao divina, toda vestida da branca mortalha na
qual j se oferecia aos anjos do paraso.
      "Christine! Christine!", repetia Raoul... e parecia-lhe ouvir os gritos da moa atravs das pranchas frgeis que o separavam dela! Inclinava-se, escutava!...
vagava no palco como um insensato. Ah! descer! descer! descer! naquele poo de trevas cujas sadas todas lhe esto fechadas!
      Ah! esse obstculo frgil que ordinariamente desliza to facilmente para deixar ver o abismo para onde tende todo desejo... essas tbuas que seus passos fazem
estalar e que ressoam sob o seu peso o prodigioso vazio dos "subterrneos"... essas tbuas esto mais do que imveis esta noite: parecem imutveis... Assumem a firme
aparncia de nunca ter-se movido... e eis que as escadas que conduzem para debaixo do palco esto interditadas para toda gente!...
      "Christine! Christine!..." Empurram-no com risadas... zombam dele... Pensam que ele est com o crebro avariado... o pobre noivo!...
      Em que corrida desabalada, entre os corredores de noite e de mistrio que s ele conhece, Erik ter arrastado a menina pura at aquele esconderijo medonho,
cuja porta se abre sobre o lago do inferno?... "Christine!... Christine!... Voc no responde! Pelo menos voc ainda est viva, Christine? Voc no exalou o ltimo
suspiro num momento de horror sobre-humano, sob o hlito abrasado do monstro?"
      Pensamentos horrveis atravessavam como relmpagos fuzilantes o crebro congestionado de Raoul.
      Evidentemente, Erik deve ter surpreendido o segredo deles, sabido que fora trado por Christine! Que vingana ser a sua!
      De que no seria capaz o Anjo da msica, precipitado do alto de seu orgulho? Christine est perdida entre os braos todo-poderosos do monstro!
      E Raoul pensa ainda nas estrelas de ouro que vieram na noite passada vagar sobre a sacada; por que no as fulminou com sua arma impotente?
      Sem dvida! Existem olhos comuns de homem que se dilatam nas trevas e brilham como estrelas ou como olhos de gato. (Alguns homens albinos, que parecem ter
olhos de coelho de dia, tm olhos de gato de noite, todos sabem disso!)
      Sim, sim, era realmente em Erik que Raoul atirara! Por que no o matou? O monstro tinha fugido pelas calhas como os gatos e os presidirios que - tambm todos
sabem disso - escalariam o cu a pique, com o apoio de uma calha.
      Certamente Erik estava pensando ento em fazer algo decisivo contra o rapaz, mas tinha sido ferido e se voltara contra a pobre Christine.
      Assim pensa cruelmente o pobre Raoul enquanto vai correndo ao camarim da cantora...
      "Christine!... Christine!..." Lgrimas amargas queimavam as plpebras do jovem que v, esparramadas sobre os mveis, as roupas destinadas a vestir a sua bela
noiva na hora da fuga!... Ah! Por que ela no quis partir antes! Por que demorou tanto?... Por que brincou com a catstrofe ameaadora?... com o corao do monstro?...
Por que quis, piedade suprema!, lanar, como ltima ceva quela alma de demnio, este canto celeste:
      Anjos puros! Anjos radiosos! Levai minha alma para o seio dos cus!
      Raoul, em cuja garganta se misturam soluos, juras e injrias, tateia com as palmas de suas mos inbeis o grande espelho que se abriu uma noite diante dele
para deixar Christine descer  tenebrosa morada. Empurra, aperta, apalpa... mas o espelho, ao que parece, s obedece a Erik... Talvez os gestos sejam inteis com
semelhante espelho?... Talvez bastasse pronunciar certas palavras?... Quando era menininho contavam-lhe que havia objetos que obedeciam assim  palavra!
      De repente, Raoul se recorda... "uma grade que d para a rua Scribe... Um subterrneo que sobe diretamente do lago at a rua Scribe...". Sim, Christine lhe
falou de algo assim!... E, embora verificasse que a pesada chave j no est mais no cofrinho, correu mesmo assim para a rua Scribe.
      E l est ele fora; passa as mos trmulas por sobre as pedras ciclpicas, procura sadas... encontra as barras... seriam estas?... ou estas?... ou isto seria
apenas um respiradouro?... Mergulha olhares impotentes por entre as barras da grade... que noite profunda l dentro!... Escuta!... Que silncio!... D a volta ao
monumento!... Ah! Aqui esto as vastas barras! grades prodigiosas!... E a porta do ptio da administrao!
      Raoul corre at a zeladora:
      - Desculpe, senhora, no poderia me indicar onde fica uma porta com grades, sim, uma porta feita de barras, de barras... de ferro... que d para a rua Scribe...
e que conduz ao lago! A senhora sabe, o lago? Sim, o lago, ora! O lago que est debaixo da terra... debaixo do cho da pera.
      - Meu senhor, sei que existe um lago debaixo da pera, mas no sei que porta conduz a ele... nunca fui l!...
      - E a rua Scribe, senhora? A rua Scribe? A senhora nunca foi  rua Scribe?"
      Ela ri! D gargalhadas! Raoul foge rugindo, salta, sobe escadas, desce outras, atravessa toda a administrao, encontra-se sob a luz do "tabuleiro".
      Pra, o corao est batendo de arrebentar no peito ofegante: se tiverem encontrado Christine Daa? Ali vem um grupo; ele pergunta:
      - Com licena, os senhores viram Christine Daa? E eles riem.
      No mesmo minuto, o tabuleiro estronda com um rumor novo, e, numa multido de roupas pretas que o cercam com muitos movimentos explicativos de braos, aparece
um homem que, s ele, parece bem calmo e mostra uma cara amvel, rosada e bochechuda, enquadrada em cabelos crespos, iluminada por dois olhos azuis de uma serenidade
maravilhosa. O administrador Mercier aponta o recm-chegado ao visconde de Chagny e diz:
      - Aqui est o homem, senhor, a quem daqui em diante, o senhor dever fazer a pergunta. Apresento-lhe o delegado de polcia Mifroid.
      - Ah! Sr. visconde de Chagny! Encantado em v-lo, meu senhor - diz o delegado. - Se o senhor quiser se dar ao trabalho de me seguir... E agora, onde esto
os diretores?... onde esto os diretores?...
      Como o administrador ficasse calado, o secretrio Rmy assume informar ao delegado que os senhores diretores esto trancados em seu escritrio e ainda no
sabem nada do acontecido.
      - Ser possvel!... Vamos ao escritrio deles!
      E Mifroid, seguido de um cortejo que ia engrossando, dirige-se  administrao. Mercier aproveita a confuso para escorregar uma chave na mo de Gabriel:
      - Isso tudo est indo de mal a pior - murmura-lhe. - V dar um pouco de ar  Sra. Giry...
      E Gabriel se afasta.
      Logo se chega diante da porta da diretoria. Em vo Mercier faz ouvir as suas recriminaes, a porta no se abre.
      - Abra em nome da lei! - ordena a voz clara e um pouco preocupada de Mifroid.
      Finalmente a porta se abre. Todos se precipitam para dentro do escritrio, seguindo os passos do delegado.
      Raoul  o ltimo a entrar. Conforme se dispe a seguir o grupo, uma mo pousa sobre o seu ombro e ele ouve estas palavras pronunciadas ao seu ouvido:
      "Os segredos de Erik no dizem respeito a ningum1."
      Ele se vira abafando um grito. A mo que tinha pousado em seu ombro est agora nos lbios de uma personagem com tez de bano, olhos de jade e usando um bon
de astrac... O Persa!
      O desconhecido prolonga o gesto que recomenda a discrio e, no momento em que o visconde, estupefato, vai lhe perguntar a razo de sua misteriosa interveno,
ele cumprimenta e desaparece.






17

REVELAES ESPANTOSAS DA SR GIRY, RELATIVAS S SUAS RELAES PESSOAIS COM O FANTASMA DA PERA

      Antes de acompanhar o delegado de polcia Mifroid ao gabinete dos diretores, o leitor me permitir discorrer sobre certos acontecimentos extraordinrios que
acabavam de se desenrolar no escritrio onde o secretrio Rmy e o administrador Mercier tinham em vo tentado penetrar, e onde os Srs. Richard e Moncharmin se tinham
fechado to hermeticamente com um objetivo ainda ignorado pelo leitor, mas que  de meu dever histrico - quero dizer, do meu dever de historiador - no lhe ocultar
por mais tempo.
      Tive a ocasio de dizer quanto o humor dos senhores diretores se havia modificado desagradavelmente de algum tempo para c, e dei a entender que essa transformao
no devia ter tido como causa nica a queda do lustre nas condies j sabidas.
      Informemos pois ao leitor - em que pese o desejo que teriam os diretores de que tal acontecimento ficasse escondido para sempre - que o fantasma tinha conseguido
receber tranqilamente os seus primeiros 20 mil francos! Ah! tinha havido choro e ranger de dentes! A coisa se fizera, entretanto, com a maior simplicidade do mundo:
      Uma manh, os diretores tinham encontrado um envelope j preparado sobre a sua escrivaninha. Esse envelope estava assim sobrescrito: Ao senhor F. da . (confidencial)
e vinha acompanhado de um bilhete do prprio F. da .: "E chegado o momento de executar as clusulas do caderno de encargos: os senhores colocaro 20 notas de mil
francos neste envelope que fecharo com o seu prprio lacre e o entregaro  Sra. Giry que far o necessrio".
      Os diretores no se fizeram de rogados; sem perder tempo com perguntas sobre como essas misses diablicas podiam chegar a um gabinete que tinham o maior cuidado
de trancar  chave, acharam que era uma boa oportunidade para meterem a mo sobre o misterioso mestre de canto. E depois de terem contado tudo a Gabriel e a Mercier,
sob o cunho do maior segredo, puseram os 20 mil francos no envelope e o confiaram, sem pedir explicaes,  Sra. Giry, reintegrada em suas funes. A lanterninha
no manifestou nenhum espanto. Nem  preciso dizer quanto ela foi vigiada! Alis, ela se dirigiu imediatamente ao camarote do fantasma e colocou o precioso envelope
na plaqueta do apoio de mo. Os dois diretores, assim como Gabriel e Mercier, ficaram escondidos de tal sorte que por nem um segundo perderam de vista o tal envelope
durante todo o tempo da representao e mesmo depois, porque, como o envelope no fora tocado, os que o vigiavam no se mexeram tampouco e o teatro se esvaziou e
a Sra. Giry foi-se embora enquanto os diretores, Gabriel e Mercier permaneceram ali. Finalmente eles se cansaram e abriram o envelope, depois de verificarem que
os lacres no tinham sido violados.
       primeira vista, Richard e Moncharmin acharam que as notas continuavam ali, mas depois deram-se conta de que no eram as mesmas. As 20 notas verdadeiras tinham
sumido e sido substitudas por 20 notas da "Santa Farsa". Tiveram um acesso de raiva e depois tambm de pavor!
      -  mais impressionante do que com Robert Houdini - exclamou Gabriel.
      - Sim - replicou Richard -, e custa mais caro! Moncharmin queria que se fosse correndo buscar o delegado;
      Richard se ops. Ele tinha sem dvida seu plano. Disse:
      - No sejamos ridculos! Toda a Paris ficaria rindo. F. da . ganhou a primeira mo; retomaremos a segunda. - Estava pensando, evidentemente, na mensalidade
seguinte.
      Mesmo assim, tinham sido to perfeitamente ludibriados que no puderam, durante as semanas subseqentes, sobrepujar certo abatimento. E era, de fato, bem compreensvel.
Se o delegado no foi chamado logo, no se deve esquecer que foi porque os diretores guardavam no seu ntimo a idia de que uma aventura to estranha podia no ser
mais do que uma detestvel brincadeira, montada certamente por seus predecessores, e convinha no divulgar nada antes de conhecer a sua "razo profunda". Essa idia,
por outro lado, se perturbava em certos momentos na cabea de Moncharmin por uma suspeita com relao ao prprio Richard, que tinha algumas vezes imaginaes burlescas.
E foi assim que, prontos para qualquer eventualidade, esperaram os acontecimentos vigiando e mandando vigiar a Sra. Giry, a quem Richard quis que no se falasse
de nada.
      - Se ela  cmplice - disse ele -, h muito tempo que as notas esto longe. Mas, para mim, ela no passa de uma imbecil!!
      - Os imbecis so muitos nesta histria! - replicou Moncharmin, cismando.
      - A gente podia desconfiar?... - gemeu Richard -, mas no tenha medo... da prxima vez tomarei todas as minhas precaues...
      E foi assim que chegou a prxima vez... caiu no mesmo dia do desaparecimento de Christine Daa.
      Pela manh, uma missiva do fantasma que lhes lembrava o vencimento. "Faam como na ltima vez", ensinava amavelmente F. da . "Tudo correu muito bem. Remetam
o envelope, no qual os senhores tero colocado os 20 mil francos, a essa excelente Sra. Giry."
      E o bilhete vinha acompanhado do envelope costumeiro. Era s reche-lo.
      A operao devia ser executada naquela mesma noite, meia hora mais ou menos antes do espetculo. Foi ento cerca de meia hora antes que as cortinas se levantassem
para aquela famigerada representao de Fausto que penetramos no antro da diretoria.
      Richard mostra o envelope a Moncharmin, depois conta diante dele os 20 mil francos e os coloca no envelope, mas sem fech-lo.
      - E agora - disse -, chame a Sra. Giry.
      Foram buscar a velha. Ela entrou fazendo uma bela reverncia. Continuava com seu vestido de tafet preto, cuja cor tendia para o ferrugem e para o lils, e
com o chapu de plumas cor de fuligem. Parecia de muito bom humor. Logo foi dizendo:
      - Bom dia, meus senhores! Devem ter-me chamado por causa do envelope?
      - Isso mesmo, Sra. Giry - disse Richard com grande amabilidade... - E por causa do envelope... E por causa de outra coisa tambm.
      - s suas ordens, senhor diretor, s suas ordens!... E qual  essa outra coisa, por favor?
      - Primeiro, Sra. Giry, eu teria uma perguntinha a lhe fazer.
      - Faa, senhor diretor, sua criada est aqui para responder.
      - A senhora continua s boas com o fantasma?
      - Melhor impossvel, senhor diretor, melhor impossvel.
      - Ah! ficamos encantados de ouvir isso... Diga ento, Sra. Giry - pronunciou Richard, tomando o tom de uma importante confidncia. - C entre ns, a gente
pode dizer... A senhora no e uma besta.
      - Mas, senhor diretor!... - exclamou a lanterninha, parando o amvel balano das duas penas pretas do seu chapu cor de picum. - Peo-lhe que acredite que
isso nunca teve sombra de dvida para ningum!
      - Estamos de acordo e vamos nos entender. A histria do fantasma  uma boa piada, no ?... Pois bem, sempre c entre ns... ela j durou demais.
      A Sra. Giry olhou para os diretores como se eles lhe tivessem falado em chins. Aproximou-se da escrivaninha de Richard e disse, bastante preocupada:
      - O que  que o senhor est querendo dizer?... No entendi!
      - Ah! a senhora nos entendeu muito bem. Em todo caso,  preciso nos entender... E, primeiro, a senhora vai nos dizer como  que ele se chama.
      - Quem?
      - Aquele de quem a senhora  cmplice, Sra. Giry!
      - Eu sou cmplice do fantasma? Eu?... Cmplice do qu?
      - A senhora faz tudo que ele quer.
      - Oh!... ele no  muito exigente, os senhores sabem.
      - E sempre lhe d gorjetas!
      - Eu no me queixo!
      - Quanto ele lhe d para levar este envelope para ele?
      - Dez francos.
      - Com os diabos! no  caro!
      - Mas por qu?
      - Eu lhe direi isso daqui a pouco, Sra. Giry. Agora gostaramos de saber por que razo extraordinria... a senhora se entregou de corpo e alma a esse fantasma
de preferncia a outro... No  por dez tostes ou por dez francos que se pode ter a dedicao da Sra. Giry.
      - Isso  verdade!... E, palavra, essa razo, posso diz-la, senhor diretor! Certamente no h nisso nenhuma desonra!... pelo contrrio.
      - No temos dvida, Sra. Giry.
      - Pois bem, a est... o fantasma no gosta que eu conte as suas histrias.
      - Ah! ah! - riu Richard.
      - Mas essa a s diz respeito a mim!... - retorquiu a velha. - Ento, foi no camarote n 5... uma noite, encontrei uma carta para mim... uma espcie de nota
escrita com tinta vermelha... Essa nota, senhor diretor, eu no preciso ler para o senhor... eu sei de cor... e nunca esquecerei mesmo que viva cem anos!...
      E a Sra. Giry, toda ereta, recita a carta com uma eloqncia comovedora:
      "Minha senhora. - 1825, Srta. Mntrier, corifia, se tornou marquesa de Cussy. - 1832, Srta. Maria Taglioni, danarina, foi feita Condessa Gilbert des Voisins.
- 1846, Sota, danarina, casa-se com um irmo do rei da Espanha. - 1847, Lola Montes, danarina, casa-se morganaticamente com o rei Lus da Baviera e  feita Condessa
de Landsfeld. - 1848, Srta. Maria, danarina, torna-se baronesa de Hermeville. - 1870, Teresa Hessler, danarina, casa-se com Dom Fernando, irmo do rei de Portugal..."
      Richard e Moncharmin escutam a velha, que,  medida que avana na curiosa enumerao desses gloriosos himeneus, se anima, se levanta, vai tomando audcia e,
finalmente, inspirada como uma sibila sobre o seu trip, lana com voz retumbante de orgulho a ltima frase da carta proftica: 1885, Meg Giry, imperatriz!
      Esgotada com esse esforo supremo, a lanterninha cai de volta sentada na cadeira e diz:
      - Senhores, a carta estava assinada: O fantasma da pera! Eu j tinha ouvido falar do fantasma, mas s acreditava nele pela metade. A partir do dia em que
me anunciou que a minha pequena Meg, carne da minha carne, fruto das minhas entranhas, seria imperatriz, acreditei inteiramente.
      Em verdade, em verdade, no era necessrio considerar longamente a fisionomia exaltada da Sra. Giry para entender o que se pudera obter daquela bela inteligncia
com estas duas palavras : "fantasma" e "imperatriz".
      Mas quem  que puxava as cordinhas desse extravagante manequim?... Quem?
      - A senhora nunca o viu, ele lhe fala, e a senhora acredita em tudo aquilo que ele diz? - perguntou Moncharmin.
      - Acredito; primeiro,  a ele que eu devo o fato de a minha pequena Meg ter passado a corifia. Eu tinha dito ao fantasma: "Para que ela seja imperatriz em
1885, o senhor no tem tempo a perder, ela precisa passar imediatamente a corifia". Ele me respondeu: "Est bem". E foi s ele dizer uma palavra ao Sr. Poligny,
estava feito...
      - A senhora est dizendo que o Sr. Poligny o viu!?
      - Tanto quanto eu, mas ele o ouviu! O fantasma lhe disse uma palavrinha ao ouvido, o senhor sabe, na noite em que ele saiu to plido do camarote n 5.
      Moncharmin solta um suspiro.
      - Que histria! - diz ele num gemido.
      - Ah! - responde a Sra. Giry -, sempre achei que havia segredos entre o fantasma e o Sr. Poligny. Tudo que o fantasma pedia ao Sr. Poligny, o Sr. Poligny concedia...
O Sr. Poligny no podia recusar nada ao fantasma.
      - Est ouvindo, Richard, Poligny no tinha nada a recusar ao fantasma.
      - Sim, sim, estou ouvindo bem! - declarou Richard. - O Sr. Poligny  amigo do fantasma! E, como a Sra. Giry  amiga do Sr. Poligny, chegamos ao ponto - acrescentou
ele num tom bem rude. - Mas, a mim, o Sr. Poligny no preocupa... A nica pessoa cuja sorte me interessa de fato, eu no escondo isso,  a Sra. Giry!... Sra. Giry,
sabe o que est dentro desse envelope?
      - Por Deus, no! - disse ela.
      - Pois bem, olhe!
      A Sra. Giry lanou para dentro do envelope um olhar turvo, mas que logo recuperou o brilho.
      - Notas de mil francos! - exclamou.
      - Sim, Sra. Giry!... isso mesmo, notas de mil!... E a senhora bem que j sabia!
      - Eu, no, senhor diretor... Eu! eu lhe juro...
      - No jure, Sra. Giry!... E agora vou lhe dizer aquela outra coisa pela qual a fiz vir aqui... Sra. Giry, eu vou mandar prend-la.
      As duas plumas pretas do chapu cor de picum, que normalmente exibiam a forma de dois pontos de interrogao, transformaram-se imediatamente em ponto de exclamao;
Quanto ao prprio chapu, oscilou, ameaador, sobre o seu birote em tempestade. A surpresa, a indignao, o protesto e o espanto se traduziram ainda na me da pequena
Meg por uma espcie de pirueta extravagante, passo de jet glissade da virtude ofendida, que a levou de um salto at debaixo do nariz do diretor, que no pde evitar
de recuar em sua poltrona.
      - Me mandar prender!
      A boca que dizia isso parecia que ia cuspir no rosto do Sr. Richard os trs dentes de que ainda dispunha.
      O Sr. Richard foi herico. Recuou mais. O seu indicador j apontava, ameaador, aos magistrados ausentes, a lanterninha do camarote n 5.
      - Vou mandar prend-la, Sra. Giry, como ladra!
      - Repita!
      E a Sra. Giry esbofeteou com toda fora o diretor Richard antes que o diretor Moncharmin tivesse tempo de se interpor. Resposta vingadora! No foi a mo ressequida
da velha colrica que veio se abater sobre a bochecha diretorial, mas o prprio envelope, causa de todo o escndalo, o envelope mgico que se entreabriu com o golpe
para deixar escapar as notas que saram voando num giro de borboletas gigantes.
      Os dois diretores lanaram um grito e um mesmo pensamento os lanou a ambos de joelhos, recolhendo febrilmente e compulsando s pressas a preciosa papelada.
      - Elas continuam verdadeiras?, Moncharmin.
      - Elas continuam verdadeiras?, Richard.
      - Elas continuam verdadeiras!
      Acima deles, os trs dentes da Sra. Giry se chocam numa confuso ressonante, cheia de horrveis interjeies. Mas s se percebe bem o leitmotiv:
      - Eu, ladra!... Ladra, eu!... Fica sufocada.
      Exclama:
      - Estou arrasada!
      E, de repente, salta de novo para debaixo do nariz de Richard.
      - Em todo caso - rosnou a velha -, o senhor, Sr. Richard, deve saber melhor do que eu aonde foram parar os 20 mil francos!
      - Eu? - perguntou Richard estupefato. - Como poderia saber?
      Logo Moncharmin, severo e preocupado, quer que a mulher se explique.
      - O que significa isso? - interroga. - E por que, Sra. Giry, est insinuando que o Sr. Richard deve saber melhor do que a senhora aonde foram parar os 20 mil
francos?
      Quanto a Richard, que sente estar ficando vermelho sob o olhar de Moncharmin, toma a mo da Sra. Giry e a sacode com violncia. A voz dele imita o trovo.
Troveja, rola... fulmina...
      - Por que saberia eu melhor do que a senhora aonde foram parar os 20 mil francos? por qu?
      - Porque foram parar no seu bolso!... - revela a velha, agora com um olhar de quem estivesse vendo o diabo.
      E a vez do Sr. Richard ficar fulminado, primeiro por essa rplica inesperada, depois pelo olhar cada vez mais desconfiado de Moncharmin. Com isso, ele perde
a fora de que precisaria para rechaar to desprezvel acusao.
      Assim, os mais inocentes, surpreendidos na paz de seu corao, aparentam, de repente, por causa do golpe que os fere, os faz empalidecer, ou corar, ou fraquejar,
ou se levantar, ou se aniquilar, ou protestar, ou no dizer nada quando seria preciso falar, ou falar quando seria preciso no dizer nada, ou ficar secos quando
seria preciso enxugar o suor, ou suar quando seria preciso ficar secos, aparentam de repente, dizia eu, ser culpados.
      Moncharmin interrompeu o mpeto vingador com que Richard, que estava inocente, ia se precipitar sobre a Sra. Giry, e logo decide, encorajador, interrog-la...
com brandura.
      - Como pde a senhora suspeitar de que o meu colaborador Richard tenha botado no bolso os 20 mil francos?
      - Eu nunca disse isso! - declara a Sra. Giry -, visto que fui eu mesma, em pessoa, quem colocou os 20 mil francos no bolso do Sr. Richard. - E acrescenta a
meia-voz: - Azar meu! Est feito!... Que o fantasma me perdoe!
      E como Richard se pusesse a berrar, Moncharmin, com autoridade, ordena-lhe que se cale:
      - Com sua licena! Com sua licena! Deixe essa mulher se explicar! Deixe-me interrog-la.
      E acrescenta:
      - E realmente estranho que voc encare a coisa num tom assim!... Estamos chegando ao momento em que todo esse mistrio vai se esclarecer! Voc est furioso!
Voc est errado... Eu estou me divertindo bastante.
      A Sra. Giry, mrtir, levanta a cabea em que brilha a f em sua inocncia.
      - O senhor est dizendo que tinha 20 mil francos no envelope que eu coloquei no bolso do Sr. Richard, mas, repito, eu no sabia... Nem tampouco o Sr. Richard,
alis!
      - Ah! ah! - fez Richard, afetando de repente um ar de bravura que desagradou a Moncharmin. - Eu tambm no sabia de nada! A senhora colocava 20 mil francos
no meu bolso e eu no sabia de nada! Fico muito contente, Sra. Giry.
      - Sim - aquiesceu a terrvel senhora -,  verdade!... Ns no sabamos de nada, nem um nem outro!... Mas o senhor, afinal, deve ter acabado por ficar sabendo.
      Richard certamente devoraria a Sra. Giry se Moncharmin no estivesse presente! Mas Moncharmin a protege. Precipita o interrogatrio.
      - Que espcie de envelope a senhora colocou no bolso do Sr. Richard? No foi aquele que ns lhe tnhamos dado, aquele que a senhora ia levar, diante de ns,
ao camarote n 5, e s aquele, no entanto,  que continha os 20 mil francos!
      - Perdo! Era mesmo aquele que me foi dado pelo senhor diretor que eu enfiei no bolso do senhor diretor - explica a Sra. Giry. - Quanto quele que eu coloquei
no camarote do fantasma, era outro envelope exatamente igual, que eu tinha, j preparado, na minha manga, e que me havia sido dado pelo fantasma!
      Ao dizer isso, a Sra. Giry tira da manga um envelope j preparado e idntico, com o respectivo sobrescrito, ao que contm os 20 mil francos. Os diretores se
apossam dele. Examinam-no, constatam que est fechado com lacres selados com o seu prprio sinete diretorial. Abrem... Ele contm 20 notas da "Santa Farsa . como
aquelas que os tinham deixado to estupefatos um ms antes.
      - Como  simples! - exclama Richard.
      - Como  simples! - repete mais solenemente do que nunca Moncharmin.
      - Os golpes mais famosos - responde Richard - sempre foram os mais simples! Basta ter um comparsa...
      - Ou uma comparsa! - acrescenta com voz plida Moncharmin.
      E continua, com os olhos fixos na Sra. Giry, como se quisesse hipnotiz-la:
      - Era mesmo o fantasma que fazia chegar at a senhora o tal envelope e era mesmo ele que lhe dizia para substituir por este o que ns lhe entregvamos?
      - Oh! era ele mesmo!
      - Ento a senhora poderia mostrar-nos uma amostra dos seus pequenos talentos?... Aqui est o envelope. Faa como se ns no soubssemos de nada.
      - s suas ordens, meus senhores!
      A Sra. Giry tomou do envelope recheado com as notas e se dirigiu para a porta. Est prestes a sair. Os dois diretores caem sobre ela.
      - Ah! no! Ah! no! No vo nos aplicar o mesmo golpe! J basta! No vamos recomear!
      - Perdo, meus senhores - desculpa-se a velha -, perdo... Os senhores disseram para fazer como se no soubessem de nada!... Pois bem, se os senhores no soubessem
de nada, eu iria embora com o seu envelope!
      - E ento, como  que a senhora o enfiaria no meu bolso? - pergunta Richard, a quem Moncharmin segue de perto com o olho esquerdo enquanto o olho direito est
todo ocupado com a Sra. Giry. Aquela era uma posio difcil para o olhar; mas Moncharmin est decidido a tudo para descobrir a verdade.
      - Tenho de enfi-lo no seu bolso no momento em que o senhor menos espera, senhor diretor. O senhor sabe que sempre vou durante a noite, dar uma voltinha pelos
bastidores, e muitas vezes acompanho, como  de meu direito de me, a minha filha ao pavilho da dana; carrego para ela as sapatilhas, no momento do divertimento,
e at o seu esborrifadorzinho... Em resumo, vou e venho  vontade... Os assinantes tambm... O senhor tambm, senhor diretor... Tem muita gente... Passo por trs
do senhor e escorrego o envelope no bolso de trs... Isso no  bruxaria!
      - Isso no  bruxaria - repete Richard com voz de trovo, rolando olhos de Jpiter tonitruante -, isso no  feitiaria! Mas eu a estou pegando em flagrante
delito de mentira, velha feiticeira!
      O insulto atinge menos a honrada senhora do que o golpe que esto querendo aplicar  sua boa f. Ela se levanta, hirsuta, com os trs dentes para fora.
      - Por causa?
      - Por causa de que aquela noite eu fiquei na sala vigiando o camarote n 5 e o envelope falso que a senhora tinha colocado l. No desci nem por um segundo
ao pavilho da dana...
      - Tambm, senhor diretor, no foi naquela noite que eu lhe passei o envelope!... Mas na representao seguinte... E, foi na noite em que o subsecretrio de
Estado das Belas-Artes...
      A essas palavras, Richard interrompe bruscamente a Sra. Giry.
      - Ah!  verdade - diz ele, pensativo -, eu me lembro... eu me lembro agora! O senhor subsecretrio de Estado foi at os bastidores. Ele procurou por mim. Desci
um instante ao pavilho da dana. Eu estava nos degraus do pavilho... O subsecretrio de Estado e o seu chefe de gabinete estavam no pavilho mesmo... De repente,
virei para trs... era a senhora que estava passando atrs de mim... Sra. Giry... Pareceu-me que a senhora raspou em mim.. S havia a senhora atrs de mim... Oh!
ainda a estou vendo... ainda a estou vendo!
      - Pois bem, senhor diretor,  isso mesmo! Eu tinha acabado de fazer o meu trabalhinho no seu bolso! Aquele bolso  muito cmodo!
      E uma vez mais a Sra. Giry acrescenta o gesto  palavra. Passa por trs do Sr. Richard e, to rapidamente que o prprio Moncharmin, que agora est olhando
para ela com os dois olhos, fica impressionado, ela enfia o envelope no bolso de uma das abas do fraque do diretor.



      - Evidentemente! - exclama Richard, plido. -  um pouco forte da parte do F. da . O problema, para ele, colocava-se assim: suprimir qualquer intermedirio
perigoso entre quem d os 20 mil francos e o que os pega! No podia encontrar nada melhor do que vir peg-los no meu bolso sem que eu notasse, visto que eu nem mesmo
sabia que ele estava l... E admirvel!
      - Oh! admirvel! sem dvida - refora Moncharmin -, s que, Richard, voc est se esquecendo de que desses 20 mil francos eu dei 10 mil, e, no meu bolso, no
puseram nada!



18

CONTINUAO DA CURIOSA ATITUDE DE UM ALFINETE DE PRESSO

      A ltima frase de Moncharmin exprimia de modo demasiado evidente a suspeita em que mantinha agora o seu colaborador para que da no resultasse, de imediato,
uma explicao tempestuosa, ao fim da qual ficou entendido que Richard iria se dobrar a todas as vontades de Moncharmin com o fito de ajud-lo a descobrir o miservel
que os estava ludibriando.
      Assim, chegamos ao "entreato do jardim" durante o qual o secretrio Rmy, a quem nada escapa, fez to curiosa observao sobre o comportamento dos diretores
e, a partir da, nada nos ser mais fcil do que encontrar uma razo para atitudes to excepcionalmente barrocas e principalmente to pouco conformes com a idia
que se deve ter da dignidade diretorial.
      O comportamento de Richard e de Moncharmin estava todo traado pela revelao que acabava de lhes ser feita: 1 Richard devia repetir exatamente, naquela noite,
os gestos que tinha feito quando do desaparecimento dos primeiros 20 mil francos; 2 Moncharmin no devia perder de vista, por um segundo sequer, o bolso de trs
de Richard, no qual a Sra. Giry teria colocado os segundos 20 mil.
      No lugar exato em que se encontrava quando cumprimentou o subsecretrio de Estado das Belas-Artes veio colocar-se Richard, tendo s suas costas, a alguns passos,
Moncharmin.
      A Sra. Giry passa, esbarra em Richard, livra-se dos 20 mil no bolso da aba do diretor e desaparece...
      Ou melhor, fazem com que ela desaparea. Em cumprimento  ordem que Moncharmin lhe havia dado fazia alguns instantes, antes da reconstituio da cena, Mercier
vai trancar a boa senhora no gabinete da administrao. Assim, ser impossvel  velha comunicar-se com o seu fantasma. E ela no ops resistncia, porque a Sra.
Giry no  mais do que uma pobre figura desplumada, perdida de espanto, abrindo olhos de galinha apavorada sob uma crista em desordem, ouvindo o delegado que a ameaa
e soltando suspiros capazes de rachar as colunas da grande escadaria.
      Durante esse tempo, Richard se curva, faz uma reverncia, sada, anda para trs como se tivesse diante dele aquele alto e onipotente funcionrio que  o Sr.
subsecretrio de Estado das Belas-Artes.
      S que, se semelhantes provas de cortesia no teriam provocado nenhum espanto caso diante do diretor estivesse o Sr. subsecretrio de Estado, provocaram nos
espectadores dessa cena to natural, mas inexplicvel, uma estupefao bem compreensvel quando no havia ningum diante do diretor.
      Richard cumprimentava no vazio... curvava-se diante do nada... e recuava... andava para trs... diante de nada...
      ... Enfim, a alguns passos dali, Moncharmin fazia a mesma coisa que ele.
      ... E, afastando o Sr. Rmy, suplicava ao embaixador de La Broderie e ao diretor do Crdito Central que "no tocassem no senhor diretor".
      Moncharmin, que tinha a sua idia, no queria que da a pouco, desaparecidos os 20 mil francos, Richard viesse lhe dizer: "Foi talvez o Sr. embaixador ou o
Sr. diretor do Crdito Central, ou mesmo o Sr. secretrio Rmy."
      Tanto mais que, quando da primeira cena, conforme a confisso do prprio Richard, este no tinha encontrado ningum, depois de ter tido o esbarro da Sra.
Giry, naquela parte do teatro... Por que ento, pergunto, j que os mesmos gestos deviam ser repetidos exatamente, ele encontraria algum hoje?
      Tendo inicialmente andado para trs para cumprimentar, Richard continuou andando desse modo por prudncia... at o corredor da administrao. Assim, continuava
sendo vigiado por trs por Moncharmin e ele prprio tambm vigiava "quem se aproximava" pela frente.
      Mais uma vez, essa maneira toda nova de passear pelos bastidores adotada pelos diretores da Academia Nacional de Msica no devia, evidentemente, passar despercebida.
      Foram notados.
      Felizmente para Richard e Moncharmin, no momento dessa to curiosa cena, os "ratinhos" estavam quase todos no sto. Pois os diretores teriam feito sucesso
junto s mocinhas.
      ... Mas eles s pensavam nos seus 20 mil francos.
      Chegando ao corredor meio escuro da administrao, Richard disse em voz baixa a Moncharmin:
      - Estou certo de que ningum tocou em mim... agora voc vai ficar mais afastado de mim e me vigiar na obscuridade at a porta do meu gabinete... no devemos
chamar a ateno de ningum e veremos o que vai acontecer.
      Mas Moncharmin replica:
      - No, Richard!... V  frente... eu vou imediatamente atrs! No fico nem um passo longe de voc!
      - Mas assim nunca podero nos roubar os 20 mil francos!
      -  o que espero! - declara Moncharmin.
      - Ento, o que estamos fazendo  um absurdo!
      - Fazemos exatamente o que fizemos na ltima vez... Na ltima vez, juntei-me a voc na sada do tablado, no canto deste corredor... e segui grudado s suas
costas.
      - De fato  verdade! - suspira Richard, sacudindo a cabea e obedecendo passivamente a Moncharmin.
      Dois minutos mais tarde os dois diretores se fechavam no seu gabinete.
      Foi o prprio Moncharmin quem colocou a chave no bolso.
      - Ficamos assim os dois fechados na ltima vez, at o momento em que voc saiu da pera para voltar para casa.
      -  verdade! E ningum veio nos perturbar?
      - Ningum.
      - Ento - interrogou Richard que se esforava por juntar as suas lembranas -, ento terei sido roubado certamente no trajeto entre a pera e a minha residncia...
      - No! - disse Moncharmin, num tom mais seco do que nunca... - No... isso no teria sido possvel... Fui eu quem levou voc para casa em meu carro. Os 20
mil francos desapareceram na sua casa, isso, para mim, no deixa a menor dvida.
      Era essa a idia que Moncharmin tinha agora.
      - Isso  inacreditvel! - protestou Richard. - E, se um dos dois tivesse dado o golpe, teria desaparecido em seguida.
      Moncharmin ergueu os ombros, parecendo dizer que no entrava nesses detalhes.
      A essa altura, Richard comea a achar que Moncharmin o est tratando num tom insuportvel.
      - Moncharmin, agora chega!
      - Richard, agora  demais!
      - Voc tem coragem de desconfiar de mim?
      - Sim, desconfio de uma brincadeira deplorvel!
      - A gente no brinca com 20 mil francos!
      -  o que eu penso! - declara Moncharmin, desdobrando um jornal em cuja leitura mergulha com ostentao.
      - O que  que voc vai fazer? - pergunta Richard. - Voc vai ler o jornal agora!
      - Vou, Richard, at a hora de levar voc para casa.
      - Como da ltima vez?
      - Como da ltima vez.
      Richard arranca o jornal das mos de Moncharmin. Moncharmin se levanta, mais irritado do que nunca. Encontra diante de si um Richard exasperado que lhe diz,
cruzando os braos sobre o peito, gesto de desafio insolente desde o comeo do mundo:
      - Veja, estou pensando no seguinte. Estou pensando no que eu poderia pensar se, como na ltima vez, depois de passar boa parte da noite na sua companhia, voc
me levasse para casa, e se, no momento de nos separar, eu constatasse que os 20 mil francos tinham desaparecido do meu bolso... como na ltima vez.
      - E o que  que voc poderia pensar? - exclamou Moncharmin, enrubescido.
      - Eu poderia pensar que, j que voc no me largou um nadinha, e que, conforme seu desejo, foi o nico a se aproximar de mim como na ltima vez, eu poderia
pensar que, se esses 20 mil francos no estiverem mais no meu bolso, eles tm muitas possibilidades de estar no seu!
      Moncharmin deu um salto diante dessa hiptese.
      - Oh!- gritou -, um alfinete de presso!
      - O que  que voc quer fazer com um alfinete de presso?
      - Prender voc!... Um alfinete de presso!... um alfinete de presso!
      - Voc quer me prender com um alfinete de presso?
      - Sim, prender voc com os 20 mil francos!... Assim, seja aqui, seja no trajeto daqui  sua residncia ou em sua casa, voc sentir seguramente a mo que puxar
o seu bolso... e voc ver se  a minha, Richard!... Ah!  voc que est desconfiando de mim agora... Um alfinete de presso!
      E foi nesse momento que Moncharmin abriu a porta do corredor gritando:
      - Um alfinete de presso! Quem me arranja um alfinete de presso?
      E j sabemos como, no mesmo instante, o secretrio Rmy, que no tinha alfinete de presso, foi recebido pelo diretor Moncharmin, enquanto um servente do escritrio
providenciava o alfinete to desejado.
      E eis o que aconteceu a seguir:
      Moncharmin, depois de ter fechado a porta, ajoelhou-se s costas de Richard.
      - Espero - disse - que os 20 mil francos estejam sempre a.
      - Eu tambm - acrescentou Richard.
      - Os verdadeiros? - perguntou Moncharmin, que desta vez estava bem decidido a no se deixar enganar.
      - Verifique! Eu, nem quero tocar neles - declarou Richard. Moncharmin retirou o envelope do bolso de Richard e tirou as notas a tremer, pois desta vez, para
poder verificar com freqncia a presena das notas, eles no tinham lacrado e nem mesmo colado o envelope. Tranqilizou-se ao verificar que as notas estavam todas
l, bem autnticas. Reuniu-as no bolso da aba e alfinetou-as com cuidado.
      Depois do que sentou-se atrs da aba para a qual ficou olhando o tempo todo, enquanto Richard, sentado  escrivaninha, no fazia nenhum movimento.
      - Um pouco de pacincia, Richard - aconselhou Moncharmin -, s temos de agentar mais alguns minutos... Logo o relgio vai dar as doze badaladas da meia-noite.
Foi s doze pancadas que samos da ltima vez.
      - Oh! terei toda a pacincia que for preciso!
      A hora passava, lenta, pesada, misteriosa, sufocante. Richard tentou rir.
      - Vou acabar acreditando na onipotncia do fantasma. E neste momento, particularmente, voc no acha que tem, na atmosfera desta sala, um no sei qu que preocupa,
que indispe, que assusta?
      -  verdade - confessou Moncharmin, que estava realmente impressionado.
      - O fantasma! - retomou Richard em voz baixa e como que temendo ser ouvido por ouvidos invisveis... - o fantasma! se afinal de contas fosse o fantasma quem
deu agora h pouco as trs pancadas secas sobre esta mesa, que ouvimos muito bem... que coloca sobre ela os envelopes mgicos... que fala no camarote n 5... que
mata Joseph Buquet... que solta o lustre... e que nos rouba! pois afinal s estamos aqui voc e eu!... e se as notas desaparecerem sem que faamos nada para isso,
nem voc, nem eu... vamos ter de acreditar no fantasma...
      Nesse momento, o relgio sobre a lareira fez ouvir o seu disparo e a primeira badalada da meia-noite soou.
      Os dois diretores estremeceram. Uma angstia os apertava, de que no sabiam dizer a causa e que em vo procuravam combater. O suor escorria em suas frontes.
E a dcima segunda pancada ressoou singularmente em seus ouvidos.
      Quando o relgio se calou, soltaram um suspiro e se levantaram.
      - Acho que podemos ir embora - disse Moncharmin.
      - Eu tambm acho - concordou Richard.
      - Antes de sairmos, voc permite que olhe no seu bolso?
      - Mas como, Moncharmin! E necessrio?
      - E ento? - perguntou Richard a Moncharmin que lhe apalpava o bolso.
      - Pois bem, continuo sentindo o alfinete.
      - Evidentemente, como voc dizia muito bem, no podem me roubar sem que eu perceba.
      Mas Moncharmin, cujas mos continuavam ocupadas ao redor do bolso, berrou:
      - Continuo sentindo o alfinete, mas no estou mais sentindo as notas.
      - No... no faa piada, Moncharmin!... No  o momento.
      - Ento apalpe voc mesmo.
      Com um gesto, Richard se desfez da casaca. Os dois diretores puxam o bolso!... O bolso est vazio.
      O mais curioso  que o alfinete continuava fincado no mesmo lugar.
      Richard e Moncharmin empalideceram. No se podia mais duvidar do sortilgio.
      - O fantasma - murmura Moncharmin. Mas Richard saltou de repente sobre o colega:
      - S teve voc que mexeu no meu bolso!... Devolva os meus 20 mil francos!... Me devolva os meus 20 mil francos!...
      - Pela minha alma - suspira Moncharmin que parece prestes a desmaiar -, eu lhe juro que no estou com eles...
      E, como estavam batendo de novo  porta, foi abri-la, caminhando com um andar quase automtico, parecendo mal reconhecer o administrador Mercier, no entendendo
nada do que o outro lhe dizia; e depositando, num gesto inconsciente, na mo daquele fiel servidor completamente atnito, o alfinete de presso que j no lhe podia
mais servir para nada...



19

O DELEGADO DE POLCIA, O VISCONDE E O PERSA

      A primeira palavra do delegado de polcia, ao penetrar no gabinete dos diretores, foi para pedir notcias da cantora.
      - Christine Daa no est aqui?
      Ele vinha seguido, como j disse, de uma multido compacta.
      - Christine Daa? No - respondeu Richard -, por qu? Quanto a Moncharmin, no tem mais foras para pronunciar uma palavra sequer... O seu estado de esprito
 muito mais grave do que o de Richard, pois Richard pode ainda desconfiar de Moncharmin, mas Moncharmin, no, ele se encontra diante do grande mistrio... aquele
mistrio que faz tremer a humanidade desde a sua origem: o Desconhecido.
      Richard retomou, pois a multido ao redor dos diretores e do delegado guardava um silncio impressionante:
      - Por que me pergunta, senhor delegado, se Christine Daa est aqui?
      - Porque  preciso encontr-la, senhores diretores da Academia Nacional de Msica - declara solenemente o delegado de polcia.
      - Ento ela desapareceu?!
      - Em plena representao!
      - Em plena representao!  extraordinrio!
      - No  mesmo? E o que  igualmente extraordinrio nesse desaparecimento  que seja eu que lhes esteja dando a informao!
      - Realmente... - aquiesce Richard, que segura a cabea entre as mos e murmura: - Que nova histria  esta? Oh! decididamente, h motivos para se pedir demisso!...
      E arranca alguns plos do bigode sem se dar conta disso:
      - Ento - disse ele como em sonho - ela desapareceu em plena representao.
      - , ela foi raptada no ato da priso, no momento em que invocava a ajuda do Cu, mas duvido que tenha sido raptada pelos anjos.
      - J eu estou certo disso!
      Todos se voltam para trs. Um jovem, plido e trmulo de emoo, repete:
      - Estou certo disso!
      - Est certo do qu? - interroga Mifroid.
      - De que Christine Daa foi raptada por um anjo, senhor delegado, e eu poderia lhe dizer o nome dele...
      - Ah! ah! Sr. visconde de Chagny, o senhor est insinuando que a Srta. Christine Daa foi raptada por um anjo, por um anjo da pera, por certo?
      Raoul olha ao redor de si. Evidentemente, procura algum. Nesse minuto em que lhe parece to necessrio chamar para a sua noiva a ajuda da polcia, no seria
mau rever aquele misterioso desconhecido que, h pouco, lhe recomendou discrio. Mas no o viu em parte alguma. Vamos!  necessrio que ele fale!... Mas ele no
saberia se explicar diante daquela multido que o encara com curiosidade indiscreta.
      - Sim, senhor, por um anjo da pera - respondeu a Mifroid -, e lhe direi onde ele mora quando estivermos a ss...
      - O senhor tem razo.
      E o delegado, mandando Raoul sentar-se junto de si, pe todo mundo para fora, exceto, naturalmente, os diretores que, no entanto, no teriam protestado, a
tal ponto pareciam estar acima de todas as contingncias.
      Ento Raoul se decide:
      - Senhor delegado, esse anjo se chama Erik, mora na pera e  o Anjo da msica!
      - O Anjo da msica! Na verdade, a est algo muito curioso!... O Anjo da msica!
      E, voltando-se para os diretores, o delegado Mifroid pergunta:
      - Senhores, os senhores tm esse anjo em sua instituio? Richard e Moncharmin balanaram a cabea sem nem mesmo sorrir.
      - Oh! esses senhores bem que ouviram falar do fantasma da pera. Pois bem, eu posso lhes afirmar que o fantasma da pera e o Anjo da msica so a mesma coisa.
E o seu verdadeiro nome  Erik.
      Mifroid se levantara e olhava para Raoul com ateno.
      - Perdo, meu senhor, acaso o senhor tem a inteno de zombar da Justia?
      - Eu? - protestou Raoul, que pensou dolorosamente: "Mais um que no vai querer me ouvir".
      - Ento, que histria  essa que est me contando sobre o seu fantasma da pera?
      - Estou dizendo que esses senhores j ouviram falar dele.
      - Senhores, parece que os senhores conhecem o fantasma da pera?
      Richard levantou-se, com os ltimos plos do bigode na mo.
      - No, senhor delegado, ns no o conhecemos! Mas gostaramos muito de conhec-lo, porque, ainda esta noite, ele nos roubou 20 mil francos!...
      E Richard lanou em direo de Moncharmin um olhar que parecia dizer: "Devolva-me os 20 mil francos ou eu conto tudo". Moncharmin entendeu-o to bem que disse
com um gesto desvairado: "Ah! conte tudo! conte tudo!..."
      Quanto a Mifroid, olhava alternadamente para os diretores e para Raoul e se perguntava se no estava perdido num asilo de alienados. Passou a mo pelos cabelos:
      - Um fantasma que, na mesma noite, rapta uma cantora e rouba 20 mil francos  um fantasma bastante atarefado! Se os senhores concordarem, vamos seriar as perguntas.
A cantora primeiro, os 20 mil francos depois! Vejamos, Sr. De Chagny, tentemos falar seriamente. O senhor acredita que a Srta. Christine Daa foi raptada por um
indivduo chamado Erik. O senhor ento conhece esse indivduo? O senhor o viu?
      - Vi, senhor delegado.
      - Onde isso?
      - Num cemitrio.
      Mifroid teve um sobressalto, voltou a contemplar Raoul e disse:
      - Evidentemente!...  geralmente nesse lugar que se encontram os fantasmas. E o que fazia o senhor nesse cemitrio?
      - Senhor - disse Raoul -, eu tenho conscincia da esquisitice das minhas respostas e do efeito que elas produzem no senhor. Mas lhe suplico que acredite que
estou em pleno gozo de minha razo. Disso depende a salvao da pessoa que mais me  cara neste mundo, juntamente com o meu irmo bem-amado Philippe. Quisera convencer
o senhor em poucas palavras, pois o tempo urge e os minutos so preciosos. Infelizmente, se no lhe conto a mais estranha das histrias desde o incio, no vai acreditar
em mim. Vou lhe dizer, senhor delegado, tudo que sei sobre o fantasma da pera. Infelizmente, senhor delegado, no sei grande coisa...
      - Diga assim mesmo! Diga assim mesmo! - exclamaram Richard e Moncharmin, subitamente muito interessados; infelizmente, para a esperana que tinham esboado
um instante de ficar sabendo de algum detalhe capaz de coloc-los na pista do seu mistificador, tiveram que render-se  triste evidncia de que Raoul de Chagny tinha
perdido completamente a razo. Toda aquela histria de Perros-Guirec, de caveiras, de violino encantado no podia ter nascido seno no crebro desajustado de um
apaixonado.
      Era visvel, alis, que o delegado Mifroid partilhava cada vez mais com eles essa maneira de ver e, certamente, o magistrado teria posto fim quelas falas
desordenadas de que demos um resumo na primeira parte desta narrativa se as prprias circunstncias no se tivessem encarregado de as interromper.
      A porta acabava de se abrir e um indivduo singularmente vestido com uma vasta casaca preta e com uma cartola na cabea ao mesmo tempo gasta e luzidia, que
lhe chegava at as orelhas, adentrou o recinto. Correu para o delegado e falou com ele em voz baixa. Era sem dvida algum agente da Segurana que vinha prestar contas
de uma misso urgente.
      Durante esse colquio, os olhos de Mifroid no saam de cima de Raoul.
      E finalmente, dirigindo-se a ele, disse:
      - Senhor visconde, j se falou bastante do fantasma. Vamos falar um pouco do senhor, se no v inconveniente; o senhor devia raptar, esta noite, a Srta. Christine
Daa?
      - Sim, senhor delegado.
      - A sada do teatro?
      - Sim, senhor delegado.
      - Todas as providncias tinham sido tomadas para isso?
      - Sim, senhor delegado.
      - A carruagem que o trouxe devia lev-los. O cocheiro estava avisado... o itinerrio fora traado de antemo... Melhor! Devia encontrar a cada etapa cavalos
bem descansados...
      -  verdade, senhor delegado.
      - E no entanto o seu carro continua l,  espera de suas ordens, ao lado da Rotunda, no ?
      - Sim, senhor delegado.
      - O senhor sabia que, ao lado da sua, havia trs outras carruagens?
      - No prestei a menor ateno...
      - Eram as carruagens da Srta. Sorelli, que no achou lugar no ptio da administrao; de Carlotta e do seu irmo, o Sr. conde de Chagny...
      -  possvel...
      - O que  certo, em contrapartida...  que, se a sua prpria equipagem, a de Sorelli e a de Carlotta continuam no mesmo lugar, ao longo da calada da Rotunda,
a equipagem do conde de Chagny no se encontra mais l...
      - Isso nada tem a ver com o caso, senhor delegado...
      - Perdo! O conde no se tinha oposto ao seu casamento com a Srta. Daa?
      - Isso s diz respeito  minha famlia.
      - O senhor j respondeu... ele tinha-se oposto... e  por isso que o senhor ia raptar Christine Daa, para longe das possveis intervenes do seu irmo...
Pois bem, Sr. De Chagny, permita-me dizer-lhe que o seu irmo foi mais rpido do que o senhor!... Foi ele quem raptou a Srta. Christine Daa!
      Raoul gemeu, colocando a mo no corao.
      - No  possvel... Est certo disso?
      - Logo depois do desaparecimento da artista, que foi organizado com a ajuda de cmplices que ainda estamos por apurar, ele se lanou na carruagem que saiu
em corrida desabalada atravs de Paris.
      - Atravs de Paris? O que  que o senhor entende por "atravs de Paris"?
      - E fora de Paris...
      - Fora de Paris... que estrada?
      - A estrada de Bruxelas.
      Um grito rouco escapou da boca do infeliz rapaz.
      - Eu juro que os alcanarei!
      E em dois saltos estava fora do gabinete.
      - Traga-a de volta para ns - ordenou alegremente o delegado. - A est uma pista que vale tanto quanto aquela do Anjo da msica!
      Dito isso, o Sr. Mifroid se volta para o seu auditrio estupefato e lhe administra este pequeno curso de polcia, honesto mas nada pueril:
      - Eu absolutamente no sei se foi realmente o conde de Chagny quem raptou Christine Daa... mas preciso saber, e no creio que, a esta hora, ningum mais do
que o visconde, irmo dele, deseja dar-me essa informao... Neste momento, ele est correndo, voando! E o meu principal auxiliar! Assim , senhores, a arte, que
pensam ser to complicada, da polcia, e que se mostra no entanto to simples desde que se descobriu que ela deve consistir em fazer agir essa polcia sobretudo
atravs de pessoas que no pertencem a ela!
      Mas o delegado Mifroid no estaria talvez to contente de si mesmo se soubesse que a corrida de seu veloz mensageiro tinha sido bloqueada logo na entrada deste
no primeiro corredor, j vazio da multido de curiosos que se tinham dispersado. O corredor parecia deserto.



      Raoul fora barrado em seu caminho por uma grande sombra.
      - Aonde vai com tanta pressa, Sr. De Chagny? - perguntou a sombra.
      Raoul, impaciente, levantara a cabea e reconhecera o bon de astrac que vira apenas alguns minutos atrs. Parou.
      - E o senhor! - gritou com voz febril - o senhor que conhece os segredos de Erik e que no quer que eu fale deles. Quem  mesmo o senhor?
      - O senhor bem o sabe!... Sou o Persa! - disse a sombra.



20

O VISCONDE E O PERSA

      Raoul lembrou-se ento de que seu irmo, numa noite de espetculo, tinha-lhe mostrado essa vaga personagem sobre a qual tudo se ignorava, uma vez em que se
tinha dito s que era um persa e morava num velho apartamento da rua de Rivoli.
      O homem de tez de bano, de olhos de jade, de bon de astrac, inclinou-se para Raoul.
      - Espero, Sr. De Chagny, que no tenha trado o segredo de Erik.
      - E por que teria eu hesitado em trair aquele monstro, meu senhor? - replicou Raoul com altivez, tentando livrar-se do importuno. - Acaso ele  seu amigo?
      - Espero que o senhor nada tenha dito de Erik, meu senhor, porque o segredo de Erik  o de Christine Daa! E falar de um  falar do outro!
      - Oh! senhor! - disse Raoul, cada vez mais impaciente -. o senhor parece estar a par de muitas coisas que me interessam, e no entanto no tenho tempo para
ouvi-lo!
      - Ainda uma vez, Sr. De Chagny, aonde  que o senhor vai to s pressas?
      - No adivinha? Em socorro de Christine Daa...
      - Ento, meu senhor, permanea aqui!... pois Christine Daa est aqui!...
      - Com Erik?
      - Com Erik!
      - Como  que sabe?
      - Eu estava na representao, e s existe um Erik no mundo para perpetrar semelhante seqestro!... - declarou ele com um suspiro profundo. - Reconheci a mo
do monstro!...
      - Ento o conhece?
      O Persa no respondeu, mas Raoul ouviu novo suspiro....
      - Senhor, ignoro quais so as suas intenes... mas pode fazer alguma coisa por mim?... quero dizer, por Christine Daa?
      - Creio que sim, Sr. De Chagny, e  justamente por isso que o abordei.
      - O que  que pode fazer?
      - Tentar conduzi-lo para junto dela... e para junto dele!
      - Meu senhor,  uma tentativa que j fiz em vo esta noite... mas, se me prestar esse servio, a minha vida lhe pertence!... Mais uma palavra, senhor: o delegado
de polcia acabou de ser informado de que Christine Daa tinha sido raptada por meu irmo, o conde Philippe...
      - Ora! Sr. De Chagny, eu no acredito em nada disso...
      - Isso no  possvel, no ?
      - No sei se  possvel, mas h maneiras de raptar e, que eu saiba, o conde Philippe no trabalha com magia.
      - Os seus argumentos so contundentes, senhor, e eu no passo de um louco!... Oh! corramos! corramos! eu fao tudo que o senhor resolver!... Como no acreditaria
no senhor se  o nico que acredita em mim? Quando  o nico que no sorri quando se pronuncia o nome de Erik.
      Dizendo isso, o rapaz, cujas mos ardiam de febre, tomara, num gesto espontneo, as mos do Persa. Estavam geladas.
      - Silncio! - ordenou o Persa, parando e escutando os rudos distantes do teatro e os menores estalidos que se produziam nas paredes e nos corredores vizinhos.
- No pronunciemos mais essa palavra aqui. Digamos: ele; correremos menos riscos de chamar a sua ateno...
      - Acha ento que ele est bem perto de ns?
      - Tudo  possvel, meu senhor... se no est, neste momento, com a sua vtima, na morada do Lago.
      - Ah! o senhor tambm conhece aquela morada?
      - ... Se no estiver naquela morada, pode estar nesta parede, neste assoalho, neste teto! Sei l eu?... De olho nessa fechadura!... De ouvido nessa viga!...
- E o Persa, pedindo-lhe que no fizesse barulho ao andar, conduziu Raoul por corredores que este nunca tinha visto, mesmo no tempo em que Christine o levava por
aquele labirinto.
      - Tomara que Darius tenha chegado! - disse o Persa.
      - Quem  esse Darius?-interrogou Raoul, sem parar de correr.
      - Darius  o meu empregado...
      Estavam nesse momento no centro de uma verdadeira praa deserta, cmodo imenso a que mal alumiava o pavio de uma lamparina. O Persa parou Raoul e, baixinho,
to baixinho que Raoul tinha dificuldade para ouvir, perguntou-lhe:
      - O que  que o senhor disse ao delegado?
      - Disse-lhe que o raptor de Christine Daa era o Anjo da msica, dito o fantasma da pera, e que o seu verdadeiro nome era...
      - Psiu!... E o delegado acreditou no senhor?
      - No.
      - No deu nenhuma importncia ao que o senhor dizia?
      - Nenhuma!
      - Ele o tomou um pouco por louco?
      - Isso.
      - Tanto melhor! - suspirou o Persa. E a corrida recomeou.
      Depois de ter subido e descido vrias escadarias desconhecidas por Raoul, os dois homens se encontraram ante uma porta que o Persa abriu com uma pequena gazua
que tirou de um bolso do colete. O Persa, como Raoul, estava naturalmente em trajes de gala. S que, enquanto Raoul usava uma cartola, o Persa tinha um bon de astrac,
conforme j observei. Era uma agresso ao cdigo de elegncia que regula os bastidores em que se exige a cartola, mas fica entendido que na Frana tudo se permite
aos estrangeiros: a casque-te de viagem aos ingleses, o bon de astrac aos persas.
      - Meu senhor, a sua cartola vai atrapalh-lo na expedio que projetamos... Seria melhor deix-la no camarim.
      - Que camarim? - perguntou Raoul.
      - O de Christine Daa, ora!
      E o Persa, tendo feito Raoul passar pela porta que acabara de abrir, mostrou-lhe,  frente, o camarim da atriz.
      Raoul ignorava que se podia chegar ao camarim de Christine por outro caminho que no fosse aquele que seguia normalmente. Encontrava-se ento na extremidade
do corredor que de hbito tinha de percorrer todo antes de bater  porta do camarim.
      - Oh! o senhor conhece bem a pera!
      - No to bem quanto ele! - disse modestamente o Persa. E empurrou o rapaz para dentro do camarim de Christine. Estava exatamente como Raoul o deixara momentos
antes.
      O Persa, depois de ter fechado a porta, dirigiu-se rumo ao painel bastante fino que separava o camarim de um imenso quarto de despejo que vinha a seguir. Escutou,
depois, com fora, tossiu.
      Logo ouviu-se que algo se mexia no quarto de despejo e, alguns segundos depois, algum batia  porta do camarim.
      - Entre! - ordenou o Persa.
      Entrou um homem, tambm usando um bon de astrac e vestido com uma longa capa.
      Cumprimentou-os e tirou de debaixo do manto uma caixa ricamente cinzelada. Colocou-a sobre a mesa de toalete, cumprimentou-os de novo e dirigiu-se para a porta.
      - Ningum viu voc entrar, Darius?
      - No, meu amo.
      - Que ningum o veja sair.
      O empregado arriscou uma olhadela no corredor e rapidamente desapareceu.
      - Senhor, podem muito bem surpreender-nos aqui, e isso, evidentemente, nos atrapalharia. O delegado no vai demorar para vir inspecionar este camarim.
      - Ora! no  o delegado que devemos temer.
      O Persa tinha aberto a caixa. Havia ali um par de pistolas longas, com um desenho e um ornamento magnficos.
      - Logo aps o seqestro de Christine Daa, mandei avisar o meu empregado para me trazer estas armas, meu senhor. Conheo-as h muito tempo; no existem mais
seguras.
      - O senhor quer duelar com algum? - interrogou o rapaz, surpreso com a chegada daquele arsenal.
      - E mesmo para um duelo que ns estamos indo, senhor - respondeu o outro, examinando a espoleta de suas pistolas. - E que duelo!
      Dito isso, estendeu uma pistola a Raoul e lhe disse ainda:
      - Nesse duelo, seremos dois contra um; mas esteja pronto para tudo, senhor, pois no lhe escondo que vamos lidar com o mais terrvel adversrio que se possa
imaginar. Mas o senhor ama Christine Daa, no ?
      - Se a amo! Mas o senhor, que no a ama, poderia explicar-me por que se prontifica em arriscar a vida por ela!... Por certo odeia Erik!
      - No, meu senhor - disse tristemente o Persa -, no o odeio. Se o odiasse, h muito tempo que ele j no faria mal a ningum.
      - Ele lhe fez mal?
      - O mal que ele fez a mim, j lhe perdoei.
      -  absolutamente extraordinrio ouvi-lo falar daquele homem! Trata-o de monstro, fala dos seus crimes, ele lhe fez mal e reencontro no senhor aquela piedade
inaudita que me desesperava na prpria Christine!...
      O Persa no respondeu. Tinha ido pegar um tamborete e o encostara  parede oposta ao grande espelho que ocupava toda a parede  frente. Depois subira no tamborete
e, com o nariz no papel que cobria a parede, parecia procurar alguma coisa.
      - E ento, senhor! - disse Raoul que fervia de impacincia. - Estou esperando. Vamos!
      - Vamos aonde? - perguntou o outro sem virar a cabea.
      - Ao encontro do monstro, ora! Vamos descer! No me disse que tinha os meios para isso?
      - Estou procurando.
      E o nariz do Persa passeou ainda por toda a extenso da parede.
      - Ah! - disse de repente o homem do bon -  aqui! - E o seu dedo, acima da cabea, apertou um canto do desenho do papel.
      Depois se virou e pulou de cima do tamborete.
      - Dentro de meio minuto estaremos no caminho dele!
      E, atravessando todo o camarim, foi apalpar o grande espelho.
      - No! ainda no est cedendo - murmurou.
      - Oh! Vamos sair pelo espelho? - perguntou Raoul. - Como Christine!...
      - Ento o senhor sabia que Christine Daa tinha sado por este espelho?
      - Diante de mim, meu senhor!... Eu estava escondido ali, atrs da cortina do banheiro e a vi desaparecer, no pelo espelho, mas no espelho!
      - E o que  que o senhor fez?
      - Acreditei que se tratava de uma aberrao dos meus sentidos! da loucura! de um sonho!
      - De alguma nova fantasia do fantasma... Ah! Sr. De Chagny, praza aos Cus que estivssemos mesmo lidando com um fantasma! Poderamos deixar na caixa o par
de pistolas!... Coloque o seu chapu, por favor, ali... e agora feche a sua casaca o mais que puder sobre o peitilho... como eu... desdobre a gola, levante o colarinho...
devemos ficar o mais invisvel possvel... - instruiu o Persa, sempre com a mo no espelho.
      Acrescentou ainda, depois de um curto silncio, e forando o espelho:
      - O movimento do contrapeso, quando se age sobre a mola no interior do camarim, demora um pouco para disparar. No  a mesma coisa quando se est atrs da
parede e se pode agir diretamente sobre o contrapeso. Nesse caso, o espelho gira, instantaneamente, e  carregado numa rapidez louca...
      - Que contrapeso? - perguntou Raoul.
      - Ora, o que faz levantar todo esse painel de parede sobre o seu eixo! Voc no est pensando que ele se desloca sozinho, por encanto!
      E o Persa, puxando com uma mo Raoul contra si, continuava a empurrar o espelho com a outra (com a que segurava a pistola).
      - O senhor vai ver daqui a pouco, se prestar ateno, o espelho se levantar alguns milmetros e depois deslocar-se tambm alguns milmetros da esquerda para
a direita. Estar ento sobre um eixo e girar. Nunca se saber o que se pode fazer com um contrapeso! Uma criana pode, com o dedinho, fazer girar uma casa... quando
um painel de parede, por mais pesado que seja,  balanceado por um contrapeso sobre o seu eixo, bem equilibrado, no pesa mais do que um pio sobre a sua ponta.
      - Essa coisa no quer girar! - disse Raoul, impaciente.
      - Espere um pouco! Ter tempo para se impacientar, meu senhor! O mecanismo, evidentemente, est enferrujado ou a mola no est funcionando mais.
      A fronte do Persa demonstrou preocupao.
      - Alm disso - disse -, pode acontecer outra coisa.
      - O qu, meu senhor?
      - Talvez ele tenha simplesmente cortado a corda do contrapeso e imobilizado todo o sistema...
      - Por qu? Ele no ignora que vamos descer por aqui?
      - Talvez ele desconfie, pois sabe que conheo o sistema.
      - Foi ele quem lhe mostrou?
      - No! andei procurando por ele, atrs dos seus desaparecimentos misteriosos, e achei. Oh!  o mais simples dos sistemas de portas secretas!  um mecanismo
to antigo como os palcios sagrados de Tebas com suas cem portas, como a sala do trono de Ecbatane, como a sala do trip de Delfos.
      - Essa coisa no gira!... E Christine, senhor!... Christine!... O Persa disse com frieza:
      - Faremos tudo que for humanamente possvel!... mas ele. ele pode nos bloquear logo nos primeiros passos!
      - Ento ele  dono e senhor destas paredes?
      - Ele manda nas paredes, nas portas, nos alapes. Entre ns, chamamo-lo com um nome que significa o amador de alapes.
      - E assim mesmo que Christine me falava dele... com o mesmo mistrio e atribuindo-lhe o mesmo temvel poder... Mas tudo isso me parece bem extraordinrio!...
Por que estas paredes obedecem s a ele? Ele as construiu?
      - Sim, senhor!
      E como Raoul olhava para ele, atnito, o Persa lhe fez sinal para se calar, depois, com um gesto, mostrou-lhe o espelho... Foi como um reflexo trmulo. A dupla
imagem deles se turvou como no arrepio de uma gua, e a seguir tudo voltou a ficar imvel.
      - O senhor viu bem que isso no gira! Tomemos outro caminho!
      - Esta noite, no h outros! - declarou o Persa, com voz singularmente lgubre... - E agora, ateno! e fique pronto para atirar!
      Ele mesmo levantou a pistola na frente do espelho. Raoul imitou o gesto. O Persa, com o brao que ficara livre, puxou o rapaz para junto do peito, e de repente
o espelho girou num ofuscamento, num cruzar obcecante de fogos; girou tal como uma dessas portas rolantes com compartimentos que do acesso agora s salas pblicas...
girou, carregando Raoul e o Persa em seu movimento irresistvel e jogando-os bruscamente da plena luz para a mais profunda escurido.



21

NOS SUBTERRNEOS DA PERA

      - Mo erguida, pronta para atirar! - repetiu apressado o companheiro de Raoul.
      Atrs deles, a parede, continuando a dar uma volta completa sobre si mesma, voltara a fechar-se.
      Os dois homens ficaram imveis por alguns instantes, segurando a respirao.
      Naquelas trevas reinava um silncio que nada vinha perturbar.
      Finalmente, o Persa decidiu-se a fazer um movimento e Raoul ouviu-o escorregar de joelhos, procurando alguma coisa na noite, com as mos tateantes.
      Sbito, diante do rapaz, as trevas se aclararam prudentemente  chama de uma lanterninha de furta-fogo, e Raoul deu um recuo instintivo como para escapar 
investigao de um inimigo secreto.
      Mas logo entendeu que aquele fogo pertencia ao Persa, de quem seguia todos os gestos. O pequeno disco vermelho passeava pelos flancos, no alto, embaixo, em
torno deles, meticulosamente. Esses flancos eram formados,  direita, por uma parede;  esquerda, por uma divisria de tbuas; em cima e embaixo, por forro e assoalho.
E Raoul dizia consigo que Christine tinha passado por ali no dia em que seguira a voz do Anjo da msica. Devia ser esse o caminho costumeiro de Erik quando vinha
atravs das paredes surpreender a boa f e intrigar a inocncia de Christine. E Raoul, que se lembrava das palavras do Persa, pensou que esse caminho tivesse sido
misteriosamente estabelecido pela mo do prprio fantasma. Ora, viria a saber mais tarde que Erik tinha encontrado ali, j pronto para ele, um corredor secreto cuja
existncia, durante muito tempo, fora o nico a conhecer. Esse corredor tinha sido criado durante a Comuna de Paris para permitir aos carcereiros conduzir diretamente
os prisioneiros s masmorras que tinham sido construdas nos pores, pois os federados haviam ocupado o edifcio logo aps o dia 18 de maro e feito, bem no alto,
um ponto de partida para os bales encarregados de levar s provncias as suas proclamaes incendirias, e, embaixo, uma priso do Estado.
      O Persa colocara-se de joelhos e tinha posto no cho a lanterna. Parecia ocupado com alguma tarefa no assoalho e, de repente, cobriu a luz.
      Ento Raoul ouviu um leve estalido e viu no cho do corredor um quadrado luminoso muito plido. Era como se uma janela acabasse de ser aberta nos subterrneos
ainda iluminados da pera. Raoul no enxergava mais o Persa, mas sentiu-o subitamente do seu lado e ouviu a sua respirao.
      - Siga-me e faa tudo que eu fizer.
      Raoul foi dirigido para a lucarna luminosa. Ento viu o Persa que se ajoelhava de novo e, dependurando-se pelas mos  lucarna, deixava-se escorregar no subterrneo.
O Persa segurava ento a pistola com os dentes.
      Coisa curiosa, o visconde tinha total confiana no Persa. Embora ignorasse tudo sobre ele, e a maioria de suas palavras s tivessem aumentado a obscuridade
daquela aventura, no hesitava em acreditar que, naquela hora decisiva, o Persa estava com ele contra Erik. A sua emoo lhe pareceu sincera quando falara do "monstro";
o interesse que lhe tinha demonstrado no lhe parecia suspeito. Afinal, se o Persa tivesse alimentado algum plano sinistro contra Raoul, no teria colocado uma arma
nas mos dele. E alm do mais, para dizer tudo, no precisava ele chegar, a qualquer custo, at junto de Christine? Raoul no estava em condio de escolher os meios.
Se tivesse hesitado, mesmo com dvidas sobre as intenes do Persa, o rapaz ter-se-ia considerado o ltimo dos covardes.
      Raoul, por sua vez, ajoelhou-se e dependurou-se no alapo com as duas mos. "Largue tudo!", ouviu ele, e caiu nos braos do Persa, que lhe ordenou imediatamente
que se lanasse de bruos no cho, fechou acima de suas cabeas o alapo, sem que Raoul pudesse ver com que estratagema, e veio se deitar ao lado do visconde. Este
quis lhe fazer uma pergunta, mas a mo do Persa se apoiou em sua boca e logo ele ouviu uma voz que reconheceu como sendo do delegado de polcia que pouco antes o
havia interrogado.
      Raoul e o Persa encontravam-se ento ambos atrs de uma espcie de biombo que os escondia perfeitamente. Perto dali, uma escada estreita subia para uma salinha,
onde o delegado devia perambular enquanto fazia perguntas, pois se ouvia o barulho dos seus passos ao mesmo tempo que o da sua voz.
      A luz que envolvia os objetos era bem fraca, mas, ao sair dessa escurido espessa que reinava no corredor secreto do alto, Raoul no teve dificuldade em distinguir
a forma das coisas.
      E no conseguiu segurar uma surda exclamao, pois havia ali trs cadveres.
      O primeiro estava estendido sobre o estreito patamar da escadinha que subia at a porta atrs da qual se ouvia a voz do delegado; os dois outros tinham rolado
escada abaixo, com os braos em cruz. Raoul, passando os dedos atravs do biombo que os escondia, poderia ter tocado na mo de um daqueles infelizes.
      - Silncio! - disse novamente o Persa num sopro. Tambm ele tinha visto os corpos estendidos e com uma palavra explicou tudo:
      - Ele!
      A voz do delegado se fazia ouvir ento com mais fora. Exigia explicaes sobre o sistema de iluminao, que o gerente lhe dava. O delegado devia ento se
encontrar no "jogo de tubos de rgo" ou em suas dependncias. Contrariamente ao que se poderia pensar, principalmente quando se trata de um teatro de pera, o "jogo
de tubos de rgo" no  destinado a fazer msica.
      Naquele tempo, a eletricidade s era utilizada para certos efeitos cnicos e para as campainhas. O imenso edifcio e o palco mesmo eram ainda iluminados a
gs e era sempre com hidrognio que se regulava e se modificava a iluminao de um cenrio, e isso mediante um aparelho especial ao qual se deu o nome de "jogo de
tubos de rgo" devido  multiplicidade de seus tubos.
      Um nicho estava reservado, ao lado do buraco do ponto, ao chefe da iluminao, que dali dava as suas ordens aos seus subalternos e supervisionava a execuo.
Era nesse nicho, em todas as representaes, que ficava Mauclair.
      Ora, Mauclair no estava no seu nicho nem seus subalternos em seus lugares.
      - Mauclair! Mauclair!
      A voz do gerente ressoava agora nos subterrneos como um tambor. Mas Mauclair no respondia.
      Dissemos que uma porta dava para uma escadinha que subia para o segundo subsolo. O delegado empurrou-a, mas ela resistiu:
      - Ora! Ora! Veja, senhor gerente, no estou conseguindo abrir esta porta... ela  sempre assim to difcil?
      O gerente, com um vigoroso golpe de ombro, empurrou a porta. Percebeu que empurrava ao mesmo tempo um corpo humano e no pde evitar uma exclamao: aquele
corpo, ele o reconheceu de imediato:
      - Mauclair!
      Todos os personagens que tinham acompanhado o delegado naquela visita ao jogo de tubos de rgos se adiantaram, preocupados.
      - Pobre coitado! Est morto! - gemeu o gerente.
      Mas o delegado Mifroid, a quem nada surpreendia, j estava debruado sobre aquele corpo grande.
      - No - disse ele - ele est morto de bbado! No  a mesma coisa.
      - E a primeira vez - declarou o gerente.
      - Ento fizeram-no tomar um narctico...  bem possvel. Mifroid levantou-se, desceu mais alguns degraus e exclamou:
      - Olhem!
      A luz de um pequeno fanal vermelho, ao p da escada, dois outros corpos estavam estendidos. O gerente reconheceu os ajudantes de Mauclair... Mifroid desceu,
auscultou-os.
      - Esto dormindo profundamente - disse. - Caso curiosssimo! No podemos mais duvidar da interveno de um desconhecido no servio de iluminao... e esse
desconhecido trabalha evidentemente para o raptor!... Mas que idia esquisita essa de raptar uma artista em cena!...  brincar com a dificuldade, isso, ou eu no
entendo mais nada! Algum v chamar o mdico do teatro.
      E Mifroid repetiu:
      - Curioso! curiosssimo este caso!
      Depois virou-se para o interior da saleta, dirigindo-se a pessoas que, do lugar onde estavam, nem Raoul nem o Persa podiam ver.
      - Que dizem os senhores de tudo isto? - perguntou. - Os senhores so os nicos que no do a sua opinio. Os senhores devem ter entretanto uma opinio...
      Ento, acima do biombo, Raoul e o Persa viram avanar os dois rostos apavorados dos diretores - s se enxergavam os seus rostos acima do biombo - e ouviram
a voz comovida de Moncharmin:
      - Esto se passando aqui, senhor delegado, coisas que no podemos explicar.
      E os dois rostos desapareceram.
      - Obrigado pela informao, senhores - disse Mifroid, irnico. Mas o gerente, cujo queixo se apoiava ento na palma da mo direita, o que  um gesto de reflexo
profunda, disse:
      - No  a primeira vez que Mauclair adormece no teatro. Lembro-me de t-lo encontrado, uma noite, roncando em seu nicho, ao lado da sua tabaqueira.
      - Faz muito tempo? - perguntou Mifroid, enxugando com um cuidado meticuloso as lentes do seu pincen, pois o delegado era mope, como acontece aos mais belos
olhos do mundo.
      - Meu Deus!... - disse o gerente - no, no faz muito tempo... Isso!... Foi na noite... Por Deus, sim... foi na noite em que Carlotta, o senhor sabe, senhor
delegado, teve o problema com a voz!...
      - Foi mesmo? na noite em que Carlotta soltou o seu famigerado coaxo?
      E Mifroid, tendo recolocado no nariz o seu pincen com as lentes agora transparentes, fixou atentamente o gerente, como se quisesse penetrar no seu pensamento.
      - Isso mesmo, senhor delegado... Veja, aqui est justamente a tabaqueira dele. Oh!  um grande tomador de rap.
      - E eu tambm... - disse o delegado, colocando a tabaqueira no bolso.
      Raoul e o Persa assistiram, sem que ningum suspeitasse de sua presena, ao transporte dos trs corpos que alguns maquinistas vieram retirar. O delegado os
acompanhou e todos subiram atrs dele. Pde-se ouvir, alguns instantes ainda, os seus passos que ressoavam sobre o tablado.
      Quando se viram ss, o Persa fez um gesto a Raoul para que se levantasse. Este obedeceu; mas como, ao mesmo tempo, no tinha levantado a mo  altura dos olhos,
pronto para atirar, assim como o Persa no deixara de fazer, este lhe recomendou que retomasse essa posio e a mantivesse, acontecesse o que acontecesse.
      - Mas isso cansa a mo inutilmente! - murmurou Raoul. - Se eu atirar, no terei mais segurana!
      - Troque a arma de mo, ento! - concedeu o Persa.
      - No sei atirar com a mo esquerda!
      Ao que o Persa respondeu com esta declarao bizarra, que no era, evidentemente, de natureza a esclarecer a situao no crebro confuso do rapaz:
      - No se trata de atirar com a mo esquerda ou com a mo direita; trata-se de ter uma das mos colocada como se ela fosse acionar o gatilho de uma pistola,
estando o brao ligeiramente dobrado; quanto  pistola mesma, pode coloc-la no bolso.
      E acrescentou:
      - Fique isso entendido, ou no respondo mais por nada!  uma questo de vida ou de morte. Agora, silncio, e siga-me!
      Encontravam-se ento no segundo subsolo; Raoul s entrevia  luz de algumas mechas imveis, aqui e ali, em suas prises de vidro, uma parte nfima daquele
abismo extravagante, sublime e infantil, divertido como uma caixa de boneco de mola, apavorante como um sorvedouro, que so os subsolos do palco da pera.
      So formidveis e em nmero de cinco. Reproduzem todos os planos do palco, os seus alapes e aberturas de vrios tipos. Apenas as aberturas por onde correm
os cenrios so substitudas por trilhos. Madeiramentos transversais suportam alapes e aberturas de passagem. Postes, repousando sobre cubos de ferro fundido ou
de pedra, de tocos de vigas ou "cartolas", formam sries de praticveis que permitem deixar a passagem livre para as "glrias" e outras combinaes ou truques. D-se
a esses dispositivos certa estabilidade prendendo-os com ganchos de ferro, conforme as necessidades do momento. Os guindastes, os tambores, os contrapesos so geralmente
distribudos generosamente nos subsolos. Servem para manobrar os grandes cenrios, operar as mudanas com o palco aberto, provocar o desaparecimento sbito de personagens
em cenas de magia.  dos subsolos, disseram os senhores X., Y., Z., que dedicaram  obra de Garnier um estudo to interessante,  a partir dos subsolos que se transformam
os caquticos em belos cavaleiros, as feiticeiras horrendas em fadas radiosas de juventude. Sat vem dos subsolos, do mesmo modo que neles mergulha. As luzes do
inferno escapam deles, neles se colocam os coros dos demnios.
      ... E os fantasmas passeiam por eles como se estivessem em casa.
      Raoul seguia o Persa, obedecendo  risca a suas recomendaes, no tentando compreender os gestos que lhe ordenava... dizendo a si mesmo que s nele tinha
esperana.
      ... Que teria feito sem o companheiro naquele ddalo medonho? No ficaria bloqueado a cada passo pelo entrecruzamento prodigioso de vigas e cordames? No ficaria
preso, sem poder se desvencilhar, nessa teia de aranha gigantesca?
      E, se tinha podido passar atravs daquela rede de fios e contrapesos sempre renascendo  sua frente, no corria o risco de cair num desses buracos que se abriam
por instantes sob os seus ps e cujo fundo de trevas os olhos no conseguiam ver!
      ... Eles iam descendo... continuavam descendo...
      Agora estavam no terceiro subsolo.
      E a sua caminhada sempre era iluminada por alguma tocha longnqua.
      Quanto mais se descia, mais o Persa parecia tomar precaues... Voltava-se com freqncia para Raoul e lhe recomendava proceder conforme era necessrio, mostrando-lhe
o modo como ele prprio mantinha o seu punho, desarmado agora, mas sempre pronto para atirar como se segurasse uma pistola.
      De repente, uma voz estridente os imobilizou. Algum, acima, berrava.
      - Sobre o tablado todos os "fechadores de portas"! O delegado de polcia os est chamando.
      ... Ouviram-se passos, e sombras deslizaram no escuro. O Persa tinha puxado Raoul para trs de um suporte... Viram passar perto deles, acima deles, velhos
curvados pelos anos e pelo fardo antigo de cenrios de pera. Alguns mal conseguiam se arrastar... outros, por hbito, com a espinha abaixada e as mos para a frente,
procuravam portas para fechar.
      Pois eram os fechadores de portas... Os antigos maquinistas, esgotados, e dos quais uma caridosa administrao tivera piedade. Fizera deles fechadores de portas
nos subsolos, nos altos. Iam e vinham sem cessar de alto a baixo do palco para fechar as portas - e eram tambm chamados naquele tempo, pois creio que j morreram
todos, "caadores de vento encanado"4.
      Os ventos encanados, venham de onde vierem, so muito ruins para a voz.
      O Persa e Raoul felicitaram-se por esse incidente que os livrava de testemunhas embaraosas, pois alguns dos fechadores de portas, no tendo mais nada para
fazer e no tendo domiclio, ficavam, por preguia ou por necessidade, na pera, onde passavam a noite. Podia-se dar de encontro com eles, acord-los, provocar um
pedido de explicaes. O inqurito do Sr. Mifroid livrava provisoriamente os nossos dois companheiros desses maus encontros.
      Mas no gozaram por muito tempo da sua solido... Outras sombras agora desciam o mesmo caminho por onde os fechadores de portas tinham subido. Essas sombras
tinham cada uma  sua frente uma pequena lanterna... que agitavam muito, levantando, abaixando, examinando tudo em torno de si e parecendo, evidentemente, procurar
alguma coisa ou algum.
      - Diabo! - murmurou o Persa... - no sei o que esto procurando, mas poderiam nos achar... vamos fugir!... depressa!... com a mo em guarda, meu senhor, sempre
pronta para atirar!... Dobremos o brao, mais, assim!... mo  altura dos olhos, como se estivesse em duelo e esperasse o comando de "fogo!..." Deixe ento a pistola
no bolso!... Depressa, desamos!... (arrastava Raoul para o quarto subsolo) Isso, por aqui, esta escada!... (chegavam no quinto subsolo)... Ah! que duelo, senhor,
que duelo!...
      O Persa, ao chegar embaixo do quinto subsolo, suspirou... Parecia desfrutar um pouco mais de segurana do que tinha demonstrado havia pouco, quando os dois
tinham parado no terceiro, mas no abandonava a atitude da mo!...
      Raoul teve tempo para se espantar uma vez mais, sem, alis, fazer qualquer nova observao. Pois, na verdade, no era o momento de estranhar essa extraordinria
concepo de defesa pessoal que consistia em guardar a pistola no bolso enquanto a mo continuava pronta para utiliz-la, como se a pistola estivesse ainda na mo,
 altura do olho; posio de espera do comando de "fogo" no duelo daquela poca.
      E, a respeito disso, Raoul achava que podia pensar tambm o seguinte: "Lembro-me muito bem de que ele me disse: 'So pistolas em que confio'".
      Donde lhe parecia lgico tirar esta concluso interrogativa: "De que lhe adianta confiar numa pistola que se acha intil usar?"
      Mas o Persa o fez parar com esses vagos ensaios de cogitao. Com um sinal para que ficasse ali parado, subiu alguns degraus da escada que tinham acabado de
deixar. Depois, rapidamente, voltou para junto de Raoul.
      - Burrice nossa - sussurrou-lhe -, logo vamos estar livres das sombras com lanternas... So os bombeiros que fazem a ronda5.
      Os dois homens permaneceram ento em posio de defesa durante pelo menos cinco longos minutos, depois o Persa levou de novo Raoul rumo  escada que tinham
acabado de descer; mas, de repente, seu gesto lhe ordenou de novo a imobilidade.
      ... Diante deles, a noite se movia.
      - De bruos! - murmurou o Persa.
      Os dois homens deitaram-se no cho.
      J no era sem tempo.
      ... Uma sombra, que desta vez no carregava nenhuma lanterna... uma sombra simplesmente nas sombras passava.
      Passou to perto que quase esbarrou neles.
      Sentiram, no rosto, o sopro quente do seu manto...
      Pois puderam divis-la com clareza suficiente para ver que a sombra tinha um manto que a envolvia dos ps  cabea. Na cabea, um chapu de feltro mole.
      ... Ela se afastou, raspando as paredes com os ps e, algumas vezes, nas viradas, dando pontaps nas paredes.
      - Ufa! - disse o Persa... - escapamos por pouco... Essa sombra me conhece e j me levou duas vezes ao gabinete dos diretores.
      - E algum da segurana do teatro? - perguntou Raoul.



      -  algum muito pior6! - respondeu sem outra explicao o Persa.
      - No ... ele?
      - Ele... se ele no chegar por trs, a gente vai ver os olhos de ouro dele!... E um pouco a nossa vantagem na noite. Mas ele pode chegar por trs, a passos
de gato... e estaremos mortos se no mantivermos sempre as mos como se fossem atirar,  altura do olho, na frente!
      Mal o Persa acabara de formular de novo essa "linha de atitude" quando, diante dos dois homens, apareceu um rosto fantstico.
      ... Um rosto inteiro... uma face; no apenas dois olhos de ouro.
      ... Mas todo um rosto luminoso... todo um rosto em fogo!
      Sim, um rosto em fogo que avanava  altura de um homem, mas sem corpo!
      Esse rosto soltava fogo.
      Parecia, na noite, como uma chama com forma de rosto de homem.
          -  a primeira vez que o vejo!... - disse o Persa entre os dentes. - O tenente dos bombeiros no estava louco! Ele o tinha visto mesmo!... O que  essa
chama?
No  ele! mas pode ser ele quem o envia at ns. Cuidado!... Cuidado!... Sua mo  altura do olho, em nome do Cu!...  altura do olho!
      O rosto em fogo, parecendo uma figura do inferno - de demnio abrasado -, continuava avanando,  altura de um homem, sem corpo, diante dos dois homens espantados...
      - Ele talvez nos mande essa figura pela frente para melhor nos surpreender por trs... ou pelos lados... com ele nunca se sabe!... Conheo muitos dos seus
truques!... mas este!... este!... no conhecia ainda!... Vamos fugir!... por prudncia!... no ?... por prudncia!... com a mo  altura do olho.
      E fugiram ambos pelo longo corredor subterrneo que se abria  sua frente.
      Ao fim de alguns segundos dessa corrida, que lhes pareceu longos, longos minutos, pararam.
      - Entretanto - disse o Persa -, ele raramente vem por aqui! Este lado no diz respeito a ele!... Este lado no conduz ao lago nem  morada do Lago!... Mas
talvez ele saiba que ns estamos ao seu encalo!... embora eu lhe tenha prometido deix-lo sossegado doravante e no me preocupar mais com as suas histrias.
      Dizendo isso, virou a cabea, e Raoul fez o mesmo.
      Ora, divisaram ainda a cabea em fogo atrs de suas duas cabeas. Ela os havia seguido... Deve ter corrido tambm e talvez mais depressa do que eles, pois
parecia que se tinha aproximado.
      Ao mesmo tempo, comearam a distinguir certo rudo cuja natureza lhes era impossvel adivinhar; simplesmente se deram conta de que esse rudo parecia deslocar-se
    e aproximar-se com a chama-rosto-de-homem. Era um raspar, ou melhor, um ranger como se milhares de unhas se esfregassem no quadro-negro, rudo assustadoramente
insuportvel
que tambm  produzido s vezes por uma pedrinha no interior do giz que comea a ranger no quadro-negro.
      Recuaram ainda, mas o rosto-chama continuava avanando, ganhando vantagem sobre eles. Agora se podia ver muito bem os seus traos. Os olhos eram bem redondos
e fixos, o nariz um pouco de travs e a boca grande com um lbio inferior em semicrculo, pendente; mais ou menos como os olhos, o nariz e os olhos da lua, quando
a lua est toda vermelha, cor de sangue.
      Como  que essa lua vermelha deslizava pelas trevas,  altura de um homem sem ponto de apoio, sem corpo para suport-la, pelo menos aparentemente? E como andava
to depressa, em linha reta, com os olhos fixos, to fixos? E todo esse ranger, estalir, raspar que arrastava consigo, de onde vinha?
      Em dado momento, o Persa e Raoul no puderam mais recuar e se espremeram contra a muralha, no sabendo o que ia acontecer com eles por causa desse rosto incompreensvel
de fogo e, principalmente agora, do rudo mais intenso, mais bulioso, mais vivo, muito "numeroso", pois certamente esse rudo era feito de centenas de ruidinhos
que se mexiam nas trevas, sob a cabea-chama.
      Vai avanando, a cabea-chama... a est ela!... com o seu rudo!... a est ela  altura!...
      E os dois companheiros, achatados contra a parede, sentem os cabelos se arrepiarem de horror em suas cabeas, pois sabem agora de onde vm os mil rudos. Vm
em bando, sendo rolados na escurido por inumerveis ondas apressadas, mais rpidas do que as ondas que trotam na areia, quando a mar sobe, que ondulam como carneiros
embaixo da lua, embaixo da lua-cabea-chama.
      E as ondinhas lhes passam nas pernas, sobem pelas pernas, irresistivelmente. Ento Raoul e o Persa no podem mais reter os gritos de horror, de espanto e de
dor.
      No podem mais, tampouco, continuar a manter os braos  altura do olho, postura do duelo  pistola nessa poca, antes do comando de "fogo!" - As suas mos
descem at as pernas para rechaar as ilhotas luzentes, que rolam coisinhas pontudas, ondas que esto cheias de patas, e de unhas, e de garras, e de dentes.
      Sim, Raoul e o Persa esto prestes a desmaiar como o tenente dos bombeiros Papin. Mas a cabea-fogo virou-se para eles por causa dos rugidos. E ela lhes fala:


      - No se mexam! No se mexam!... Principalmente, no me sigam!... Sou eu, o matador de ratos!... Deixem-me passar com os meus ratos!...
      E bruscamente a cabea-fogo desaparece, desfeita nas trevas, enquanto adiante dela o corredor, ao longe, se ilumina, simples resultado da manobra que o matador
de ratos acaba de operar com sua lanterna surda. H pouco, para no espantar os ratos  sua frente, tinha virado a lanterna surda sobre si mesmo, iluminando a prpria
cabea: agora, para apressar a fuga, ilumina o espao negro  sua frente... Ento salta, arrastando consigo as ondas de ratos, trepando, rangendo, todos os mil rudos...
      O Persa e Raoul, liberados, respiram, embora ainda trmulos.
      - Deveria ter-me lembrado de que Erik me falou do matador de ratos, mas no me disse que se apresentava com esse aspecto... e  estranho que eu nunca o tenha
encontrado7.
      - Ah! achei que esse era mais um dos golpes do monstro!...
      - suspirou... Mas no, ele nunca vem a estas paragens!
      - Estamos ento muito longe do lago? - interrogou Raoul.
      - Quando  que chegaremos l?... Vamos ao lago!... Vamos ao lago!... - Quando estivermos no lago, chamaremos, sacudiremos as paredes, gritaremos!... Christine
nos ouvir!... E ele tambm nos ouvir!... E j que o senhor o conhece, falaremos com ele!
      - Menino! - disse o Persa. - Nunca entraremos na morada do Lago pelo lago!
      - Por qu?
      - Porque foi l que ele concentrou toda a sua defesa... Eu mesmo nunca pude aportar na outra margem!... na margem da casa!... E necessrio primeiro atravessar
o lago... e ele  bem guardado!... Temo que mais de um daqueles antigos maquinistas, velhos fechadores de portas, que nunca mais foram vistos, tenham simplesmente
tentado atravessar o lago...  terrvel... Eu prprio quase fiquei l... Se o monstro no me tivesse reconhecido a tempo!... Um conselho, nunca se aproxime do lago.
E, principalmente, feche os ouvidos se ouvir cantar a Voz debaixo da gua, a voz da Sereia.
      - Mas ento - retomou Raoul num transporte de febre, de impacincia e de raiva - o que  que estamos fazendo aqui?... Se no pode fazer nada por Christine,
deixe-me, pelo menos, morrer por ela.
      O Persa tentou acalmar o rapaz.
      - No temos seno um meio de salvar Christine Daa, acredite-me;  penetrar naquela morada sem que o monstro o perceba.
      - Podemos ter esperana disso?
      - Ora! Se eu no tivesse essa esperana, no teria vindo procur-lo!
      - E por onde se pode entrar na morada do Lago sem passar pelo lago?
      - Pelo terceiro subsolo, de onde fomos to inoportunamente rechaados... e para onde vamos voltar j... Vou lhe dizer - disse o Persa, com a voz subitamente
alterada... -, vou lhe dizer o lugar exato... Encontra-se entre um suporte e um cenrio abandonado do Rei de Labore, exatamente, no lugar onde foi morto Joseph Buquet...
      - Ah! aquele chefe dos maquinistas que foi achado enforcado?
      - Certo - acrescentou com um tom singular o Persa -, e cuja corda ningum pde encontrar!... Vamos! coragem... e p na estrada!... e recoloque a sua mo em
guarda, senhor... Mas onde  que ns estamos?
      O Persa teve de acender de novo a lanterna surda. Dirigiu o jato luminoso sobre dois vastos corredores que se cruzavam em ngulo reto e cujas arcadas se perdiam
no infinito.
      - Devemos estar na parte reservada ao servio de guas... No estou vendo nenhum fogo vindo dos aquecedores.
      Ele foi  frente de Raoul, procurando o caminho, parando bruscamente quando suspeitava que algum mecnico da hidrulica ia passar, depois tiveram de se esconder
da luminosidade de uma espcie de forja subterrnea que tinham acabado de apagar e diante da qual Raoul reconheceu os demnios avistados por Christine quando de
sua primeira viagem no dia de seu primeiro cativeiro.
      Assim, voltavam pouco a pouco at debaixo dos prodigiosos subsolos do palco.
      Deviam estar ento bem no fundo da cuba, a uma grande profundidade, se se pensa que a terra foi cavada a quinze metros abaixo dos lenis de gua que existiam
em toda essa parte da capital; e foi preciso drenar toda a gua... Retirou-se tanta gua que, para se ter uma idia do volume bombeado, seria necessrio representar-se
em superfcie o ptio do Louvre, e em profundidade uma vez e meia a altura das torres de Notre Dame. Mesmo assim foi preciso conservar um lago.
      Nesse momento, o Persa tocou numa divisria e disse:
      - Se no me engano, aqui est uma parede que bem poderia pertencer  morada do Lago!
      Batia ento numa parede da cuba. E talvez no seja intil para o leitor saber como tinham sido construdos o fundo e as paredes da cuba.
      A fim de evitar que as guas que cercam a construo ficassem em contato imediato com as paredes que sustentam todo o estabelecimento da maquinaria do teatro,
cujo conjunto de madeiramentos, de marcenaria, de serralheria, de telas pintadas  tmpera deve ser cuidadosamente preservado da umidade, o arquiteto se viu na necessidade
de estabelecer por toda a parte um duplo invlucro.
      O trabalho desse duplo invlucro exigiu um ano inteiro. Contra a parede do primeiro invlucro interior  que o Persa estava batendo quando falava a Raoul sobre
a morada do Lago. Para algum que conhecesse a arquitetura do monumento, o gesto do Persa parecia indicar que a misteriosa morada de Erik tinha sido construda dentro
do duplo invlucro, formado por uma grossa muralha construda como dique, depois por uma parede de tijolos, uma enorme camada de cimento e outro muro de vrios metros
de espessura.
      s palavras do Persa, Raoul se lanara para junto da parede e avidamente se pusera a escutar.
      ... Mas no ouvia nada... nada alm dos passos distantes que ressoavam sobre o tablado nas partes altas do teatro.
      O Persa apagara novamente a sua lanterna.
      - Ateno! - disse ele - cuidado com a mo! e agora silncio! pois vamos tentar ainda penetrar em sua morada.
      E puxou Raoul at a escadinha pela qual tinham descido havia pouco.
      ... Foram subindo, parando a cada degrau, espiando as sombras e o silncio...
      Assim se encontraram novamente no terceiro subsolo...
      O Persa fez sinal ento para que Raoul se pusesse de joelhos, e foi assim, arrastando-se de joelhos e em uma das mos - a outra sempre na posio indicada
- que chegaram at a parede do fundo.
      Apoiada nessa parede estava uma vasta tela abandonada do cenrio do Rei de Labore.
      ... E, bem perto desse cenrio, um suporte...
      Entre o cenrio e o suporte havia apenas lugar para um corpo.
      ... Um corpo, que um dia tinha sido encontrado enforcado... o corpo de Joseph Buquet.
      O Persa, sempre de joelhos, tinha parado. Escutava.
      Por um momento, ele pareceu hesitar e olhou para Raoul, depois seus olhos se fixaram acima, em direo do segundo subsolo, que lhes enviava a fraca luz de
uma lanterna, pelo vo entre duas tbuas.
      Evidentemente, essa claridade atrapalhava o Persa.
      Finalmente, balanou a cabea e se decidiu.
      Escorregou entre o suporte e o cenrio do Rei de Labore.
      Raoul o seguia de perto.
      A mo livre do Persa tateava a parede. Raoul o viu um instante empurrar fortemente a divisria como fizera com a parede do camarim de Christine...
      ... E uma pedra cedeu...
      Havia agora um buraco na divisria...
      O Persa desta vez tirou a pistola do bolso e indicou a Raoul que devia imit-lo. Armou a pistola.
      E resolutamente, sempre de joelhos, entrou pelo buraco que a pedra, ao ceder, deixara na parede.
      Raoul, que queria passar primeiro, teve de contentar-se com ir atrs.
      O buraco era muito estreito. O Persa parou quase imediatamente. Raoul ouvia-o apalpar a pedra ao seu redor. E, depois, ele tirou ainda a sua lanterna surda
e inclinou-se para a frente, examinou alguma coisa debaixo de si e apagou imediatamente a lanterna. Raoul ouviu-o dizer num sopro:
      - Vai ser preciso saltar alguns metros, mas sem fazer barulho: tire as botinas.
      O prprio Persa procedeu a essa operao. Passou as botinas para Raoul.
      - Coloque-as do lado de l da parede... Ns as pegaremos ao sair8.
      Dito isso, o Persa avanou um pouco. Depois virou-se completamente, sempre de joelhos, e ficou, assim, com o rosto perto do de Raoul. Disse-lhe ento:
      - Vou me dependurar pelas mos  extremidade da pedra e deixar-me cair na casa. Em seguida, faa exatamente como eu. No tenha medo: eu o apanharei nos meus
braos.
      O Persa fez como dissera; e, abaixo dele, Raoul ouviu logo um barulho surdo que era produzido evidentemente pela queda do companheiro. O rapaz estremeceu,
com receio de que esse barulho revelasse a presena deles.
      Entretanto, mais do que o barulho, a ausncia de qualquer outro rudo era para Raoul um terrvel motivo de angstia. Como! se, segundo o Persa, eles acabavam
de penetrar dentro dos prprios muros da morada do Lago, e no se ouvia Christine!... Nenhum apelo!... Nenhum gemido!... Deus do cu! estariam chegando tarde demais?...
      Raspando com os joelhos a muralha, agarrando-se  pedra com os dedos nervosos, Raoul, por sua vez, deixou-se cair.
      Imediatamente sentiu um abrao.
      - Sou eu! - sussurrou o Persa. - Silncio! E ficaram ambos imveis, escutando...
      Nunca, em torno deles, a noite tinha sido mais opaca... Nunca o silncio mais pesado nem mais terrvel... Raoul enterrava as unhas nos lbios para no gritar:
"Christine! Sou eu!... Responda-me se no estiver morta, Christine?"
      Enfim, o jogo da lanterna surda recomeou. O Persa dirigiu o seu facho acima de suas cabeas, para a muralha, procurando o buraco por onde tinham vindo e no
mais o encontrava...
      - Oh! - disse - a pedra se fechou sozinha.
      E o jato luminoso da lanterna desceu ao longo da parede, depois at o cho.
      O Persa abaixou-se e recolheu alguma coisa, uma espcie de fio que examinou por um segundo e lanou fora com horror.
      - O fio do Punjab!- murmurou.
      - O que  isso? - perguntou Raoul.
      - Isso - respondeu o Persa estremecendo -, isso bem poderia ser a corda do enforcado que tanto se procurou!...
      E, subitamente, tomado de nova ansiedade, deslizou o pequeno disco vermelho da lanterna pelas paredes... Assim ele iluminou, fato estranho, um tronco de rvore
que parecia ainda vivo com as suas folhas... e os galhos dessa rvore subiam ao longo da muralha e iam perder-se no teto.
      Devido  pequenez do disco luminoso, era difcil de incio dar-se conta das coisas... via-se o canto de um galho... e depois uma folha... e outra... e, ao
lado, no se via mais nada... nada alm do jato de luz que parecia refletir a si mesmo... Raoul escorregou a mo sobre esse nada de nada, sobre esse reflexo...
      - Olhe! - disse ele - a parede  um espelho!
      - Sim! um espelho! - disse o Persa, num tom de profunda emoo. E acrescentou, passando a mo que segurava a pistola pela testa suada: - Camos dentro do quarto
dos suplcios!





22

INTERESSANTES E INSTRUTIVAS TRIBULAES DE UM PERSA NOS SUBTERRNEOS DA PERA

      (Narrativa do Persa)
      O prprio Persa contou como tinha inutilmente tentado, at aquela noite, penetrar na morada do Lago pelo lago; como tinha descoberto a entrada do terceiro
subsolo e como, finalmente, o visconde de Chagny e ele se viram a braos com a infernal imaginao do fantasma no quarto dos suplcios. Eis a narrativa escrita que
ele nos deixou (nas condies que adiante se precisaro) e da qual no mudei uma palavra sequer. Transmito-a tal qual, porque achei que no devia silenciar as aventuras
pessoais do daroga9 em torno da morada do Lago, antes que nela casse em companhia de Raoul. Se, durante alguns instantes, esse incio muito interessante parece
afastar-nos um pouco do quarto dos suplcios,  apenas para melhor nos levar para ele em seguida, aps nos ter explicado coisas bastante importantes e certas atitudes
e maneiras de fazer do Persa, que podem ter parecido extraordinrias.
      Era a primeira vez que eu penetrava na casa do Lago, escreve o Persa. Em vo havia pedido ao amador de alapes - era assim que, entre ns, em persa, era chamado
Erik - que me abrisse as suas misteriosas portas. Ele sempre tinha recusado. Eu, que era pago para conhecer muitos de seus segredos e truques, tentara inutilmente,
por astcia, forar a senha. Desde que eu voltara a encontrar Erik na pera, onde parecia ter escolhido morar, muitas vezes tinha-o espiado, ora dos corredores dos
altos, ora nos do subsolo, ora na margem mesma do Lago, quando ele julgava estar sozinho, quando subia na barquinha e aportava diretamente na parede defronte. Mas
as sombras que o cercavam eram sempre demasiado opacas para me permitir ver em que lugar exato ele perava a sua porta na parede. A curiosidade e tambm uma idia
temvel que me tinha vindo ao refletir sobre algumas frases ditas pelo monstro me levaram, um dia em que eu achava estar s por meu turno, a me lanar na barquinha
e a dirigir-me rumo a essa parte da parede onde tinha visto Erik desaparecer. Foi ento que me vi s voltas com a Sereia que guardava as bordas daquelas paragens,
e cujo encanto quase me foi fatal, nas condies precisas que seguem. Mal eu havia deixado a margem, o silncio dentro do qual eu navegava foi perturbado por uma
espcie de sopro cantante que me envolveu. Era ao mesmo tempo uma respirao e uma msica; aquilo subia suavemente das guas do lago e me envolvia sem que eu pudesse
descobrir por qual artifcio. Aquilo me seguia, deslocava-se comigo, e era to suave que no me dava medo. Ao contrrio, no desejo de aproximar-me da fonte dessa
doce e cativante harmonia, eu me debrucei, por cima da minha barquinha, em direo s guas, pois no havia dvida para mim de que aquele canto vinha das prprias
guas. J estava no meio do lago e no havia ningum mais na barca alm de mim; a voz - pois agora era bem distintamente uma voz - estava ao meu lado, sobre as guas.
Debrucei-me... Debrucei-me mais... O lago estava calmo e o raio de lua que, depois de ter passado pelo respiradouro da rua Scribe, vinha ilumin-lo no me mostrou
absolutamente nada sobre a superfcie lisa e negra como nanquim. Sacudi um pouco a cabea com o fito de me desvencilhar de um possvel zumbido, mas tive que ceder
 evidncia de que no havia zumbido to harmonioso quanto o sopro cantante que me seguia e que, agora, me atraa.
      Se eu fosse supersticioso ou facilmente acessvel s fbulas, no teria deixado de achar que estava sendo envolvido por alguma Sereia encarregada de perturbar
o viajante, ousado o bastante para viajar pelas guas da casa do Lago, mas, graas a Deus!, sou de um pas onde se aprecia muito o fantstico para no conhec-lo
a fundo e eu prprio o havia estudado muito noutros tempos: com os truques mais simples, uma pessoa que conhece o seu ofcio pode fazer trabalhar a pobre imaginao
humana.
      No duvidei pois de que estava s voltas com uma nova inveno de Erik, mas, uma vez mais, essa inveno era to perfeita que. ao me debruar por cima da barquinha,
era mais impelido a descobrir a artimanha do que a desfrutar seu encanto.
      E debrucei-me, debrucei-me... quase a virar o barco.
      De repente, dois braos monstruosos saram do interior das guas e me agarraram o pescoo, arrastando-me para o abismo com uma fora irresistvel. Eu estaria
certamente perdido se no tivesse tido o tempo de soltar um grito, pelo qual Erik me reconheceu.
      Porque era ele, e em vez de me afogar, como certamente era a sua inteno, nadou e me colocou suavemente na margem.
      - Veja como voc  imprudente - disse-me ele, levantando-se  minha frente enquanto aquela gua do inferno lhe escorria pelo corpo. - Por que tentar penetrar
na minha morada! No convidei voc. No quero saber nem de voc nem de ningum deste mundo! Voc s me salvou a vida para torn-la insuportvel? Por maior que seja
o servio prestado, Erik acabar, talvez, por esquec-lo e voc sabe que nada pode deter Erik, nem mesmo o prprio Erik.
      Ele falava, mas agora eu no tinha outro desejo que no fosse o de conhecer o que eu j chamava de truque da Sereia. Ele concordou em satisfazer a minha curiosidade,
pois Erik, que  um verdadeiro monstro - para mim,  assim que o julgo, tendo tido, enquanto persa, a triste oportunidade de v-lo agindo -,  tambm, sob certos
aspectos, uma verdadeira criana presunosa e vaidosa, e aquilo de que mais gosta, alm de espantar as pessoas,  provar toda a engenhosidade realmente prodigiosa
de sua mente.
      Ele ps-se a rir e me mostrou uma longa haste de canio.
      - E de uma simplicidade total! mas  bem cmodo para se respirar e para se cantar dentro da gua! E um truque que aprendi com os piratas de Tonquim, que podem
assim ficar horas escondidos no fundo dos rios10.
      Falei com ele severamente.
      -  um truque que quase me matou!... e talvez tenha sido fatal para outros!
      Ele no me respondeu, mas levantou-se diante de mim com aquele ar de ameaa pueril que lhe conheo to bem. No me dei por vencido. Disse-lhe com clareza:
      - Voc sabe o que me prometeu, Erik! Parar com os crimes!
      - Ser que, realmente, cometi crimes? - perguntou com jeito amvel.
      - Infeliz!... - exclamei... - Voc se esqueceu das horas cor-de-rosa de Mazender?
      - Sim - respondeu, ficando triste de repente -, prefiro esquecer, mas bem que fiz rir a sultanazinha.
      - Tudo isso  passado... mas h o presente... e voc me deve contas do presente, visto que, se eu tivesse querido, ele no existiria para voc!... Lembre-se
disso, Erik: eu salvei a sua vida!...
      E aproveitei de a conversa ter-se enveredado por esse caminho para lhe falar de uma coisa que, havia algum tempo, voltava-me com freqncia  mente,
      - Erik, Erik, jure-me...
      - O qu? voc bem sabe que no cumpro os meus juramentos. Os juramentos so feitos para apanhar os trouxas
      - Diga-me... Voc bem pode, a mim, dizer isso!
      - Pois bem, o qu?
      - Pois bem!... O lustre... o lustre, Erik...
      - O que tem o lustre?
      - Voc sabe muito bem o que  que estou querendo dizer!
      - Ah!, o lustre!... Vou dizer para voc... O lustre, isso no fui eu!... Estava muito gasto...
      Quando ria, Erik ficava ainda mais horroroso. Saltou para dentro da barca chasqueando de maneira to sinistra que comecei a tremer.
      - Muito gasto, caro daroga! Muito gasto, o lustre... Ele caiu sozinho... Fez bum! E agora um conselho, daroga, v se secar, se no quer apanhar um resfriado!...
e no volte nunca a subir na minha barca... e, principalmente, no tente entrar em minha casa... nem sempre eu estou l... daroga!E seria muito triste para mim dedicai
a voc a minha missa dos mortos!
      Dizendo isso com um riso sardnico, ia remando de p na parte traseira da barca e gingava com um balano de macaco. Tinha ento um aspecto fatal, com os seus
olhos de ouro flutuando na escurido. Em seguida, no vi mais do que os seus olhos e, finalmente, desapareceu na noite do lago.
      Foi a partir desse dia que desisti de penetrar na sua morada do Lago! Evidentemente, aquela entrada estava muito bem guardada, sobretudo depois que ele ficou
sabendo que eu a conhecia. Mas pensei que devia haver alguma outra, porque mais de uma vez vi Erik desaparecer no terceiro subsolo, enquanto o vigiava, e sem que
eu pudesse imaginar como. Desde que encontrei Erik instalado na pera, eu vivia num perptuo terror de suas horrveis fantasias, no com relao a mim, por certo,
mas eu temia tudo dele para com as outras pessoas11. E quando acontecia algum acidente, algum acontecimento fatal, eu no podia deixar de dizer a mim mesmo: "Talvez
seja o Erik!..." como outros diziam ao meu redor: "E o fantasma!..." Quantas vezes no ouvi pronunciar diante de mim essa frase por pessoas que sorriam! Infelizes!
Se soubessem que esse fantasma existia em carne e osso e era mais terrvel do que a sombra v que evocavam, juro que teriam parado de fazer troa!... Se apenas tivessem
sabido do que Erik era capaz, principalmente num campo de manobra como a pera!... E se tivessem conhecido o mago do meu temvel pensamento!...
      Embora Erik me houvesse anunciado com grande solenidade que tinha mudado e se tornara o mais virtuoso dos homens, desde que estava sendo amado pelo que ele
era, frase que me deixou de imediato extremamente perplexo, no podia deixar de fremir ao pensar no monstro. Sua horrvel, nica e repulsiva feira o punha  margem
da humanidade, e pareceu-me, com freqncia, que ele no julgava, por esse fato mesmo, ter nenhum dever para com a raa humana. A maneira como falou de seus amores
s fez aumentar os meus temores, pois previa nesse acontecimento, a que aludia num tom gabola que eu j conhecia nele, a causa de novos dramas mais terrveis do
que todo o resto. Eu sabia at que grau de sublime e desastroso desespero podia ir a dor de Erik, e as palavras que me dissera - vagamente prenunciadoras da mais
terrvel catstrofe - no cessavam de habitar o meu pensamento.
      Por outro lado, tinha descoberto o estranho comrcio moral que se tinha estabelecido entre o monstro e Christine Daa. Escondido no quarto de despejo contguo
ao camarim da jovem diva, eu tinha assistido a admirveis sesses de msica, que evidentemente mergulhava Christine num maravilhoso xtase, mas, mesmo assim, no
teria pensado que a voz de Erik - que era retumbante como o trovo e suave como a dos anjos,  sua vontade - pudesse fazer esquecer a sua feira. Compreendi tudo
quando descobri que Christine ainda no o tinha visto! Tive a oportunidade de penetrar no camarim e, lembrando-me das lies que ele me dera havia tempos, no tive
dificuldade para encontrar o truque que fazia girar a parede que suportava o espelho, e verifiquei por que insero de tijolos ocos fazia com que Christine o ouvisse
como se estivesse ao lado dela. Assim descobri tambm o caminho que conduz  fonte e  masmorra -  masmorra dos communards, como eram chamados os partidrios da
Comuna de Paris - e tambm o alapo que devia permitir a Erik introduzir-se diretamente nos subsolos do palco.
      Alguns dias mais tarde, qual no foi a minha estupefao ao descobrir, por meus prprios olhos e ouvidos, que Erik e Christine Daa se encontravam, e ao surpreender
o monstro, debruado sobre a fontezinha que chora, no caminho dos communards (bem na extremidade, debaixo da terra), refrescando com gua a fronte de Christine Daa
desmaiada. Um cavalo branco, o cavalo do Profeta, que desaparecera das estrebarias dos subsolos da pera, estava ali, tranqilo, ao lado deles. Apresentei-me. Foi
terrvel. Vi fascas sarem dos olhos de ouro e recebi, antes que pudesse dizer palavra, uma pancada no meio da testa, que me deixou atordoado. Quando voltei a mim,
Erik, Christine e o cavalo branco haviam desaparecido. No tive dvida de que a infeliz tinha sido feita prisioneira na morada do Lago. Sem hesitar, resolvi voltar
para a margem. apesar do perigo iminente que essa atitude comportava. Durante 24 horas fiquei espreitando, escondido perto da beira negra, o aparecimento do monstro,
pois achava que ele devia sair, forado a ir fazer as suas provises. E a respeito disso devo dizer que, quando ele saa por Paris ou ousava mostrar-se em pblico,
colocava, no lugar de seu horrvel buraco de nariz, um nariz de pasta de carto com um bigode, o que no lhe retirava completamente o aspecto macabro, visto que,
quando passava, diziam atrs dele: "Olhe, l vai o velho Engana-a-Morte", mas isso o tornava mais ou menos suportvel de se ver.
      Eu estava ento vigiando  beira do lago - do lago Averne, como ele chamara vrias vezes, diante de mim, ironizando, o seu lago - e, cansado da minha longa
espera, dizia a mim mesmo: "Ele saiu por outra porta, aquela do terceiro subsolo", quando ouvi um leve marulhar no escuro; vi os dois olhos de ouro brilharem como
fanais, e logo a barca aportou. Erik saltou na margem e veio em minha direo.
      - J faz 24 horas que voc est a; voc me aborrece! anuncio-lhe que tudo isso ainda vai acabar muito mal. E  voc que est querendo! pois minha pacincia
 prodigiosa com voc!... Voc pensa estar me seguindo, imenso pateta - (textual) -, e sou eu que o sigo, e eu sei tudo que voc sabe sobre mim. Poupei voc ontem,
no meu caminho dos communards; mas digo-lhe, em verdade, no quero mais ver voc l! Tudo isso  muito imprudente de sua parte! Dou minha palavra! E me pergunto
se voc ainda sabe o que falar quer dizer!
      Estava to encolerizado que evitei, no momento, interromp-lo. Depois de ter resfolegado como uma foca, explicitou o seu horrvel pensamento - que correspondia
ao meu.
      - Sim,  preciso saber de uma vez por todas o que falar quer dizer! Eu lhe digo que com as suas imprudncias, porque voc j se deixou prender duas vezes pela
sombra do chapu de feltro, que no sabia o que voc estava fazendo nos subsolos e conduziu voc aos diretores, que o tomaram por um fantasioso persa amante dos
truques de magia e de bastidores de teatro (eu estava l, sim, no escritrio; voc sabe que eu estou em toda parte) - eu lhe digo, pois, que com as suas imprudncias
acabaro por perguntar-se o que  que voc procura aqui... e acabaro por saber que voc procura Erik... e vo querer, como voc, procurar Erik... e vo descobrir
a casa do Lago... Ento, azar seu, meu velho! azar seu!... eu j no respondo por mais nada!
      Resfolegou de novo como uma foca, antes de continuar:
      - Por mais nada!... Se os segredos de Erik no permanecerem segredos de Erik, azar para muitos da raa humanai E tudo o que eu tinha a lhe dizer e, a menos
que voc seja um imenso pateta - (textual) - isso deveria bastar; a menos que voc saiba o que falar quer dizer!...
      Ele estava sentado na parte de trs da barca e batia com os calcanhares na madeira da embarcao,  espera do que eu tinha para lhe responder; eu lhe disse
simplesmente:
      - No  Erik que eu vim buscar aqui!...
      - Ento  quem?
      - Voc sabe muito bem:  Christine Daa! Replicou-me:
      - Tenho o direito de marcar encontro com ela na minha casa. Sou amado por aquilo que sou.
      - No  verdade, voc a raptou e a mantm prisioneira!
      - Escute, voc me promete no se intrometer mais na minha vida se eu lhe provar que sou amado por aquilo que eu sou?
      - Sim, prometo - respondi sem hesitar -, pois pensava que para aquele monstro essa prova era impossvel de obter.
      - Pois bem, veja! E absolutamente simples!... Christine Daa sair daqui quando achar melhor... e voltar de livre e espontnea vontade, porque ela me ama
pelo que eu sou!...
      - Oh! duvido de que ela volte!... Mas voc tem o dever de deix-la ir-se embora.
      - Meu dever, imenso pateta! (textual),  a minha vontade... minha vontade de deix-la ir-se, e ela voltar... porque ela me ama!... Tudo isso, eu lhe digo,
vai acabar em casamento... um casamento na igreja da Madeleine, imenso pateta! (textual). Voc acredita em mim, afinal? Quando lhe digo que a minha missa de casamento
j est escrita... voc ver esse Kyrie...
      Tamborilou ainda com os calcanhares na madeira da barca, numa espcie de ritmo que ele acompanhava a meia voz cantando: "Kyrie!... Kyrie!... Kyrie eleison!...
Voc ver, voc ver essa missa!"
      - Escute, acreditarei em voc se eu vir Christine Daa sair da casa do Lago e voltar para ela livremente!
      - E voc no se meter mais na minha vida? Pois bem, ver isso esta noite... V ao baile de mscaras. Christine e eu iremos dar uma voltinha por l... Voc
ir depois se esconder no quarto de despejo e ver que Christine, que ter voltado ao seu camarim, no vai querer outra coisa que no seja tomar o caminho dos comrnunards.
      - Entendido!
      Se de fato eu visse isso, s me restaria inclinar-me, porque uma pessoa belssima sempre teve de amar o mais horrvel monstro, principalmente quando, como
este, ele tem a seduo da msica e quando essa pessoa  justamente uma distintssima cantora.
      - E agora v-se embora porque eu preciso ir para fazer o meu trato!...
      Fui-me embora pois, realmente, sempre preocupado com Christine Daa, mas sobretudo tendo, no fundo de mim mesmo, um pensamento temvel, desde que ele o tinha
despertado to formidavelmente, a propsito das minhas imprudncias.
      Dizia comigo: "Como vai acabar tudo isto?" E, embora fosse bastante fatalista por temperamento, no podia desfazer-me de uma indefinvel angstia por causa
da incrvel responsabilidade que tinha assumido um dia, deixando viver o monstro que ameaava hoje muitos da raa humana.
      Para meu prodigioso espanto, as coisas se passaram como ele me havia anunciado. Christine Daa saiu da casa do Lago e para l voltou vrias vezes sem que aparentemente
fosse forada a isso. Minha mente quis ento se desligar daquele amoroso mistrio, mas era muito difcil, sobretudo para mim - por causa do temvel pensamento -,
no pensar em Erik. Todavia, resignado a uma extrema prudncia, no cometi o erro de voltar  beira do lago nem de retomar o caminho dos communards. Mas, perseguido
pela idia fixa da porta secreta do terceiro subsolo, fui mais de uma vez diretamente a esse lugar que eu sabia deserto na maior parte do dia. Ficava ali parado,
interminavelmente, rolando os polegares, escondido atrs de um cenrio do Rei de Labore, que haviam deixado ali, no sei por qu, pois no era freqente representarem
o Rei de Labore. Tanta pacincia tinha de ser recompensada. Um dia, vi o monstro, de joelhos, vir em minha direo. Eu estava seguro de que ele no podia me ver.
Passou entre o cenrio que se achava ali e um suporte, foi at a muralha e acionou, num lugar que pude precisar de longe, uma mola que fez bascular uma pedra, abrindo-lhe
uma passagem. Desapareceu por essa passagem e a pedra voltou a fechar-se atrs dele. Eu estava de posse do segredo do monstro, segredo que podia, na hora que me
conviesse, entregar-me a morada do Lago.
      Para estar seguro, esperei pelo menos meia hora e fiz, por minha vez, funcionar a mola. Tudo aconteceu como para Erik. Mas evitei penetrar no buraco, sabendo
que Erik estava em casa. Por outro lado, a idia de que eu podia ser surpreendido ali por ele trouxe-me de repente  memria a morte de Joseph Buquet e, no querendo
comprometer tal descoberta, que podia ser til a muita gente, a muitos da raa humana, deixei os subsolos do teatro, depois de ter cuidadosamente reposto a pedra
no lugar, segundo um sistema que no tinha variado desde a Prsia.
      Imagine que eu continuava muito interessado pela intriga entre Erik e Christine Daa, no porque obedecesse no caso a uma curiosidade doentia, mas sim, como
j disse, por causa daquele pensamento temvel que no saa da minha cabea: "Se Erik", pensava eu, "descobrir que no  amado pelo que , tudo pode acontecer".
E, no parando de vaguear - prudentemente - pela pera, fiquei logo sabendo da verdade sobre os tristes amores do monstro. Ele ocupava o esprito de Christine pelo
terror, mas o corao da doce menina pertencia inteirinho ao visconde Raoul de Chagny. Enquanto estes dois brincavam, como dois noivos inocentes, nos altos da pera
- fugindo do monstro -, no tinham dvida de que algum os estava vigiando. Eu estava decidido a tudo: a matar o monstro, se preciso fosse, e a dar em seguida explicaes
 Justia. Mas Erik no se mostrou - e nem por isso eu estava mais seguro.
      Eu preciso dizer todo o meu clculo. Eu achava que o monstro, expulso de sua morada pelo cime, me permitiria assim penetrar sem perigo na casa do Lago, pela
passagem do terceiro subsolo. Eu tinha todo interesse, por todos, em saber exatamente o que podia haver l dentro! Um dia, cansado de esperar uma oportunidade, fiz
a pedra girar e imediatamente ouvi uma msica formidvel; o monstro estava trabalhando, com todas as portas abertas, na composio do seu Don Juan triunfante. Eu
sabia que aquela era a obra de sua vida. Tomei cuidado para no me mexer e fiquei prudentemente no meu buraco escuro. Em dado momento, parou de tocar e ps-se a
andar pela casa, como um louco. E disse bem alto, com voz retumbante: " preciso que tudo isso esteja terminado antes! Bem terminado!" Essa palavra no teve o dom
de me tranqilizar e, como a msica recomeasse, fechei a pedra devagarinho. Ora, apesar de a pedra estar fechada, eu ainda ouvia um vago canto distante, distante,
que subia do fundo da terra, como tinha ouvido o canto da Sereia subir do fundo das guas. E lembrei-me das palavras de alguns maquinistas, que tinham provocado
sorrisos incrdulos quando da morte de Joseph Buquet: "Havia em torno do corpo do enforcado um rudo que parecia o canto dos mortos".
      No dia do rapto de Christine Daa s cheguei ao teatro bastante tarde da noite e tremendo por tomar conhecimento das ms notcias. Tinha passado um dia atroz,
pois no parara, desde a leitura de um jornal matutino que anunciava o casamento de Christine com o visconde de Chagny, de me perguntar se, depois de tudo, eu no
faria melhor em denunciar o monstro. Mas a razo me voltou e fiquei persuadido de que tal atitude s podia precipitar a catstrofe possvel.
      Quando o meu carro me deixou diante da pera, olhei para o monumento como se estivesse admirado por ainda v-lo de p!
      Mas sou, como todo bom oriental, um pouco fatalista e entrei, pronto para tudo!
      O rapto de Christine Daa no ato da priso, que naturalmente surpreendeu a todos, encontrou-me preparado. Eu estava certo de que Erik o tinha transformado,
como rei dos prestidigitadores que era, em verdade. E pensei mesmo que desta vez era o fim para Christine e talvez para todo mundo.
      Tanto assim que em dado momento me perguntei se no devia aconselhar, a todas essas pessoas que se tardam no teatro, que sassem rpido. Mas desisti de prosseguir
nesse pensamento de denncia pela certeza de que me tomariam por um louco. Afinal, no ignorava que, se por exemplo eu gritasse para que todas aquelas pessoas sassem:
"Fogo!", eu poderia ser a causa de uma catstrofe, sufocamentos na fuga, pisoteamentos, lutas selvagens - pior do que a prpria catstrofe. Entretanto, resolvi agir
sem mais tardana, pessoalmente. O momento me parecia, alis, propcio. Eu tinha bastantes chances de que, nessa hora, Erik no pensasse seno na sua cativa. Era
preciso aproveitar para entrar em sua morada pelo terceiro subsolo, e pensei em juntar a mim, para essa iniciativa, aquele pobrezinho do visconde desesperado, que,
 primeira palavra, aceitou com uma confiana em mim que me sensibilizou profundamente; tinha mandado um domstico buscar as minhas pistolas. Darius veio encontrar-nos
com a caixa no camarim de Christine. Dei uma pistola ao visconde e lhe aconselhei estar pronto para atirar, como eu, pois, afinal de contas, Erik podia estar  nossa
espera atrs da parede. Devamos passar pelo caminho dos communards e pelo alapo.
      O viscondezinho me perguntara, ao ver as minhas pistolas, se amos nos bater em duelo. Certamente! e lhe disse: "Que duelo!" Mas no tive tempo, bem entendido,
de lhe explicar nada. O jovem visconde  corajoso, mas ignorava quase tudo de seu adversrio! E assim era melhor!
      Que  um duelo com o mais terrvel dos espadachins perto do combate com o mais genial dos prestidigitadores? Eu mesmo dificilmente aceitava essa idia de que
ia entrar em luta com um homem que s  visvel quando quer e que, em contrapartida, v tudo ao seu redor, quando tudo para voc permanece escuro!... Com um homem
cuja cincia bizarra, sutileza, imaginao e destreza lhe permitem dispor de todas as foras naturais, combinadas para criar aos nossos olhos ou aos nossos ouvidos
a iluso que  a nossa perda!... E isso, nos subterrneos da pera, quer dizer, no prprio territrio da fantasmagoria! Pode-se imaginar isso sem tremer? Pode-se
ao menos ter uma idia do que poderia acontecer aos olhos e aos ouvidos de um habitante da pera, se se fechasse dentro da pera - nos seus cinco subsolos e nos
seus 25 pavimentos superiores - um Robert Houdin feroz e "gozador", que ora zomba, ora odeia!, que ora esvazia os bolsos, ora mata!... Pensem nisto: "Combater o
amador de alapes?" - Deus meu! Ter ele fabricado em nossa casa, em todos os nossos palcios, desses espantosos alapes pivotantes que so os melhores alapes!
- Combater o amador de alapes no domnio dos alapes!...
      Se a minha esperana era que ele no havia deixado Christine Daa naquela morada do Lago aonde devia t-la transportado, mais uma vez, desmaiada, meu terror
era que ele j estivesse em algum lugar perto de ns, preparando o lao do Pendjab.
      Ningum melhor do que ele sabe lanar o lao do Pendjab, e ele  o prncipe dos estranguladores, como  o rei dos prestidigitadores. Quando terminou de fazer
rir a pequena sultana, no tempo das horas cor-de-rosa de Mazender, ela prpria lhe pedia que se divertisse fazendo-a estremecer. E ele no achou nada melhor do
que o jogo do lao do Pendjab. Erik, que tinha estagiado na ndia, voltara de l com uma destreza incrvel para estrangular. Fazia com que o fechassem num ptio
aonde traziam um guerreiro - no mais das vezes condenado  morte - armado com uma longa lana e com uma larga espada. Quanto a Erik, s tinha o seu lao, e era sempre
no momento em que o guerreiro acreditava estar abatendo Erik com um golpe formidvel que se ouvia o lao assobiar. Com um lance de punho, Erik j tinha apertado
o fino lao no pescoo do inimigo e arrastava-o imediatamente diante da pequena sultana e de suas mulheres que olhavam de uma janela e aplaudiam. A pequena sultana
aprendeu tambm a lanar o lao do Pendjab e matou assim vrias de suas mulheres e at algumas de suas amigas em visita. Mas prefiro abandonar esse assunto da horas
cor-de-rosa de Mazender. Se falei disso  porque, ao chegar com o visconde de Chagny nos subsolos da pera, tive de colocar o meu companheiro de sobreaviso contra
uma possibilidade sempre ameaadora ao redor de ns, de estrangulamento. Certamente, uma vez nos subsolos, as minhas pistolas no podiam mais servir para nada, pois
eu estava certo de que, uma vez que no se tinha oposto de incio  nossa entrada no caminho dos communards, Erik no mais se deixaria ver. Mas sempre podia estrangular-nos.
No tive tempo de explicar tudo isso ao visconde e at nem sei se, caso dispusesse desse tempo, ousaria contar-lhe que havia, em algum lugar na escurido, um lao
do Pendjab pronto para assobiar. Era mesmo intil complicar a situao e limitei-me a aconselhar ao Sr. De Chagny que mantivesse sempre a mo  altura do olho, com
o brao dobrado na posio do atirador de pistola que aguarda o comando de fogo. Nessa posio,  impossvel, mesmo ao mais adestrado estrangulador, lanar eficazmente
o lao do Pendjab. Ao mesmo tempo que no pescoo, ele pega no brao ou na mo, e assim esse lao, que se pode facilmente desfazer, torna-se inofensivo.
      Depois de termos evitado o delegado de polcia e alguns fechadores de portas, depois os bombeiros, e de encontrado pela primeira vez o matador de ratos e passado
despercebidos aos olhos do homem do chapu de feltro, o visconde e eu chegamos sem tropeos ao terceiro subsolo, entre o suporte e o cenrio do Rei de Labore. Fiz
bascular a pedra e saltamos na morada que Erik construra para si dentro do duplo invlucro dos muros de fundao da pera (e isso o mais tranqilamente possvel,
pois que Erik foi um dos primeiros empreiteiros de alvenaria de Philippe Garnier, o arquiteto da pera, e continuara a trabalhar, misteriosamente, sozinho, depois
que as obras estavam oficialmente suspensas, durante a guerra, o cerco de Paris e a Comuna).
      Eu conhecia bastante o meu Erik para acalentar a presuno de chegar a descobrir todos os truques que tinha podido arquitetar durante todo esse tempo: assim,
no estava nada confiante ao saltar para dentro da sua casa. Sabia o que ele tinha feito de certo palcio de Mazender. Da mais inocente construo do mundo ele
fez em pouco tempo a casa do diabo, onde no se podia mais pronunciar uma palavra sem que ela fosse envenenada ou espalhada pelo eco. Quantos dramas de famlia!
Quantas tragdias sangrentas o monstro arrastava atrs de si com os seus alapes! Sem contar que nunca se podia, nos palcios onde implantara os seus truques, saber
exatamente onde a gente se encontrava. Ele tinha invenes espantosas. Certamente, a mais curiosa, a mais horrvel e a mais perigosa de todas era o quarto dos suplcios.
Afora os casos excepcionais em que a pequena sultana se divertia fazendo sofrer o burgus, s se deixava entrar ali os condenados  morte. Era, a meu ver, a mais
atroz fantasia das horas cor-de-rosa de Mazender. Alm do mais, quando o visitante que tinha entrado no quarto dos suplcios "j estava farto", sempre lhe era permitido
ir acabar no lao de Pendjab que se deixava  sua disposio ao p da rvore de ferro!
      Ora, qual no foi a minha emoo, logo depois de ter penetrado na morada do monstro, ao perceber que o cmodo em que acabramos de saltar, o visconde de Chagny
e eu, era justamente a reconstituio exata do quarto dos suplcios das horas cor-de-rosa de Mazender.
      A nossos ps, encontrei o lao do Pendjab que tanto temera toda a noite. Estava convencido de que esse fio j tinha servido para Joseph Buquet. O chefe dos
maquinistas, como eu, deve ter surpreendido, certa noite, Erik no momento em que acionava a pedra do terceiro subsolo. Curioso, tinha, por sua vez, tentado a passagem
antes que a pedra voltasse a se fechar e tinha cado no quarto dos suplcios, e de l s tinha sado morto. Imaginei muito bem Erik arrastando o corpo de que desejava
se livrar at o cenrio do Rei de Lahore e dependurando-o ali para servir de exemplo e para engrossar o terror supersticioso que devia ajud-lo a guardar os acessos
de sua caverna!
      Mas, depois de uma reflexo, Erik voltara para buscar o lao de Pendjab, que  muito singularmente feito de tripas de gato e teria podido excitar a curiosidade
de um juiz de instruo. Assim se explicava o desaparecimento da corda de enforcado.
      E eis que eu o descobria a nossos ps, o lao, no quarto dos suplcios!... No sou pusilnime, mas um suor frio me inundou o rosto.
      A lanterna cujo pequeno disco eu fazia deslizar pelas paredes do famigerado quarto tremia em minha mo.
      O Sr. De Chagny percebeu e me disse:
      - O que  que est acontecendo?
      Fiz-lhe, violentamente, sinal para se calar, pois eu ainda podia ter esta suprema esperana de que estvamos no quarto dos suplcios sem que o monstro soubesse
de nada!
      E mesmo essa esperana no era a salvao, pois eu podia muito bem imaginar que, do lado do terceiro subsolo, o quarto dos suplcios tinha a funo de guardar
a morada do Lago, e isso, talvez, automaticamente.
      Sim, os suplcios iriam talvez comear automaticamente.
      Quem poderia dizer que gestos nossos eles esperavam para isso?
      Recomendei a imobilidade mais absoluta ao companheiro.
      Um silncio esmagador pesava sobre ns.
      E a minha lanterna vermelha continuava a dar a volta pelo quarto dos suplcios... eu o conhecia... eu o conhecia...





23

NO QUARTO DOS SUPLCIOS

      (Continuao da narrativa do Persa)

      Estvamos no centro de uma salinha de forma perfeitamente hexagonal, cujos seis painis de paredes eram interiormente munidos de espelhos, de alto a baixo.
Nos cantos, distinguiam-se muito bem as emendas de espelho... os pequenos setores destinados a girar sobre tambores... Sim, sim, eu os reconheo... e reconheo a
rvore de ferro num canto, no fundo de um desses pequenos setores... a rvore de ferro, com o seu galho de ferro... para os enforcados.
      Eu tinha pegado o brao do meu companheiro. O visconde de Chagny estava todo a tremer de excitao, pronto para gritar para a sua noiva o socorro que lhe trazia...
Temi que ele no conseguisse se conter.
      De repente, ouvimos um rudo  nossa esquerda.
      Foi primeiro como uma porta que se abrisse e se fechasse, no cmodo ao lado, depois houve um gemido surdo. Segurei com mais fora o brao do Sr. De Chagny,
depois ouvimos distintamente estas palavras:
      - E pegar ou largar! A missa de npcias ou a missa de defuntos. Reconheci a voz do monstro.
      Houve ainda um gemido.
      Em seguida, um longo silncio.



      Estava persuadido, agora, de que o monstro ignorava a nossa presena em sua morada, pois, se no fosse assim, teria dado um jeito para que no o ouvssemos.
Bastaria, para isso, que fechasse hermeticamente a janelinha invisvel pela qual os amantes dos suplcios olham para dentro do quarto de suplcios.
      Depois, eu estava certo de que se ele soubesse da nossa presena os suplcios teriam comeado imediatamente.
      Tnhamos, pois, uma grande vantagem sobre Erik: estvamos ao seu lado e ele no sabia de nada.
      O importante era no deix-lo saber, e eu no temia nada quanto o impulso do visconde de Chagny, que queria se atirar atravs das paredes para se juntar a
Christine Daa, que, em intervalos, acreditvamos ouvir gemer.
      - A missa de defuntos no  nada alegre! - disse Erik -, ao passo que a missa de npcias  magnfica!  preciso tomar uma deciso e saber o que se quer! Para
mim,  impossvel continuar a viver assim, no fundo da terra, num buraco, como uma toupeira! Don Juan triunfante est terminado, agora eu quero viver como toda gente.
Quero ter uma mulher como toda gente e iremos passear aos domingos. Inventei uma mscara que me faz ficar com o rosto de qualquer um. No vo nem virar para trs.
Voc ser a mais feliz das mulheres. E cantaremos s para ns, at morrer. Voc est chorando? Tem medo de mim? No fundo, entretanto, eu no sou mau! Ame-me e ver!
S me faltou ser amado para ser bom! Se voc me amasse, eu seria doce como um cordeiro e voc faria de mim o que quisesse.
      Logo o gemido que acompanhava essa espcie de ladainha de amor aumentou. Nunca ouvi nada mais desesperado, e o Sr. De Chagny e eu reconhecemos que esse espantoso
lamento pertencia ao prprio Erik. Quanto a Christine, devia, em algum lugar, talvez do outro lado da parede que tnhamos  nossa frente, permanecer muda de horror,
no tendo mais foras para gritar, com o monstro aos seus ps.
      Esse lamento era tonitruante como a queixa de um oceano. Por trs vezes Erik arrancou da garganta esta queixa do rochedo.
      - Voc no me ama! Voc no me ama! Voc no me ama! Depois, abrandou-se:
      - Por que est chorando? Voc sabe muito bem que me deixa magoado.
      Silncio.
      Cada silncio, para ns, era uma esperana. Dizamos a ns mesmos: "Quem sabe ele deixou Christine atrs da parede".
      S pensvamos na possibilidade de avisar Christine Daa de nossa presena sem que o monstro desconfiasse.
      Agora s podamos sair do quarto dos suplcios se Christine nos abrisse a porta; e era essa a condio primeira para podermos socorr-la, pois ignorvamos
at o lugar em torno de ns onde estava a porta.
      De repente, o silncio ao lado foi quebrado pelo barulho de uma campainha.
      Houve um salto do outro lado da parede e a voz de trovo de Erik:
      - Esto tocando! Queira dar-se ao trabalho de entrar! Uma risada lgubre.
      - Quem mais est chegando para nos atrapalhar? Espere aqui um pouco... vou dizer  sereia para abrir.
      E passos se afastaram, uma porta se fechou. No tive tempo de pensar no novo horror que se preparava; esqueci que o monstro s saa para um novo crime talvez;
s compreendi uma coisa: Christine estava sozinha do outro lado da parede!
      O visconde de Chagny j a chamava:
      - Christine! Christine!
      Uma vez que estvamos ouvindo o que se dizia no cmodo ao lado, no havia nenhuma razo para que o meu companheiro no fosse ouvido por sua vez. E, no entanto,
o visconde teve de repetir vrias vezes o seu chamado.
      Finalmente, uma voz fraca chegou at ns.
      - Estou sonhando - dizia.
      - Christine! Christine! Sou eu, Raoul! Silncio.
      - Mas responda, Christine!... se voc est sozinha, em nome de Deus, responda.
      Ento a voz de Christine murmurou o nome de Raoul.
      - Sim! Sim! Sou eu! No  um sonho!... Christine, tenha confiana!... Estamos aqui para salv-la... Mas nenhuma imprudncia!... Quando voc ouvir o monstro,
avise-nos.
      - Raoul! Raoul!
      Ela quis que lhe repetisse vrias vezes que no estava sonhando e que Raoul de Chagny conseguira vir at ela, conduzido por um companheiro dedicado que conhecia
o segredo da morada de Erik.
      Mas, brevemente,  muito fugaz alegria que lhe trazamos sucedeu um terror maior. Ela queria que Raoul se afastasse imediatamente. Tremia de medo de que Erik
descobrisse o seu esconderijo pois, nesse caso, ele no hesitaria em matar o rapaz. Informou-nos em poucas palavras que Erik tinha ficado totalmente louco de amor
e estava decidido a matar todo mundo e a si mesmo, se ela no consentisse em se tornar sua mulher diante do juiz e do vigrio da igreja da Madeleine. Ele lhe tinha
dado at o dia seguinte s 11 horas da noite para pensar. Era o ltimo prazo. Era preciso ento escolher, como ele dizia, entre a missa de npcias e a missa de defuntos!
      E Erik pronunciara esta frase que Christine no tinha entendido muito bem: "Sim ou no; se for no, todo mundo est morto e enterrado!"
      Mas eu, sim, entendi bem a frase, pois ela correspondia de maneira terrvel ao meu pensamento temvel.
      - Poderia nos dizer onde est Erik? - perguntei. Ela respondeu que ele devia ter sado da morada.
      - Voc poderia certificar-se disso?
      - No!... Estou amarrada... no posso fazer nenhum movimento.
      Ao ouvir isso, o Sr. De Chagny e eu no pudemos reter um grito de raiva. Nossa salvao, dos trs, dependia da liberdade de movimentos da moa.
      - Oh! libert-la! Chegar at ela!
      - Mas onde  que voc est? - perguntou ainda Christine... Existem duas portas no meu quarto: o quarto Louis Philippe, de que lhe falei, Raoul!... uma porta
por onde Erik entra e sai, e outra que nunca foi aberta na minha frente e pela qual ele me proibiu de jamais passar, porque  a mais perigosa das portas... a porta
dos suplcios!...
      - Christine, estamos atrs dessa porta!...
      - Esto no quarto dos suplcios?
      - Estamos, mas no vemos a porta.
      - Ah! se eu pudesse pelo menos me arrastar at ela!... Eu bateria na porta e vocs veriam o lugar exato da porta.
      -  uma porta com uma fechadura? - perguntei.
      - , com uma fechadura.
      Pensei: "Ela se abre do outro lado com uma chave, como todas as portas, mas do nosso lado ela se abre com a mola e o contrapeso, e isso no vai ser fcil de
descobrir".
      - Christine! - disse -,  absolutamente necessrio que nos abra essa porta.
      - Mas como? - respondeu a voz chorosa da infeliz. Ouvimos um corpo que tentava com toda evidncia se livrar das amarras que o aprisionavam...
      - A nica sada para ns  a astcia - disse eu. - Precisamos ter a chave dessa porta...
      - Sei onde ela est - respondeu Christine que parecia esgotada pelo esforo que acabara de fazer. - Mas continuo amarrada!... Aquele miservel!...
      E houve um suspiro.
      - Onde est a chave? - perguntei, ordenando ao Sr. De Chagny que se calasse e me deixasse conduzir a ao, pois no tnhamos tempo a perder.
      - No quarto, ao lado do rgo, com uma outra chavinha de bronze, em que tambm ele me proibiu de tocar. Esto ambas numa bolsinha de couro que ele chama de
A bolsinha da vida e da morte... Raoul!... Raoul... fuja!... tudo aqui  misterioso e terrvel... e Erik vai ficar enlouquecido se descobrir que esto aqui... E
vocs esto no quarto dos suplcios!... Vo embora por onde vieram! Esse quarto deve ter razes para ser chamado assim!
      - Christine! - disse o rapaz -, ns sairemos daqui juntos ou morreremos!
      - S depende de ns sairmos daqui sos e salvos - repliquei -, mas  preciso conservar o sangue-frio. Por que ele amarrou voc? Voc no pode escapar da casa
dele, ele bem sabe!
      - Eu quis me matar! O monstro, esta noite, depois de ter-me transportado desmaiada para c, meio cloroformizada, ausentou-se. Estava, foi ele quem me disse,
na casa do seu banqueiro!... Quando voltou, encontrou-me com o rosto em sangue... eu tinha tentado me matar! Tinha batido a testa nas paredes.
      - Christine! - gemeu Raoul e comeou a soluar.
      - Ento ele me amarrou... no tenho o direito de morrer a no ser amanh  noite, s 11 horas!...
      Toda essa conversa atravs da parede era muito mais entrecortada e muito mais prudente do que eu poderia dar a impresso ao transcrev-la aqui. Muitas vezes
parvamos no meio de uma frase, porque nos parecia ouvir um estalido, um passo, um movimento inslito... Ela nos dizia: "No! No! no  ele!... Ele saiu! Ele saiu
mesmo! Reconheci o barulho que faz, ao se fechar, a parede do lago".
      - Christine! - disse eu -, foi o monstro que a amarrou... ele  quem vai desamarr-la... Trata-se apenas de representar a pea necessria para isso!... No
esquea que ele a ama!
      - Infeliz de mim, como farei para esquec-lo um dia!
      - Lembre-se disso para lhe sorrir... suplique-lhe... diga-lhe que essas amarras a esto machucando.
      Mas Christine Daa nos disse:
      - Psiu!... Estou ouvindo algo na parede do lago!... E ele!... Vo-se embora!... Vo-se embora!... Vo-se embora!...
      - No iremos embora, mesmo se quisermos! - afirmei de modo a impressionar a moa. - No podemos mais sair! E estamos no quarto dos suplcios!
      - Silncio! - sussurrou Christine.
      Calamo-nos os trs. Passos pesados arrastavam-se lentamente atrs da parede, depois paravam e de novo faziam gemer o assoalho.
      Ento houve um suspiro formidvel seguido de um grito de horror de Christine, e ouvimos a voz de Erik.
      - Peo-lhe perdo por lhe mostrar um rosto como este! Estou num belo estado, no ? A culpa  do outro! Por que tocou a campainha? Acaso pergunto aos que passam
que horas so? Ele no perguntar mais a hora para ningum.  culpa da sereia...
      Mais um suspiro, mais profundo, mais formidvel, vindo das profundezas do abismo de uma alma.
      - Por que voc gritou, Christine?
      - Porque estou sofrendo, Erik.
      - Pensei que lhe tinha metido medo...
      - Erik, desamarre as cordas... no sou a sua prisioneira?
      - Voc ainda vai querer morrer...
      - Voc me deu at amanh  noite, s 11 horas, Erik... Os passos se arrastam ainda no assoalho.
      - Afinal de contas, j que devemos morrer juntos... e tenho tanta pressa quanto voc... sim, eu tambm, estou farto desta vida, voc entende!... Espere, no
se mexa, vou soltar voc... Voc s tem uma palavra a dizer: no! e tudo estar acabado imediatamente, para todo o mundo... Voc tem razo... voc tem razo! Por
que esperar at amanh s 11 horas da noite? Ah! sim, porque ficaria mais bonito!... sempre tive a doena do decoro... do grandioso...  infantil!... E preciso pensar
s em si mesmo na vida!... em sua prpria morte... o resto  suprfluo... Est vendo como estou molhado?... Ah! minha querida,  que eu fiz mal de sair... est um
tempo do co!... Afora isso, Christine, creio que estou tendo alucinaes... Sabe, aquele que estava tocando h pouco a campainha da sirene, v ver no fundo do lago
se ele ainda toca. Pois bem, ele parecia... A, vire... est contente? Voc est livre... Meu Deus! os seus pulsos, Christine! eu os machuquei, diga?... S isso
j merece a morte... Por falar em morte, eu preciso cantar a missa para ele!
      Ao ouvir essas terrveis palavras, no pude evitar um pressentimento horroroso... Tambm, uma vez, havia tocado a campainha  porta do monstro... e sem o saber,
 claro, tinha acionado alguma corrente de alarme... E ainda me lembro dos dois braos que saram das guas negras como tinta... quem era desta vez o infeliz perdido
naquelas margens?
      O pensamento daquele infeliz me impedia quase de me alegrar com o estratagema de Christine e, no entanto, o visconde de Chagny murmurava no meu ouvido esta
palavra mgica: "Livre!..." Quem? Quem era o outro? Aquele por quem ouvamos agora a missa de defuntos?
      Ah! esse canto sublime e furioso! Toda a casa do Lago troava com ele... Todas as entranhas da terra estremeciam... Tnhamos aplicado os ouvidos contra a parede
de espelho para ouvir melhor o jogo de Christine Daa, o jogo que ela jogava para nossa libertao, mas s ouvamos a missa de defuntos. Aquilo era mais uma missa
de condenados... Fazia, no fundo da terra, uma ronda de demnios.
      Lembro-me de que o Dies irae que ele cantou nos envolveu como uma tempestade. Sim, tnhamos o raio ao redor de ns, e relmpagos... Realmente! eu o ouvira
cantar no passado... Ele chegava at a fazer cantar as gargantas de pedra dos meus touros androcfalos, nas muralhas do palcio de Mazender... Mas cantar assim,
nunca! nunca! Ele cantava como o deus do trovo...
      De repente, a voz e o rgo pararam to bruscamente que o Sr. De Chagny e eu recuamos atrs da parede, de tal modo ficamos surpresos... E a voz, subitamente
mudada, transformada, rangeu distintamente todas estas slabas metlicas:
      - O que  que voc fez da minha bolsa?




24

COMEAM OS SUPLCIOS

      (Continuao da narrativa do Persa)

      A voz repetiu com furor:
      - O que  que voc fez da minha bolsa?
      Christine Daa no devia estar tremendo mais do que ns.
      - Era para pegar a minha bolsa que voc queria que eu a soltasse, diga?...
      Ouviram-se passos precipitados, a corrida de Christine que voltava para o quarto Louis Philippe, como para buscar abrigo diante da nossa parede.
      - Por que voc est fugindo? - Dizia a voz enraivecida que a seguia... - Voc quer me devolver a minha bolsa!? Voc no sabe que  a bolsa da vida e da morte?
      - Oua-me, Erik, visto que doravante ficou combinado que devemos viver juntos... o que  que o preocupa?... Tudo o que  seu me pertence!...
      Isso foi dito de maneira to trmula que dava d. A coitada devia estar usando tudo que lhe restava de energia para vencer o seu terror... Mas no era com
protestos to infantis, ditos a bater os dentes, que se podia surpreender o monstro.
      - Voc sabe que a dentro s esto duas chaves... O que  que voc quer fazer? - perguntou.
      - Eu queria visitar aquele quarto que eu no conheo e que voc sempre me escondeu... E uma curiosidade de mulher! - acrescentou num tom que queria mostrar-se
sedutor, mas s conseguiu aumentar a desconfiana de Erik de tanto que soava falso...
      - No gosto de mulheres curiosas! - replicou Erik -, e voc deveria se precaver desde a histria do Barba-Azul... Vamos! devolva a minha bolsa!... devolva
a minha bolsa!... Pequena curiosa!
      E ele deu uma risada enquanto Christine soltava um grito de dor... Erik acabara de retomar a bolsa.
      Foi nesse momento que o visconde, perdendo o controle, lanou um grito de raiva e de impotncia, que tive grande dificuldade para reter em seus lbios...
      - Ora essa! - disse o monstro. - O que  isso?... Voc no ouviu, Christine?
      - No! no! - respondeu a infeliz -, no ouvi nada!
      - Parece-me que deram um grito!
      - Um grito!.. Voc est ficando louco, Erik?... Quem voc acha que iria gritar no fundo desta morada?... Fui eu que gritei porque voc estava me machucando!...
Eu no ouvi nada!...
      - Enquanto voc est dizendo isso, voc est tremendo!... Voc est bastante perturbada!... Voc est mentindo!... Algum gritou! algum gritou! H algum
no quarto dos suplcios!... Ah! estou entendendo agora!...
      - No tem ningum, Erik!...
      - Estou entendendo!...
      - Ningum!...
      - O seu noivo... talvez!...
      - Eu no tenho noivo!... Voc sabe muito bem!... Mais uma risada sardnica.
      - Alis,  to fcil saber... Minha queridinha, meu amor... no  preciso abrir a porta para ver o que se passa no quarto dos suplcios... Basta puxar a cortina
preta e apagar as luzes aqui... Pronto, est feito... Vamos apagar! Voc no tem medo da noite, na companhia do seu maridinho!...
      Ento se ouviu a voz agonizante de Christine.
      - No!... Eu tenho medo!... Eu lhe digo que morro de medo na noite!... Aquele quarto no me interessa mais!... E voc que me deixa com medo o tempo todo, como
a uma criana, com esse quarto dos suplcios!... Ento fiquei curiosa,  verdade!... Mas ele no me interessa mais, absolutamente... absolutamente!...
      E aquilo que eu temia mais do que tudo comeou automaticamente... Fomos, de repente, inundados de luz!... Sim, atrs da nossa parede, foi como um abrasamento.
O visconde de Chagny, que no esperava por aquilo, ficou to surpreso que cambaleou. E a voz de clera estrondeou ao lado.
      - Eu lhe disse que tinha algum!... Voc est vendo, agora a janela?... a janela luminosa!... Bem l no alto!... Quem est atrs da parede no a v!... Mas
voc vai subir na escadinha. Ela est a para isso!... Voc me perguntou muitas vezes para que ela servia... Pois bem, voc agora est sabendo!... Serve para se
olhar pela janela do quarto dos suplcios... pequena curiosa!...
      - Que suplcios?... que suplcios existem l dentro?... Erik! Erik! diga-me que voc quer meter-me medo!...Diga-me isso, se voc me ama, Erik!... No  verdade
que no h suplcios? So histrias para crianas!...
      - V ver, minha querida, na janelinha!...
      No sei se o visconde, ao meu lado, ouvia agora a voz abatida da jovem mulher, de tal modo estava ocupado com o espetculo inaudito que acabara de surgir diante
dos seus olhos perdidos... Quanto a mim, que j tinha visto esse espetculo muitas vezes, pela janelinha das horas cor-de-rosa de Mazender, estava atento ao que
se dizia ao lado, buscando uma razo para agir, uma resoluo a tomar.
      - V olhar, v olhar na janelinha!... Voc me dir!... Voc me dir depois como  feito o nariz dele!
      Ouvimos rolar a escada que foi encostada  parede...
      - Suba ento!... No!... No, eu vou subir... eu, minha querida!...
      - Pois bem, deixe... eu vou ver... deixe-me!
      - Ah! minha queridinha!... Minha queridinha!... como voc  engraadinha... E muito gentil da sua parte poupar-me desse trabalho, na minha idade!... Voc me
dir como  feito o nariz dele!... Se as pessoas tivessem idia da felicidade que h em se ter um nariz... um nariz bem da gente... nunca viriam passear no quarto
dos suplcios!...
      Nesse instante, ouvimos distintamente, acima de nossas cabeas, estas palavras:
      - Meu amigo, no h ningum!...
      - Ningum?... Voc est certa de que no h ningum?...
      - Palavra, no... no h ningum...
      - Ora, tanto melhor!... O que  que voc tem, Christine?...
      Ora, qu! Voc no vai se sentir mal!... J que no h ningum!... L!... desa!... A!... Recupere-se, j que no h ningum... Mas o que voc acha da paisagem?...
      - Oh! muito bonita!...
      - Vamos! agora est melhor!... No , est melhor!... Tanto melhor!... Sem emoo!... E que casa esquisita, no , onde se podem ver semelhantes paisagens?...
      - Sim, parece que se est no Museu Grvin!... Mas diga, Erik... no h suplcios l dentro!... Sabe que voc me ps um medo!...
      - Por qu, j que no h ningum!...
      - Foi voc quem fez aquele quarto, Erik?... Sabe que  muito bonito! Realmente, voc  um grande artista, Erik...
      - Sim, um grande artista "no meu gnero".
      - Mas diga-me, Erik, por que voc chama de quarto dos suplcios?...
      - E bem simples. Primeiro, o que foi que voc viu?
      - Vi uma floresta!...
      - E o que h na floresta?
      - rvores!...
      - E o que h numa rvore?
      - Passarinhos...
      - Voc viu passarinhos...
      - No, no vi passarinhos.
      - Ento, o que foi que voc viu? Procure!... Voc viu galhos! E o que h num galho? - pergunta a voz terrvel. - H uma forca! A est por que chamo a minha
floresta de quarto dos suplcios!... Est vendo, no passa de um modo de falar! Tudo isso  de brincadeira!... Eu nunca me exprimo como os outros!... No fao nada
como os outros!... Mas j estou cansado de tudo isso!... bem cansado!... Estou farto, est vendo, de ter uma floresta na minha casa e um quarto dos suplcios!...
E de ficar alojado, como um charlato, no fundo de uma caixa de fundo duplo!... Estou farto!... estou farto!... Quero ter um apartamento tranqilo, com portas e
janelas comuns e uma mulher honesta dentro, como toda a gente!... Voc deveria entender isso, Christine, e eu no devia precisar repetir-lhe isso a toda hora!...
Uma mulher como toda gente tem!...
      Uma mulher que eu amaria, que levaria para passear aos domingos, e que eu faria rir a semana toda! Ah! Voc no ia se aborrecer comigo! Eu tenho mais de um
truque na manga, sem contar os truques de baralho!... Escute! Quer que eu lhe mostre um truque de baralho? Sempre vai servir para passarmos alguns minutos, enquanto
esperamos chegar amanh  noite, 11 horas!... Minha pequena Christine!... Minha pequena Christine!... Voc est me escutando?... Voc vo me rejeita mais!... diga?
Voc me ama!... No, voc no me ama!... Mas no faz mal! Voc me amar! Antigamente voc no podia olhar para a minha mscara porque no sabia o que estava atrs...
E agora voc pode olhar e voc esquece o que est atrs, e voc aceita no me rejeitar mais!... A gente se acostuma com tudo, quando quer... quando se tem boa vontade!...
quantos jovens que no se amavam antes do casamento passaram a se adorar depois! Ah! no sei mais o que estou dizendo... Mas voc vai se divertir muito comigo!...
No existe um como eu, por exemplo, isso eu lhe juro diante do bom Deus que vai nos casar - se voc for razovel -, no h ningum como eu para fazer o truque do
ventrloquo! Sou o primeiro ventrloquo do mundo! Voc est rindo?... Voc no acredita em mim!... Escute!
      O miservel (que era de fato o primeiro ventrloquo do mundo) atordoava a pequena (eu me dava conta disso perfeitamente) para desviar-lhe a ateno do quarto
dos suplcios!... Clculo estpido!... Christine s pensava em ns!... Ela repetiu vrias vezes, no tom mais meigo que pde encontrar e com a mais ardente splica:
"Apague a janelinha!... Erik! apague a janelinha!..."
      Porque ela pensava que aquela luz, de repente surgida na janelinha, e de que o monstro tinha falado de maneira to ameaadora, tinha a sua razo terrvel de
ser... Uma nica coisa devia tranqiliz-la momentaneamente:  que ela nos tinha visto a ambos, atrs da parede, no centro do magnfico abrasamento, de p e bem
dispostos!... Mas teria ficado mais sossegada, claro, se a luz fosse apagada...
      O outro j tinha comeado a sua demonstrao de ventrloquo. Dizia:
      - Olhe, estou levantando um pouco a minha mscara! Um pouco s... Est vendo os meus lbios? O que tenho de lbios? Eles no se movem!... Minha boca est fechada...
minha espcie de boca... e no entanto voc est ouvindo a minha voz!... Eu falo com a barriga...  muito natural... chamam a isso ser ventrloquo!...  bastante
conhecido: oua a minha voz... aonde voc quer que ela v? No seu ouvido esquerdo? no seu ouvido direito?... na mesa?... nos cofrinhos de bano da lareira!... Ah!
isso a espanta?... Minha voz est nos cofrinhos da lareira! Voc a quer distante?... Voc a quer prxima?... Retumbante?... Aguda?... Fanhosa?... Minha voz passeia
por toda parte!... por toda parte!... Oua, minha querida... no cofrinho da direita da lareira, e oua o que ela est dizendo:  preciso girar o escorpio?... E
agora oua ainda o que ela diz no cofrinho da esquerda:  preciso girar o gafanhoto? E agora l est ela na bolsinha de couro... O que  que ela diz? "Eu sou a bolsinha
da vida e da morte!" E agora ela est na garganta de Carlotta, no fundo da garganta dourada, da garganta de cristal de Carlotta, minha palavra!... O que  que ela
diz? Ela diz: "Sou eu, o senhor sapo! sou eu quem canta Escuto essa voz solitria... coaxo!... que canta coaxando!!..." E agora ela chegou a uma cadeira do camarote
do fantasma... e ela diz: "A Sra. Carlotta esta noite est cantando de arrancar o lustre!..." E agora, ah! ah! ah!... aonde vai a voz de Erik?... Oua, Christine,
minha querida!... Oua... Ela est atrs da porta do quarto dos suplcios!... Oua-me!... Sou eu que estou no quarto dos suplcios!... E o que  que eu digo? Digo:
"Ai daqueles que tm a felicidade de ter um nariz, um nariz prprio e de verdade, e que vm passear no quarto dos suplcios!... Ah! ah! ah!"
      Maldita voz do formidvel ventrloquo! Ela estava por toda parte, por toda parte!... Passava pela janelinha invisvel... atravs das paredes... corria ao redor
de ns... entre ns... Erik estava ali!... Falava conosco!... Fizemos um gesto como que para nos atirar sobre ele... mas, j, mais rpido, mais inatingvel do que
a voz sonora do eco, a voz de Erik tinha saltado de volta para trs da parede!...
      Logo no pudemos mais ouvir absolutamente nada, pois eis o que se passou:
      A voz de Christine:
      - Erik! Erik!... Voc est me cansando com a sua voz... Fique quieto, Erik!... Voc no acha que est fazendo muito calor aqui?...
      - Oh! Sim! - respondeu a voz de Erik -, o calor est se tornando insuportvel!...
      E de novo a voz rouca de angstia de Christine:
      - O que significa isto?!... A parede est toda quente!... A parede est queimando!...
      - Vou lhe dizer, Christine, minha querida,  por causa da "floresta ao lado!..."
      - E ento... o que  que voc quer dizer... a floresta?...
      - Voc no viu ento que era uma floresta do Congo?
      E a risada do monstro explodiu to terrvel que no distinguamos mais os clamores suplicantes de Christine!... O visconde de Chagny gritava e batia nas paredes
como um louco... Eu no conseguia mais segur-lo... Mas s se ouvia a risada do monstro... e o monstro mesmo s devia ouvir seu prprio riso... Depois houve o rudo
de uma rpida luta, de um corpo que cai no cho e que  arrastado... e o estalo de uma porta que se fecha com toda fora... e depois, nada mais ao redor de ns a
no ser o silncio abrasado do meio-dia... no corao de uma floresta da frica!...









25

"TONIS! TONIS! TM TONIS PARA VENDER?"

      (Continuao da narrativa do Persa)

      Eu disse que aquele quarto em que nos encontrvamos, o Sr. De Chagny e eu, era regularmente hexagonal e inteiramente revestido de espelhos. Viu-se depois,
principalmente em certas exposies, esse tipo de quartos dispostos absolutamente assim e chamados "casa das miragens" ou "palcio das iluses". Mas a inveno cabe
inteiramente a Erik, que construiu, sob a minha vista, a primeira sala desse gnero no tempo das horas cor-de-rosa de Mazender. Bastava colocar em um dos cantos
algum motivo decorativo, como uma coluna, por exemplo, para se ter instantaneamente um palcio com mil colunas, pois, pelo efeito dos espelhos, a sala real se desdobrava
em seis salas hexagonais, das quais cada uma se multiplicava ao infinito. Outrora, para divertir a "pequena sultana", ele tinha arrumado um cenrio que se tornara
o "templo inumervel"; mas a pequena sultana se cansou depressa de uma iluso to infantil, e ento Erik transformou a sua inveno em cmara de suplcios. Em vez
do motivo arquitetnico posto nos cantos, colocou no primeiro quadro uma rvore de ferro. Por que essa rvore, que imitava perfeitamente a vida, com suas folhas
pintadas, era de ferro? Porque tinha de ser bastante forte para resistir a todos os ataques do "paciente" que era trancado na cmara dos suplcios. Veremos como,
por duas vezes, o cenrio assim obtido se transformou instantaneamente em dois outros cenrios sucessivos, graas  rotao automtica dos tambores que se encontravam
nos cantos e tinham sido divididos por teros, adequando-se aos ngulos dos espelhos e suportando cada motivo decorativo que aparecia por sua vez.
      As paredes dessa estranha sala no ofereciam ao paciente nada a que ele pudesse se agarrar, visto que, afora o motivo decorativo de uma resistncia a toda
prova, eram guarnecidas apenas de espelhos suficientemente grossos para que no houvesse nada a temer da raiva do miservel que lanavam l dentro, alis, de mos
limpas e ps descalos.
      Nenhum mvel. O teto era luminoso. Um sistema engenhoso de aquecimento eltrico, que foi imitado depois, permitia aumentar a temperatura das paredes  vontade
e dar assim  sala a temperatura desejada...
      Fao questo de enumerar todos os pormenores precisos de uma inveno natural que d a impresso sobrenatural, com alguns galhos pintados, de uma floresta
equatorial abrasada pelo sol do meio-dia, para que ningum possa pr em dvida a tranqilidade atual do meu crebro, para que ningum tenha o direito de dizer: "Esse
homem ficou louco", ou "esse homem est mentindo", ou "esse homem nos toma por imbecis".12
      Se eu tivesse simplesmente contado as coisas assim: "Tendo descido ao fundo de um poro, encontramos uma floresta equatorial abrasada pelo sol do meio-dia",
teria obtido um grande espanto, mas no busco causar espanto em ningum, sendo o meu objetivo, ao escrever estas linhas, contar exatamente o que nos aconteceu, ao
Sr. visconde de Chagny e a mim, no decurso de uma aventura terrvel que, em dado momento, ocupou a Justia deste pas.
      Retomo agora os fatos onde os deixei.
      Quando o teto se iluminou e, ao redor de ns, a floresta se iluminou, a estupefao do visconde ultrapassou tudo que se possa imaginar. A apario dessa floresta
impenetrvel, cujos troncos e galhos incontveis nos enlaavam at o infinito, mergulhou-o numa consternao apavorante. Passou a mo na testa como para espantar
uma viso de sonho e os seus olhos piscavam como olhos que tm dificuldade, ao acordar, para retomar a conscincia da realidade das coisas. Por um instante, ele
se esqueceu de escutar!
      Disse que a apario da floresta no me surpreendeu. Assim, continuava escutando, para ns dois, o que se passava na sala ao lado. Finalmente, minha ateno
ficou especialmente voltada menos para o cenrio, de que o meu pensamento se livrava, do que para o prprio espelho que o produzia. Esse espelho, em alguns pontos,
estava fendido.
      Sim, tinha trincaduras; tinham conseguido "estrel-lo", apesar de sua solidez, e isso me provava, sem deixar dvidas, que o quarto dos suplcios em que nos
encontrvamos j tinha sido utilizado!
      Algum infeliz, cujos ps e mos estavam menos despidos do que os dos condenados das horas cor-de-rosa de Mazender, tinha certamente cado nessa "iluso mortal",
e, louco de raiva, tinha batido nesses espelhos que, apesar de suas leves feridas, no deixaram de continuar refletindo a sua agonia! E o galho da rvore, onde terminara
o seu suplcio, estava disposto de tal forma que, antes de morrer, tinha podido ver estrangular-se junto com ele - consolo supremo - milhares de enforcados!
      Sim! Sim! Joseph Buquet tinha passado por ali!...
      Tambm ns vamos morrer como ele?
      Eu no acreditava, pois sabia que ainda tnhamos algumas horas e poderia us-las mais utilmente do que Joseph Buquet fora capaz de fazer.
      No tinha eu um conhecimento aprofundado da maioria dos truques de Erik? Era o momento - ou nunca mais - de me servir dele.
      Primeiro, no pensei mais em voltar pela passagem que nos conduzira a esse quarto maldito, no me preocupei mais com a possibilidade de repetir o movimento
da pedra interior que fechava essa passagem. A razo era simples: eu no tinha os meios!... Tnhamos saltado de muito alto para dentro do quarto dos suplcios e
nenhum mvel nos permitia de ora em diante atingir aquela passagem, nem mesmo o galho da rvore de ferro, nem mesmo os ombros de um de ns dois que servisse de escada.
      S havia uma sada possvel: a que dava para o quarto Louis Philippe, onde se encontravam Erik e Christine Daa. Mas, se essa sada do lado de Christine tinha
o aspecto de uma porta comum, do nosso lado ela era totalmente invisvel... Era preciso ento tentar abri-la sem mesmo saber em que lugar da parede estava, o que
no era uma tarefa corriqueira.
      Quando estive completamente certo de que no havia mais nenhuma esperana para ns, quando ouvi o monstro puxar, ou melhor, arrastar a infeliz moa para fora
do quarto Louis Phillipe para que ela no atrapalhasse o nosso suplcio, resolvi entregar-me totalmente  tarefa, isto ,  procura do truque da porta.
      Mas primeiro foi necessrio acalmar o Sr. De Chagny, que j andava pela clareira como um alucinado, soltando clamores incoerentes. Os farrapos de conversa
que ele pde captar, apesar de sua emoo, entre Christine e o monstro no tinham contribudo pouco para coloc-lo fora de si; se acrescentarmos a isso o golpe da
floresta mgica e o calor escaldante que comeava a fazer escorrer o suor em suas fontes, no ser difcil entender que o humor do Sr. De Chagny comeava a sofrer
certa exaltao. Apesar de todas as minhas recomendaes, meu companheiro no demonstrava mais nenhuma prudncia.
      Ia e vinha sem razo, precipitava-se num espao inexistente, acreditando entrar numa alameda que conduzia ao horizonte e chocando a testa, depois de alguns
passos, contra o prprio reflexo de sua iluso de floresta!
      Enquanto fazia isso, gritava: "Christine! Christine!..." e brandia a pistola, chamando ainda, com todas as suas foras, o monstro, desafiando para um duelo
de morte o Anjo da msica, e injuriava igualmente a sua floresta ilusria. Era o suplcio que produzia o seu efeito numa mente desprevenida. Tentei tanto quanto
possvel combater isso, fazendo, com toda tranqilidade, com que o visconde voltasse  plenitude de sua razo: fi-lo tocar com a mo os espelhos e a rvore de ferro,
os galhos sobre os tambores, explicando-lhe, segundo as leis da ptica, todo o jogo de imagens luminosas de que estvamos cercados e de que no podamos, como ignorantes
vulgares, nos tornar vtimas!
      - Estamos num quarto, num pequeno quarto, eis a o que o senhor deve repetir continuamente... e sairemos deste quarto quando tivermos encontrado a porta. Pois
bem, procuremos essa porta!
      E prometi-lhe que, se me deixasse agir, sem me atordoar com os seus gritos e seus passeios de louco, antes de uma hora eu encontraria a porta.
      Ento ele se deitou no cho e declarou que esperaria que eu achasse a porta da floresta, j que no tinha nada melhor para fazer! E ainda acrescentou que,
do lugar onde se encontrava, "a vista era esplndida". (O suplcio, apesar de tudo que eu tinha dito, continuava agindo.)
      Quanto a mim, esquecendo a floresta, escolhi um painel de espelhos e pus-me a apalp-lo em todos os sentidos, procurando o seu ponto fraco, onde se devia apertar
para fazer girar as portas segundo o sistema das portas e alapes pivotantes de Erik. s vezes esse ponto fraco podia ser uma simples mancha sobre o espelho, do
tamanho de uma ervilha, por baixo da qual estava a mola que se devia acionar. Procurei! Procurei! Apalpei to alto quanto as minhas mos podiam alcanar. Erik tinha
mais ou menos o meu porte e eu achava que ele no tinha colocado a mola acima do que a sua altura poderia atingir - isso era, alis, apenas uma hiptese, mas era
a minha nica esperana. - Decidira assim, sem fraquejar e minuciosamente, fazer a volta dos seis painis de espelhos e depois examinar igualmente, com muita ateno,
o piso.
      Ao mesmo tempo que apalpava cuidadosamente os painis, esforava-me por no perder um minuto, pois o calor me dominava cada vez mais e estvamos literalmente
sendo cozinhados nessa floresta inflamada.
      Estava trabalhando assim havia meia hora e terminara trs painis quando nossa m sorte quis que eu me voltasse para uma surda exclamao lanada pelo visconde.
      - Estou sufocando! - disse ele. - Todos esses espelhos enviam uns aos outros um calor infernal!... Ser que voc vai demorar para encontrar a sua mola? Se
voc atrasar um pouco, vamos ficar assados aqui dentro!
      No me desagradou ouvi-lo falar assim. No tinha dito nenhuma palavra sobre a floresta e esperei que a razo do meu companheiro pudesse lutar por bastante
tempo ainda contra o suplcio. E ele acrescentou:
      - O que me consola  que o monstro deu at amanh s 11 horas da noite a Christine: se no pudermos sair daqui para socorr-la, pelo menos teremos morrido
antes dela! A missa de Erik poder servir para todos!
      E aspirou uma baforada de ar quente que quase o fez desmaiar...
      Como eu no tivesse as mesmas razes desesperadas que o visconde de Chagny para aceitar a morte, voltei-me, depois de algumas palavras encorajadoras, para
o painel, mas fiz mal de dar alguns passos enquanto falava; tanto assim que no entrecruzamento enorme da floresta ilusria no sabia mais com certeza qual era o
meu painel! Via-me obrigado a recomear tudo, ao acaso... Assim, no pude deixar de manifestar minha desdita e o visconde entendeu que tudo estava por refazer. Isso
lhe deu um novo golpe.
      - Nunca sairemos desta floresta! - gemeu.
      E o seu desespero no fez mais que aumentar. E, aumentando, esse desespero o fazia cada vez mais se esquecer que estava tratando com espelhos e acreditar cada
vez mais que estava a braos com uma floresta verdadeira.
      Eu tinha voltado s minhas buscas... a tatear... A febre, agora, comeava a tomar conta de mim... pois eu no encontrava nada... absolutamente nada... No quarto
ao lado era sempre o mesmo silncio. Estvamos mesmo perdidos na floresta... sem sada... sem bssola... sem guia... sem nada. Oh! eu sabia o que nos esperava se
ningum viesse em nosso socorro... ou se no achasse a mola... Mas por mais que a procurasse, s achava galhos... admirveis, belos galhos que se erguiam bem eretos
diante de mim ou se arredondavam preciosamente acima de minha cabea... Mas no faziam sombra! E bastante natural, alis, visto que estvamos numa floresta equatorial
com o sol bem acima de nossas cabeas... uma floresta do Congo...
      Repetidas vezes, o Sr. De Chagny e eu tnhamos tirado e voltado a colocar os nossos casacos, achando ora que nos davam mais calor, ora que nos protegiam, ao
contrrio, desse calor.
      Eu ainda resistia moralmente, mas o Sr. De Chagny me pareceu totalmente "desligado". Ele julgava que j fazia trs dias e trs noites que estvamos caminhando
na floresta, sem parar, em busca de Christine Daa. De vez em quando, acreditava que a avistava atrs de um tronco de rvore ou deslizando entre os galhos, e a chamava
com palavras suplicantes que me faziam vir lgrimas aos olhos.
      - Christine! Christine! - dizia -, por que voc foge de mim? Voc no me ama?... No estamos noivos?... Christine, pare!... Voc est vendo que estou exausto!...
Christine, tenha piedade!... Vou morrer na floresta... longe de voc!... Oh! tenho sede! - disse ele finalmente com um acento delirante.
      Eu tambm estava com sede... estava com a garganta em fogo....
      E no entanto, agachado agora no cho, isso no me impedia de procurar... procurar... procurar a mola da porta invisvel... tanto mais que o dia na floresta
se tornava perigoso com a aproximao da noite... isso chegou rpido como cai a noite nas regies equatoriais... subitamente, quase sem crepsculo...
      Ora, a noite nas florestas do equador  sempre perigosa, principalmente quando a gente no tem com que acender uma fogueira para afastar os animais ferozes.
Eu bem que tentei, deixando um pouco de lado a busca da minha mola, quebrar alguns galhos que eu acenderia com a minha lanterna surda, mas esbarrara, tambm eu,
nos famigerados espelhos, e isso me lembrou a tempo que s estvamos lidando com imagens de galhos...
      Com o dia, o calor no foi embora, pelo contrrio... Fazia ainda mais calor sob o claro azul da lua. Recomendei ao visconde que mantivesse as nossas armas
prontas para fazer fogo e que no se afastasse do lugar do nosso acampamento, enquanto eu continuava procurando a mola.
      De repente, ouviu-se o rugido do leo, a alguns passos. O rudo dilacerou os nossos ouvidos.
      - Ele no est longe! - disse o visconde em voz baixa -, ele no est longe!... No o est vendo?... ali... por entre as rvores! naquela moita... Se rugir
de novo, eu atiro!...
      E o rugido recomeou, mais formidvel. E o visconde atirou, mas no penso que tenha atingido o leo; s que ele quebrou o espelho, constatei isso no dia seguinte,
na aurora, de madrugada. Durante a noite devemos ter feito uma boa caminhada, pois nos encontramos de repente  beira do deserto, de um imenso deserto de areia,
de pedras e rochedos. No valia realmente a pena sair da floresta para cair no deserto. Cansado de guerra, estendi-me ao lado do visconde, pessoalmente exausto de
buscar molas que no encontrava nunca.
      Eu estava mesmo admirado (disse isso ao visconde) de no ter tido outros encontros desagradveis durante a noite. Geralmente, depois do leo, vinha o leopardo,
depois, s vezes, o zumbido da mosca ts-ts. Eram efeitos bem fceis de se obter, e expliquei ao Sr. De Chagny, enquanto descansvamos antes de atravessar o deserto,
que Erik obtinha o rugido do leo com um longo tamborim, terminado por uma pele de jumento em apenas uma das extremidades. Sobre essa pele era esticada uma corda
de tripa amarrada pelo centro a outra corda do mesmo gnero que atravessava o tambor em toda a sua altura. Erik s precisava ento esfregar essa corda com uma luva
untada de colofnia e, pela maneira como esfregava, imitava perfeitamente a voz do leo ou do leopardo, ou mesmo o zumbido da mosca ts-ts.
      Essa idia de que Erik podia estar no quarto ao lado, com os seus truques, me impeliu a tomar a resoluo de tentar negociar com ele, pois, evidentemente,
eu tinha de renunciar  idia de surpreend-lo. E agora ele devia saber a que se ater com relao aos hspedes do quarto dos suplcios.
      - Erik! Erik!... - gritei o mais forte que pude atravs do deserto, mas ningum respondeu  minha voz... Por toda parte ao nosso redor, o silncio e a imensido
nua daquele deserto ptreo... Que seria de ns no meio daquela horrenda solido?...
      Literalmente, comevamos a morrer de calor, de fome e de sede... de sede principalmente... Enfim, vi o Sr. De Chagny levantar-se sobre os cotovelos e indicar-me
um ponto no horizonte... Acabara de descobrir o osis!...
      Sim, l, bem longe, o deserto cedia lugar ao osis... um osis com gua... gua lmpida como um espelho... gua que refletia a rvore de ferro!... Ah aquilo...
era o quadro da miragem... eu o reconheci imediatamente... o mais terrvel... Ningum tinha conseguido resistir a ele... ningum... Esforcei-me para segurar toda
a minha razo... e no esperar a gua... porque eu sabia que, se a gente esperasse a gua, a gua que refletia a rvore de ferro, e se, depois de ter esperado a
gua, a gente esbarrasse contra o espelho, s havia uma coisa a fazer: enforcar-se na rvore de ferro!...
      Assim, gritei ao Sr. De Chagny:
      - E uma miragem!...  uma miragem!... no acredite na gua!...  ainda o truque do espelho!...
      Ento ele me mandou, como se diz, simplesmente passear, com o meu truque do espelho, minhas molas, minhas portas giratrias e meu palcio de miragens!... Afirmou,
raivoso, que eu estava louco ou cego para imaginar que toda aquela gua que corria l longe, entre to belas e inumerveis rvores, no era gua de verdade!... E
o deserto era de verdade! E a floresta tambm!... No era a ele que eu devia estar querendo enganar... ele tinha viajado bastante... e em todos os pases...
      E arrastou-se dizendo:
      - gua! gua!...
      E estava com a boca aberta como se bebesse...
      E eu tambm estava com a boca aberta como se bebesse...
      Porque no s ns vamos a gua, como tambm a ouvamos!... Ouvamos a gua correr... marulhar!... Vocs entendem essa palavra marulhar?... E uma palavra que
a gente ouve com a lngua!... A lngua se puxa para fora da boca para escut-la melhor!...
      Finalmente, suplcio mais intolervel do que tudo, ouvimos a chuva e no estava chovendo! Isso era a inveno demonaca... Oh! eu sabia tambm como  que Erik
obtinha esse efeito! Enchia de pedrinhas uma caixa bem estreita e longa, cortada em intervalos por barras transversais de madeira ou de metal. As pedrinhas, ao carem,
encontravam essas barras transversais e ricocheteavam de uma para outra, e da se produziam sons sacudidos que lembravam de modo absolutamente perfeito o rudo de
uma tempestade com granizo.
      ... Era preciso ver como pnhamos a lngua de fora, o Sr. De Chagny e eu, arrastando-nos pela margem marulhante... os nossos olhos e orelhas estavam cheios
de gua, mas a nossa lngua estava seca!...
      Chegando ao espelho, o Sr. De Chagny ps-se a lamb-lo... e eu tambm... lambi o espelho...
      Ele estava quentssimo!...
      Ento rolamos pelo cho, uivando desesperadamente. O Sr. De Chagny aproximou do ouvido a ltima pistola que restava carregada e eu olhei, aos meus ps, um
lao do Pendjab.
      Eu sabia por que, nesse ltimo cenrio, tinha voltado a rvore de ferro!...
      A rvore de ferro estava  minha espera!...
      Mas, conforme eu olhava o lao do Pendjab, vi uma coisa que me fez estremecer to violentamente que o Sr. De Chagny parou no seu movimento de suicdio. Ele
j murmurava: "Adeus, Christine!..."
      Agarrei-lhe o brao. Tomei-lhe a pistola... e depois arrastei-me de joelhos at aquilo que eu tinha visto.
      Tinha acabado de descobrir, perto do lao do Pendjab, na ranhura do assoalho, um prego de cabea preta que eu sabia muito bem para que servia...
      Finalmente! tinha encontrado a mola!... a mola que ia acionar a porta!... que ia dar-nos a liberdade!... que ia entregar-nos Erik.
      Apalpei o prego... Mostrei ao Sr. De Chagny um rosto radiante!... O prego de cabea preta cedia  minha presso...
      E ento...
      ... E ento no foi uma porta que se abriu na parede, mas um alapo que disparou no assoalho.
      Imediatamente, desse buraco escuro, chegou-nos ar fresco. Debruamo-nos sobre esse quadrado de sombra como sobre uma fonte cristalina. Com o queixo na sombra
fresca, ns a bebamos.
      E nos curvvamos cada vez mais sobre o alapo. O que poderia haver naquele buraco, naquele poro que acabara de abrir misteriosamente a sua porta no assoalho?...
      Talvez houvesse, l dentro, gua...
      gua para beber...
      Estendi o brao na escurido e encontrei uma pedra, depois outra... uma escada... uma escada negra que descia para o poro.
      O visconde j estava prestes a se lanar no buraco!...
      L dentro, mesmo que a gente no encontrasse gua, poderia escapar ao abrao brilhante desses abominveis espelhos.
      Segurei o visconde, pois temia um novo golpe do monstro e, com a minha lanterna acesa, desci primeiro...
      A escadaria mergulhava nas mais profundas trevas e girava sobre si mesma. Ah! que adorvel frescor o da escada e das trevas!...
      Esse frescor devia vir menos do sistema de ventilao estabelecido necessariamente por Erik do que da frescura natural da terra que devia estar toda saturada
de gua no nvel em que nos encontrvamos... E alm disso o lago no devia estar longe!...
      No demorou, chegamos ao p da escada... Os nossos olhos comeavam a se acostumar com a escurido, a distinguir, em torno de ns, formas... formas redondas...
para as quais dirigi o jato luminoso de minha lanterna...
      Tonis!...
      Estvamos na adega de Erik!
      Era ali que ele devia guardar o vinho e, talvez, a gua potvel... Eu sabia que Erik era grande amador de bons vinhos... Ah! se tinha ali o que beber!...
      O Sr. De Chagny acariciava as formas redondas e dizia incansavelmente:
      - Tonis! tonis!... Quantos tonis!...
      De fato, havia ali certa quantidade, alinhada simetricamente em duas fileiras, entre as quais nos encontrvamos...
      Eram tonis pequenos e imaginei que Erik os havia escolhido desse tamanho para facilitar o transporte para a casa do Lago!...
      Ns os examinvamos uns depois dos outros, procurando se dentre eles no havia algum que tivesse uma torneirinha, a indicar que de vez em quando se retirava
um pouco de seu contedo.
      Mas todos os tonis estavam hermeticamente fechados.
      Ento, depois de ter levantado um pouco um para ver se estava cheio, pusemo-nos de joelhos e, com a lmina de um canivete que trazia comigo, tomei as providncias
para fazer saltar a rolha.
      Nesse momento, pareceu-me ouvir, como se viesse de muito longe, uma espcie de canto montono cujo ritmo me era conhecido, pois o tinha ouvido com freqncia
nas ruas de Paris:
      "Tonis!... Tonis!... Tm tonis para vender?..."
      Minha mo ficou paralisada sobre a rolha... O Sr. De Chagny tambm tinha ouvido. Ele me disse:
      - E esquisito!... Tem-se a impresso de que  o tonel que est cantando!...
      O canto recomeou mais longinquamente... "Tonis!... Tonis!... Tm tonis para vender?..."
      - Oh! oh! eu lhe juro - disse o visconde - que o canto se afasta dentro do tonel!...
      Levantamo-nos e fomos olhar atrs do tonel...
      -  l dentro - dizia o Sr. De Chagny -,  l dentro!... Mas j no ouvamos mais nada... e ficamos reduzidos a pr a culpa no mau estado, na confuso real
de nossos sentidos...
      E voltamos para a rolha. O Sr. De Chagny ps as duas mos juntas embaixo e, num ltimo esforo, fiz saltar a rolha.



      - Que  isto? - bradou imediatamente o visconde. - Isto no  gua!
      O visconde tinha aproximado as duas mos cheias da minha lanterna... Debrucei-me sobre as mos do visconde... e, de imediato, atirei to bruscamente a lanterna
para longe de ns que ela se quebrou e se apagou... e se perdeu para ns...
      O que eu acabara de ver nas mos do visconde de Chagny era plvora!



26

 PRECISO GIRAR O ESCORPIO?
 PRECISO GIRAR O GAFANHOTO?

      (Final da narrativa do Persa)

      Assim, descendo ao fundo do subterrneo, eu tinha tocado no mago do pensamento temvel! O miservel no me havia enganado com as suas vagas ameaas dirigidas
a muitos daqueles da raa humana! Fora da humanidade, ele tinha construdo para si um antro de bicho subterrneo, resolvido a fazer tudo saltar com ele pelos ares
numa estrondosa catstrofe se aqueles de cima da terra viessem a acu-lo no antro onde tinha refugiado a sua monstruosa fealdade.
      A descoberta que acabramos de fazer nos lanou numa emoo que nos fez esquecer todas as nossas agruras passadas, todos os nossos sofrimentos presentes...
Nossa situao excepcional, quando poucos instantes antes nos encontrvamos  beira do suicdio, no se tinha ainda mostrado a ns com preciso mais espantosa. Compreendamos
agora tudo aquilo que tinha querido dizer e tudo aquilo que tinha dito o monstro a Christine: "Sim ou no!... Se for no, todo o mundo est morto e enterrado!..."
Sim, enterrado sob os escombros do que havia sido a grande pera de Paris!... Podia-se imaginar crime mais pavoroso para se deixar o mundo numa apoteose de horror?
Preparada para a tranqilidade de seu retiro, a catstrofe ia servir para vingar os amores do mais horrvel monstro que andou por sob os cus.!... Amanh  noite,
s 11 horas, ltimo prazo!... Ah! ele tinha escolhido bem a sua hora!... Haveria muita gente na festa!... muitos daqueles da raa humana... l em cima... nos altos
fulgurantes da casa da msica!... Que cortejo mais belo poderia ele sonhar para morrer?... Ia descer ao tmulo com os mais belos ombros do mundo, enfeitados com
todas as jias... amanh  noite, s 11 horas!... Devamos saltar pelos ares em plena representao... se Christine Daa dissesse: No!... Amanh  noite, s 11
horas!... E como Christine Daa no diria: No!? No preferiria ela casar-se com a prpria morte em vez desse cadver vivo? No ignorava que de sua recusa dependia
a sorte fulminante de muitos daqueles da raa humana?... Amanh  noite, s 11 horas!...
      E, arrastando-nos nas trevas, fugindo da plvora, tentando reencontrar os degraus de pedra... pois bem l no alto, acima de nossas cabeas... o alapo que
conduz ao quarto dos espelhos apagou-se por sua vez... ficvamos repetindo: Amanh  noite, s 11 horas!...
      ... Finalmente, encontro a escada... mas de repente, levanto-me bem ereto sobre o primeiro degrau, pois um pensamento terrvel se apossa subitamente de meu
crebro:
      "Que horas so?"
      Ah! que horas so? que horas?... pois afinal amanh  noite, s 11 horas, talvez seja hoje, talvez seja daqui a pouco!... quem poderia nos dizer que horas
so!... Parece-me que estamos encerrados neste inferno h dias e dias... h anos... desde o comeo do mundo... Tudo isto talvez v saltar pelos ares num instante!...
Ah! um rudo!... um estalo!... o senhor ouviu?... Ali!... ali, naquele canto... Deus do cu!... como o rudo de um mecanismo!... De novo!... Ah! uma luz!... talvez
seja o mecanismo que vai fazer tudo saltar!... eu lhe digo: um estalido... o senhor est surdo?
      O Sr. De Chagny e eu comeamos a gritar feito loucos... o medo nos persegue de perto... subimos a escada rolando por sobre os degraus... O alapo talvez esteja
fechado l em cima! Talvez seja essa porta fechada que provoca toda esta escurido... Ah! sair do escuro! sair do escuro!... Reencontrar a claridade mortal do quarto
dos Espelhos!...
      ...E chegamos ao alto da escada... no, o alapo no est fechado, mas est to escuro agora no quarto dos espelhos quanto no poro de onde estamos vindo!...
Samos completamente do poro... arrastamo-nos pelo cho do quarto dos suplcios.... o assoalho que nos separa daquele paiol de plvora... que horas so?... Gritamos,
chamamos!... O Sr. De Chagny clama, com todas as suas foras que renascem: "Christine!... Christine!..." E eu chamo Erik... lembro-lhe que lhe salvei a vida!...
O meu relgio parou faz tempo... mas o do Sr. De Chagny ainda est funcionando... Disse-me que deu corda quando fez a toalete da noite, antes de vir para a pera...
Tentamos tirar desse fato alguma concluso que nos permitisse esperar no estarmos ainda no minuto fatal...
      ... O menor tipo de rudo que nos venha pelo alapo que tentei em vo fechar nos lana na angstia mais atroz... Que horas so?... No temos sequer um fsforo...
E no entanto seria preciso saber... O Sr. De Chagny pensa em quebrar o vidro do relgio e tatear os dois ponteiros... Um silncio durante o qual ele tateia, interroga
os ponteiros com a ponta dos dedos. O anel do relgio lhe serve de ponto de referncia!... Ele calcula, pela distncia entre os ponteiros, que podem ser justamente
11 horas...
      Mas as 11 horas que nos fazem exultar j passaram talvez, no ? ... talvez sejam 11 e dez... e teramos pelo menos 12 horas  nossa frente.
      E, de repente, ele grita:
      - Silncio!
      Parece-me ter ouvido passos na morada ao lado.
      No me enganei! Estou ouvindo um barulho de portas, seguido de passos precipitados. Esto batendo na parede. A voz de Christine Daa:
      - Raoul! Raoul!
      Ah! gritamos todos de uma vez, agora de um e de outro lado da parede. Christine est soluando, no sabia se encontraria o Sr.
      De Chagny ainda vivo!... O monstro foi terrvel, parece... No fez outra coisa seno delirar enquanto esperava que aceitasse dizer o "sim" que ela lhe recusava...
E entretanto, ela lhe prometia esse "sim" se ele aceitasse conduzi-la ao quarto dos suplcios!... Mas ele se opusera obstinadamente a isso, com ameaas atrozes a
todos da raa humana... Finalmente, depois de horas e horas desse inferno, ele acabara de sair um instante... deixando-a sozinha para pensar pela ltima vez...
      ... Horas e horas!...
      - Que horas so? Que horas so, Christine?...
      - So 11 horas!... cinco para as 11!...
      - Mas que 11 horas?...
      - As 11 horas que devem decidir da minha vida ou da minha morte!... Ele acabou de repetir isso ao sair - disse a voz agoniada de Christine. - Ele  medonho!...
Est delirando e arrancou a mscara, e os seus olhos de ouro lanam chamas! E no pra de rir!... Ele me disse rindo, como um demnio bbado: "Cinco minutos! Deixo
voc sozinha por causa do seu conhecido pudor!... No quero que voc core diante de mim quando me disser 'sim', como as tmidas noivas!... Que diabo! a gente conhece
as pessoas!" Eu disse a voc que ele estava como um demnio bbado!... "Tome! (e ele enfiou a mo na bolsinha da vida e da morte) Tome! disse-me, aqui est a chavinha
de bronze que abre os cofres de bano que esto sobre a lareira do quarto Louis Phillipe... Num desses cofres, voc encontrar um escorpio no outro, um gafanhoto,
animais muito bem imitados em bronze do Japo; so animais que dizem sim ou no! Quer dizer que voc s ter que girar o escorpio em cima do seu eixo, na posio
contrria daquela que voc o encontrar... isso significar aos meus olhos, quando eu voltar para o quarto Louis Phillipe, para o quarto das npcias: sim!... J o
gafanhoto, se voc o girar, querer dizer: no! aos meus olhos quando eu voltar para o quarto da morte!..." E ele ria como um demnio bbado! Eu s reclamava de
joelhos a chave do quarto dos suplcios, prometendo-lhe ser sua mulher para sempre se ele me concedesse isso... Mas ele me disse que nunca mais iramos precisar
dessa chave e que ele ia atir-la no fundo do lago!... E depois, rindo, entregou-me a chave e disse que s voltaria dentro de cinco minutos, porque sabia tudo que
se deve ao pudor das mulheres quando se  um homem galante!... Ah! sim, gritou-me ainda ele: "O gafanhoto!... Cuidado com o gafanhoto!... Um gafanhoto no gira apenas,
ele salta!... ele salta!... ele salta que  uma beleza!"
      Tento aqui reproduzir com frases, palavras entrecortadas, exclamaes, o sentido das palavras delirantes de Christine!... Pois tambm ela, durante estas 24
horas, deve ter tocado no fundo da dor humana... e talvez tenha sofrido mais do que ns!... A cada instante, Christine se interrompia e nos interrompia para exclamar:
      - Raoul! voc est sofrendo?... - E apalpava as paredes, que estavam frias agora, e perguntava por que razo tinham estado to quentes!...
      E os cinco minutos se escoavam e, no meu pobre crebro, arranhavam com todas as foras de suas patas o escorpio e o gafanhoto!...
      Eu tinha conservado, entretanto, bastante lucidez para compreender que, se se girasse o gafanhoto, o gafanhoto saltava... e com ele muitos daqueles da raa
humana!... No havia dvida de que o gafanhoto comandava alguma corrente eltrica destinada a fazer explodir o paiol de plvora!... Apressadamente, o Sr. De Chagny,
que parecia agora, desde que ouvira a voz de Christine, ter recobrado toda a fora moral, explicava  moa em que situao terrvel nos encontrvamos, ns e toda
a pera... Era preciso girar o escorpio, imediatamente...
      Aquele escorpio, que correspondia ao sim to desejado por Erik, devia ser alguma coisa que impedia, talvez, que a catstrofe se produzisse.
      - V!., v ento, Christine, minha mulher adorada!... - ordenou Raoul.
      Houve um silncio.
      - Christine - perguntei -, onde voc est?
      - Perto do escorpio!
      - No toque nele!
      Tinha-me vindo a idia - pois eu conhecia o meu Erik - de que o monstro tinha enganado, mais uma vez, a jovem mulher.
      Talvez fosse o escorpio que iria fazer tudo saltar pelos ares. Porque. afinal, por que ele prprio no tinha ficado ali? J fazia bom tempo agora que os cinco
minutos tinham decorrido... e ele no voltara... Tinha, certamente, se colocado a salvo!... E esperava, talvez, pela exploso formidvel... No esperava mais do
que isso!... No podia esperar, na verdade, que Christine consentisse nunca em se tornar a sua presa voluntria!... Por que ele no tinha voltado?... No toque no
escorpio!
      - Ele!... - gritou Christine. - Eu o estou ouvindo!... A est ele!"
      Ele estava chegando, de fato. Ouvimos os seus passos que se aproximavam do quarto Louis Philippe. Voltara para junto de Christine. No pronunciara nenhuma
palavra...
      Ento levantei a voz:
      - Erik! sou eu! Voc me reconhece?
      A esse chamado, ele respondeu imediatamente num tom extraordinariamente pacfico:
      - Ento vocs no morreram a dentro?... Pois bem, procurem ficar tranqilos.
      Quis interromp-lo, mas ele me disse to friamente que fiquei gelado atrs da parede:
      - Nem mais uma palavra, daroga, ou eu fao saltar tudo! E logo acrescentou:
      - A honra deve caber  senhorita!... A senhorita no tocou no escorpio (como falava pausadamente!), a senhorita no tocou no gafanhoto (com que espantoso
sangue-frio!), mas no  tarde demais para faz-lo direito. Veja, abro sem chave, eu, porque sou o amador dos alapes, abro e fecho tudo que quero, como quero...
Abro os cofrinhos de bano: olhe a, senhorita, nos cofrinhos de bano... os lindos bichinhos... So imitaes muito boas... e como parecem inofensivos... Mas o
hbito no faz o monge! (Tudo isso com uma voz clara, uniforme...) Se a gente girar o gafanhoto, saltamos todos, senhorita... H, debaixo de nossos ps, plvora
bastante para fazer saltar pelos ares um bairro inteiro de Paris... se a gente girar o escorpio, toda essa plvora ficar inundada!... Senhorita, por ocasio de
nossas npcias, voc vai dar um presente lindo a algumas centenas de parisienses que aplaudem neste momento uma obra-prima bastante pobre de Meyerbeer... Voc vai
lhes dar de presente a vida... porque voc vai, senhorita, com as suas lindas mos (que cansada aquela voz), voc vai girar o escorpio!... E alegria, alegria, ns
nos casaremos! Um silncio, e depois:
      - Se dentro de dois minutos, senhorita, voc no tiver girado o escorpio, tenho um relgio - acrescentou a voz de Erik -, um relgio que funciona muito bem...
ento eu vou girar o gafanhoto... e o gafanhoto, isso salta que  uma beleza!...
      O silncio recomeou mais apavorante por si s do que todos os outros pavorosos silncios. Eu sabia que quando Erik assumia essa voz pacfica e tranqila,
e cansada,  que tinha chegado ao extremo de tudo, capaz do mais titnico atentado ou da mais desvairada dedicao e que uma slaba desagradvel ao seu ouvido podia
desencadear o furaco. O Sr. De Chagny tinha entendido que s restava rezar e, de joelhos, rezava... Quanto a mim, o meu sangue pulsava to forte que tive de segurar
o corao com a mo, de medo que ele explodisse... E que pressentamos o que se passava nesses segundos supremos no pensamento enlouquecido de Christine Daa...
 que compreendamos a sua hesitao em girar o escorpio... E se fosse o escorpio que ia fazer saltar tudo!... Se Erik tivesse resolvido engolir-nos a todos com
ele!
      Finalmente, a voz de Erik, suave desta vez, de uma suavidade angelical...
      - Os dois minutos j passaram... adeus, senhorita!... salte, gafanhoto!...
      - Erik! - gritou Christine, que devia ter-se precipitado sobre a mo do monstro -, voc me jura, monstro, voc me jura por seu amor infernal que  o escorpio
que  preciso girar...
      - Sim, para saltar para as nossas npcias...
      - Ah! voc est vendo! ns vamos saltar!
      - Para as nossas npcias, inocente menina!... O escorpio abre o baile!... Mas j basta!... Voc no quer o escorpio? Eu me encarrego do gafanhoto!
      - Erik!...
      - Basta!...
      Eu tinha juntado os meus gritos aos de Christine. O Sr. De Chagny, sempre de joelhos, continuava rezando...
      - Erik! Eu girei o escorpio!...
      Ah! esse instante que vivemos ento!
      A esperar!
      A esperar que j no fssemos nada mais do que migalhas, no meio do trovo e das runas...
      ... A sentir estalar debaixo dos nossos ps, no abismo aberto... coisas... coisas que podiam ser o comeo da apoteose de horror... pois, pelo alapo aberto
nas trevas, goela negra na noite negra, um assobio inquietante - como o primeiro rudo de um foguete - vinha...
      ... Primeiro bem fino... e depois mais espesso... depois bem forte...
      Mas escute! escute! e segure com as duas mos o corao prestes a saltar com muitos dos da raa humana.
      Isso no  o crepitar do fogo.
      No se diria um jorro de gua?...
      Ao alapo! ao alapo!
      Escute! escute!
      Agora est fazendo gluglu... gluglu...
      Ao alapo!... ao alapo!... ao alapo!...
      Que frescor!
      A fresca!  fresca! Toda a nossa sede, que tinha cessado quando viera o pavor, voltou mais forte com o barulho da gua.
      A gua! a gua! a gua que vem subindo!...
      Que vem subindo pelo poro, por cima dos tonis, todos os tonis de plvora. (Tonis! tonis!... Tm tonis para vender?) A gua!... a gua em direo da qual
descemos com as gargantas abrasadas... a gua que vem subindo at os nossos queixos, at as nossas bocas...
      E bebemos... No fundo do poro, bebemos, diretamente do poro...
      E subimos de volta, na noite negra, a escada, degrau por degrau, a escada que tnhamos descido em busca da gua, na morada do Lago! Se isso continuar, todo
o lago vai entrar no poro...
      Porque, na verdade, no se sabe mais agora onde ela vai parar...
      J samos do poro e a gua continua subindo...
      E a gua tambm sai do poro, espalha-se sobre o assoalho... Se isso continuar, toda a morada do Lago vai ficar inundada. O assoalho do quarto dos Espelhos
j virou um pequeno lago no qual os nossos ps chafurdam. J basta de gua!  preciso que Erik feche a torneira: Erik! Erik! J  gua bastante para a plvora! Gire
a torneira! Feche o escorpio!
      Mas Erik no responde... No se ouve mais nada alm da gua que vem subindo... J estamos agora com gua pela metade da perna!...
      - Christine! Christine! a gua est subindo! subindo at os nossos joelhos - grita o Sr. De Chagny.
      Mas Christine no responde... no se ouve nada alm da gua que vem subindo.
      Nada! nada! no quarto ao lado... Ningum mais! Ningum para girar a torneira! ningum para fechar o escorpio!
      Estamos sozinhos, no escuro, com a gua escura que nos envolve, que nos gela! Erik! Erik! Christine! Christine!
      Agora perdemos p e giramos na gua, levados num movimento de rotao irresistvel, pois a gua gira conosco e ns batemos nos espelhos negros que nos mandam
de volta... e as nossas gargantas levantadas acima do turbilho urram...
      Ser que vamos morrer afogados no quarto dos suplcios?... Nunca vi isso! Erik, no tempo das horas cor-de-rosa de Mazender, nunca me mostrou isso pela janelinha
invisvel!... Erik! Erik! Eu lhe salvei a vida! Lembre-se!... Voc estava condenado!... Voc ia morrer!... Abri para voc as portas da vida, Erik!...
      Ah! girvamos na gua como destroos de um barco!...
      Mas agarrei de repente, com minhas mos desnorteadas, o tronco da rvore de ferro!... e chamei o Sr. De Chagny... e l estvamos ns dois suspensos ao galho
da rvore de ferro...
      E a gua continua subindo!
      Ah! ah! Lembre-se! Quanto espao h entre o galho da rvore de ferro e o teto do quarto dos Espelhos?... Procure lembrar-se!... Afinal, a gua talvez v parar!...
No! no! horror!... A nado!... A nado!... nossos braos, nadando, se enroscam; estamos sufocando!... debatemo-nos na gua escura... o ar que est fugindo, que ouvimos
fugir acima de nossas cabeas por no sei que aparelho de ventilao... Ah! vamos girando! girando! girando at que encontremos a entrada de ar... colaremos a nossa
boca  entrada de ar... Mas as foras me abandonam, tento agarrar-me s paredes! Ah! como as paredes de espelho so escorregadias!... Afundamos... Um derradeiro
esforo!... Um derradeiro grito!... Erik... Christine!... gluglu, gluglu!... nos ouvidos!... Gluglu, gluglu, gluglu!... no fundo da gua escura, nossos ouvidos fazem
gluglu!... Parece-me ainda, antes de perder totalmente conscincia, ouvir entre dois gluglus... "Tonis!... tonis!... Tm tonis para vender?"













27

FIM DOS AMORES DO FANTASMA

       aqui que termina a narrativa escrita que o Persa me deixou.
      Apesar do horror de uma situao que parecia definitivamente condenada  morte, o Sr. De Chagny e seu companheiro foram salvos pela dedicao sublime de Christine
Daa. E obtive todo o resto da aventura da boca do prprio daroga...
      Quando fui encontrar-me com ele, continuava morando em seu pequeno apartamento da rua de Rivoli, em frente s Tulherias. Estava bastante doente e foi necessrio
nada menos do que todo o meu ardor de reprter-historiador a servio da verdade para decidi-lo a reviver comigo o incrvel drama. Era ainda o seu velho e fiel empregado
Darius que o servia e que me conduziu para junto dele. O daroga me recebeu no canto da janela que d para o jardim, sentado numa poltrona em que tentava aprumar
um corpo que devia ter tido a sua beleza. Nosso Persa mantinha ainda os olhos magnficos, mas o seu pobre rosto mostrava muito cansao. Tinha raspado completamente
a cabea que normalmente estava coberta com um bon de astrac; vestia-se com uma capa muito simples em cujas mangas passava o tempo a girar inconscientemente os
polegares, mas tinha conservado a mente bem lcida.
      No podia lembrar-se das agruras antigas sem que certa febre voltasse a tomar conta dele, e foi por pedaos que eu lhe arranquei o fim surpreendente desta
estranha histria. Por vezes fazia-se de rogado, por algum tempo, antes de responder s minhas perguntas, e por vezes, exaltado com suas lembranas, evocava espontaneamente
diante de mim, com destaque surpreendente, a imagem espantosa de Erik e as horas terrveis que o Sr. De Chagny e ele tinham vivido na morada do Lago.
      Era preciso ver o estremecimento que o agitava quando me descrevia o seu despertar na penumbra inquietante do quarto Louis Philippe... depois do drama das
guas... E aqui est o fim desta terrvel histria, tal qual ele me contou de maneira a completar a narrativa escrita que tinha concordado em ceder-me:
      Ao abrir os olhos, o daroga viu-se estendido numa cama... O Sr. De Chagny estava deitado num div, ao lado do armrio com espelho. Um anjo e um demnio velavam
sobre eles...
      Depois das miragens e iluses do quarto dos suplcios, a preciso dos detalhes burgueses desse quarto pequeno e tranqilo parecia ter sido inventada com o
desgnio de fazer extraviar-se a mente do mortal que fosse bastante temerrio para se perder nesses domnios do pesadelo vivo. A cama com gavetas, as cadeiras de
mogno encerado, a cmoda, as peas de cobre, o cuidado com que as toalhinhas de croch estavam postas no espaldar das poltronas, o relgio de pndulo e, de cada
lado da lareira, os cofrinhos de aparncia to inofensiva... enfim a prateleira enfeitada de conchas, de almofadinhas vermelhas para alfinetes, de navios de madreprola
e de um enorme ovo de avestruz... sendo o conjunto iluminado discretamente por um abajur colocado sobre uma mesinha redonda... toda essa moblia que era de uma feira
caseira comovente, to tranqila, to razovel "no fundo dos pores da pera", desconcertava a imaginao mais do que todas as fantasmagorias passadas. E a sombra
do homem com a mscara, nesse pequeno quadro antiquado, preciso e limpo, assumia uma aparncia mais formidvel. Inclinou-se at o ouvido do Persa e disse-lhe em
voz baixa:
      - Est melhor, daroga?... Voc est examinando a minha moblia?...  tudo que me restou da pobre miservel da minha me...
      Disse-lhe ainda outras coisas de que j no se lembrava; mas - e isso lhe parecia bem singular - o Persa tinha lembrana exata de que, durante essa viso do
quarto Louis Philippe, s Erik falava. Christine Daa no dizia uma palavra; caminhava sem rudo como uma irm de caridade que tivesse feito voto de silncio...
Trouxe uma xcara com um reconstituinte... ou um ch fumegante... O homem da mscara pegou-a de suas mos e estendeu-a para o Persa.
      Quanto ao Sr. De Chagny, estava dormindo...
      Erik disse derramando um pouco de rum na xcara do daroga e mostrando-lhe o visconde deitado:
      - Ele voltou a si antes que pudssemos saber se voc ainda estaria vivo, daroga. Ele vai muito bem... Est dormindo... No se deve acord-lo...
      Por um instante, Erik saiu do quarto e o Persa, erguendo-se um pouco sobre o cotovelo, olhou em torno de si... Viu, sentada ao lado da lareira, a silhueta
branca de Christine Daa. Dirigiu-lhe a palavra... chamou-a... mas ainda estava muito fraco e voltou a cair sobre o travesseiro... Christine veio at ele, colocou-lhe
a mo na testa, depois se afastou... E o Persa lembrou-se ento de que, ao ir-se embora, ela no lanou nenhum olhar para o Sr. De Chagny que, ao lado,  verdade,
estava num sono tranqilo... e voltou para sentar-se na poltrona, ao lado da lareira, silenciosa como uma irm de caridade que tivesse feito voto de silncio...
      Erik voltou com alguns frasquinhos que colocou em cima da lareira. E baixinho ainda, para no acordar o Sr. De Chagny, disse ao Persa, depois de sentar-se
 sua cabeceira e de ter-lhe tomado o pulso:
      - Agora vocs esto salvos. E logo irei conduzi-los para a superfcie da terra, para agradar a minha mulher.
      Nisso, levantou-se sem outra explicao, e desapareceu de novo.
      O Persa olhava agora para o perfil tranqilo de Christine Daa  luz do abajur. Ela estava lendo num livrinho minsculo com o corte dourado como se costuma
ver nos livros religiosos. A imitao de Cristo tem edies assim. E o Persa conservava ainda no ouvido o tom tranqilo com que Erik dissera: "Para agradar a minha
mulher..."
      Bem suavemente, o daroga chamou de novo, mas Christine devia estar longe em sua leitura, porque no ouviu...
      Erik voltou... deu uma poo para o daroga beber, depois de lhe ter recomendado que no dirigisse mais a palavra  "sua mulher" nem a ningum, porque isso
poderia ser muito perigoso para a sade de todo mundo.
      A partir desse momento, o Persa se lembra ainda da sombra negra de Erik e da silhueta branca de Christine que deslizavam sempre em silncio pelo quarto e debruavam-se
sobre o Sr. De Chagny. O Persa estava ainda muito fraco e o menor rudo, a porta do armrio com espelho que se abria rangendo, por exemplo, causava-lhe dor de cabea...
e depois adormeceu como o Sr. De Chagny.
      Desta vez, s devia despertar j em sua casa, sob os cuidados do fiel Darius, que lhe informou que o haviam encontrado, na noite anterior, diante da porta
de seu apartamento, para onde devia ter sido transportado por um desconhecido, que tinha tido o cuidado de tocar a campainha antes de ir-se embora.
      Logo que o daroga recobrou as foras e a responsabilidade, mandou saber notcias do visconde no domiclio do conde Philippe.
      Foi-lhe respondido que o jovem no tinha reaparecido e o conde Philippe tinha morrido. Tinham encontrado o seu cadver  beira do lago da pera, do lado da
rua Scribe. O Persa lembrou-se da melodia para os mortos que ouvira Erik executar, quando esteve preso no quarto dos suplcios, e no teve dvidas quanto ao crime
e quanto ao criminoso. Sem dificuldade, infelizmente, conhecendo Erik, pde reconstituir o drama. Acreditando que o irmo havia raptado Christine Daa, Philippe
tinha-se precipitado em seu encalo na estrada de Bruxelas onde sabia que tudo estava preparado para essa aventura. Como no encontrasse o jovem casal, voltara 
pera, lembrara-se das estranhas confidncias de Raoul sobre o seu fantstico rival, soubera que o visconde tinha tentado de tudo para penetrar nos subsolos do teatro
e, finalmente, que tinha desaparecido, deixando o chapu no camarim da diva, ao lado de uma caixa de pistolas. E o conde, que no tinha mais dvidas sobre a loucura
do irmo, lanara-se, por sua vez, naquele infernal labirinto subterrneo. Seria preciso mais do que isso, aos olhos do Persa, para que se encontrasse o cadver
do conde  beira do lago, onde vigiava o canto da sereia, a sereia de Erik, essa zeladora do lago dos Mortos?
      Assim, o Persa no hesitou. Espantado com esse novo delito, no podendo permanecer na incerteza em que se encontrava relativamente  sorte definitiva do visconde
e de Christine Daa, decidiu dizer tudo  Justia.
      Ora, a instruo do processo tinha sido confiada ao juiz Faure e  porta dele  que foi bater. No  difcil imaginar de que modo um esprito ctico, materialista,
superficial (digo isso como penso) e nada preparado para semelhante confidncia recebeu o depoimento do daroga. Este foi tratado como louco.
      O Persa, sem esperana de se fazer ouvir, pusera-se ento a escrever. Visto que a Justia no queria saber do seu testemunho, a imprensa se apoderaria dele,
talvez, e ele acabara, uma noite, de traar a ltima linha da narrativa que reproduzi fielmente aqui, quando o empregado Darius lhe anunciou um estranho que no
dissera o nome, cujo rosto era impossvel ver, e que tinha declarado simplesmente que no sairia dali antes de falar com o daroga.
      O Persa, pressentindo imediatamente a personalidade desse singular visitante, ordenou que o fizesse entrar.
      O daroga no se enganara.
      Era o fantasma! Era Erik!
      Aparentava extrema fraqueza e apoiava-se na parede como se temesse cair... Ao tirar o chapu, mostrou uma testa plida como cera. O restante do rosto estava
escondido pela mscara.



      O Persa erguera-se  sua frente:
      - Assassino do conde Philippe, o que  que voc fez do irmo dele e de Christine Daa?
      A essa formidvel interpelao, Erik cambaleou e guardou silncio por alguns instantes, depois, arrastando-se at uma poltrona, deixou-se cair nela soltando
um profundo suspiro. E, ali, disse com flego curto:
      - Daroga, no me fale do conde Philippe... Ele estava morto... j... quando sa da minha casa... ele estava morto... j... quando... a sereia cantou... foi
um acidente... Ele tinha cado no lago!...
      - Voc est mentindo! - bradou o Persa. Ento Erik curvou a cabea e replicou:
      - No vim aqui para lhe falar do conde Philippe... mas para lhe dizer que... eu vou morrer....
      - Onde esto Raoul de Chagny e Christine Daa?...
      - Eu vou morrer.
      - Raoul de Chagny e Christine Daa?
      - ... de amor... daroga... vou morrer de amor...  isso mesmo... eu a amava tanto!... E ainda a amo, daroga, pois que estou morrendo disso, eu lhe digo...
Se voc soubesse como estava bela quando me prometeu beijar-me viva, jurando pela sua salvao eterna... Era a primeira vez, daroga, a primeira vez, est ouvindo,
que eu beijava uma mulher... Sim, viva, sim, eu a beijei viva e ela estava bela como uma morta!...
      O Persa levantara-se e ousara tocar em Erik. Sacudiu-lhe o brao.
      - Voc vai me dizer se ela est morta ou viva?...
      - Por que est me sacudindo assim? - respondeu Erik com esforo. - Estou lhe dizendo que sou eu que vou morrer... sim, eu a beijei viva...
      - E agora, ela est morta?
      - Eu lhe digo que dei um beijo nela assim, na testa... e ela no retirou a testa da minha boca!... Ah!  uma moa honesta! Quanto a estar morta, eu no acredito,
embora isso no me diga mais respeito... No! no! ela no est morta! E no quero ficar sabendo que algum tenha tocado num fio de cabelo sequer de sua cabea!
E uma moa corajosa e honesta, que lhe salvou a vida, alm do mais, daroga, num momento em que eu no teria dado um tosto furado por essa sua pele de persa. No
fundo, ningum se importava com voc. Por que voc estava l com aquele mocinho? Voc ia morrer, alm do mais! Palavra, ela me suplicava pelo seu mocinho, mas eu
lhe respondi que, j que ela tinha girado o escorpio, eu me tinha tornado, por esse fato mesmo, e por sua boa vontade, o seu noivo, e que ela no precisava de dois
noivos, o que era bastante justo; quanto a voc, voc no existia, j no existia mais, repito, e ia morrer com o outro noivo! S que, escute bem, daroga, como vocs
estavam gritando como dois possessos por causa da gua, Christine veio at mim, com os seus belos e grandes olhos azuis abertos e me jurou, pela sua salvao eterna,
que consentia em ser minha mulher viva! At ento, daroga, eu sempre tinha visto, no fundo dos seus olhos, uma mulher morta; era a primeira vez que eu via neles
a minha mulher viva. Ela estava sendo sincera, pela sua salvao eterna. No iria se matar. Trato feito. Meia hora depois, toda a gua tinha voltado para o lago,
e eu puxava a sua lngua, daroga, pois acreditara, palavra, que voc no ia voltar!... Enfim!... E isso! Estava entendido! eu devia lev-lo de volta para a sua casa,
acima da terra. Enfim, quando voc j tinha desocupado o meu quarto Louis Philippe, voltei para l, sozinho.
      - E o que  que voc tinha feito do visconde de Chagny? - interrompeu o Persa.
      - Ah! voc compreende... aquele l, daroga, eu no ia lev-lo assim sem mais nem menos para cima da terra... Era um refm... Mas eu no podia tampouco guard-lo
na morada do Lago, por causa de Christine; ento, tranquei-o, acorrentei-o convenientemente (com o perfume de Mazender ele tinha ficado mole como um trapo) no calabouo
dos communards que fica na parte mais deserta do mais distante poro da pera, abaixo do quinto subsolo, l aonde ningum nunca vai e de onde no  possvel fazer-se
ouvir por ningum. Fiquei sossegado e voltei para junto de Christine. Ela estava me esperando...
      Neste ponto de sua narrativa parece que o fantasma se levantou to solenemente que o Persa, que retomara lugar na poltrona, teve de se levantar tambm, como
que obedecendo ao mesmo movimento e sentindo que era impossvel ficar sentado num momento to solene e at (disse-me o prprio Persa) tirou, embora estivesse com
a cabea raspada, o seu bon de astrac.
      - Sim, ela estava me esperando! - retomou Erik, que se ps a tremer como uma folha, mas a tremer de uma verdadeira emoo solene. - Estava me esperando de
p, viva, como uma noiva viva de verdade, pela sua salvao eterna... E quando me adiantei em sua direo, mais tmido do que uma criancinha, ela no fugiu... no,
no... ficou ali... me esperou... acho at, daroga, que ela um pouco... oh! no muito... mas um pouco, como uma noiva, aproximou a sua testa... E... e... eu a...
beijei!... Eu!... eu!... eu!... E ela no morreu!... E ficou ali bem naturalmente, ao meu lado, depois que eu a beijei, assim... na testa... Ah! como  bom, daroga,
beijar algum!... Voc no pode saber, no pode!... Mas eu! eu!... Minha me, daroga, minha pobre miservel me nunca quis que eu a beijasse... Ela fugia... lanando-me
a minha mscara!... nem nenhuma mulher!... nunca!... nunca!... Ah! ah! ah! Ento, eu chorei de tamanha felicidade. E ca chorando aos seus ps.... e beijei os seus
ps, seus pezinhos, chorando... Voc tambm est chorando, daroga; e ela tambm chorava... o anjo chorou...
      Enquanto contava essas coisas, Erik soluava, e o Persa, realmente, no conseguia reter as lgrimas diante daquele homem mascarado que, sacudindo os ombros,
com a mo no peito, gemia ora de dor, ora de enternecimento.
      - ... Oh! daroga, eu senti as lgrimas dela correrem sobre a minha testa! sobre a minha testa! Eram quentes... eram suaves!... inundavam tudo debaixo da minha
mscara, as lgrimas dela!... iam misturar-se com as minhas, nos meus olhos!... escorriam at na minha boca... Ah! as suas lgrimas sobre mim! Escute, daroga, escute
o que eu fiz... Arranquei a minha mscara para no perder uma s de suas lgrimas... E ela no fugiu!... E ela no morreu! Permaneceu viva, a chorar... sobre mim...
comigo... Ns choramos juntos!... Senhor do cu! vs me destes toda a felicidade do mundo!...
      E Erik estava largado, chorando e gemendo na poltrona.
      - Ah! No vou morrer ainda... to logo... mas deixe-me chorar! - disse ele ao Persa.
      Ao fim de um momento, o homem da mscara retomou:
      - Escute, daroga... escute bem isto... enquanto eu estava aos seus ps... ouvi-a dizer: "Pobre infeliz Erik!.. ". Eu fiquei assim... voc compreende, nada
mais do que um pobre co prestes a morrer por ela... como lhe digo, daroga! Imagine que eu tinha na mo um anel, um anel de ouro que eu lhe dera... que ela tinha
perdido... que eu achei... uma aliana, enfim!... Passei o anel para a mozinha dela e disse: Tome!... Pegue isso!... pegue isso para voc... e para ele... Ser
o meu presente de npcias... o presente do pobre infeliz Erik... Sei que voc o ama, aquele rapaz... no chore mais!... Ela me perguntou com voz bem suave o que
eu queria dizer; ento fiz que ela compreendesse, e ela compreendeu imediatamente que eu no era para ela mais do que um pobre cozinho pronto para morrer... mas
que ela poderia casar-se com o rapaz quando quisesse, porque tinha chorado comigo... Ah! daroga... voc est pensando... que... quando eu lhe dizia isso, era como
se eu cortasse devagarinho o meu corao em quatro, mas ela tinha chorado comigo... ela tinha dito: '"Pobre infeliz Erik!... ".
      A emoo de Erik era tamanha que teve de avisar o Persa que no olhasse para ele, pois estava sufocando e precisava tirar a mscara. A respeito disso, o Persa
me contou que tinha ido at a janela e que a tinha aberto, com o corao pesado de piedade, mas tomando grande cuidado de fixar o topo das rvores do jardim das
Tulherias para no encontrar o rosto do monstro.
      - Eu fui libertar o jovem - continuou Erik - e disse-lhe que me seguisse at junto de Christine... Eles se beijaram na minha frente no quarto Louis Phillipe...
Christine estava com o meu anel... Fiz Christine jurar que, quando eu morresse, ela viria uma noite, passando pelo lago da rua Scribe, para me enterrar em grande
segredo com o anel de ouro que ela traria consigo at esse momento... disse-lhe como ela encontraria o meu corpo e o que era preciso fazer com ele... Ento Christine
me beijou, por sua vez, aqui na testa, pela primeira vez... (no olhe, daroga!) aqui, na testa... na minha testa!... (no olhe, daroga!) e foram embora, os dois...
      Christine j no estava mais chorando... s eu estava chorando... daroga, daroga... se Christine cumprir o juramento, voltar logo!...
      E Erik se calara. O Persa no lhe fizera mais nenhuma pergunta. Estava totalmente tranqilo quanto  sorte de Raoul de Chagny e de Christine Daa, e ningum
da raa humana teria podido, depois de ouvi-la naquela noite, pr em dvida a palavra de Erik que chorava.
      O monstro tinha recolocado a mscara e juntado as foras para afastar-se do daroga. Anunciara-lhe que, quando sentisse o fim muito prximo, enviar-lhe-ia,
como agradecimento pelo bem que este lhe quisera no passado, o que tinha de mais caro neste mundo: todos os papis de Christine Daa, que ela tinha escrito, no momento
mesmo daquela aventura, destinados a Raoul, e que ela deixara a Erik, e mais alguns objetos que lhe tinham vindo dela, dois lenos, um par de luvas e um cordo de
sapato. Respondendo a uma pergunta do Persa, Erik informou-lhe que os dois jovens, logo que se viram livres, tinham resolvido ir procurar um padre em algum lugar
ermo onde esconderiam a sua felicidade e que, com esse intuito, tinham tomado "a estao do Grande Norte do Mundo". Finalmente, Erik contava com o Persa para, logo
que este tivesse recebido as relquias e os papis prometidos, anunciar a sua morte aos dois jovens. Devia para isso pagar um espao nos anncios necrolgicos do
jornal L'poque.
      Era s isso.
      O Persa reconduziu Erik at a porta do apartamento e Darius o acompanhou at a calada servindo-lhe de apoio. Uma calea esperava. Erik subiu nela. O Persa,
que voltara  janela, ouviu-o dizer ao cocheiro: "Aterro da pera".
      E depois a calea mergulhou na noite. O Persa tinha visto, pela ltima vez, o pobre infeliz Erik.
      Trs semanas mais tarde, o jornal L'poque publicava este anncio necrolgico:
      MORREU ERIK












EPLOGO

      Assim  a histria verdica do fantasma da pera. Como anunciei no incio deste livro, no se poderia duvidar agora de que Erik tenha realmente vivido. O nmero
de provas dessa existncia colocadas hoje  disposio de cada um  grande demais para que no se possa acompanhar, racionalmente, os fatos e os gestos de Erik atravs
de todo o drama dos Chagny.
      Desnecessrio  repetir aqui quanto este caso apaixonou a capital. A artista raptada, o conde de Chagny morto em condies to excepcionais, o irmo dele desaparecido
e o trplice sono dos empregados da iluminao da pera!... Que dramas! Que paixes! Que crimes se tinham desenrolado em torno do idlio de Raoul com a doce e encantadora
Christine!... Que foi feito da sublime e misteriosa cantora da qual a terra nunca, nunca mais ouviria falar?... Foi representada como a vtima da rivalidade entre
os dois irmos, e ningum imaginou o que se passou; ningum entendeu que, j que Raoul e Christine tinham ambos desaparecido, os dois noivos se retiraram para longe
do mundo para desfrutar uma felicidade que no queriam tornar pblica aps a morte inexplicada do conde Philippe... Tomaram um dia um trem na estao do Norte do
Mundo... Tambm eu, talvez, um dia tome o trem nessa estao e v procurar em torno dos teus lagos,  Noruega!  silenciosa Escandinvia!, as pegadas ainda vivas
de Raoul e de Christine, e tambm da Sra. Valrius, que desapareceu igualmente no mesmo tempo!... Quem sabe um dia eu oua com os meus ouvidos o eco solitrio do
Norte do Mundo repetir o canto daquela que conheceu o Anjo da msica?...
      Bem depois que o caso, pela atuao inteligente do juiz de instruo Faure, foi arquivado, a imprensa, de tempos em tempos, buscava ainda penetrar no mistrio...
e perguntava-se onde estava a mo monstruosa que tinha preparado e executado tantas catstrofes inauditas! (Crime e desaparecimento.)
      Um jornal do Boulevard Saint-Germain foi o nico a escrever: Essa mo  a do fantasma da pera.
      E ainda fizera isso num tom de ironia.
      S o Persa, a quem no quiseram ouvir e que no retomou, depois da visita de Erik, a sua primeira iniciativa junto  Justia, possua toda a verdade.
      E tambm detinha as provas principais que lhe tinham chegado s mos junto com as piedosas relquias anunciadas pelo fantasma...
      Essas provas, coube a mim complet-las, com a ajuda do prprio daroga. Dia a dia eu o punha a par das minhas pesquisas e ele as conduzia. Havia anos e anos
ele no voltava mais  pera, mas tinha conservado do monumento a mais precisa lembrana e no havia melhor guia para fazer-me descobrir os cantos mais secretos.
Era tambm ele quem indicava as fontes onde eu podia pesquisar, as personagens a interrogar; foi ele quem me levou a bater  porta do Sr. Poligny, no momento em
que o pobre homem estava  beira da agonia. Eu no sabia que ele estava to mal e nunca esquecerei o efeito que produziram sobre ele as minhas perguntas relativas
ao fantasma. Ele olhou para mim como se estivesse vendo o diabo e no me respondeu seno com algumas frases sem seqncia, mas que atestavam (isso era o essencial)
quanto o F. da . tinha lanado, em seu tempo, a perturbao naquela vida j agitada (Poligny era o que se convencionou chamar um boa-vida).
      Quando relatei ao Persa o fraco resultado de minha visita a Poligny, o daroga deu um vago sorriso e me disse:
      - Nunca Poligny ficou sabendo quanto esse extraordinrio crpula do Erik (ora o Persa falava de Erik como de um deus, ora como de um vil canalha) usou e abusou
dele. Poligny era supersticioso e Erik sabia disso. Erik sabia tambm muitas coisas sobre os negcios pblicos e privados da pera. Quando Poligny ouviu a voz misteriosa
contar-lhe, no camarote n 5, a maneira como empregava o tempo e como abusava da confiana do seu scio, no quis ouvir o resto. Assustado primeiro com uma voz do
Cu, acreditou estar condenado, e depois, como a voz lhe pedisse dinheiro, acabou por ver que estava sendo enganado por um mestre cantor de que o prprio Debienne
fora vtima. Ambos, j cansados de sua direo por numerosas razes, retiraram-se, sem tentar conhecer mais a fundo a personalidade desse estranho F. da ., que
tinha feito chegar-lhes s mos aquele to estranho caderno de encargos. Legaram todo o mistrio  diretoria seguinte, soltando um grande suspiro de satisfao,
desembaraados de uma histria que os havia intrigado muito sem que nenhum dos dois achasse a menor graa.
      Assim se exprimiu o Persa com relao aos Srs. Debienne e Poligny. A esse respeito, falei-lhe de seus sucessores e espantei-me de que nas Memrias de um diretor,
do Sr. Moncharmin, se falasse de maneira to completa dos gestos e atos do F. da . na primeira parte, para chegar a nada mais dizer a respeito, ou quase nada, na
segunda. Ao que o Persa, que conhecia essas memrias como se ele prprio as tivesse escrito, fez-me observar que encontraria a explicao de todo o problema se me
desse ao trabalho de refletir sobre as poucas linhas que, na segunda parte precisamente do livro, Moncharmin dedicou ao fantasma. Aqui esto essas linhas, que nos
interessam, alis, particularmente, visto que nelas est relatada a maneira muito simples como terminou a famosa histria dos 20 mil francos:

      A respeito do F. da . ( Moncharmin quem fala), de quem narrei aqui mesmo, no comeo destas minhas memrias, algumas das singulares fantasias, no quero dizer
seno uma coisa:  que ele resgatou com um belo gesto todos os dissabores que tinha causado ao meu colaborador e, devo confessar, a mim mesmo. Achou, certamente,
que havia limites para qualquer brincadeira, principalmente quando esta custa to caro e quando o delegado de polcia  'apanhado', pois, no minuto mesmo em que
tnhamos marcado encontro em nosso gabinete com o Sr. Mifroid para lhe contar toda a histria, alguns dias depois do desaparecimento de Christine Daa, encontramos
sobre a escrivaninha de Richard, num belo envelope sobre o qual se lia em tinta vermelha: Da parte do F da ., as importncias bastante grandes que ele tinha feito
sair momentaneamente, e numa espcie de jogo, da caixa da diretoria. Richard foi de opinio que se devia parar por a e no levar adiante o caso. Consenti em ter
a mesma opinio de Richard. E tudo est bem quando acaba bem. No , meu caro F. da .?

      Evidentemente, Moncharmin, principalmente depois dessa restituio, continuava a acreditar que por um momento tinha sido joguete da imaginao burlesca de
Richard, como, do seu lado, Richard no parou de acreditar que Moncharmin tinha-se divertido, para se vingar de algumas pilhrias, inventando todo o caso do F. da
.
      No seria o momento de pedir ao Persa que me informasse por qual artifcio o fantasma fazia desaparecer 20 mil francos no bolso de Richard, apesar do alfinete
de presso? Ele me respondeu que no tinha aprofundado esse pequeno detalhe, mas que, se eu prprio quisesse "trabalhar" in loco, certamente devia encontrar a chave
do enigma no gabinete da diretoria, lembrando-me de que no era  toa que Erik tinha sido apelidado de amador de alapes. Prometi ao Persa entregar-me, logo que
tivesse tempo, a teis investigaes desse lado. Direi j ao leitor que os resultados dessas investigaes foram perfeitamente satisfatrios. Eu no achava, na verdade,
que iria descobrir tantas provas incontestveis da autenticidade dos fenmenos atribudos ao fantasma.
      E convm que se saiba que os papis do Persa, os de Christine Daa, as declaraes que me foram feitas pelos antigos colaboradores dos Srs. Richard e Moncharmin
e pela prpria pequena Meg (tendo falecido, infelizmente, a excelente Sra. Giry) e pela cantora Sorelli, que se encontra agora aposentada em Louveciennes - convm,
dizia eu, que se saiba que tudo isso, que constitui as peas documentais da existncia do fantasma, peas que vou entregar aos arquivos da pera, encontra-se corroborado
por vrias descobertas importantes de que posso justamente tirar motivo para algum orgulho.
      Se no pude encontrar a morada do Lago, visto que Erik condenou definitivamente todas as suas entradas secretas (e ainda estou seguro de que seria fcil penetrar
nela se se procedesse  drenagem do lago, como por diversas vezes j pedi  administrao das Belas-Artes13), descobri pelo menos o corredor secreto dos communards,
cuja parede de tbua est, em alguns lugares, caindo em runas; e, igualmente, desvendei o alapo pelo qual o Persa e Raoul desceram aos subsolos do teatro. Revelei,
na masmorra dos communards, muitas iniciais traadas nas paredes pelos infelizes que ali ficaram trancados e, entre essas iniciais, um R e um C. - RC? Isso no 
significativo? Raoul de Chagny! As letras so ainda hoje bem visveis. No parei, evidentemente, nesse ponto. No primeiro e no terceiro subsolos, fiz funcionar dois
alapes de um sistema pivotante, totalmente desconhecidos pelos maquinistas, que s usam alapes com deslizamento horizontal.
      Enfim, posso dizer, com todo conhecimento de causa, ao leitor: Visite um dia a pera, pea para passear em paz, sem nenhum guia estpido, entre no camarote
n 5 e bata na enorme coluna que separa esse camarote do proscnio; bata com sua bengala ou com os punhos e escute... at a altura de sua cabea: a coluna tem um
som oco! E depois disso no ficar admirado de que ela tenha sido habitada pela voz do fantasma: existe, nessa coluna, lugar para dois homens. Se voc se admira
de que, quando dos fenmenos do camarote n 5, ningum se tenha voltado para a coluna, no se esquea de que ela oferece o aspecto do mrmore macio e que a voz
fechada l dentro parecia vir do lado oposto (pois a voz do fantasma ventrloquo vinha de onde ele queria). A coluna est trabalhada, esculpida, mexida e remexida
pelo cinzel do artista. No perco a esperana de descobrir um dia a parte de escultura que devia se abaixar e se levantar  vontade, para deixar uma livre e misteriosa
passagem  correspondncia do fantasma com a Sra. Giry e s suas generosidades. Por certo, tudo isso que eu vi, senti, apalpei, nada  ao lado do que um ser enorme
e fabuloso como Erik deve ter criado no mistrio de um monumento como a pera, mas daria todas essas descobertas pela que me foi dado fazer, diante do prprio administrador,
no gabinete do diretor, a alguns centmetros da poltrona: um alapo, do comprimento da tbua do assoalho, da largura de um antebrao, no mais... um alapo que
se rebaixa como a tampa de um cofre, um alapo por onde vejo sair uma mo que trabalha com destreza na aba do fraque que se arrasta...
      Foi por ali que tinham ido embora os 40 mil francos!... Foi por ali que, graas a algum intermedirio, tinham voltado...
      Foi com emoo bem compreensvel que falei ao Persa:
      - Erik estava simplesmente se divertindo, visto que os 40 mil francos voltaram, dando uma de brincalho com o seu caderno de encargos?...
      Ele me respondeu:
      - No creia nisso!... Erik precisava de dinheiro. Acreditando-se fora da humanidade, no se deixava perturbar pelo escrpulo e se valia dos dons extraordinrios
de destreza e de imaginao que tinha recebido da natureza em compensao da atroz feira com que ela o havia dotado, para explorar os humanos, e isso s vezes da
maneira mais artstica do mundo, pois o golpe valia muitas vezes o seu peso em ouro. Se devolveu os 40 mil francos, por iniciativa prpria, aos Srs. Richard e Moncharmin,
foi porque, no momento da restituio, no estava mais precisando deles!Tinha renunciado ao casamento com Christine Daa. Tinha renunciado a todas as coisas do lado
de cima da terra.
      Segundo o Persa, Erik era originrio de uma cidadezinha dos arredores de Ruo. Era filho de um empreiteiro de obras. Tinha fugido cedo do domiclio paterno
onde a sua feira era objeto de horror e de espanto dos prprios pais. Durante algum tempo, exibiu-se em feiras onde o seu empresrio o apresentava como "morto-vivo".
Deve ter atravessado a Europa de feira em feira e completado a sua estranha educao de artista e de mgico na fonte mesma da arte e da magia, entre os ciganos.
Todo um perodo da existncia de Erik era bastante obscuro. Foi visto na feira de Nijni-Novgorod, onde ento ele se exibia em toda a sua horrorosa glria. Ento
j cantava como ningum no mundo jamais cantou; fazia o nmero do ventrloquo e se entregava a malabarismos extraordinrios de que as caravanas, ao voltarem  sia,
falavam ainda, ao longo do caminho. Foi assim que a sua reputao atravessou as muralhas do palcio de Mazender, onde a pequena sultana, favorita do xainx, se
entediava. Um mercador de peles, que estava indo para Samarkand e que voltava de Nijni-Novgorod, contou os milagres que tinha visto sob a tenda de Erik. Mandaram
vir o mercador ao palcio, e o daroga de Mazender teve de interrog-lo. Depois, o daroga foi encarregado de se pr em busca de Erik. Trouxe-o para a Prsia, onde
durante alguns meses ele fez, como se diz na Europa, "a chuva e o bom tempo". Cometeu assim bastantes horrores, pois no parecia conhecer o bem e o mal, e cooperou
em alguns belos assassnios polticos to tranqilamente quanto combateu, com invenes diablicas, o emir do Afeganisto, em guerra com o Imprio. O xainx tomou-se
de amizade por ele. E nesse momento que se situam as horas cor-de-rosa de Mazender, de que a narrativa do daroga nos deu um apanhado. Como Erik tivesse, em arquitetura,
idias totalmente pessoais e concebia um palcio como um prestidigitador pode imaginar um cofre de combinaes, o xainx lhe encomendou uma construo desse tipo,
que levou a bom termo, e era, parece, to engenhoso que Sua Majestade podia passear por toda parte sem que fosse percebido e desaparecer sem que fosse possvel descobrir
por que artifcio. Quando o xainx se viu senhor de semelhante jia, ordenou, como tinha feito certo czar com relao ao genial arquiteto de uma igreja da praa
Vermelha, em Moscou, que furassem os olhos de ouro de Erik. Mas raciocinou que, mesmo cego, Erik poderia construir ainda, para outro soberano, uma morada igualmente
extraordinria, e, afinal, que, enquanto Erik estivesse vivo, algum possuiria o segredo do maravilhoso palcio. Assim, ficou decidida a morte de Erik, juntamente
com a de todos os operrios que tinham trabalhado sob as suas ordens.
      O daroga de Mazender foi encarregado da execuo dessa ordem abominvel. Erik lhe havia prestado alguns servios e o tinha feito rir muito. Ele o salvou dando-lhe
os meios para fugir, mas quase teve de pagar com a cabea essa generosa fraqueza. Felizmente para o daroga, encontraram, numa praia do Mar Cspio, um cadver meio
devorado por aves marinhas e que passou por ser o de Erik, por causa dos amigos do daroga que vestiram esses despojos mortais com as roupas que tinham pertencido
a Erik. O daroga ficou quite mediante a perda de seu cargo, de seus bens e pelo exlio. Q Tesouro persa continuou entretanto a lhe pagar uma penso de algumas centenas
de francos por ms, pois o daroga era originrio de raa real, e foi ento que ele foi refugiar-se em Paris.
      Quanto a Erik, tinha passado para a sia Menor, depois fora para Constantinopla, onde entrara para o servio do sulto. Terei dado a entender os servios que
pode ter prestado ao sulto quando disser que foi Erik quem construiu todos os famosos alapes e quartos secretos e cofres-fortes misteriosos que foram encontrados
em Yildiz-Kiosk depois da ltima revoluo turca. Foi ainda ele14 quem teve a idia de inventar autmatos vestidos como o prncipe e to parecidos com ele que seriam
capazes de enganar o prprio prncipe, autmatos que faziam acreditar que o chefe dos crentes estava num lugar, acordado, quando ele repousava em outro.
      Naturalmente, ele deve ter deixado o servio do sulto pelas mesmas razes por que tinha sido obrigado a fugir da Prsia. Sabia demais. Ento, muito cansado
de sua vida aventurosa, formidvel e monstruosa, desejou tornar-se algum como todo mundo. Fez-se empreiteiro, como qualquer empreiteiro que constri casas para
todo mundo, com tijolos comuns. Assinou um contrato para execuo de certos trabalhos nas fundaes da pera. Quando se viu nos subterrneos de um teatro to vasto,
seu temperamento de artista, fantasista e mgico, voltou  tona. E, depois, no continuava ele igualmente feio? Sonhou em construir para si uma morada desconhecida
do resto da terra e que o escondesse para sempre do olhar dos homens.
      Sabe-se e adivinha-se a seqncia. Ela est ao longo de toda esta incrvel e no entanto verdica aventura. Pobre coitado do Erik!  o caso de se ter pena dele?
 o caso de maldiz-lo? Ele s pedia para ser algum, como todo mundo! Mas era feio demais! E teve de esconder o seu gnio ou aplicar golpes com ele, quando, com
um rosto comum, teria sido um dos mais nobres da raa humana! Tinha um corao capaz de conter o imprio do mundo e teve de se contentar, finalmente, com um poro.
Decididamente, h que se ter pena do fantasma da pera!
      Rezei, apesar dos seus crimes, sobre os seus despojos mortais, e pedi a Deus que tivesse finalmente piedade dele! Por que Deus fez um homem to feio assim?
      Estou certo, creio, de ter rezado sobre o seu cadver, no outro dia, quando o tiraram da terra, no lugar mesmo onde so enterradas as vozes vivas; era o seu
esqueleto. No foi pela feira de seu rosto que eu o reconheci, pois, quando esto mortos h tanto tempo, todos os homens so feios, mas pelo anel de ouro que estava
usando e que Christine Daa certamente tinha vindo enfiar-lhe no dedo, antes de sepult-lo, conforme lhe tinha prometido.
      O esqueleto estava bem perto da pequena fonte, naquele lugar onde, pela primeira vez, quando a levou para os subterrneos do teatro, o Anjo da msica tinha
segurado nos braos trmulos Christine Daa desmaiada.
      E agora, que se vai fazer desse esqueleto? No se vai lan-lo na vala comum?... Quanto a mim, digo: o lugar do esqueleto do fantasma da pera  nos arquivos
da Academia Nacional de Msica; no  um esqueleto comum.






Gaston Leroux




Fantstico e Bon Vivant
Geraldo Galvo Ferraz

      Gaston Leroux, autor de tantas histrias estranhas, no podia nascer de modo convencional. No dia 6 de maio de 1868, seus pais estavam indo de Le Mans para
a sua casa na Normandia, onde o pai, Julien, era empreiteiro de obras pblicas. Tinham de fazer uma baldeao de trens em Paris e, ao atravessar a cidade, as dores
do parto chegaram para a me do escritor, Marie-Alphonsine, que teve de ser levada s pressas para uma casa onde o beb nasceu.
      Anos depois, Leroux, j adulto, voltou a Paris para conhecer a casa em que nascera. No andar trreo funcionava uma funerria. Seu comentrio foi cortante:
"Ali, onde eu fui procurar um bero, encontrei um caixo".
      Gaston-Louis-Alfred cresceu na Normandia, sobretudo no pequeno porto de St. Valry-en-Caux, onde vivia nos veleiros de pesca e ajudava a tirar os arenques
das redes. Na escola, era um timo aluno que ganhava prmios atrs de prmios e era visto como um promissor candidato a advogado. Mandado para Paris, onde foi cursar
a faculdade de Direito, o jovem Gaston aproveitou para escrever contos e poemas, alguns publicados em pequenas revistas. Em 1889, formou-se, seu pai morreu e lhe
deixou uma aprecivel herana de um milho de francos. Em seis meses, Gaston torrou o dinheiro com bebida, mulheres, jogo e investimentos desastrosos.


      Bon vivant, jogador e talentoso romancista, Gaston Leroux tinha o estranho hbito de comemorar o fim de um texto disparando um revlver de sua varanda.


O advogado que virou reprter

      O bon vivant, gordinho e sempre com um pincen pendurado no nariz, desistiu do Direito e foi trabalhar como jornalista no L'cho de Paris; usou seu amor ao
teatro para escrever crticas e seus conhecimentos de tribunal para cobrir julgamentos. O sucesso foi imediato e logo ele estava ganhando muito mais no jornal Le
Matin. Uma de suas reportagens abalou Paris: ele disfarou-se de mdico da priso para conseguir entrevistar um condenado, usando para tanto documentos falsos. Provou
que o prisioneiro era inocente e isso o tornou famoso.  verdade que teve de presenciar algumas execues, que o transformaram num inimigo da pena de morte pelo
resto da vida.
      O jornal, ento, fez dele reprter itinerante, o que o levou a viajar constantemente pela Europa toda, para a Rssia, a frica e a sia, muitas vezes incgnito
ou disfarado para conseguir boas histrias. Assim cobriu a guerra russo-japonesa e o famoso segundo julgamento do capito Dreyfus, acusado de traio. Seus textos
eram cheios de colorido e pitoresco, fazendo crescer a circulao do jornal. Leroux virou uma celebridade, descrevendo como era ficar na beira do vulco Vesvio
em erupo, o massacre dos armnios pelos turcos, os motins do mar Negro, um encontro secreto do Czar com o Kaiser Guilherme II.



Romancista em tempo integral

      Embora apaixonado por sua profisso, certa noite, ao ser acordado s trs da manh pelo editor, que o mandou pegar um trem para Toulon a fim de escrever sobre
a exploso de um navio de guerra, mandou tudo pelos ares. Era 1907 e ele declarou ao tal editor, em termos nada recomendveis, por assim dizer, que desistia do jornalismo
e se tornaria romancista em tempo integral.
      J havia tempos ele escrevia contos e romances como passatempo. O primeiro dos livros de Leroux foi publicado em 1903 e chamava-se A busca dos tesouros da
manh; seus captulos saram em srie no Le Matin e fizeram muito sucesso. A histria era baseada na vida de um famoso ladro do sculo XVIII, Louis Cartouche, que
teria deixado uma poro de esconderijos com fortunas roubadas em Paris. O jornal aproveitou e deixou sete sacolas com dinheiro em vrios pontos da capital francesa
e o leitor podia tentar descobri-las usando as pistas deixadas por Leroux no seu texto.
      Quatro anos depois, com O mistrio do quarto amarelo,  que Leroux decidiu mesmo ser um escritor para valer. Foi um dos primeiros exemplos de um subgnero
do policial, o mistrio do quarto fechado, em que um crime  cometido num cmodo trancado por dentro e por fora. No caso, ele  resolvido por um detetive-reprter,
Joseph Rouletabille, que se multiplicaria por muitas das aventuras criadas pelo escritor. Mais tarde, Leroux criaria outro heri, muito popular, usado em vrios
romances, o ex-prisioneiro Chri-Bibi, que se envolve em aventuras espetaculares.
      Alm de Edgar Allan Poe (que criou o primeiro mistrio do quarto fechado), Conan Doyle e Alexandre Dumas, Leroux
      gostava muito de Stendhal e de Victor Hugo. O rei do mistrio mostra ecos dessas influncias literrias, a partir de sua semelhana com O conde de Monte Cristo.
Outro de seus livros, A poltrona assombrada, serviu para Leroux atacar os membros da Academia Francesa, colocando como personagem um analfabeto que tem sucesso na
conquista de uma cadeira de imortal. Aps a morte de um acadmico, cada candidato  vaga morre, de modo aparentemente natural, antes de entrar para a instituio.
No final, sabe-se que h um misterioso "segredo de Toth" que causa as mortes em benefcio de um cientista.


Leroux tambm escreveu peas de teatro, algumas de grande xito, como sua adaptao para o palco de O mistrio do quarto amarelo, com o ator Serge Reggiani.



Escritor s por encomenda

      Em 1908, ao lado de sua segunda mulher, Jeanne Cayatte, o escritor mudou-se para Nice. Era um prspero homem de letras e tinha dinheiro para jogar nos cassinos
da regio, o que o impediu de se tornar muito rico, apesar do sucesso. "S escrevo por encomenda e tenho de ser estimulado por prazos definitivos", disse certa vez.
Seu filho contou numa entrevista que, nessa poca, ele adquiriu o gosto de comemorar o fim de um texto disparando um revlver na varanda. E foram muitos tiros. Leroux
escrevia sem parar e com muita facilidade. Entre outubro de 1908 e julho de 1911, por exemplo, escreveu cinco romances, um deles imenso, A rainha do sab, de terror.
Tambm escrevia peas de teatro, algumas de grande xito, como sua adaptao para o palco de 0 mistrio do quarto amarelo.
      Vrios dos seus livros foram filmados, desde a poca do cinema mudo, e, em 1919, ele formou uma empresa cinematogrfica em Nice com Ren Navarre, o ator de
um seriado de enorme sucesso ento, "Fantomas". A empresa chamava-se Cinromans e durou trs anos. Em 1918, o romance A coluna infernal continha a expresso "quinta
coluna", que se tornou mundialmente famosa como sinnimo de atividades de espionagem.
      A reputao de Leroux se fez ainda por outros ttulos. A boneca sangrenta, em dois volumes, contm dois vampiros, um rob de beleza maravilhosa (em 1923) e,
como se no bastasse, um personagem que ressuscita, tudo em meio a uma intriga policial. O corao roubado  uma romntica e intimista histria de amor.




      Dois momentos de O fantasma da pera no cinema.
      A verso de 1927, com Lon Chaney,
      e a adaptao dos anos 40, com Claude Rains e Suzanna Foster nos papis principais.





A estria no cinema

      Antes disso, contudo, escrevera o mais famoso de seus livros, O fantasma da pera. Ao sair, em 1911, no chamou grande ateno. Mas depois virou um grande
sucesso e levou muitos escritores populares a imitar seu estilo vivo e jornalstico, sua magistral forma de utilizar a pesquisa histrica de maneira leve e interessante.
Leroux teve a sorte de ver seu romance escolhido para servir de base ao roteiro de um filme produzido pela Universal em 1924, especialmente para o ator Lon Chaney;
o filme e Chaney passaram  histria do cinema.
      Leroux viveu o bastante para desfrutar a fama renovada trazida pelo filme. Nos seus ltimos dias, morou na rua Gambetta, num casaro chamado Palcio da Estrela
do Norte. Em 15 de abril de 1927, morreu em conseqncia de complicaes de um ataque agudo de uremia, depois de uma operao. Deixou ainda um romance, A mansarda
de ouro, publicado postumamente. Gaston Leroux foi enterrado no Cemitrio do Castelo que domina Nice, com vista para a baa dos Anjos e para a cidade que ele amava.



Realidade e fico na medida certa

      Gaston Leroux disse que, para escrever O fantasma da pera, se inspirou numa visita que fez ao teatro, em Paris, percorrendo bastidores e subterrneos. Nos
labirintos e no misterioso lago visvel apenas atravs das grades de ferro,  luz de uma tocha rompendo a treva, havia todo um clima de mundo  parte que seduziu
o escritor. Havia, contou ele, vestgios do perodo da guerra franco-prussiana e da Comuna, quando o lugar fora uma priso, com vrios cmodos transformados em masmorras.
Os prisioneiros ali no viam a luz do dia, pois estavam muito abaixo da superfcie.
      Leroux tambm lembrou-se de um acidente ocorrido em 1896, quando um dos contrapesos dos enormes candelabros caiu sobre o pblico. No livro ele piorou as coisas,
fazendo um candelabro inteiro desabar sobre a sala cheia. Descobriu, ainda, que no perodo de construo do projeto do famoso arquiteto Garnier, cerca de catorze
anos, seria possvel para algum, com muito dinheiro e conhecimentos arquitetnicos, criar dentro da estrutura complexa de corredores e saletas um sistema de passagens
e lugares secretos que s essa pessoa conheceria. Erik, o fantasma, tem vocao de arquiteto e uma paixo pela msica.
      O autor comea de modo jornalstico, com uma introduo em que se diz que o fantasma da pera existiu de verdade. A narrativa usa a seguir vrios trechos que
parecem um documentrio; a histria ganha verossimilhana com a mistura de fico e realidade. Acreditamos que o fantasma  de carne e osso, mais que uma apario,
uma sombra que vaga pelo imenso teatro. A histria, em si,  tpica do escritor, com uma herona que  colocada em perigo extremo por uma figura misteriosa que est
 margem da sociedade. Contada em quatro partes, mostra a apresentao dos personagens e o enigma do fantasma, depois a descoberta do fantasma com o relato de Christine
Daa, a apario do fantasma como personagem que fala e age, enfim a luta contra o fantasma, quando sua identidade  revelada.
      O livro gira em torno do mistrio do fantasma, da sua progressiva mudana de esprito em homem. A histria de amor de Christine e Raoul de Chagny no tem grande
interesse diante da presena de Erik e sua tragdia, marcada pelo amor impossvel que sente pela jovem cantora Christine. O fantasma, que surge para ela como uma
espcie de "anjo da msica", que proporciona lies e ensaios de canto como uma "voz" vinda de alguma parte, acaba raptando a moa e revelando sua abominvel feira.
      Muitas adaptaes foram feitas de O fantasma da pera para o cinema, meio que garantiu a sobrevida da histria entre o grande pblico. A melhor de todas continua
sendo a de 1927, com Lon Chaney. Era muda, mas depois recebeu som, em 1930. As outras verses so inferiores, como a dirigida por Arthur Lubin, com Claude Rains
no papel do fantasma, na dcada de 40. Ganhou ainda uma verso musical, do diretor Brian de Palma, com o ator Paul Williams, intitulada O fantasma do paraso, mas
sua vocao para o palco foi confirmada mesmo com um musical encenado em vrios teatros da Broadway.
1 Eu seria um ingrato se no agradecesse igualmente,  porra desta espantosa e verdica histria,  direo atual da pera, que se prestou to amavelmente a todas
as minhas investigaes e, em particular, a M. Messager; tambm ao simpaticssimo administrador M. Gabion e ao amabilssimo arquiteto encarregado da boa conservao
do monumento, que no hesitou em me emprestar os livros de Charles Garnier, embora estivesse mais ou menos certo de que eu no lhos devolveria. Enfim, resta-me reconhecer
de pblico a generosidade do meu amigo e antigo colaborador M. J.-L. Croze, que me permitiu pesquisar em sua admirvel biblioteca teatral e dela retirar por emprstimo
edies nicas que lhe eram muito caras. - G. L.
2 Este caso, igualmente autntico, foi-me contado pelo prprio Pedro Gailhard, ex-diretor da pera.
3 Nome dado, na tradio popular da Bretanha, a certos duendes ou espritos malfazejos (N. T.).
4 O prprio Pedro Gailhard contou-me que tinha tambm criado a funo de fechadores de portas para velhos maquinistas que no queria despedir.
5 Naquele tempo, os bombeiros tinham ainda a misso de, fora das representaes, velar pela segurana da pera; mas esse servio foi posteriormente suprimido. Como
eu perguntasse a Pedro Gailhard a razo disso, respondeu-me que "era porque se temia que, em sua total inexperincia dos subsolos do teatro, "ateassem fogo ao edifcio".
6 O autor, assim como o Persa, no dar maiores explicaes sobre a apario dessa sombra. Enquanto tudo, nesta histria histrica, ser explicado normalmente no
curso de acontecimentos s vezes aparentemente normais, o autor no far nenhum comentrio para levar o leitor a entender o que o Persa quis dizer com estas palavras:
" algum muito pior!" (do que algum da segurana do teatro). O leitor ter de adivinhar, pois o autor prometeu ao ex-diretor da pera, Sr. Pedro Gailhard, guardar
segredo sobre a personalidade extremamente interessante e til da sombra errante com o manto, a qual, ainda que se condenando a viver nos subterrneos do teatro,
prestou to prodigiosos servios aos que, nas noites de gala, por exemplo, ousavam aventurar-se pelos subsolos. Falo aqui de servios de Estado, e no posso dizer
mais nada, palavra de honra.
7 O antigo diretor da pera, Sr. Pedro Gailhard, contou-me um dia no Cabo de Ail, em casa da Sra. Pierre Wolff, sobre a imensa devastao subterrnea feita pelos
ratos, at o dia em que a administrao tratou, por um preo bastante elevado, alis, com um indivduo que garantia ser capaz de suprimir o flagelo vindo fazer uma
ronda pelos pores a cada quinze dias. Desde essa poca, no h mais ratos na pera, alm dos que so admitidos no pavilho da dana. O Sr. Gailhard achava que esse
homem tinha descoberto um odor secreto que atraa para junto de si os ratos como o produto que alguns pescadores usam nas pernas para atrair o peixe. Ele os levava
atrs de si para algum poro onde os ratos, embriagados, se deixavam afogar. Vimos o pavor que a apario dessa figura j tinha causado no tenente dos bombeiros,
pavor que tinha chegado at ao desmaio - conversa com o Sr. Gailhard - e, para mim, no h dvida de que a cabea-chama encontrada pe!o bombeiro seja a mesma que
colocou em to grande comoo o Persa e o visconde De Chagny (papis do Persa).
8 Nunca foram encontrados dois pares de botinas que tinham sido colocados, segundo os papis do Persa, entre o suporte e o cenrio do Rei de Labore, no lugar onde
fora encontrado enforcado Joseph Bouquet. Devem ter sido apanhados por algum maquinista ou "fechador de portas".
9 Daroga: em persa, comandante-geral da polcia do governo (N. T.).
10 Um relatrio administrativo, vindo de Tonquim e chegado a Paris em fins de julho de 1900, conta como o clebre chefe de bando De Thain, acuado com seus piratas
por nossos soldados, conseguiu escapar, com todos os seus, graas ao uso do canio.
11 Aqui o Persa poderia ter confessado que a sorte de Erik interessava igualmente a ele prprio, pois no ignorava que, se o governo de Teer tivesse sabido que
Erik ainda estava vivo, acabaria com a modesta penso do antigo daroga.  justo, alis, acrescentar que o Persa tinha um corao nobre e generoso, e no duvidamos
de que as catstrofes que temia para os outros ocupassem a sua mente com freqncia. Seu procedimento, alis, no presente caso,  prova mais que suficiente e est
acima de qualquer elogio.
12 Na poca em que o Persa escrevia, compreende-se muito bem que tenha tomado tantas precaues contra o esprito de incredulidade; hoje, quando todos podem ver
esse tipo de sala, tais precaues teriam sido suprfluas.
13 Ainda 48 horas antes da publicao deste livro, eu falava a esse respeito com o Sr. Dujardin-Beaumetz, nosso to simptico subsecretrio de Estado das Belas-Artes,
que me deixou alguma esperana, e eu lhe dizia que  dever do Estado acabar com a lenda do fantasma para restabelecer em suas bases indiscutveis a histria to
curiosa de Erik. Para tanto,  necessrio, e isso seria o coroamento de meus trabalhos pessoais, reencontrar a morada do Lago, onde ainda se encontram encerrados
tesouros para a arte musical. No se duvida mais de que Erik tenha sido um artista incomparvel. Quem sabe no acharemos na morada do Lago a famosa partitura de
seu Don Juan triunfante?
14 Entrevista de Mohamed-Ali Bey, no dia seguinte ao da entrada das tropas da Tessalnica em Constantinopla, pelo enviado especial do Matin.
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